sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

OS MELHORES DE 2015 PARA O BANDCOM

Nunca fugimos disto: o problema é a escolha.
Continuamos à procura de mais música nova, de conservar o que vai ficando para trás.
Damos asas para que o público se pronuncie primeiro e só depois reservamos os boletins de voto para nós.

Em 2015, talvez a produção tenha aumentado em volume mas o sumo não é indigesto.
De uma shortlist de cerca de 100 lançamentos (entre talvez mais de um milhar no total acumulado do ano), há 35 honras e "viva"s para dar.
25 discos, 10 EPs. Sem fronteiras, sem razão absoluta.

Onde estão os donos de 2016?




TOP 25 LP's NACIONAIS DE 2015:
25. Inércia, por DIE VON BRAU, Ed. Autor



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Lado a lado com o amadurecimento do Dedication For Project, Sérgio Faria cria como DIE VON BRAU "Inércia", um tratado extenso que versa sobre muito mais do que apenas uma cidade.
Faz-nos andar às voltas, perdidos pelo desavergonhamento da electrónica nacional, claramente um dos ícones do Portugal musical dos últimos anos, enquanto a fronteira fica no comentário: enquanto se disser que não se pode, estar-se-à do lado errado do jogo. Uma perfeita visão reaccionária que paira com saudades do futuro em que o techno segue o flow do momento como patrono imediato.
24. Boca de Cena, por Moniztico, Ed. Autor




Quando o hip-hop se aventura, pode ser apenas unhas de fome; quando não se aventura, o perigo é ainda maior. Material confessional, então, é para apreciar com distância.
O surgimento de Moniztico com um bonito cartão de visita deste género escava aquela essência tão amplamente discutida: ser genuíno. Se isso é para o simples fã um sinónimo de prazer momentâneo, deve ser encarado a longo prazo como antecâmara para um artista de excepção - neste caso, como alguém que pode fazer girar o hip-hop de partida de outra forma porque quer ter também outras referências.
Só que a complexidade com que tudo do dia-a-dia de um jovem setubalense encaixa em "Boca de Cena" revela-se bem mais fascinante do que prometermos que Moniztico vai escalar as vossas playlists num ápice. 



23. Mensagens da Nave-Mãe, por PZ, Meifumado Fonogramas



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PZ significa em 2015 uma personalidade de sucesso, Paulo José Pimenta que consegue mais do que regressar aos seus melhores amigos de estúdio com corrente eléctrica (ou não) e pedir-lhes que corram novamente em fundo em modo aleatório entre o hip-hop, o techno minimal, o house ou a pop. Significa construir um manifesto desconcertante sobre o ridículo pantanoso querendo ser o melhor intérprete, compositor e anti-estrela possível para todos. E uma máscara de descomprometimento tão sagaz de alguém que é tão sério mas sensível quanto às variações que pode dar à evolução dos tempos e dos assuntos só pode caber numa selecção do melhor que se faz. Chovam notas, chovam Cartões do Cidadão.

22. Crossing Roads, por SHAPE, Hell Xis Records



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Directamente da melhor colheita do punk post-hardcore nacional, os SHAPE surgem em 2015 com o estreante "Crossing Roads" e se a hora seria sempre boa (quanto mais não seja para que o legado de Álvaro de Campos seja bem reaproveitado), a forma não é descurada. Uma construção instrumental e melódica fortíssima não abandonada pelos pormenores mas sim acompanhada de imagens e vocalizações certeiras para colocar um conteúdo lírico bem trabalhado como mais do que um extra no centro do saco de boxe a longa distância. Um disco que um sucessor tratará de esticar e desapegar ainda mais da pretensa superficialidade.  

21. Escabroso, por TORTO, Lovers & Lollypops



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À segunda tentativa, sabemos o que esperar dos TORTO quanto à sua estética e sonoridade, o que esperar em concreto em relação à sua consistência e coerência. Mas somos sempre surpreendidos por uma manifestação de qualidade impossível de ignorar da dupla de Jorges que mais quer trazer à baila o poder de uma secção rítmica e melódica mínima no espaço e dominante a enjugar as oscilações dos tempos com a classe e a desenvoltura do indie-rock norte-americano dos anos 90. Não é possível ficar pelo elogio da estrutura após uma experiência auditiva tão rica quanto a de apreciar estes minutos.

20. O Conto, por L-ALI, Crate Records



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"O Conto" de L-ALI é uma das histórias de encantar do hip-hop nacional pós-HHtuga dos últimos tempos. Um produtor jovem que rodeia-se cirurgicamente de amigos ou colaboradores (não é por acaso que representa a estreia nas edições da editora do altamente influente Razat) não menos jovens ou tão mais experientes oferece 11 faixas altamente divergentes do modelo do momento, seja ao nível do flow, do beat ou mesmo do ataque a cada sílaba e da sua relação com o teor da mensagem e o ambiente denso criado para um declamador que enreda e carrega tudo sem aparentemente grande esforço. Terror em directo a partir de Alfama e cruzamentos incestuosos de linhagens musicais remodeladas.   

