domingo, 26 de julho de 2015

DE E POR: TIME SHIFTER - Even Dolls Can Wake Up From Their Porcelain Sleep (2015, Ed. Autor)

Sónia Vicente e Raquel Devesa demoraram apenas um ano de formação para se tornarem nas Time Shifter com um EP de estreia no bolso. "Even Dolls Can Wake Up From Their Porcelain Sleep" conserva vários dos atributos simples de uma voz, de um violoncelo e de electrónica enquanto algumas abordagens interessantes, intensas e assaz experimentais escavam pelos teatros da música que bebe directamente das inseguranças e insondabilidades da alma consciente e inconsciente da forma mais ressonante possível.
Uma pequena caixa de música selvática e não convencional que chama pelos palcos.
Entretanto, elas oferecem-se aqui em baixo para manter parcialmente o mistério e deixar a apreciação para quem as deve ouvir - por exemplo, ao vivo e depois dos festivais Encontrarte e SantoRock, já no dia 1 no regresso ao Breyner85, no Porto, e no dia 22 no Urban Jungle Free Festival em Coimbra.






Taken
Uma batida forte com os graves bem presentes e, apesar, da melodia doce ficamos com um amargo de boca. O que farias se tivesses apenas 1 minuto para decidir o resto da tua vida? 



Transmission
A primeira parte do tema é bastante soturna e quase diabólica e é claramente assoberbada pelo violoncelo que entra na segunda parte que nos transporta até à Roménia. Cheira a dança e é claramente cigana!



Sailing

Passou a ser o 'single' do EP e não estávamos a contar com isso.
Não que tivéssemos escolhido outra...





Twisted

É o grito de quem já está farto de viajar na tempestade e anseia pela sua conclusão, a bonança transformada em loucura líquida.




sexta-feira, 24 de julho de 2015

THE BELLRAYS + PLUS ULTRA + THE LAZY FAITHFUL @ HARD CLUB, 17/7/2015 - REPORTAGEM

Há um dia na vida de qualquer pessoa em que somos quase forçados a redefinir algo que já está bem assente na nossa cabeça. Este dia chegou para mim.
Numa altura em que achava que nada me surpreendia a nível de concertos no Porto, eis que chegam os The Lazy Faithful, Plus Ultra e The Bellrays para me provar que estava errado, e ainda bem! Uma lição de rock 'n' roll foi o que os intervenientes deste evento deram - por isso, preparem os apontamentos para da próxima vez que estes Artistas (sim, com A maiúsculo) vierem tocar nos palcos da Antiga, mui nobre, sempre leal e Invicta cidade do Porto, ou em qualquer parte do país, poderem aplicar os conhecimentos.




















The Lazy Faithful. Os enérgicos portuenses que nunca se vão abaixo – nem mesmo com os problemas técnicos que fizeram parte do concerto. Talvez a única coisa que tenhamos a dizer de negativo (sem contar com os já referidos problemas técnicos) é a não colaboração do público naquilo que foi, a nosso ver, um espectáculo muito bem conseguido como desde sempre nos habituaram. Pudemos ver potência e energia por parte de todos os elementos da banda aliadas com um profissionalismo não habitual em bandas jovens e, para além dos temas mais conhecidos do álbum de estreia como “Two Lines in the Sky” e “Good Night”, conhecer temas ainda não lançados pela banda - os exemplos de “Queen Anne” e “Seal My Fate”. Este quarteto, composto pelo groove do baixo de Rafael Silva, a demoníaca bateria de Gil Costa, a hiperativa guitarra de João Ramos e o clássico roupão de Tommy Hogg - que não atrapalha a sua técnica e maturidade -, é o que é preciso na música portuense e portuguesa: uma “chapada” de rock 'n roll em constante evolução e à espera de dar o salto para os grandes palcos (o que, para nós, já devia ter acontecido).







































O que acontece quando três homens enormes de bandas igualmente gigantes se juntam? Isto. Uma nova abordagem musical a estilos como rock, stoner-rock e metal com uma pitada de insanidade que não deixa de se revelar como extremamente profissional, com todas as suas nuances. Gon (ex-Zen), Kinorm (ex-Ornatos Violeta) e Azevedo (ex-Mosh) levam mais uma vez a sua atitude e abordagem violenta ao mais alto nível. Uma execução notável, onde nem baquetas partidas pararam o espectáculo, leva o público ao rubro e a uma interacção bastante mais presente. Claro que esta interacção também se deve ao espectáculo dado por todos os membros da banda, sempre com o cuidado de chamar o público para mais perto, sem nunca perder o fio à meada. E, mesmo sendo uma actuação digna de grandes palcos por parte do conjunto portuense, somos levados a elevar Gon a um nível diferente: neste concerto, em que até se misturou com o público à procura de mais energia, Rui Silva mostrou-se como uma figura para não ser esquecida. Não nos lembramos de ver um frontman portuense com tanta atitude como a que o vocalista demonstrou: nota 20 para todos os membros, 21 para Gon.
Este concerto faz notar que a experiência e a dedicação são importantíssimos para a formação de qualquer músico. Mas t
udo isto nos leva a outra questão: onde estão os grandes festivais à procura dos Plus Ultra? Onde estão as salas cheias? Se calhar, há que dar mais confiança à música local...mas esta é só uma opinião entre milhares. Não é “bonitinho” de se ouvir, mas é a mais pura verdade em guitarra, bateria e voz.







