quarta-feira, 6 de maio de 2015

TALENTOS PARA A TROCA #5

E se, numa pequena pausa das Golden Slumbers, uma das manas Falcão surgisse com os Vaarwell com um EP de estreia a sair já para a semana?
E se do final dos Charlie Winchester se multiplicassem os The Sunflowers agora definitivamente ligados à corrente?
E se os Ghost Hunt estivessem já num dos maiores cartazes do Verão português mesmo que se tenham estreado já neste ano?
E se, de repente, se deparassem com uma Inês Salpico tão poderosa qual Patti Smith da música pop? Ou com uma encantadora Mai Kino
?
São mais 5 talentos para a troca: façamo-los maiores e tenhamos a certeza de que mais surgirão. São moedas de troca para um futuro em que haja eco de algo.
Press "play". Menos no Grooveshark, nesse já não dá.



Vaarwell



Porquê Vaarwell?

Sim.


Como definem a música que produzem? 



Música bonita feita por pessoas bonitas :)



Qual é a vossa melhor canção? 

É difícil responder porque temos muito orgulho em todas! Este mês ainda poderão ouvi-las porque estão incluídas no EP!



Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover? 

Achamos que é igualmente importante porque sem uma boa táctica de 'marketing' e promoção, a musica (por muito bem feita que esteja) não chega às pessoas e desperdiça-se um bom produto!


De que revista não se importariam de estar na capa? 

Rolling Stone.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?  

Glastonbury.


Spotify, Pandora ou Grooveshark? 

Spotify.


MP3, FLAC, WAV ou vinil? 

WAV. 


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

SEASE, Tio Rex, Quelle Dead Gazelle, Slow J, Keep Razors Sharp, Lotus Fever...


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer? 

'Porquê Vaarwell"? Hehe : )


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Kings of Convenience - Winning A Battle, Losing A War: para aqueles momentos extra- deprimentes para os mais masoquistas.
SILVA – Claridão: quando queres sentir-te uma borboleta feliz.
DARKSIDE - Sitra: quando queres estar num quarto escuro abraçado a um gnomo.
Pink Floyd - Great Gig In The Sky: para ouvir quando se está, citando Ágata, 'a repousar de uma forma relaxante'.
Portishead - Roads: para ouvir ao som da chuva numa daquelas viagens de autocarro tipicamente emocionantes.



Inês Salpico




Porquê, simplesmente, Inês Salpico?

Porque é o que diz o certificado de nascimento e não vale a pena complicar. 


Como defines a música que produzes?

'Pop' com ligação visceral ao corpo e à palavra. 


Qual é a tua melhor canção?


Uff...é sempre a que está por escrever. É esse o Santo Graal: a canção perfeita.


Pensas que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o 'marketing' que tens de fazer para a promover?

Para quem escreve/compõe a música é sempre mais importante. É a razão de ser de tudo. Mas 'hoje em dia' a comunicação e o 'marketing' podem ser perversamente mais absorventes. É o dilema do 'chef': para abrir o restaurante passa mais tempo a enviar 'e-mails' do que a cozinhar.   


De que revista não te importarias de estar na capa?

Reader's Digest. Imagina: anos e anos as salas de espera de consultórios de todo o mundo! Se o editor não quiser.... a Interview e a W são boas segundas escolhas.  


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

Paredes de Coura.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?


Stream of consciousness.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Flack. Roberta.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Cinema: todas as bandas-sonoras dos filmes do Wong Kar-Wai; as tiradas 'nonsense' dos franceses que dão vontade de sorrir e de dançar (Godard claro - 'Vivre Sa Vie', 'Bande À Part',... -, Louis Malle - Zazie Dans Le Métro - etc, etc.). Os Cohen também têm directores musicais sempre inspirados - ver Justin Timberlake & Co. a cantar a irresistível 'Hey, Mr. President' em 'Inside Llewyn Davis'.
Livros: 'Negative: Me, Blondie, and the Advent of Punk', com as fotografias que documentam os anos 70 e 80's e todos os ícones e animais que fizeram a história do 'rock' e do 'pop'. E quem melhor que Chris Stein para registar tudo a quente? 


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Ver acima (quem adivinhar ganha.... nada, não ganha nada, mas perde algum tempo). 



5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Ornatos Violeta - Nuvem: para dias chuvosos em que não se sabe bem quem se é.
Last Shadow Puppets - My Mistakes Were Made For You: para uma declaração de amor realista.
David Bowie - Space Oddity: para cantar frente ao espelho.
António Variações - É P'ra Amanhã: para cantar no duche.
Sérgio Godinho - Espalhem A Notícia: para cantar ao ouvido.






The Sunflowers



Porquê The Sunflowers?

Carlos de Jesus (CJ): Porque não Sunflowers? O girassol é uma planta que se move com a trajectória do sol e nós somos uma banda que se move com o 'garage rock', com o 'surf' e todos os seus subgéneros e derivados. 
'Fun fact': Os girassóis não são assim tão comuns como as pessoas pensam e a flor não ficou conhecida pelo cheiro que tem mas sim pelo formato exótico e singular. Um bocado como nós.
Carolina Brandão (CB): Acho que ninguém tem uma resposta exacta para essa pergunta. Mas faz parte da nossa mística sermos misteriosos.



Como definem a música que produzem? 

CB: Rápida, intensa e simplesmente fixe.
CJ: Alguém nos disse que soávamos a algo saído de uma 'polaroid' tirada na Califórnia. Eu gosto de pensar que soamos como queremos e gostámos.


Qual é a vossa melhor canção? 


CB: Qual é o vosso melhor artigo?
CJ: Sim, isso é como perguntar 'de qual filho gostas mais?' Não acho que tenhamos uma canção que seja melhor que as outras mas acho que com o tempo vamos melhorando e aperfeiçoando a maneira como escrevemos as canções.


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover? 