19. Heat, por Glockenwise, Lovers & Lollypops



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Perderam o "The", o caleidoscópio gira mais negro e a maturidade traz-lhes a relação mais feliz que já tiveram com a sua ambição e com o seu apurado sentido pop. "Heat" dos Glockenwise aprofunda a matéria dada e emerge como o melhor disco da carreira da banda, um dos melhores do género dos últimos anos sem o risco de estagnação nem de corrupção e um passo decisivo para o estabelecimento de uma carreira em que as verdadeiras viragens continuarão a acontecer com o perfume da multiplicidade sensorial do factor "grupo". Se o que ficar lá para trás for esquecido e abençoado, que se importe a racionalidade de saber gozar a juventude em todos os instantes para que não exista o sempiterno receio de ser adulto.

18. 10000 Russos, por 10000 Russos, Fuzz Club Records



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É sob o selo da Fuzz Club Records que os 10000 Russos reiteram os desafios à lei do EP de estreia, com mais e melhores companhias de palco mas com os amores e tributos insurrectos e escondidos de sempre - ou melhor, a vaguear livremente pelo alcance de um descampado mental específico com o embalo da quasi-atonalidade de uma incursão seca e indivisível de bateria, baixo e guitarra pelas sensações da marginalização psicadélica avant-garde.
Mas aqui, o acto de riscar mandamentos um por um é assumido como essência e como um produto inacabado. Este não é, certamente, o capítulo final e os 10000 Russos não se preocuparão minimamente se ficarmos perdidos, de gosto ou desgosto.


17. Nagual, por Albatre, Shhpuma



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O anterior "A Descent Into The Maelström" já era gigante mas os Albatre conseguem trepar esse muro com o seu mais recente "Nagual". O trio de Hugo Costa, Gonçalo Almeida e Philipp Ernsting não deixa de partir dos preâmbulos do jazz mas também não se deixa apanhar pela introversão simples do género: antes, a urgência de se libertar não cede a pressões e torna-se frenética e ameaçadora quando se cola ao doom e ao rock telúrico mais pesado e também mais minimal.   
A mais séria erosão de limites de 2015...ou quando o jazzcore encharma

16. Sou Imortal Até Que Deus Me Diga Regressa, por Tiago Lacrau, FlorCaveira/Amor Fúria



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O disco que o artista agora conhecido como Tiago Cavaco assina 10 anos depois de "Tiago Guillul Quer Ser O Leproso Que Agradece" explica-se, em parte, por si próprio: um intérprete e compositor que acumulou a sabedoria necessária para um ciclo em que é momento de gravar um disco rock n' roll que seja seu, que seja o seu espelho ou o reflexo da sua opinião e que saiba guiá-lo por mais (do que) uma auto-estrada. Um desafio para todos os que seguem a sua carreira e de quem o ajuda neste registo, um momento de combate à fobia de múmias bem conservadas para qualquer altura em que se tornem de novo imponentes e bebam da sua própria modernidade.
É reconfortantemente bom, de sentir, de ouvir, de fazer sentido aqui e em qualquer lugar. E Tiago Cavaco não é nome que se dê a qualquer incompreensão que se queira admirar: é só o nome de um rocker português.





15. V, por ATILA, Bisnaga Records



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Cenários decadentes, matéria em conflito, vibrações gélidas, desolação industrial construída, em partes quase semelhantes, pela acidez do black metal e da electrónica pálida do drone.
Colagem de sucessivas mutações de um tom inicial em que a discrição conta o romaneio mais profundo e o desgaste é sedutor em busca do enleio favorito para a salvação.
Assim é o ATILA que aprisiona em "V" um equilíbrio difícil de dominar entre o fuso e a roca e que não o irá libertar da mesma forma. Para apreciar em qualquer passeio.



14. Paradoxo, por Mic Selva x Last Hope, Ed. Autor



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Mic Selva a escrever, Last Hope a produzir. Dois nomes, uma colaboração que não é virgem e o pedido de ajuda a nomes como KappaJotta ou Valas que não só criam novas pistas (enquanto Nébula, por exemplo) mas também estão num patamar de auto-estabelecimento superior e já assinalável no panorama nacional.
Desta mistura resulta uma série de promessas cumpridas - a principal, o contraponto necessário à fúria da emergência de discos como os de L-Ali ou VULTO enquanto busca de uma aproximação das intenções do hip-hop clássico e depurado pelas décadas e pelos seus actores a elementos da pop ou do chill electrónico mais abrangente. Batam depressa a estas portas.
 