Chega o cabeça de cartaz. O crème de la crème.
Lisa Kekaula e Robert Vennum nunca desiludem e desta feita – com Pablo Rodas no baixo e Maxi Resnikosky na bateria – deram a última aula de rock 'n' roll da noite. Tema: o verdadeiro espírito do rock. É verdade que os The Bellrays sempre se revelaram como uma aliança perfeita entre o soul e o rock, fazendo dos seus concertos uma festa para todos e não propriamente algo fechado mas, à semelhança de outros concertos, nota-se que há um profissionalismo diferente das bandas portuguesas (não que estas não o tenham) que marca a distinção desta banda americana entre as três da noite.
Dado tudo isto, não ficou aquém das expectativas. São quatro músicos vindos de outro Mundo que nunca, mesmo nunca, param de dar espectáculo e de testar a resistência do público ao máximo. Tal como anteriormente, onde um amplificador de baixo não correspondia e uma baqueta não durou completa até ao fim do show, aqui foi Robert Vennum a ficar sem uma corda da sua guitarra e, como não podia deixar de ser, a nunca parar de tocar. Quanto ao público, não deixou de entrar no espírito desta dança que até teve direito a bolo, a propósito do aniversário do baixista Pablo Rodas, e suou até não poder mais, entrando em quase delírio quando os californianos brincaram, no bom sentido, com "Whole Lotta Love" dos eternos Led Zeppelin. 
A frase mais ouvida da noite foi "we are the Bellrays, and we are here to give you everything we got": sem dúvida Lisa, deram-nos tudo o que têm e nós como público apenas temos que agradecer e esperar que mais espectáculos destes cheguem ao nosso país. É uma máquina bem oleada do Mundo da música que merece os mais sinceros parabéns.

E assim concluímos a nossa aula de Rock 'n Roll 101. Parabéns à organização, que trouxe estes três magníficos grupos à cidade do Porto; parabéns às bandas, que nos deram tudo num evento em que podíamos ter correspondido mais como público; parabéns a Pablo Rodas, que fez anos; obrigado Pedro Soares – que me ajudou, sem saber, a escolher o título deste artigo; e um especial obrigado aos artistas portuenses que me fizeram não perder a vontade de ir a concertos na minha cidade. Espero que tenham apontado tudo o que tenham a apontar, porque não é todos os dias que temos uma aula como esta.



Texto de Sérgio Morais

Fotografias por Maria João Ferreira
(galeria completa em
facebook.com/bandcom)




segunda-feira, 20 de julho de 2015

TALENTOS PARA A TROCA #6

A sexta edição da rubrica "Talentos Para A Troca" é uma edição especial dedicada às qualidades imensas de cinco projectos compostos, na sua totalidade ou não, por emigrantes e luso-descendentes portugueses.
Bernardo, TIO, Cristobal And The Sea, Crystal Pulse e crosta são cinco nomes que o exterior começa a memorizar sem que o gentílico "português" se possa apagar na totalidade ou arrancar com rudeza: pelo contrário, a exploração da sua música, do seu passado, do seu contexto, da sua intervenção é uma tormenta agradável que se cola a cada um.
Façamo-los maiores e tenhamos a certeza de que mais surgirão.
São moedas de troca para um futuro em que haja eco de algo.



Bernardo




Porquê, simplesmente, Bernardo?

Bernardo é o meu último nome e os meus colegas sempre acharam engraçado e começaram-me a chamar Bernardo…então ficou. Mas não está nada definido ainda: na colaboração que fiz para o novo álbum do Phil Manzanera (Roxy Music) decidimos manter Sónia Bernardo. 


Como defines a música que produzes?

Sei lá. Alternativa, 'bluesy'/'jazzy pop'. Grandes influências de 'bossa nova' e do nosso fado. 


Qual é a tua melhor canção?


Hmmmm…acabei de escrever uma ‘Jamie’ e hoje essa é uma das minhas preferidas.


Pensas que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o 'marketing' que tens de fazer para a promover?

Sim, sempre! A música vem sempre primeiro, mas sim, é verdade que hoje em dia temos de ser mais do que músicos/artistas, temos de ter uma mentalidade mais 'business' para conseguirmos ser notados. Não tenho grande jeito ou paciência para promoção mas tenho-me esforçado ultimamente.  


De que revista não te importarias de estar na capa?

Forbes. lol  


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?


GLASTO!!!! É o sonho de qualquer músico. Mas em Portugal talvez o Paredes [de Coura], deve ser dos meus festivais preferidos.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Spotify.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

FLAC, se possível, mas por razões práticas 80% da música que oiço está em MP3. Comecei a minha colecção de vinil há pouco tempo - gosto do ritual.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Acabei de ler hoje 'The Fall' de Albert Camus. 5*****



Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

'Que país preferes: Portugal ou UK?' 