CJ: A música é sempre mais importante. Tem que ser. Se não o for, se as pessoas só quiserem saber o quão bonito está o pacote e este ofuscar o seu conteúdo, então estamos a fazer as coisas mal.
CB: A música é a parte mais importante da banda mas as duas coisas complementam-se.


De que revista não se importariam de estar na capa? 

CJ: TVMais ou da Maria.
CB: Porquê, alguém quer fazer uma capa connosco?
CJ: Vou mudar a minha escolha para a capa do folheto do IKEA.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?  

CJ: NOS Primavera Sound porque (identificar página) Tudo é melhor no Porto.
CB: Além disso, o Kevin Morby vai estar no Primavera. (Identificar página) Qmd estar em casa a dar abraços ao Kevin Morby.
CJ: Dos 3 é o que tem o melhor alinhamento (pelo menos até agora).
CB: Sim mas toda a gente sabe que (identificar página) Este evento ficava muito mais fixe se os Sunflowers fossem tocar.
CJ: Pára de identificar páginas.


Spotify, Pandora ou Grooveshark? 

CJ: Tudo mamões. Bandcamp.
CB: Bandcamp.


MP3, FLAC, WAV ou vinil? 

CJ: Vinil, mas se não conseguirem M4A que é tão leve como o MP3 mas sem perder tanta qualidade.
CB: Cassete.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

CJ: Não sou a melhor pessoa para responder a isso.
CB: Tem que ser de cultura musical? Para isso tínhamos que disponibilizar as nossas 'playlists' de 'road trips'.
CJ: Mas vão a concertos, principalmente de bandas novas. Elas agradecem o público e o apoio e pode ser que encontres a tua nova banda favorita.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer? 

CJ: O porquê de nos chamarmos Sunflowers.
CB: O porquê de nos chamarmos Sunflowers.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes. 


CB: Vão ter que ouvir a nossa Mexetape na Vodafone FM.
CJ: Se algum dia passar… Até lá: 'Mama Kim' para um dia de sol, 'The Witch' para quando quiserem dançar, 'I Saw a Ghost' para quando estiverem a tomar banho, 'PB&J' para quando estiverem com fome e a 'Scream' para quando quiserem partir os vidros ao carro do(a) vosso(a) ex com um bastão de basebol.


Ghost Hunt



Porquê Ghost Hunt?

O facto de um de nós ser um grande fã de cinema de terror pode ter tido alguma ligação, mas escolhemos esse nome apenas porque nos soou bem.


Como definem a música que produzem? 

Não definimos.


Qual é a vossa melhor canção? 

Ainda não está feita.


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover? 

A música é sempre o mais importante.


De que revista não se importariam de estar na capa? 

Não estamos muito interessados em capas de revistas.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?  

Glastonbury.


Spotify, Pandora ou Grooveshark? 

Spotify, muito de vez em quando.


MP3, FLAC, WAV ou vinil? 

Temos de escolher vinil.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Uma sugestão já antiga: o álbum 'Psychotropia' de Nick Nicely.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer? 

Por exemplo, esta já é um pouco!


5 canções para 5 cenários/situações diferentes. 

Ram Jam - Black Betty:
 
numa festa.
ZZ Top – Black Betty: com os amigos.
Ministry - Black Betty: de carro.
Nick Cave - Black Betty: num bar.
Leadbelly - Black Betty: final de noite.



Mai Kino



Porquê, simplesmente, Mai Kino?

Há uma rede de significados, que me reaparece em sonhos.


Como defines a música que produzes?


Vem de um sítio honesto. Gosto de encontrar pontos ambíguos e de justaposição tanto a nível lírico como sonoro, em que uma frase pode ser interpretada de várias formas, uma melodia ser simultaneamente 'uplifting' e melancólica e em que texturas orgânicas se misturam com electrónicas.
Dizer que 'género' de musica faço é mais difícil porque quando estou a escrever nunca penso nesses termos; tento, na medida do possível, manter o intelecto a uma distancia segura do processo de 'songwriting'. Mesmo por isso tem sido muito interessante ler a forma como as pessoas têm descrito o meu som.


Qual é a tua melhor canção?


Não sei, depende do mood… espero ainda vir a escrevê-la.


Pensas que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o 'marketing' que tens de fazer para a promover?

A música é definitivamente o mais importante, mas o universo que se cria à volta do projecto ajuda a comunicar a visão do artista e a incluir a audiência nesse mundo e há valor nisso, na forma e cuidado como apresentamos o nosso trabalho ao público.
Claro que também existem muitos casos extremos hoje em dia em que o artista se torna numa espécie de marca ou produto e nos quais a qualidade/honestidade da música parece ser secundária e é pena. Acho que depende das tuas prioridades como artista…


De que revista não te importarias de estar na capa?

Nunca pensei nisso… qualquer boa revista de música/arte.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

Estão todos com um 'line-up' excelente este ano…

Talvez Glastonbury para tocar e Primavera para relaxar e ver 'gigs'.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?


Spotify.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Depende da função. Vinil é sempre aquela magia...


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

“Just Kids” (Patti Smith).
“Silence” (John Cage).
“How Music Works” (David  Byrne).
“Twelve Bar Blues” (Patrick Neate).
São todos livros muito bons, por razões/para efeitos diferentes.


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Quando me perguntam porque sou vegetariana com ar depreciativo.