  
13. Hightower, por Equations, Lovers & Lollypops



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"Frozen Caravels" e "Hightower": duas fricções gémeas de uma banda que caminha já com a segurança de dominar o que o rock pode albergar e de criar a alternativa a si própria. As teclas mandam mais na beleza dos novos  Equations que levam a destreza das guitarras e o sr. Rickenbacker para uma demanda limitada em tempo mas não em possibilidades, um novo olhar para um futuro inexacto com as ferramentas que representavam progresso no passado, uma espiral precisa do seu gosto para despertar diferentes reacções.
Agora, "Hightower" é um disco de mão cheia; amanhã, poderá ser "Frozen Caravels". Nada mais podemos pedir.


12. Coclea, por Coclea, Shhpuma



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O trabalho que Guilherme Gonçalves lançou como Coclea revela um guitarrista que opta por posicionar as cordas ao serviço do etéreo e da krautmusik estrelar que recebe uma visita aconchegante mas tão distante do blues e de esparsos assomos vocais. Para além do produtor e companheiro de banda de excelência, o reafirmar do arquitecto de um som encharcado de melodias e latitudes, com pouco adorno à sua honestidade de movimentos que só conseguimos conjecturar, sem apontar a um clímax nem fugir à lipemania.  
Como se fossem jogos de sombras a contemplar a sua própria identidade.



11. Trabalho & Conhaque OU A Vida Não Presta e Ninguém Merece a Tua Confiança, por Nerve, Mano A Mano



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A próxima etapa após o porta-estandarte "Eu Não das Palavras Troco a Ordem" só chegou em 2015. Honra seja feita: sete anos atordoados pela procrastinação. Mas dificilmente poderia haver melhor vantagem, a de ser o grande "Big Brother" que analisa e assimila os esforços globais para o enraizamento do hip-hop com uma veia para o mainstream e outra para a sua própria sobrevivência. Na altura certa, Nerve demonstrou que a sua personalidade está acima do rótulo da sua própria independência; é a mesma que prevalece sobre o sample massificado e se renova pelas fracturas que cria com o passado, o presente e o futuro do género, até mesmo na difusão da sua geografia.
Está na hora de o príncipe ser perfeito. Pobres dos reis que não queiram companhia, o trono de Nerve não precisa de ser majestático para ser do seu sangue.


10. Quarto Crescente, por Márcia, Warner Music Portugal


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Não há dores de crescimento que afastem Márcia de uma escrita límpida e escorreita de belas canções pop. "Quarto Crescente" mantém a cantora e compositora perto dos temas que partilha com quem quer seguir a sua música mas todo esse poder de criar beleza evidencia-se ainda mais com a diversificação e claridade da produção instrumental, permitindo-lhe tornar-se ainda mais expansiva e concretar a soberba dos pormenores e das criptas em soluções efectivas. Mais do que um passo em frente, um passo certo e seguro de quem o tinha que dar: a própria Márcia e a sua entourage de palco. 



09. Arqueologia, por Balla, EdiMusic



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Pode ser quase um pecado para um artista parecer que o público demora a gravar o seu nome e que a crítica repisa, faz por votar um passado bem sucedido ao esquecimento. Se pensarmos no nome de Armando Teixeira, aqui enquanto parte dos Balla, é estarmos ao favor ou saborear inconscientemente um crime. Et voilá: "Arqueologia". O charme maquinal e o encadeamento irresistível das composições de quem destapa sentimentos sem pudor alia-se, de novo, à forte matriz pop electrónica que contamina o rock mais pulsátil. Todas as ruas de Portugal e da sua mente são recantos luminosos de todo o Mundo, tudo o que existe pode ser substrato para o mesmo conceito. Uma ode ao romantismo das memórias para dar importância à surpresa do futuro num disco soberbo e que interage connosco.



08. The Beast Shouted Love, por Beautify Junkyards, NOS Discos



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"The Beast Shouted Love", longa-duração de estreia dos Beautify Junkyards, passou de um dos discos mais aguardados dos últimos tempos a um dos poucos que sobrevivem às expectativas mais elevadas. Soa a uma continuação séria, feliz das coordenadas do primeiro disco da banda exclusivamente dedicado a rever originais alheios: aonde a alt-folk bucólica anglo-saxónica radica, crescem pequenos focos de psicadelismo e electrónicas como souvenirs conscienciais de todo o Mundo, brota um conjunto de canções que destroem e erguem, parte a parte, uma noção de pertença global pescando a intimidade mais pura. A ligação à Natureza gentilmente revista ao toque de uma caixa de música do século XXI. 


07. Cara D'Anjo, por Luís Severo, Gentle Records



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O talento fora de série de Luís Severo como compositor e intérprete não vem de ontem e as comparações com Éme, com quem convive e partilha amigos e colaboradores, também não. "Cara D'Anjo" revela mais o amigo daquele casamento, de reverência para com a desconstrução de lemas musicais aparentemente datados de um ponto de vista, felizmente, naïve, honesto mas de fato inteiro.
Se há a mesma história para ser contada de maneira diferente, será essa e outras mil as que Luís Severo adoptará para se tornar uma estrela de palco e de estúdio que poderia ser da nossa própria família. Um trovador boémio debaixo dos holofotes, um engraxador de patine enquanto os procura. 