5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Hiatus Kaiyote - Nakamarra: como despertador, ainda não me fartei.
Tame Impala - Mind Mischief: 'falling in love'.
Marvin Gaye - I Heard It Through The Grapevine: 'broken heart'.
Drenge - Backwaters: quando estás a tomar banho e a pensar na vida.
Mariza - Por Ti: quando tenho saudades de Portugal.



TIO




Porquê TIO?

TIO é o Mundo em que existimos. Um lugar para se estar, um lugar para se sentir. Nós estamos como que a sair de alguma caverna estranha ou mundo singular, penso eu. Em breve, com tempo e com as alterações estivais, sairemos cá para fora para cantar e dançar um pouco mais.


Como definem a música que produzem? 



A nossa visão era a de criar um estado de espírito: uma sensação que se perpetuasse por todas as canções que escrevêssemos. Procurámos criar um estado de espírito, um Mundo. Os tons e as texturas são o mais importante para nós. A abstracção, a experimentação e celebração, isto é TIO.



Qual é a vossa melhor canção? 

"Lips Like Wine" foi a primeira canção que partilhámos e permanece nos nossos corações. Os sons, tonalidades e sentimentos representam todos a nossa visão da música. 



Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover? 

A música está sempre primeiro. A tua música define-te. Queremos fazer a melhor música que conseguirmos: esperamos que a forma como as pessoas encontrem e ouçam o que fazemos seja um processo orgânico, um processo liderado pela música. Queremos que as pessoas ouçam, visualizem o imaginário e se liguem ao Mundo que estamos a criar.


De que revista não se importariam de estar na capa? 

Revistas de moda e arte que se identifiquem com a nossa estética. A Clash Magazine estreou o nosso primeiro 'single' e seria óptimo que esse exemplo se repetisse.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?  

O Primavera Sound parece ser um festival muito divertido que apoia concertos mais experimentais e estranhos. Seria um prazer fazer parte da maior parte dos festivais europeus.


Spotify, Pandora ou Grooveshark? 

Na verdade, neste momento não ouvimos música via 'streaming'.


MP3, FLAC, WAV ou vinil? 

É sempre um prazer escutar o vinil. 


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Há sempre uma beleza na forma escrita. Uma ligação textual que achamos íntima e cativante. Os livros permitem imaginar e criar mitos, sonhos, histórias. Ler é belíssimo.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer? 

Todas as questões são apropriadas, a forma como respondemos, autêntica, genuína e fiel a nós próprios, é o mais importante.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.


Sigur Ros - Glósóli: para sonhar e sentir como uma criança
Four Tet - Plastic People: para dançar, contemplando.
Gang of Four - Damaged Goods: para beber 'whisky' sozinho num 'pub'.
Tortoise - Seneca: para guiar por uma montanha em direcção a um campo aberto.
Nicolas Jaar - I Got A Woman: para beber café com os amigos a horas tardias.




Cristobal And The Sea




Porquê Cristobal And The Sea?

Cristobal And The Sea porque, como sabem, Cristovão Colombo é português...ou será espanhol? Mesmo que ele seja de Génova. É um debate intenso entre o João e o Ale no que diz respeito à origem do homem que descobriu a América (e morreu a pensar que tinha descoberto a Índia).


Como definem a música que produzem? 


É uma questão difícil. É, essencialmente, música latina mas, dependendo do género que estejamos a ouvir, tudo isso passa para o que fazemos.  



Qual é a vossa melhor canção? 

Não nos cabe a nós dizê-lo. As nossas opiniões mudam relativamente depressa, especialmente as do Ale, Dr. Jekyll e Mr. Hyde.



Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover? 

De todo (risos).


De que revista não se importariam de estar na capa? 

Good Housekeeping.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?  

Burning Man (João), Primavera Sound (Ale), Solidays (Leila) e BBC Radio 1's Big Weekend (Josh).


Spotify, Pandora ou Grooveshark? 

A Leila gosta do 8Tracks e o Ale usa o Spotify. O João e o Josh não utilizam os serviços de 'streaming'. 


MP3, FLAC, WAV ou vinil? 

Vinil, porque existe sempre aquele prazer de mudar de lado.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

'Control', o 'biopic' sobre Ian Curtis (Ale); ' Walk Hard, The Legend of Dewey Cox' (João), 'Our Band Could Be Your Life', de Michael Azerrad, ou Foo Fighters - Live in Hyde Park (Josh) e 'Bird', o filme sobre Charlie Parker (Leila).


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer? 

Provavelmente 'quais são as vossas influências?'.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.


Animal Collective - What Would I Want, Sky?: 'high on acid'.
Throbbing Gristle - Persuasion: 'high on ketamine'.
CAN - Millionenspiel: 'high on a tall building'.
George Michael - Careless Whisper: 'high on love'.
Bee Gees - Wildflower: 'high on life'.




Crystal Pulse




Porquê Crystal Pulse?

Crystal Pulse é a fusão entre a energia (Pulse) que tentamos transmitir em todas as nossas músicas e a 'pureza', a mais próxima do verdadeiro som 'rock' das nossas composições.