5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Elliott Smith - Between The Bars: para tocar na guitarra em 'loop' num dia triste.
Majical Cloudz - This Is Magic: para ouvir de olhos fechados.
Dean Blunt - The Narcissist: para vaguear pelas ruas de Londres.
Easter - Champagne121212: 'to get your Berlin on'.
Mount Kimbie - Made To Stray: para dançar.





quinta-feira, 23 de abril de 2015

DE E POR: DARKSUNN - "Melange" (2015, Monster Jinx)

Numa altura em que todos, mas efectivamente todos, os ouvidos mais sonhadores e mais atentos dão as boas-vindas aos produtores que se "cheguem à frente" directamente com as suas ideias e conceitos, não é a pecar por omissão que fazemos a devida honra ao nosso dever e às playlists salvadoras do século.
Na crista da onde desta conjuntura e do trabalho da Monster Jinx, chamamos Darksunn, um dos arquitectos da crew e um dos elementos que não está tão baseado no Grande Porto, para nos dar um bilhete de entrada no seu mais recente "Melange". Um conjunto de 7 faixas extremamente interessante que volta a criar os seus próprios entes e resgata a sua essência aos universos da subcultura pop mais recente - seja ela feita de videojogos, ficção científica, skates infernais, tudo o que tenha que ser reciclado e redefinido, etc. - para continuar a coser melhor de inovação e consistência esta teia electrónica que se ajusta ao hip-hop mais sobranceiro mas também cheio de calor, sedento de frescura. Todos estes podem ser dias de Darksunn.





To Arrakis

Arrakis é o planeta principal na trama do 'Dune'. É um planeta totalmente árido. Esta música representa o que seria o estado de espírito numa viagem para lá. Saberes que vais para um deserto, mas vais com esperança. Esta faixa esteve para ser a última do EP, seria então 'From Arrakis'.


Fremen

O povo nativo de Arrakis. Silencioso e metódico. É a faixa mais antiga do EP e o que acabou por definir o caminho que levei a nível de sonoridade.



Clorofórmio

O verso do Stray na 'Tinto Cão' continua a ser dos meus versos favoritos dele, especialmente as primeiras barras. Numa versão mais antiga, esta faixa era mais lenta. Resolvi mexer um pouco no BPM e eventualmente o sample do B.O.B apareceu, como uma espécie de atestado ao 'ainda estamos cá'. O arpejo do refrão surgiu por acidente, ao alterar uma definição do 'synth'.


4am

'Must not sleep, must warn others' são palavras de um hino.
É uma espécie de 'mantra' que vamos repetindo, ou por achar que o dia tem poucas horas, ou por achar que não podemos 'dormir', num significado mais profundo. A 2ª faixa mais antiga, após a 'Fremen'. O 'lead' original levou muitas voltas e acabei por meter mais distorção para batalhar com o 'pad' mais melódico.



Duke


Uma ode às camadas. Acaba numa espécie de 'footwork' meio ambiental. A meio da faixa há camadas e camadas de percussão, alguns polirritmos, mas essencialmente camadas. Foi a minha tentativa de dar alguma coisa diferente a cada audição. De todas as faixas, esta foi a que mudou menos da sua primeira encarnação, foi só limar arestas e tentar meter tudo no ponto.


Krzy Kngz

O meu 'tributo' aos Kings. Um 'writer' amigo meu costumava dizer-me que 'King é quem é, não é quem quer ser'. Nada mais do que Company Flow no refrão e o El-P em particular durante os versos - a representação perfeita de Kings, para mim. O 'synth' com 'glide' aparece no final do EP; o 'synth' original era muito diferente. Um ambiente meio arrastado, quase sonho-encontra-a-realidade.



Heyo

A 'voz' que define o nome da faixa apareceu-me quase por acaso, quando andava a brincar com os automatismos do 'synth'. Tudo o resto foi construído à volta. Há partes onde evolui para um 'UK funky', quase numa ponte entre o lado mais sincopado do 'hip- hop' e uma transição para '4 to the floor'. Mutação natural, na minha opinião. É o justo final, acho.




quarta-feira, 22 de abril de 2015

BATIDA - "Dois" (2014, Soundway Records)




Dois anos depois do primeiro parto "Batida" Pedro Coquenão, ou DJ Mpula, apresentou-nos "Dois", o tal segundo longa-duração que, no panorama recente da música portuguesa com fortes influências africanas, por vezes alarga o horizonte inicial da lusofonia a ritmos mais globais - os segundos álbuns dos Buraka Som Sistema ou dos Throes + The Shine são exemplos máximos disso mesmo.

De facto, o sucesso logrado a partir das raizes lusófonas, onde o kuduro, o semba e a música tradicional angolana tinham particular relevo na primeira história contada por Batida traduziu-se na internacionalização do projeto e na realização de numerosos encontros com culturas, hábitos e sonoridades dos quatro cantos do mundo.
Rico da sua dupla-pertença, entre dois mundos, duas capitais, Batida sempre cultivou uma certa distância perante o que o enreda, que o leva a analisar o meio onde atua com espírito crítico, evitando toda uma visão binária. E a tradição não é forçosamente o oposto do moderno, como o explicou numa entrevista ao Rede Angola: "o kuduro do Tony Amado – foi quem fez a música que deu nome ao estilo – é a passagem do som de uma marimba para um teclado eletrónico. Foi a introdução do computador, do teclado, da eletrónica. Dá ideia de que se introduziu um novo género. Não, houve só uma nova forma de fazer a mesma coisa". 







Da mesma forma, o contactar com culturas diferentes não acaba forçosamente por apagar as suas origens. Efetivamente, o convite de inúmeros artistas para este registo - em 9 faixas vindos do mundo lusófono, tal como no primeiro álbum, mas também de países como a África do Sul, o Quénia ou a França - não fez com que o resultado final fosse muito mais internacional, comercial e globalizante do que o primeiro registo. 
Isto preservou grande parte das suas sonoridades incorporando nelas elementos que não pertencem ao mundo lusófono.

Num conjunto com 10 canções no total, surgem alguns cujo ponto fulcral é o beat, outros em que ele apenas serve de acompanhamento para a declamação de palavras e, por fim, outros que dão a mesma importância aos dois. 