06. Mar Aberto, por Medeiros/Lucas, Lovers & Lollypops



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Com O Experimentar Na M' Incomoda em pausa, Pedro Lucas e Zeca Medeiros decidem trabalhar em dupla para produzir "Mar Aberto", um trabalho que procura a melhor companhia musical para poetas mais ou menos conhecidos, nacionais ou estrangeiros, de cujo legado se esventra um complexo lírico intrincado e tenso como a reacção do mar e dos marujos. Pedro Lucas é quem toma em mãos a tarefa de fazer chegar o disco vivo ao seu término e, conseguindo-o de forma magistral ao afastar-se da linha de O Experimentar, inspira mais vida em quem também chega ao fim. Um álbum carregado de camadas de sons de todo o Mundo que não se atropelam na hora de preencher minutos adamastorescos com a eficácia e imaginação tão familiares aos melhores Radiohead.

05. Atlas, por Branko, Enchufada



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Do descanso dos Buraka Som Sistema, Branko não se satisfaz com o que todo o Mundo lhe dá para conhecer ou percorrer de novo. É a actualização e o tratamento com respeito das cores da música da comunidade global para furar com licença pelas pistas de dança que "Atlas" representa num testemunho da amizade como arte em constante evolução e não como um travão para a sua própria emergência no papel de caule de múltiplas raízes. Só as melhores intenções impedem repetições, só a ambição e a leniência moldam o sincretismo das batidas, do trabalho das vozes e da tolerância dos fragmentos melódicos. Acção-reacção. 


04. Silence & Remorse, por Purple, WeDidIt Collective




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Salvé tamanha pérola. A estreia comovente em disco de Purple faz-se da liderança da sua voz baladeira, descontrolada por vibrações emocionais efémeras e íntimas, sob o isolamento e o transtorno que os instrumentais electrónicos feéricos e obscuros alimentam e abandonam qual presente envenenado pela textura e pelo palpitar dos ritmos. Um labirinto de desejos e dissonâncias cognitivas por explorar, vergar com luxúria obsessiva mas sem a rispidez de outros exemplos.
Tragam os vossos remorsos.  





03. Highway Moon, por Best Youth, Ed. Autor



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A ansiedade chegou finalmente ao fim. Os Best Youth colocaram cá fora "Highway Moon", e se as pistas deixadas por "Still Your Girl" e "Red Diamond" (que abre o álbum) eram férteis em dúvidas, o disco de estreia da dupla projecta-se para muito mais do que satisfatório. E aqui é que entram as certezas, a marca d'água a denunciar que quem tem uma voz quente e fantasiosa e usa tamanho poder de delusão e sofisticação para deixar respirar os mais naturais preceitos musicais e arrancar o que pretende para cada canção só nos pode encher de orgulho em qualquer sala onde a sua música ecoe. 


02. Alfarroba, por Pega Monstro, Upset The Rhythm



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O crescimento rápido das irmãs Pega Monstro não surpreende: antes, criou-se uma bonita aura de encantamento geral com o jeito que Reis & Reis têm agora para fugir mais facilmente a comparações e superar-se num terreno ágil para evocar a história riot grrl. As letras continuam a responder com realismo aos problemas de expressão que os amplificadores não têm, as suas vozes soam mais do que nunca aos responsos que recusamos e tentamos contrariar. São pequenas mudanças que só as tornam mais queridas de todos à medida que estes clássicos engrossam o catálogo.
Só se perde o dó que temos por não haver 365 canções das Pega Monstro lá porque possamos não entender de imediato que uma só canção preenche uma temporada inteira.



01. Híbrido, por Allen Halloween, Ed. Autor



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Não há qualquer vergonha nem qualquer engano: o novo tomo de Allen Halloween é, para todos aqueles minimamente identificados com o meio envolvente, um dos álbuns favoritos do ano. A actualidade e a relação do guineense com a mesma acelerou o enredo de uma salvação anunciada potenciada pelas provas poéticas exemplares tatuadas com o seu próprio sangue, pela experiência anterior com os facilitismos e as facilidades do hip-hop, pela filosofia que nos passa sem lhe tocarmos, pelo desprezo em loop de sempre contra tudo e todos os que desestabilizam e deixam de merecer ser familiares, ser humanos. Veio um guineense ensinar-nos a ser um monstro melhor e a exorcizar a aculturação que o possa merecer? Obrigado e, esperemos que não, até sempre.







TOP 10 EP's NACIONAIS DE 2015:

10. No Honor Among Thieves, por Raccoon, Ed. Autor

No jogo de consola de Raccoon, os heróis descobrem-se rapidamente. Mas cuidado, o objectivo final não é ceder à saturação. É por isso que, dentro do fácil pinpoint de arrastar o dubstep, o witch-house ou o slowcore electrónico, percebe-se que "No Honor Among Thieves" esconde profissionalmente outras vidas vestigiais e vozes despidas em muito pouco tempo. A mesma distorção de luminosidade e de regras aquece o suspiro pela sucessão de "Burial" e "Ilunga" -  a posterior e isolada "Status 1.24" não retorna, para já, a chamada...