Como definem a música que produzem? 


Enérgica, ritmada e, mais uma vez, 'clara', 'pura' na sua sonoridade. 



Qual é a vossa melhor canção? 

Temos duas empatadas: 'Black Out', editada em 2014, e 'Road Tripper', que saiu no início do ano. As duas correspondem à identidade da banda: 'Black Out' marca a criação do(s) 'Crystal Pulse', é quase o seu hino.



Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover? 

Penso que, hoje em dia, a música e a comunicação são duas coisas ligadas. Hoje, é essencial saber fazer as duas coisas se queremos ser conhecidos, ir mais além. O 'passar a palavra' agora já não chega. Temos de utilizar todos os meios de comunicação actuais se queremos ser mais do que simplesmente ouvidos, se queremos verdadeiramente ser ' escutados'.


De que revista não se importariam de estar na capa? 

Rolling Stone (versão US, de preferência).


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?  

Glastonbury, sem hesitar.


Spotify, Pandora ou Grooveshark? 

Nenhum deles.


MP3, FLAC, WAV ou vinil? 

Vinil (os originais, sobretudo e antes de tudo).


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

A biografia de Keith Richards e os filmes 'Ray' e 'Jersey Boys'.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer? 

Esta mesmo, esta pergunta porque não sei o que hei-de responder (risos).


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.


Placebo - The Bitter End: nos ouvidos, para correr.
Aerosmith - Jaded: para uma saída de mota.
Foo Fighters - The Feast And The Famine: para as noitadas.
H-Burns - Nowhere To Be: para um passeio de carro.
U2 - Where The Streets Have No Name: para fumar um cigarro (um 'verdadeiro') a pensar no futuro.



crosta



Porquê, simplesmente, crosta?

crosta é a camada rígida do planeta onde vivemos. Também é sangue seco numa ferida. Quando dito em português soa bem. É difícil arranjar um nome ... o projecto é bastante influenciado pela natureza, por isso acabou por ficar esse nome.


Como defines a música que produzes?


Algo à volta do 'post-metal', 'post-rock', 'sludge' com uma pitada de electrónica. 


Qual é a tua melhor canção?


Está por gravar, espero que nunca a grave. A parte divertida é evoluir.


Pensas que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o 'marketing' que tens de fazer para a promover?

Um tema complicado. Nem quero pensar na quantidade de música boa que está longe dos holofotes por não estar no sítio certo na hora certa. Primeiro penso na música, depois na música e finalmente na música, as minhas capacidades de 'marketing' limitam-se a usar o Gmail.




De que revista não te importarias de estar na capa?

Não consigo deixar de pensar no catálogo do IKEA...ultimamente só leio coisas 'online'... sinais dos tempos.  


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

sinceramente não sei... como espectador penso que iria ao Lowlands. Mas na realidade o meu plano a curto prazo é ir pelo menos dois dias ao FMM Sines. Sempre que posso lá estou eu - é um senhor festival, aprendes sempre qualquer coisa nova em Sines. Paredes de Coura também costuma ser muito bom .


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Spotify deveria ser desligado até arranjarem termos honestos com os fornecedores de conteúdo. Pandora está bloqueado fora dos EUA. Gostava do Grooveshark como utilizador antes de ter fechado, não sei como funcionava para os fornecedores de conteúdo...vulgo artistas.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Para pegar nas sapatilhas e ir correr, MP3. Para ouvir em casa, FLAC. Para gravar e produzir tem que ser em WAV. Vinil está num processo de decisão... não sei se preciso de mais vícios mas o formato em si é lindo (saudades daquelas capas).


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

De literatura ando a reler alguns clássicos ('Animal Farm', 'O Processo'), nada de novo. Li 'O Mapa e o Território' há uns meses...
De cinema, aderi ao MUBI - tem muita coisa interessante, principalmente documentários. Se puderem, passem de vez em quando no CCB e vejam o museu/colecção Berardo, costuma ter coisas boas e é à borla!


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

'Então e não cantas?' .


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Pink Floyd - Breathe: chegar a casa e limpar a cabeça.
Zu - Ostia: corrida antes do jantar.
Ufomammut - Sublime: 'road trip' nocturna.
Death From Above 1979 - Virgins: festa.
Tool - Right In Two: qualquer um destes...


Esta é difícil: hoje sai esta lista, amanhã sairia outra...




terça-feira, 7 de julho de 2015

LÁ FORA, CÁ DENTRO #8: F U Z E T A - Entrevista

Poucos são os grupos que, com pouco mais de um ano de existência, se podem orgulhar de ter pisado palcos como o Festival Printemps de Bourges, o Festival Les Transmusicales, o Festival Francofolies ou, agora em Julho, o FNAC Live, em Paris. É de Vannes, em França, que nos chega um projeto - com uma forte ligação a Portugal - que conseguiu esse feito: os F U Z E T A, Dorian, Charles-Alexandre, Pierre-Antoine e Jérémy, naturais da pequena aldeia de La-Roche-Bernard. De um sucesso local na Bretanha ao reconhecimento nacional depois de terem vencido o Prémio Ricard S.A. Live Music, temos seguido com particular atenção a ascensão destes indie-poppers contemplativos que se inspiraram, entre outras coisas, na luz e na doçura da Fuzeta, pequena foz de terra do Sotavento algarvio. Sonhos e desejos concretizados, esses parecem não ir faltando.