Os temas mais virados para à pista são, à excepção do instrumental "Céu" com os franceses François & The Atlas Mountain, curiosamente os que são cantados em inglês: "Mama Watoto", extraído da compilação "Ten Cities" e gravado a partir de uma viagem ao Quénia; "Luxo", uma colaboração com Spoek Mathambo, Sacerdote e Duncan Loyd e "Chat With Mr. Ochieng". Por outro lado, "Pobre e Rico" e "Lá Vai Maria" contradizem um pouco essa ideia e acrescentam que é possível fazer música dançante com cariz político-social.
Já em "Tá Doce", "Bantú" e "Fica Atento!" é deixada liberdade total aos declamadores AF Diaphra e Ikonoklasta (este último sendo, segundo as próprias palavras de Pedro Coquenão, uma "extensão dele").






Um pouco à imagem de todo o trabalho, Batida consegue através do recurso a inúmeros convites homenagear os países e as culturas com os quais teve ligações nestes últimos tempos sem os deturpar. Não há nenhuma vontade em englobar as sonoridades e fazer delas uma fusão sem pés nem cabeça, mas sim uma procura incessante em reunir instrumentos, sonoridades e línguas diferentes, juntá-los e dar-lhes ritmo próprio numa festa convidativa mas sempre consciente.
Uma festa a dois, reunindo seres com percursos e trajetórias distantes, sem pressupostos e supremacias.

Mickaël C. de Oliveira





sexta-feira, 3 de abril de 2015

DE E POR: MODO INVERSO - "0050" (2014, Ed. Autor)

Não são os mesmos MMILF que 5 anos após a sua formação editam um EP de estreia.
Mas a vontade de desabafar e ter mais do que a simples ilusão de intervir num contexto socio-político que pouco se alterou mantém-se nos seixalenses Modo Inverso, actualmente Mário, Ricardo, Filipe e Luís. 

"0050" traduz o polimento do directo, do teenager, para o adulto que procura outros pontos de fuga nos ambientes de que se rodeia. Dezenas de palcos (ainda há pouco tempo fizeram parte da 5ª edição do concurso de bandas "Finding The Way") , de canções e de noitadas de treino até às 00h50 depois, a voz ao quarteto que se amadureceu com a transformação da sua relação com os ciclos da vida e da morte.
Mais um nome a juntar ao tal indefinível rock português - também sujo, pesado e soletrado, se for conveniente -, um "modo inverso de ver o futuro" a empurrar a cena musical da Margem Sul.






Casulo

É quase um paradoxo começar o EP com a Casulo pois das quatro é a mais 'introvertida'. Não é propriamente um 'olá, tudo bem?'. Mas a 'intro' e o facto das três partes que compõem a música representarem bem a 'onda' da banda falaram mais alto. 

O tema pretende passar a necessidade que temos de reclusão nas nossas zonas de conforto. Quem não as tem? 
Ao mesmo tempo a música divide-se, como foi dito, em três partes: a 'intro' (cria o ambiente melancólico, refletivo), o corpo (a reclusão, o esconderijo) e o fim (a violência, a culpa, o porquê da reclusão).


Filhos da Fome

O exemplo vivo de que a mensagem socio-politica continua presente. A crise, o desespero, a morte de um povo, o desapoio cultural do país, a fome de comer e a fome de consumir. Apaixonante pela simplicidade, groovada sem ser dançável, forte no refrão como manda o formato canção. Pode-se dizer que esta é a mais canção das quatro. Por isso a escolhida para single das rádios. 



Psychotria

A típica jam que dá em tema. Um riff forte, meio 'Seattle' que de tal modo nos viciou que construímos em volto dele o resto do tema. 'Uma malha para partir palco', como costumamos dizer. Rápida, rock, suja, ácida, como uma droga. A letra fala disso mesmo, de uma experiência de quase morte causada por um chá alucinogénico. O refrão explica: 'ver morrer'. 


Sonho Mau

A malha inicial sempre nos soou a étnico, meio 'mil e uma noites', o que no fundo até veio a encaixar com o sentido da letra do Mário. 
Um pesadelo dividido em vários 'tempos'. Num o personagem vagueia, de noite, entre um cais sombrio e sem mais ninguém por perto, num (recorrendo à letra) 'rumo cego, o frio e o mar'. Noutro tempo o personagem vê-se numa espécie de freak show, cheio de estranhas figuras que o perseguem e aterrorizam. E ainda, noutro, um acordar envolto dos típicos 'suores frios'.
A mais marada das quatro - tivemos até receio que gravada não focasse a energia que passa quando a tocamos na garagem ou ao vivo, mas a verdade é que o trabalho final foi bem satisfatório e, por isso, gratificante.




DE E POR: A CONSTANT STORM - "Storm Born" (2014, Ed. Autor)

Há cerca de um ano atrás "Storm Born" reflectiu a estreia do projecto A Constant Storm de Daniel Laureano. Quatro temas num crescendo de duração e de intensidade tão aparentes como carnais, quatro momentos de uma tempestade muito mais do que artisticamente criada e em que o final é, em todo o momento, a grande motivação para tamanha exposição e desgaste pessoal.
Entre a procura de filtros e estruturas e a repulsa por uma produção demasiado artificial, é o próprio autor, melómano e crítico viciante, que nos explica e desconstrói a mistura entre ambientes (eminentemente mais góticos), darkwave e metal a resgatar de influências de Burzum, Dream Theater, Ulver, Dead Can Dance ou até dos Moonspell que motivariam pouco depois uma versão de "Love Crimes", um dos temas de abertura do mítico e estreante "Wolfheart". 




Embrace

É a 'overture' do álbum. A melodia inicial, tocada em piano, foi uma das primeiras coisas que compus para o projecto A Constant Storm e cedo decidi utilizá-la como melodia principal deste EP, sendo que esta também aparece na quarta e última música do mesmo. As outras duas melodias surgem na terceira e segunda músicas, respectivamente. Na letra, a descrição dos momentos antes da tempestade começar, a tranquilidade sinistra.