09. Noite E Dia, por DJ Nigga Fox, Príncipe Discos



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Um ano mais de Príncipe Discos nas nuvens faz-se do cruzamento de cabos pela frescura dos artistas que lá editam. O novo EP de Nigga Fox preside a um objectivo felino pela via mais difícil: democratizar a dança fingindo que não se é coerente. Mesmo assim, é menos aziago do que tentarmos explicar a palavra single à enciclopédica África musical que desvendamos: porque estes 4 temas estão aptos a sê-lo pela sua exuberância e não por sua deliberada vontade, pelas ondas de percussão metalizada, melodias açucaradas e vozes texturadas. 




08. EP5, por Galgo, Ed. Autor



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Mesmo que as comparações com os PAUS e os Quelle Dead Gazelle sejam inevitáveis (a influência da produção nos Blacksheep Studios faz-se sentir de forma massiva), a Contentor Records finalmente conseguiu furar como merecia e os Galgo oferecem trabalho e vontade para isso. Mas já se disse que os Galgo não desistem, não têm porque o fazer e o facto de a exploração das guitarras ser separada da exploração da bateria dá um outro gás a estas quatro canções com o excelente final de "Torre de Babel". Fica para outro trabalho confirmar-se a confiança no rock tropicalizado e como é que os Galgo se querem apanhar no velódromo da sua carreira.




07. Adversarial Light, por Vaee Solis, Signal Rex/Degradagem



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Também em Portugal o metal deixou de se isolar do seu poder criativo e reinventou-se. A voz de Sofia quebra o gelo brincando com ele, fazendo ferida rouca, chutando o inconveniente da cratera sludge e dronítica. Porém, os Vaee Solis resultam em doom negro e progressivo até à espinha sem nos afugentar a mania punk de os acompanhar. A pressão era relativamente inexistente para a banda mas, ao torná-la aridamente baixa na música, puxa-a agora para o rito dos ídolos.




06. When Lost At The Ocean, A Fellow Comes Out Of Anxiety, por Sease, Ed. Autor



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O espanto que nos toma pelo facto de os Sease, com o jovem AUROR de que já tínhamos ouvido falar, fazerem miséria dos The XX no seu próprio terreno não se dilui ao longo das 5 faixas deste EP de estreia. As guitarras e as electrónicas mais ou menos disfarçadas e deixadas a fluir no vazio pelo trabalho de produção posterior dão sempre a mão a vozes jovens sempre de sorriso e soluções entreabertos pelo impacto da nostalgia. Esperem para ver o que valem estes filhos do minimalismo.




05. I/II, por Papaya, Revolve



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Mesmo que a escassez seja quase ofensiva, os Papaya não são ilustres decetivos.
Os requintes math-rock, hardcore, noise e punk sobre o fundo indie-rock esticam minutos de fúria e caos como há muito não se escuta - certamente, desde que "Um/I" já erguia esse colosso de criatividade e desde que os Vicious Five nos deixaram orfãos.
Um eixo de superlatividade do DIY que se entretém a si próprio antes que haja um plano para abrir as portas a todos os ouvintes. E todos os ouvintes serão groupies.  
  




04. Love & Forgiveness, por Vaarwell, Azáfama



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Basta um EP de estreia para que os Vaarwell tratem a indie-pop por "tu" e lhe inspirem o firmamento de outras identidades. Quaisquer semelhanças com ensinamentos dos Best Youth que os Vaarwell querem seguir por uma via mais harmónica, multicéfala e quase abstracta para que possa ser genuína em todos os cenários são líquidas coincidências.
A fragilidade dos retoques finais pede-se e recomenda-se.
Oh (já fora do alinhamento), e aquela versão de "Hotline Bling", que (novo) sonho.



03. Odyssey Of The Mind Part II, por Bison & Squareffekt, Ed. Autor



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Bison e Squareffekt estão a contas com o esoterismo e o Universo para a segunda parte de "Odyssey Of The Mind" e fazem bem em não sair de lá.  A imagem rampante de marca da dupla de produtores que mais sabe sobre como raptar a essência da música de dança africana e casá-la com o seu contraponto mais parecido incorpora aqui, bem a propósito, uma dissonância futurística controlada por "Blade Runner" e pelo synthético melodrama amor/ódio com que se empurram os arpeggios. Já não nos mexemos sem estes dois.




02. Serendipity, por Isaura, NOS Discos


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Fechar o ano passado com a apresentação de "Useless" significava que o EP de estreia que Isaura preparava para este ano teria de jogar bem com a necessidade de se estabelecer e não apenas de surpreender. E, de facto, isso é conseguido. As canções de "Serendipity" fazem jus ao título cativando o poder da voz e das letras extremamente profundas sobre uma produção electrónica sóbria e invulgarmente amarga, decidida e rugosa para os hábitos do género em Portugal.
Não é fácil para ninguém sair-se tão bem e ser-se tão bom.