BandCom (BC): Porque é que atribuíram à vossa banda o nome da aldeia onde o pai de três de vocês nasceu? Porque não escolheram La-Roche-Bernard, a aldeia de onde são originários em França? Já agora, para quem não a conhece, como é essa aldeia?

F U Z E T A: F U Z E T A nasceu de um consenso à volta das nossas histórias pessoais: queríamos transmitir algo que fosse bonito, verdadeiro, solar. Queríamos falar de coisas verosímeis, que vivemos e não projetar-nos através de uma postura ou de personagens fantasmagóricos. Encontrámos a solução nas nossas infâncias respetivas, nesses momentos doces e menos doces que vos forjam, que vos fazem avançar na vida, de que por vezes sentem falta uma vez adultos. Encontramos isso tudo na nossa música: os risos, as lágrimas, a nostalgia das alegrias estivais da nossa infância onde o sol inunda as imagens dos nossos banhos no rio. No que diz respeito a La-Roche-Bernard, teria colado perfeitamente com esse espírito mas a eficácia levou-nos a buscar algo bem mais curto. Fuzeta não é a aldeia onde o nosso pai nasceu (essa confusão nasce do facto de nós termos descoberto esse sítio graças a ele), mas conhecemos a Fuzeta por lá termos estado várias vezes durante a nossa adolescência. Pensámos em F U Z E T A porque evoca o sol, a natureza, algum exotismo e também um lado pitoresco, da "pequena aldeia perdida", que também podemos encontrar em La-Roche-Bernard.



BC: Qual é a vossa relação com Portugal ? Conhecem bandas/artistas portugueses?

F U Z E T A: Conhecemos Portugal desde o início da nossa adolescência. Íamos surfar na Arrifana todos os anos, no Algarve, onde um amigo tinha uma pequena casa na praia. É um país maravilhoso onde a natureza e as paisagens são grandiosas. Desde há uns anos para cá, o nosso pai instalou-se em Almada, na margem sul do Tejo. Vamos lá de vez em quando passar uns dias para desfrutar da doçura lisboeta e das inúmeras riquezas da capital. No que diz respeito à cena portuguesa, não estamos muito a par. Conhecemos alguns grupos graças a Frank Darcel que durante uns tempos viveu e trabalhou em Portugal. É da Bretanha e beneficia de uma imensa "aura" na nossa zona porque é um dos fundadores com, entre outros, Marquis de Sade, da cena de Rennes do início dos anos 80.


BC: São um grupo relativamente jovem, o vosso primeiro espectáculo ao vivo ocorreu em Novembro de 2014…e desde então, são muitos os media franceses que apostam em vocês. Como explicam essa recepção e o sucesso que alcançaram localmente em tão pouco tempo? É o fruto de um trabalho árduo nos bastidores?

F U Z E T A: O nosso primeiro concerto foi no dia 8 de Novembro de 2014 no festival "Les IndisciplinéEs" mas não foi a primeira vez que tocámos o nosso set. Uma estrutura de Lorient (MAPL) acompanha-nos desde Dezembro de 2013. Esse apoio traduziu-se em períodos de trabalho em palco, no Manège, onde pudemos trabalhar e ensaiar os nossos temas. Também permitiu-nos beneficiar de intervenientes qualificados no que diz respeito ao canto, à gestão do palco mas também de conselhos permanentes sobre a promoção, os obstáculos a evitar e todas as coisas importantes que os jovens grupos nem sempre conhecem. Trabalhámos sempre com pessoas que nos permitiram preparar-nos da melhor das formas antes de sair da sombra e que sobretudo, ainda hoje nos permitem apreender da melhor das formas o Mundo no qual avançamos. No que diz respeito ao feedback positivo do público e dos media, estamos felizes que a nossa música consiga tocar as pessoas. Dá-nos ainda mais força para que o que aí vem seja à altura das suas esperanças.


BC: Uma das vossas primeiras grandes conquistas foi a vossa presença no famoso festival Les Transmusicales em Rennes. Como correu?

F U Z E T A: Foi vertiginoso. Um dos maiores festivais de novos talentos do Mundo e nós, com os nossos cavacos e os nossos 7 primeiros concertos a tentar "acender a fogueira"! Foi bastante intenso, o concerto correu bem, havia gente, as pessoas estavam contentes e nós ainda mais. Estamos muito gratos à organização do festival que nos acolheu maravilhosamente no palco do L’Etage e o resto do fim-de-semana. É muito importante para os grupos, sobretudo quando são jovens e ficam um pouco impressionados com o gabarito da coisa. Foram todos amigáveis, atenciosos e prestáveis connosco, à imagem do nosso encontro com Jean-Louis Brossard, caloroso e entusiasta acerca da nossa participação no festival. Um imenso obrigado a eles todos.