The Clouds Turn Black

Esta música começa com riffs suaves de guitarra limpa, com o baixo e os teclados a criar melodia. Depois entram as guitarras distorcidas e o 'feeling' atmosférico do início da tempestade. O solo serve como final desta faixa assim como ligação com a próxima. Nas letras é descrito o início da tempestade e as mudanças que começam a ocorrer, à medida que uma chuva fina se transforma num vendaval. Esta progressão está também reflectida na música, que é essencialmente um crescendo.



The Grounds Are Shattered

Esta música começa imediatamente a seguir à anterior para dar a sensação que ambas são duas partes de uma mesma faixa. Foi criada à volta de um riff que me fez lembrar muito algo que os Darkthrone ou os Satyricon fariam e que me agradou bastante. Fecha com um solo de teclado que, curiosamente, foi inteiramente improvisado. Em concordância com as letras, que descrevem os efeitos mais destrutivos da tempestade, a música é, no seu todo, a mais pesada do álbum.



From The Eye Of The Storm

Com mais de 10 minutos, esta é a música mais longa do álbum. A música vai sempre subindo de intensidade, terminando numa parte extremamente rápida e forte com 'blast beats' e um solo de guitarra agressivo por cima do padrão e melodia presentes no início da primeira faixa do álbum. Não fugindo à regra, o lado sonoro está em concordância com a letra, primeiro descrevendo os acontecimentos da perspectiva da tempestade, no seu centro silencioso, e depois o clímax do vendaval, terminando abruptamente após um último ataque.




quinta-feira, 2 de abril de 2015

TALENTOS PARA A TROCA #4

Deepbreathers, Peão Ilustre, VANGER, Branco, SEASE. 5 nomes a reter, representando indivíduos ou grupos em bicos de pés, os 5 que completam uma pequena lista de 20 com margem de progressão infinita e perseverança para demonstrar em palco, em estúdio ou pura e simplesmente no seu comportamento como novas e pequenas estrelas a espreitar o seu crescimento e transformação. É por isto e muito mais que o nosso tempo é mais valioso e o seu mais valoroso.
Porque estes, estes são talentos para a troca: façamo-los maiores e tenhamos a certeza de que mais surgirão. São moedas de troca para um futuro em que haja eco de algo.





Porquê Deepbreathers? 

O nome Deepbreathers surgiu numa aula de Inglês, por incrível que pareça, onde um colega do Kiko respirava profundamente. Foi um neologismo fabricado na hora e seria, inicialmente, o nome de uma música.





Como definem a música que produzem? 


É um pouco difícil de se definir. Neste momento diríamos "embrionária". Ainda está em processo de desenvolvimento. Mas de certa forma, já se pode considerar experimental. Tentamos trazer a um estilo de fusão pouco convencional algumas melodias e esquemas de outros estilos.



Qual é a vossa melhor canção? 

As nossas opiniões variam um pouco. Como só gravámos ainda dois temas e nos é difícil preferir um deles, [...] talvez 'My Spaceship Is A Nutshell'. 


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover? 

Sabemos que os tempos já não são os mesmos das nossas influências. Não consideramos que se trate de uma questão de graus de importância. São situações igualmente importantes e consideramos que o processo de criação da nossa música nos inspira a promovê-la tendo em conta que só quando identificamos a entidade complexa que é uma obra somos capazes de a traduzir em palavras ou imagens. Não se promove música fugindo dela mesma! É um ato saudável e causa um impacto bastante notável.


De que revista não se importariam de estar na capa? 

Sem hesitar, na nacional Blitz! Fora do país, na Mojo. 


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?  

Primavera Sound.


Spotify, Pandora ou Grooveshark? 

Não somos utilizadores de nenhum deles. Ficamo-nos pelo gira-discos. Ah, e não podemos chamar-lhe 'streaming', mas somos fãs do Tradiio.


MP3, FLAC, WAV ou vinil? 

Vinil e WAV. 


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Como os nossos artistas de eleição são os Radiohead, as duas sessões 'Live From The Basement' (2008 e 2011), o documentário 'Meeting People Is Easy' (1998) e a coletânea 'The Most Gigantic Lying Mouth Of All Time' (2004) são imprescindíveis. O livro 'The Libertines Bound Together' (2006), acerca dos The Libertines, também é muito bom. 
O documentário 'Searching For Sugarman' (2012), baseado nos rumores acerca de Sixto Rodriguez e apesar de se ter tornado um pouco cliché, é incrível. Especialmente quando, ao vê-lo, reconhecemos as músicas.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer? 

'Porque é que vocês não têm vocalista?' 


5 canções para 5 cenários/situações diferentes. 

Sigur Rós - Svefn-g-englar: atravessar o Ganges numa casca de amendoim.
Radiohead – Weird Fishes/Arpeggi: sonhar acordado.
Deepbreathers - Get Me Sparkling: começar o dia
The Durutti Column - The Missing Boy: recordando Ian Curtis.
Savages - Shut Up: ligar a televisão.

(Ufa! Esta foi difícil.)






Porquê Peão Ilustre?


Por volta das 17h, numa padaria qualquer, duas meias de leite e duas torradas. Peão Ilustre, e porque não?




Como definem a música que produzem?



Uma mistura entre graves ressonâncias, médios melancólicos e agudos melodiosos.


Qual é a vossa melhor canção?

Qual é o nosso filho preferido?...


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

São matérias distintas, ambas importantes, cada uma no seu galho, cada uma com o seu objectivo. No nosso entender, a música vem sempre em primeiro lugar. Já o poder de uma músicamúsicas advém do seu contexto e da forma como é comunicada. Infelizmente, hoje em dia, isto não parece ser uma prioridade. Gravar uma música, toda a gente o consegue. Saber como 'comunicá-la' já não é para qualquer um.


De que revista não se importariam de estar na capa?

É-nos completamente indiferente.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

Desde que estejamos rodeados de boas pessoas, “good vibes”, o local é o menos importante.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Youtube.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Desde que a música nos faça vibrar, esta pode até vir de uma torradeira e o seu formato respectivo...