01. The Free Food Tape, por Slow J, Ed. Autor



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Posicionamento da voz perfeito, atacar letras em directo de um arranha-céus e a liberdade descomunual de apresentar qualquer instrumental blindando-o das regras e da solidão imerecidas. O EP de estreia de Slow J é personalidade e viralidade rápidas e gordas descentrando o risco de querer buffet livre, resvalando para a harmonia que ficou lá atrás da estagnação. Os que venerava já não o largam, a sua singularidade é lustro para o rasto dos que se seguem (como pretochinês ou Baked Donuts, por exemplo).
Com quem se pode dar a anunciar com tamanha pompa, menos é definitivamente mais. 




Textos por André Gomes de Abreu




sábado, 2 de janeiro de 2016

OS MELHORES DE 2015 SEGUNDO OS SEGUIDORES DO BANDCOM

2015 foi um ano altamente positivo e repleto de dores de crescimento.
Uma atenção mais constante para a novidade face à consolidação daquela crítica ou daquela entrevista não deixa saudades mas deixa promessas e vontade de fazer ainda mais.

Palcos que começam a ser muitíssimo familiares, festivais que são velhos conhecidos estão lado a lado com novos parceiros, novas colaborações e relações, sempre, altamente movimentadas em que todos dão o seu melhor.

Chegamos ao final de 2015 e estamos já a menos de um mês de comemorar 5 anos de uma feliz existência e a poucos dias de fechar o balanço com a publicação das habituais listas de melhores do ano, para o público e para nós.

Desde o berço em que parceiros como o Music2deal, o AudioQuest, o Pinstage, a EE Music e a A.M.A.E.I. - Associação de Músicos Artistas e Editoras Independentes nos têm e vão continuar a acolher, agradecemos todas as mensagens, todas as críticas, a todos os que nos seguem, a todos os que contam também connosco.
É com as escolhas de todos estes que dizemos:

Até já. Até mais um ano. Até um excelente 2016!



DISCOS

1. MAHOGANY - "A HOUSE IN ICELAND"



2. THE FINES - "GREATEST TITS"

3. WELLS VALLEY - "MATTER AS REGENT"

4. PHILL ROCKER - "HARD TO BLEED" / PEDRO MESTRE - "CAMPANIÇA DO DESPIQUE"

6. WRATH SINS - "CONTEMPT OVER THE STORMFALL

7. TELEPHONY - "MAYDAY"

8. CHAPTER NINE - "TALES OF DREAMS AND MEMORIES" / BIG ROLLING WHEEL - "BIG ROLLING WHEEL"

10. WEB - "EVERYTHING ENDS"


EPS

1. FUZZIL - "BOILING POT"



2. AMOR TERROR - "A CULPA É TUA"

3. STONERUST - "NOTHING LEFT INSIDE"

4. ANYA KARIN - "OWNER"

5. PROZAC CAMEL - "LEARNING TO FLY"

6. TWISTED FREAK - "SUMMER NIGHTS"

7. DAILY MISCONCEPTIONS & O MANIPULADOR - "LOP"

8. SECRET SYMMETRY - "EMERGE"

9. CAJADO - "ANTA DO LIVRAMENTO"

10. TIAGO SILVESTRE - "SANTA APOLÓNIA" / CAN CUN - "THIN ICE DANCE FLOOR"





segunda-feira, 21 de setembro de 2015

PZ - ENTREVISTA

A tour de apresentação do novo disco de PZ e sucessor de "Rude Sofisticado", "Mensagens da Nave-Mãe", conhece uma das suas últimas datas, para já, no paraíso das Noites Ritual nos Jardins do Palácio de Cristal, Sexta-feira e Sábado, onde a entrada é livre e a música não tem franquia.
Não é apenas pelo facto de a música continuar a soar, sem saudosismos, a uma espécie de Repórter Estrábico inflamados de "Viagens" de Pedro Abrunhosa, mas a ligação à terra-mãe e a utilidade acrescentada à caixa de comentários favorecem na hora do sucesso, aí cada vez mais amplificado pelo poder de despertar reacções imediatas a todo o Universo Paulo José Pimenta por parte de multidões difusas, se falamos de aplausos, ou de grupos muito concretos, se as dúvidas se instalam.
Esperava-se que PZ pudesse sobreviver sem a sua própria consciência? Não o esperamos nem o esperávamos antes, durante ou depois de o conhecer melhor.
Música de intervenção? Música é intervenção.
pop também pode ser sinónimo de subversão.
Mas agora, queremos ver o Verão a acabar em beleza com PZ dadaísta, o aprendiz eterno de super-artista. Venham daí: com PZ, ganhamos todos nós. Com as Peta Zetas, também, claro.





BandCom (BC): Este mais recente “Mensagens da Nave-Mãe” sucede ao “Rude Sofisticado”. Fala-nos um pouco das ideias principais que te levaram a este disco e a afastares-te, não totalmente, do disco anterior.