BC : Como se sentiram depois da vitória no Ricard S.A. Live Music?

F U Z E T A: Estamos muito contentes! Todo o dispositivo que nos acompanhou e os meios que a equipa do Ricard S.A. Live Music pôs ao nosso dispor ao escolher-nos foi enorme. Acelerou muito as coisas. Esperamos sobretudo desfrutar dessa exposição para encontrar um editora, um booker que se ocupe de nós no futuro. Estamos nas nuvens. Que grupo nunca teve o sonho de tocar em todas estas salas, com bastante público, quando ainda só está a dar os primeiros passos?


BC : Como é que se prepara um concerto quando editaram apenas 3 músicas? Optaram pelas 'covers' ou ofereceram aos vossos primeiros fãs músicas inéditas - algumas delas incluídas na segunda parte do EP que saiu em Maio - ou que se calhar nunca vão ser editadas? Se assim for, os vossos primeiros fãs foram uns privilegiados…

F U Z E T A: Ao vivo tocamos 11 músicas. São todas criações nossas que permitem a quem nos vem ver descobrir muitos temas que ninguém encontra na Internet: há, obviamente, as outras músicas do EP que saiu em Maio mas também temas que nem sequer gravámos. Estamos a trabalhar atualmente para apresentar um set rico para as próximas datas. Adoramos oferecer ao público algo único, sem falar em privilégios, mas queremos que a experiência vivida pelas pessoas nos nossos concertos seja marcante e o mais emocional possível. Por exemplo, tivemos a sorte, no festival Les Transmusicales, de participar com uma escola de música do Pays de Rennes e um projeto com alunos que vinham adicionar percussões, ventos ou canto. O resultado foi uma representação única num pequeno teatro. Foi intenso! As crianças pareciam mesmo felizes e nós estávamos felizes por termos criado algo novo e diferente com a nossa música. O público presente sentiu esse lado “mágico” daquele instante e ficaram todos com ótimas recordações.


BC: Parecem estar muito ligados, com um espírito que diria quase familiar, com muitas memórias e histórias em comum… Pensam que o vosso grupo podia contar uma história próxima da que nos propõem se não tivessem vivido todas estas coisas juntas quando eram pequenos?


F U Z E T A: F U Z E T A chegou numa altura em que estávamos preparados para fazer uma música autêntica e interessante todos juntos. A história que contamos é parecida connosco mas a dimensão dos temas que trazemos connosco - a infância, a fraternidade, a nostalgia... - é universal. São coisas que existem em toda a gente e pensamos que cada um pode encontrar na nossa música uma ideia, uma emoção que o pode tocar.


BC: Quando lemos as vossas entrevistas, sentimos em vocês uma certa proximidade com  a natureza, como se quisessem fazer um paralelo entre ela e a vossa infância, à volta de temáticas como a proteção, a inocência, as relações com os seres vivos. Tudo isto é pensado ou nem por isso ?

F U Z E T A: Crescemos na Bretanha. É um sítio esplêndido. As luzes variáveis, as paisagens dignas de postal, o oceano em movimento perpétuo, a natureza sempre próxima, bonita e intrigante… tudo isso influenciou-nos e, mais ou menos conscientemente, construiu-nos. Os dias onde o sol desvanece e deixa de repente uma sombra que escurece e estoura, aquelas tempestades invernais potentes que nada pode parar, aquela pequena brisa de Verão que leva o sal do mar até às aldeias mais próximas… todos estes contrastes, essas cores, consegues encontrá-las em F U Z E T A. Por exemplo, a intro íntima de "Ferns", seguida por aquela subida que te leva até ao fim, onde as ondas das guitarras despenham-se por cima dos toms da bateria. Mesmo se isto acabar por ser um pouco cliché, podemos dizer que não falamos da Natureza nas nossas canções mas que é a Natureza que fala através nós.





BC: O que se sente por momentos no videoclip realizado por Mathieu Ezan...
Podem dizer-nos mais coisas sobre ele e sobre o seu passado no Mundo da música? Porque é que o escolheram?


F U Z E T A: No que diz respeito ao videoclip há uma história interessante: foi realizado no jardim da nossa infância. O rochedo do fim é o mesmo de onde saltávamos para o rio quando éramos putos. Isso resume bem a ideia de que, mesmo sem sabê-lo, uma sensação de autenticidade desprende-se dessas imagens em coerência com a música. Mathieu é um amigo de infância do Jérémy. Conseguiu, ano após ano, impor-se como uma referência no meio das músicas mais extremas, em termos de fotografia (live e imprensa) e mais recentemente na realização de videoclips. Pensámos nele porque é muito bom e sobretudo sensível àquilo que fazemos, à nossa música. Falámos longamente do universo que queríamos pôr em relevo e rodámos no final do Verão passado. Ainda não tínhamos a gravação de “Dive” mas queríamos que a luz do Verão estivesse presente: esse lugar e essa luz evocam o que é F U Z E T A para nós.


BC: Quais são as vossas influências musicais, cinematográficas? Que tipo de música acham que fazem e porquê?