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Livro: 'O Resto É Ruído' - Alex Ross
Documentário: 'Crimson Wing – O Mistério Dos Flamingos' - Matthew Aeberhard, Leander Ward
Evento: 'MicroVolumes - Sonoscopia' - Porto
Filme: '2001 - Odisseia no Espaço' – Stanley Kubrick


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Para nós não existem perguntas irritantes, talvez respostas desinteressantes...


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Arcade Fire - We Exist: pista de dança.
The Smiths - Headmaster Ritual: toque de telemóvel.
Einstürzende Neubauten - Total Eclipse Of The Sun: contemplação do céu.
Placebo - Pure Morning: preencher este questionário.
Marvin Gaye - I Heard It Through The Grapevine: tomar um duche.






Porquê, simplesmente, VANGER?

VANGER surgiu da palavra 'danger', palavra essa que se relaciona com muitos dos temas das minhas músicas, (ou) com as ideias que quero passar com as minhas músicas.


Como defines a música que produzes?

Podemos chamar-lhe de 'música cerebral'; acaba por ser uma espécie de diário onde desabafo através dos sons que gostaria de ouvir.


Qual é a tua melhor canção?


Não é fácil elevar uma das minhas músicas até a esse pedestal, mas penso que a 'OKOPYU' poderá ser a 'escolhida'.


Pensas que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o 'marketing' que tens de fazer para a promover?

Gosto de distinguir os dois conceitos, mesmo sabendo que é no seu conjunto que reside um hipotético futuro como produtor. Porém, não há campanha que te safe se o sumo não prestar.


De que revista não te importarias de estar na capa?

Talvez a MixMag...sinceramente não sei!



Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

Outlook Festival.




Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Spotify.



MP3, FLAC, WAV ou vinil?

MP3, mas os vinis são mais do que bem-vindos!


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

'Shutter Island' e 'Fight Club'. Se lhes juntarmos uns quantos super-heróis fica a questão resolvida (ahahah)!


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Tudo o que comece assim: 'imagina que só tens duas opções, preferias...?'


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Burial - Rough Sleeper: casa.
Felix Kubin - Let's Rock, Baby (remix): carro
Nightmares On Wax - Now is The Time: 'happy style'.
SBTRKT - Gamalena: 'club'.
Stand High Patrol - The Big Tree: trabalho





Porquê, simplesmente, Branco?

Branco é o meu nome de familia, é herança do meu pai. 
Foi fácil escolher um nome quando comecei a rimar, já era simplesmente o Branco.


Como defines a música que produzes?

'Rap', em parte 'rap-hardcore'. Gosto da música nua e crua, sem medo de estereótipos.


Qual é a tua melhor canção?

É dificil chegar a conclusão sobre a nossa melhor música. Acho que não nos cabe a nós essa decisão.
Estou sempre a tentar trabalhar para a melhor canção e conseguir estar preparado para fazer mais uma canção pode ser mais importante do que ouvires várias vezes aquela tua mesma canção/música. 


Pensas que, hoje em dia, a música que crias é mais importante do que a comunicação e o marketing que tens de fazer para a promover?

Sim, a música que fazes é que reflete o teu trabalho, é mais importante que todo o trabalho de comunicação e 'marketing' que acompanha cada trabalho. É a peça essencial: se não trabalhares bem musicalmente não te adianta muito teres uma boa promoção, vai estar a fazer 'publicidade enganosa' e dessa já existe muita.


De que revista não te importarias de estar na capa?

Sinceramente, nunca pensei muito nisso.
Mas talvez numa nacional, Blitz, TimeOut ou Umbigo.
São revistas que leio com regularidade, era fácil deparar-me com elas.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

Primavera Sound - os outros dois fui obrigado a pesquisar para saber que festivais eram, o Primavera Sound já conhecia.
Sem nunca ter ido a nenhum é difícil escolher. 


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Por utilizar com mais frequência escolheria o Soundcloud.
Sendo dessa lista talvez o Spotify. Tem um bom motor de pesquisa. 


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Cada coisa para o seu fim, acho eu.
Se pudesse seria sempre vinil, por toda a história e beleza que existe no disco e nos leitores antigos, mas é necessário muito diggin' para encontrares o que queres.
WAV cada vez que se pede qualidade para trabalhar e MP3 como hábito leve de ouvir música: tens qualidade comprimida e podes criar uma biblioteca de músicas com facilidade.
CD, até riscar, é a melhor opção.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Cinema: estamos a passar por um 'boom' neste momento, após os Óscares, estão a sair bons filmes. Não sou muito de sugerir, porque as sugestões dependem muito de quem pede e do estado de espírito em que essa pessoa se encontra - queres rir, não podes ver um filme de drama, vice-versa. Junto a música ao cinema e sugiro 'Whiplash' para quem ainda não viu. É bom para ver em qualquer altura.
Música e Literatura: são dois pontos onde também gosto de fazer a junção. Leio enquanto estou a ouvir instrumentais para a leitura ter outro parecer - acho que deviam tentar. Não compro/leio livros novos há algum tempo, tenho os mesmos de sempre em casa e são esses que por vezes levam uma leitura. Um deles é 'Uma Longa Caminhada' de Ismael Beah: já tem uns anos mas aconselho vivamente para quem tem tempo para ler. Eu só tenho lido jornais e revistas ultimamente mas para estar atualizado culturalmente não há melhor.


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Não sou muito de me irritar com perguntas, mas às vezes o tipico 'não dormiste?'. 


5 canções para 5 cenários/situações diferentes?