PZ: Neste projecto não existem muitas ideias principais, são mais aglomerados de memórias e visões sociais [com] que a minha mente se confronta e se debate no dia-a-dia. Daí haver uma certa coerência entre as mais recentes “Mensagens da Nave-Mãe” e o “Rude Sofisticado”, como também acho que já houve pontes que ligaram o “Rude Sofisticado” ao meu primeiro álbum, o “Anticorpos”. O processo nestes 3 álbuns foi o mesmo, solitário, livre de fazer música à minha maneira, livre de escrever letras e melodias que me fizeram sentido, sempre pronto para brincar com drum machines, samplers, sintetizadores, tocar linhas de baixo ou guitarra. Aliado a tudo isto é o conforto do meu ambiente caseiro que me deixa compor e produzir no momento em que penso nelas. Se bem que algumas melodias e letras fiquem a ruminar na minha cabeça durante alguns meses e, às vezes, anos.


BC: Qual é a pergunta que continuas a fazer à “Nave-Mãe” sem que obtenhas resposta?

PZ: O que raio é que estou a fazer aqui? 



BC: Agora que também já participaste na abertura de um espectáculo de stand-up comedy, qual é o melhor sketch que tens na tua cabeça e que gostarias que se tornasse uma música?

PZ: Correcção, eu fechei um espectáculo de stand-up a convite do Eduardo Madeira e foi uma óptima experiência. Gostei muito de conhecer vários mestres da comédia portuguesa que se encontra num momento muito bom e ímpar a meu ver. Mas nunca pensei num sketch que se possa tornar uma música. São duas formas de expressão diferentes apesar das 2 artes se tocarem muitas vezes. Há músicas que nos fazem rir e há comediantes que usam a música para nos fazerem rir durante as suas actuações.


BC: És daqueles produtores e compositores que vai buscar inspiração a tudo ou que já sabem muito bem o que é que lhe vai chamar a atenção e cola-se a esse filão? És o membro perdido dos Primus, Sleaford Mods ou Fall?

PZ: Gostava muito de ser um membro perdido dos Primus ou dos Fall, sem dúvida! São bandas que por acaso sempre ouvi com atenção, especialmente os Primus. No entanto, quando faço uma música estou a pensar mais em mim e no que me define; aliás, é uma maneira de me libertar dos constrangimentos sociais que nos rodeiam. Sair da norma, procurar a ambiguidade e o surrealismo, mas sempre com uma forma de expressão muito própria e singular da língua portuguesa. Agora, claro, a minha musicalidade vai buscar muitas influências a várias bandas dos mais variados espectros musicais. É a lei da música.


BC: Entre os discos, vão aparecendo várias canções e videoclips de temas que só mais tarde ficamos a saber se vão mesmo integrar o trabalho seguinte. Depois de tanta partilha, tanta entrevista, tanto “passa-a-palavra”, quais são as medidas do sucesso da música do PZ?

PZ: É sempre difícil medir o sucesso. O sucesso nasce do caos residual provocado pelo trabalho de qualquer um em qualquer área. Quando esse trabalho é reconhecido pelos nossos pares, e em certas actividades artísticas pelo público, diz-se que é um sucesso. É um cliché o que vou dizer, mas o sucesso tem muito a ver com o trabalho que cada um faz e a dedicação a esse trabalho. Tive que passar por muitas etapas para chegar onde estou e durante esse tempo fui formando uma linha musical que começou a chegar a mais público através dos discos, dos videoclips, dos concertos, entrevistas, etc. Claro que as redes sociais e o Youtube foram importantes para chegar ao público moderno, aquele público insaciável por coisas novas, imediatas, que possam partilhar no momento, que se identifica com o que ouve e com o que vê. Foram muitas horas e momentos que gastei a produzir conteúdos e depois a divulgá-los; e muitas horas no Facebook e afins a comunicar com as pessoas que me seguem, o que é realmente algo de especial e somente possível hoje em dia. Outra vertente onde me dediquei muito nos últimos 2 anos foi nos concertos, na actuação ao vivo. Hoje em dia o PZ é uma banda ao vivo e um espectáculo audiovisual mas esta evolução vem de trás com outras bandas que toquei ao vivo como os Paco Hunter ou a Zany Dislexic Band. Para se ter sucesso é preciso tempo, que é uma dimensão muito menosprezada hoje em dia. 






BC: É óbvio e recorrente o teu recurso à ironia nas canções que apresentas mas acabas também por cruzar outras referências e outras figuras de estilo. Há algum momento em que a transmissão da mensagem inicial é afectada ou isso induz mais não a personificação mas sim a personalização das canções?