F U Z E T A: O "conteúdo" é para nós a base de tudo: pouco importa a forma se a história está presente, é autêntica e inteligível.
Ouvimos muita música que em geral não tem grande coisa a ver com a estética dos F U Z E T A. Este grupo nasceu porque queríamos contar uma história, a "forma" que foi tendo aos poucos impôs-se sem termos pensado muito nela. Com alguma distância, diríamos que fazemos pop ou indie-pop. Os grupos aos quais nos comparam são oriundos da cena indie-pop americana como The Shins ou Grizzly Bear - agradecemos o elogio mas, para sermos honestos, não ouvimos muito esses grupos. Para o lado cinematográfico, tentamos que a nossa música seja expressiva, o mais humana possível, com laivos de grandes espaços e de ternura: temos de imaginar uma mescla entre "Era Uma Vez no Oeste" de Sergio Leone e "Her" de Spike Jonze.



BC: Onde foi gravado o EP ? Quais são as vossas ambições?

F U Z E T A: Este EP, composto por 6 temas, foi gravado no estúdio La Senelle, em Laval, com Amaury Sauvé. Sabíamos que ele tinha uma maneira de abordar as coisas muito particular e, sobretudo, de captar o som da bateria como pouca gente sabe fazê-lo. Foi um momento verdadeiramente intenso.. conseguiu captar esses momentos raros que fazem de um grupo mais do que a simples adição dos seus membros. Depois, fomos ter com Sébastien Lhoro (AGM Factory – Near Deaf Experience) para o mastering e aí encontrámos uma pessoa única, qualificada e sensível ao nosso universo. Entre a riqueza humana dessa aventura e o resultado final dos masterings, estávamos impacientes de poder ter nas nossas mãos o objeto final. Depois do lançamento, gostávamos de fazer muitas coisas: compor novos temas, encontrar uma editora para concretizar o nosso primeiro álbum...e claro, continuar a nossa tournée, agora via as Ricard S.A Live Sessions.


Mickaël C. de Oliveira




domingo, 28 de junho de 2015

CAVE STORY - "Spider Tracks" (2014, Ed. Autor)



Das Caldas, lugar onde a arte é Rainha e prolifera mas nem sempre impera, vêm os Cave StoryO EP "Spider Tracks", lançado em Dezembro de 2014, catapultou a banda para 2015, e de que maneira. Eles que até então tinham publicadas algumas demos muito interessantes (oiçam "Ghost Steps!) e o single "Richman", mas com pouca projecção. "Spider Tracks" foi, de facto, a rampa de lançamento para um reconhecimento muito maior que teve início no último Vodafone Mexefest, em Lisboa, no qual tiveram a oportunidade de tocar. E esse reconhecimento é merecido. É merecido tanto pelo trabalho artístico desenvolvido como pelo risco que fazer música como esta em Portugal acarreta. 





"Cleaner" abre rápido e vai directo ao assunto: estamos perante uma banda que não tem medo de falar quando quer falar, cantar quando quer cantar. Se for preciso bater na tarola em todos os tempos, que seja. Se for necessário incluir barulhos estranhos lá no fundo para a música ganhar alma, assim seja. Não é preciso mais, e assim acaba em 2 minutos e meio um bom início de EP, bem escolhido como introdução, sem dar tudo a quem ouve. Por outro lado, "Southern Hype" é uma música com bons riffs. Ficam no ouvido e são aproveitados e enfatizados num final prolongado de intensidade crescente. A voz acompanha bem, a música é boa, mas é talvez a mais desinteressante do álbum.

Depois de um pequeno tropeção, "Buzzard Feed" volta a agarrar. Novamente, riffs repetitivos e bem esgalhados mas com uma letra e interpretação vocal muito mais provocadora e rica. Pormenores de guitarras saturadas e atonais agradavelmente perturbadoras. Barulho com intenção e bem construído. Baterias imprevisíveis e um final forte. E "
Fantasy Football" é daquelas em que se pensa “porque não fui eu que fiz isto?”. Dá para pôr em repeat, encostar e pensar na vida. Quem gosta de Pavement e passa pela "Gold Soundz" não consegue pô-la a tocar pelo menos mais uma vez. Foi o que senti com esta música: simples, eficaz. Uma pérola que se apanha no ar de vez em quando.





Quase a fechar, "Hair" é a melhor música do álbum e junta tudo o que todas as outras músicas têm de bom numa só sem soar desconjuntado. Rápida, melódica, barulhenta, voz confiante e suja, não se percebe bem se quer agarrar a música ou fugir dela... imprevisibilidade. E depois o final. Este final é das melhores coisas que já se fez nos últimos anos na música portuguesa. Escutem.

Aos que querem soar a Tame Impala ou ao que quer que o vento sopre, oiçam os Cave Story. Citando Billy Corgan (que no meio de muita parvoíce diz coisas boas), o rock n roll é "destruição" e é dela que vive. Pedro Zina, Ricardo Mendes e Gonçalo Formiga soam honestos e sem merdas.
Não constranger a arte e pô-la cá para fora sem medo é de valor e talvez daí o seu sucesso, talvez tão inesperado para eles como surpreendente para muita gente. As influências estão lá e são para ser mostradas - não digo, portanto, que seja original na forma, mas no conteúdo é e isso marca a diferença. Basta ouvirem. 