Criôlo - Não Existe Amor Em SP: 'phones' pela cidade, a observar as paredes todas riscadas.
XNOIR - Lumière (SRVVL Remix): 'worktime', em qualquer altura do dia.
Old Dirty Bastard - Got Your Money: em casa, música alta.
SZA feat. Kendrick Lamar - Babylon: desde que exista um bom sistema, ouve-se bem em qualquer lado.
Deau feat. Expeão - Andorinha: enquanto estás a ver o video, pensa no ciclo das andorinhas.





Porquê SEASE?

Temos, os três, uma percepção de calma e serenidade relativamente ao mar que achamos que se transmite na nossa sonoridade. Queríamos um nome pequeno e que dissesse algo sobre nós e decidimos juntar as duas palavras SEA e EASE. SEASE serviu a todos.


Como definem a música que produzem?

A nossa música é para nós algo confortável, estável e de equilíbrio.

 
Qual é a vossa melhor canção?

Temos dificuldade em destacar uma especialmente, porque nos empenhámos em todas de forma igual. Fizemos tudo para que, a nosso ver, não houvesse uma música pior ou melhor.

 
Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

É mais importante o conteúdo musical de uma banda e há-de ser sempre. No entanto, cada vez mais a comunicação e o 'marketing' começam a sobrepor-se ao que realmente interessa: a música.


De que revista não se importariam de estar na capa?

Pitchfork.

 
Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Glastonbury.

 
Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Não utilizamos nenhuma dessas plataformas.

 
MP3, FLAC, WAV ou vinil?

WAV.

 
Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

O Prof. Marcelo aprova Borderlands, Above The Hate, Golden Slumbers, VOLK e Miss Titan.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Somos bebés e é a nossa primeira entrevista, o que desqualifica esta pergunta.

 
5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Nicolas Jaar - Être: para ouvir atentamente e sem interrupções.
King Krule – Cementality: no autocarro a caminho de casa.
Gustavo Santaolalla - The Last of Us: para desligar do mundo.
Dillon Francis & Kill The Noise – Dill The Noise: com amigos e danças estúpidas.
Astroid Boys – Mingingpara quando é preciso trabalhar e não há energia.




sábado, 14 de março de 2015

CINEMUERTE - "DHIST" (2014, raging planet)




No ativo desde 2002, os cinemuerte editaram no final do ano 2014 "DHIST", o primeiro de uma série de 3 EP’s que o grupo liderado por Sophia Vieira tenciona editar até ao final de 2015/inίcio de 2016. 
Composto por 5 músicas, este novo registo acaba por corresponder – em parte - ao que a vocalista tinha prevenido no blogue oficial do grupo: “A malta vai estranhar o disco como quem estranha uma pessoa que não reconhece”. 
À primeira audição, duas ou três "estranhezas" saltam de imediato: 3 dos 5 temas têm uma duração superior a 5 minutos, o que só acontecia nos três álbuns precedentes uma ou duas vezes por disco. A própria capa sugere uma identidade menos relacionada com o gótico ou com o metal e, curiosamente, o mesmo acontece com a voz de Sophia que, ora surge de maneira mais pausada, ora acompanha os refrões mais violentos do EP sem a forçar de um modo excessivo. Nota-se menos a importância dada à demonstração vocal, até porque todos nós já conhecemos o potencial em causa, e reforçou-se a vontade de transmitir sentimentos através dela. 







Mais diversa, a voz de Sophia acaba incrivelmente por nos fazer lembrar vozes tão diferentes como a de Chelsea Wolfe, Gwen Stefani ou Rachel Davies, algo muito menos evidente nos três álbuns anteriores. E o mesmo se pode dizer dos instrumentos que vão aparecendo ao longo do EP: os cinemuerte continuam a ser aquela banda inclassificável com influências tanto na pop como na música eletrónica, no metal e no rock de inspiração mais clássica, indie ou gótica. 

Outra das palavras-chave que assenta por completo a este trabalho é, certamente, a intensidade, ou a maneira com a qual a banda brinca com ela. "Dog", primeiro tema de "DHIST", é talvez uma das melhores criações do colectivo até agora. Um registo de mais de 5 minutos onde a voz de Sophia transporta-nos numa atmosfera sombria, auxiliada por sonoridades angustiantes e riffs elevadores. A seguinte "Heaven's Not Too Far" assemelha-se estruturalmente à penúltima "Shining Shadows In The Sand", com menos de 5 minutos e um inίcio lento que explode no momento do refrão. No intermédio, "I’m Too Much Here Without You" é outro dos pontos em que a beleza da voz se destaca, controlada e sem exageros, sobre uma força latente próxima daquela com que se abrem as portas deste disco. Bouquet final: "The Park", uma balada calma e melódica (curiosamente, o tema mais extenso) em que a bateria e as guitarras impressionam enquanto substituem a fugaz ausência da vocalista.





Se noutros trabalhos transparecia sempre o horizonte escolhido pela banda - ora mais eletrónico, ora mais metal ou rock-friendly -, aqui é-nos completamente impossível falar de uma suposta supremacia de um ou de outro género musical. É talvez nessa mescla e coerência que está mais visível a "estranheza" com que se aborda o resultado final fruto das influências múltiplas da banda e do tempo que passa.
Todavia, é no meio de todas estas personalidades inopinadas que se (re)conhece ainda a identidade dos cinemuerte. Essa é, talvez, a maior vitória da banda com este "DHIST".  


Mickaël C. de Oliveira




terça-feira, 10 de março de 2015

DE E POR: BRUNO CAMILO - "Turvo" (2014, Ed. Autor)

Depois do projecto A Cisma ter ganho asas para avistar outros horizontes, tinha chegado a hora de os seus elementos seguirem o seu caminho. Bruno Camilo, um dos elementos da Nova União das Artes, continuou a compor e a mostrar mais originais, mesmo enquanto os A Cisma ainda estavam no activo, e apresentou no ano passado "Turvo", o seu disco de estreia em modo mais íntimo em que se esforça por evidenciar todas as imperfeições que o fazem ter um poder de distanciamento suficiente para retocar do ponto de vista de quem ouve as suas empreitadas musicais. Ainda assim, a importância das palavras e a sua ligação contínua com instrumentais polido de toque só justificável pelo imenso talento continuam a morar aqui. E decerto, passam para a memória de quem lhes dedica uns minutos de empatia.
Numa altura em que 2015 começa a dar sinais de vida, não deixa de ser hora de chamar um pouco da atenção suficiente para estas 11 canções que Bruno Camilo nos descodifica de seguida.