PZ: Acho que a mensagem inicial que se deposita na música nunca é alterada no seu essencial, mas é uma questão onde posso estar enganado… Cada pessoa tem a sua interpretação da música. Ninguém neste Mundo vê e ouve o Mundo (passe a redundância) da mesma maneira. Mas gosto da ideia de ter músicas personalizadas e não personificadas. No entanto, há certas músicas em que me torno uma personagem diferente dentro das muitas que me habitam e que vão variando de dia para dia ou mesmo de hora em hora. Para além disso, gosto de atazanar a minha condição humana e pregar-lhe belas partidas. Às vezes, nem eu próprio, no meu estado mais consciente, sei como interpretar a minha música ou o estado de espírito que me levou a fazê-la. O que eu percebo é que me divirto a fazer música sempre na esperança que outros se divirtam e se questionem enquanto as ouvem.



BC: Concordas que, para além dos leitmotivs principais de cada disco ou tema, também o projecto PZ é feito de raízes, que tem um sentido particular de espaço e de tempo, que teria que ser adaptado para ser feito noutra altura e noutro local? Por exemplo, que mais “Dinheiro” nos bolsos não significaria imediatamente atingir outros objectivos, talvez até maiores?

PZ: Por mais imaginação que tenhamos não conseguimos sair do nosso tempo. É ele que nos define a vários níveis, principalmente se estivermos a falar de um ser social como é o ser humano. Não vale a pena fazer conjunturas sobre o que seríamos se vivêssemos noutro tempo. Isso é uma impossibilidade física. Vivemos agora, e o agora é que está a dar. Mas uma coisa é certa há muito tempo: o Tempo é Dinheiro.


BC: Dizes que sempre gostaste de fazer música para te divertires mas também que esperas que a exigência e a sua singularidade se mantenham como duas características importantes. Tendo em conta essa teia de equilíbrios finos, em que é que queres puxar mais pela música do PZ? Achas, tal como o Howe Gelb disse numa entrevista recentemente, que quando tiveres feito o teu melhor disco é altura de deixares de ser o PZ e fazer com que haja outro projecto diferente mas com o mesmo grau de importância?  

PZ: Acho que nunca vou ter a certeza de qual será o meu melhor disco. Eu acho sempre que o melhor é o último pois é a experiência musical mais recente que tenho. Eu já faço outras coisas para além do PZ, e tenho outras visões musicais que espero editar brevemente, mas tudo a seu tempo.





BC: O que é a Meifumado (se não for uma espécie de “Matador” como já disseste antes) e a música independente em 2015? Esta última é a que mantém a música mainstream a respirar saúde? Ultrapassado o fantasma dos downloads ilegais, estamos a conseguir lidar bem com novidades como a implantação das redes sociais e dos festivais de Verão como um fenómeno nas nossas vidas? 

PZ: Acho que não há como lidar mal com coisas positivas. As redes sociais e os festivais de Verão têm ultimamente sido muito importantes na sustentabilidade do mercado da música feita em Portugal. Promotores, editoras, agências, produtoras, estúdios, toda uma panóplia de indústrias criativas, de comunicação, etc, têm a música como a gasolina que as faz andar para a frente. E, claro, deixei para o fim de propósito, os músicos que são a peça-chave de toda esta indústria apesar de, por vezes, nos esquecermos disso. Sem os conteúdos musicais interessantes e que façam mexer as cabeças e as pernas do público nada disto seria possível. A música faz e sempre fará parte integrante, e atrevo-me a dizer estruturante, de qualquer cultura integrada numa sociedade moderna. Acho que os músicos deviam ser mais compensados pelo seu trabalho e pela sua criatividade. Não estou a dizer que não são, e é obvio que cada músico faz parte de um mercado livre onde a lei da oferta e da procura é quem dita as regras, mas há situações onde os lucros de todo este fenómeno musical deviam ser mais compensadores para quem realmente faz a música. As redes sociais ajudaram também nesse aspecto de dotar os músicos de mais independência no seu trabalho, mais controlo sobre as suas obras na medida em que podem divulgá-las de formas mais eficazes do que através dos canais tradicionais. Hoje em dia para se singrar na música não é necessário fazer parte de uma editora major. Daí estarmos a ver cada vez mais álbuns com edições próprias ou com o apoio de editoras independentes, mais pequenas, mas dotadas de estruturas eficazes para fazer chegar a música às pessoas e ao público que interessa.


BC: Que performer compõe a mais imponente figura de palco de sempre? Porquê?

PZ: Pergunta difícil… Michael Jackson, Jim Morrison, Morrissey, Kurt Cobain...há vários performers que nos enviaram e continuam a enviar para galáxias musicais distintas mas ao mesmo tempo intemporais. Acho que há sempre algo de transcendental nos grandes performers musicais.



BC: No manifesto da missão da Meifumado o epílogo rege-se com “Venham ver o barco a afundar”. No barco ou na nave-mãe, sempre com o mesmo pijama?   

PZ: :) A Meifumado é uma editora/produtora em constante transmutação, formada e reformada por várias pessoas que trabalham com uma ideia que já tem mais de 10 anos. O conceito é simples: a produção e edição de boa música. Conceito original, não?



André Gomes de Abreu




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