Prefácio A Um Deus Menor

Foi a música escolhida para abrir o disco, porque a letra composta apenas por seis versos resume, em parte, o cerne e intenção deste álbum sendo dessa forma uma espécie de porta entreaberta para todo o disco.


Era Engano

Durante algum tempo o verso 'a sorte bateu-me á porta mas era engano' vagueou pelos meus cadernos. Quando por fim surgiu esta sequência de acordes comecei a repetir sempre o mesmo verso e achei que seria a melodia perfeita para transmitir da melhor forma aquilo que o verso significa. A partir desse momento apenas fui escrevendo à volta dessa imagem, daí surgir a descrição de uma casa em ruína.


Olhos Nos Olhos Cegos

Esta foi uma das primeiras músicas que escrevi em português. Chegou a ser tocada em concertos de A Cisma e senti que não faria sentido não estar no meu primeiro álbum. Mais uma vez surge a imagem de uma casa em ruína - foi minha intenção que aparecesse a seguir ao tema 'Era Engano' para que funcionasse quase como uma ponte para a música seguinte.


Dilúvio

Sempre senti interesse em que a minha escrita se aproximasse da linguagem corrente das pessoas. Daí a expressão 'podia jurar que te ouvi', verso que inicia a música. É uma expressão que gosto muito. A composição em piano surgiu em paralelo com o resto da letra, daí a melancólica repetição de acordes quase como se estivesse a embalar as palavras. Esta é a quarta música do álbum e, quando o estava a 'desenhar', esta era a única certeza que tinha no alinhamento pois em conjunto fecham um ciclo.


Espelho Partido

Esta foi a música que gravei toda numa noite. A letra tem um sentido de esperança que apenas encontrei quando a terminei. É também uma das músicas que escrevi há mais tempo. Como aconteceu com 'Olhos Nos Olhos Cegos' não faria sentido, para mim, não estar no meu primeiro disco visto este abordar várias fases da minha composição.


Só Guardo O Que Já Perdi

Este é das minhas poucas composições em que a música antecede a palavra. Andava às voltas com este ritmo e melodia há algum tempo. Lembro-me perfeitamente de estar a ouvir a melodia no caminho para casa e apenas surgir a repetição 'no fundo, no fundo'. A partir daí encontrei o sentido que procurava para esta melodia. Retrata o momento em que se abre o peito a outra pessoa mas com a sensação de que quando o fazemos não é a essa pessoa que está a nossa frente que nos dirigimos mas à imagem que temos dela - daí o facto de estar por vezes na terceira pessoa. No final da música ouve-se uma chamada desligada: esse som foi gravado com um telemóvel encostado ao microfone. 


Nesse Cais

Esta é possivelmente a minha primeira composição em piano. Surgiu em 2011 e foi das minhas primeiras gravações amadoras. Retrata um momento real de familiares próximos. É uma composição fotográfica de tudo o que está por trás dos sorrisos nas fotografias.


Resto de Verso

Esta música teve três versões diferentes. Chegou a estar terminada e masterizada. Passados alguns dias voltei a ouvir a música e não sentia qualquer identificação com a melodia, achei que era banal e não queria sentir essa sensação ao escutar qualquer música de 'Turvo'. Falei com o Pedro Madeira (produtor deste disco) e pedi-lhe para regravar a música novamente. Já tinha uma parte desta nova melodia composta e terminei-a em estúdio. Ao ouvi-la comecei a assobiar uma melodia que mais tarde transpus para a melódica. Adaptei os últimos versos enquanto gravava a voz. E o resultado final agradou-me muito mais.


Prece Esquecida

A ideia para esta letra surgiu numa viagem ao Alentejo. Enquanto passeava numa pequena aldeia próxima do Cercal, conhecei uma senhora já idosa que me contou a sua história. Era viúva há cerca de 30 anos e nunca mais amou outro homem. O seu marido suicidou-se muito novo e tinha uma foto dele a sorrir, emoldurada em cima de uma mesa na sala. Essa imagem marcou-me muito, esse sentimento de amor profundo e trágico. Tive nesse momento a consciência que essa era uma realidade recorrente em locais remotos do Alentejo. A letra demonstra uma conversa imaginada por mim entre os dois. Como uma descrição dos seus silêncios num banco de jardim.


Se A Vires Passar

Mais uma vez quis aproximar-me da linguagem corrente das pessoas. Não me consigo recordar da altura mas recordo-me de ouvir numa conversa numa esplanada a expressão 'diz-lhe antes que morri'. Rapidamente toda essa expressão me inspirou e imaginei todo o diálogo entre dois amigos. A letra revela isso mesmo, uma conversa entre dois homens, amigos, onde todo o caos interior é revelado na indecisão. A melodia de piano surgiu naturalmente, pois queria que acompanhasse o ritmo desse diálogo.




Desenho Invernos

Esta música também chegou a ser tocada ao vivo com A Cisma. Sempre gostei muito desta letra e melodia e fazia todo o sentido que estivesse no meu primeiro álbum. Senti alguma dificuldade em torná-la mais simples, porque a composição com A Cisma era mais complexa e dinâmica. Contudo, ao escutá-la em gravações amadoras, achei interessante ser a música a encerrar o disco não só pelo fim melódico como pelos últimos versos, 'ao menos versos, para eu ter onde ficar'. Esta é a simbologia e intenção de todo o disco. Como está escrito no álbum, 'Turvo é a minha verdade, a minha gratidão'. 




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