"Guess We Could Feel Better About Worse".

Hugo Hugon




sábado, 27 de junho de 2015

JOANA REAIS - Entrevista

Joana Reais Pinto está à beira de completar 30 anos de vida e a sua biografia faz inveja a tão pouco tempo de vida. Um percurso que começou pelo jazz e que já a levou a trabalhos com vários artistas, coreógrafos, músicos, bailarinos e compositores quando enveredou de uma forma cada vez mais intensiva pela combinação da voz e do movimento com o teatro e a dança.
Desdobra-se em workshops e conferências que ministra e numa miríade de projectos musicais, mas é com o seu ensemble que decide finalmente colocar cá fora temas originais em que já o jazz é, de forma abnegada, uma das ferramentas que utiliza dentro do universo da música do Mundo que quer começar a descobrir melhor no Brasil onde agora está radicada.
Pelo meio, a história de um acidente aos 22 anos numa viagem de comboio.
Um pequeno apontamento para a força de vontade de quem quer multiplicar o que o seu talento alcance. Enquanto tudo o que Joana Reais fizer for a apontar para esse objectivo, ninguém da relação Joana Reais-público se quererá perder do outro.   




BandCom (BC): Em que momento é que te decidiste, entre a música, a dança e o teatro, por seguir a veia musical? E em que momento decides enveredar também por juntar músicas originais?

Joana Reais (JR): O momento inconsciente em que decidi tornar-me cantora foi provavelmente aos meus 6/7 anos de idade quando preparei um espectáculo musical na casa da minha bisavó para a família e adorei toda aquela emoção e a atenção dos outros sobre mim. A música sempre fez parte da minha vida e, em particular, o canto. Dentro da minha formação, tive a sorte de ter uns pais que se aperceberam de que a filha tinha “queda para as artes” - daí ter estudado dança e teatro -, mas a música sempre foi a primeira opção. Quanto a originais, esse passo dá-‐se mais recentemente, há cerca de um ano e meio, fruto de um caminho feito a cantar standards de jazz (que, naturalmente, são em inglês) e de ter pensado que tinha chegado a hora de me desafiar a cantar na minha língua, em português. Daí até ao desafio dos originais foi um pulinho.


BC: Todavia, alguns dos teus projectos já espelharam uma ligação bastante forte entre a música e outras artes. Como é que vês a ligação da música com outras artes? É fácil encontrar um meio­‐termo entre o que apela mais às massas ou mais a um consumo mais demorado?

JR: Sem dúvida de que aquilo em que eu mais acredito é num território artístico que pode – e deve! – ser contaminado por várias linguagens artísticas. Lembro‐me de comentar, quando estava nas Belas­‐Artes, que a faculdade também tinha cursos de Artes Plásticas pois, no dia-a-dia em Design, quase que nos esquecíamos dessa realidade devido à forma como o próprio edifício estava estruturado (Pintura e Escultura na cave, os serviços da Universidade no rés-­do-­chão, Design de Equipamento e de Comunicação no primeiro andar) e só nos lembrávamos que tínhamos colegas pintores e escultores quando as pausas do almoço coincidiam. Talvez tenha sido nesse momento que me apercebi de que uma maior comunicação entre as várias disciplinas beneficiaria toda a comunidade escolar e, sem qualquer dúvida, as próprias soluções artísticas encontradas pelos alunos. Desde então, tenho tentado encontrar esse campo aberto, fluido, que contamina e é contaminado não só pela música como pela dança, pela pintura, pela fotografia... o que não é fácil. No entanto, dentro das performances que tenho apresentado, onde misturo, sobretudo, as linguagens da Voz e do Movimento, o feedback tem sido sempre muito positivo. Diria que surpreendentemente positivo, o que me faz continuar nesta busca, mesmo tropeçando de vez em quando.

BC: Como é que se dá a tua ida para o Brasil? Em que é que essa estadia te tem ajudado a progredir na tua carreira?

JR: Acredito que a minha ida para o Brasil se começa a formular há muito tempo, desde os tempos em que ouvi as composições de Chico Buarque e me apaixonei, em que ouvi a voz de Elis Regina e me rendi, em que conheci alguns artistas da bossa nova, do samba e da MPB e os comecei a admirar, em que comecei a tocar com músicos brasileiros e me senti compreendida e estimulado de uma forma que não tinha acontecido até então. Sempre soube que, um dia, o meu caminho haveria de passar pelo Hemisfério Sul e, agora que aqui estou a concretizar objectivos profissionais e pessoais, acredito que o objectivo de gravar o meu primeiro disco está mais perto de acontecer.


BC: Apesar de teres aperfeiçoado mais o teu percurso no jazz, o teu primeiro EP “A Lisboa” está muito mais centrado na música do Mundo e especialmente. Pensas que o teu caminho até chegares a determinadas sonoridades que não o jazz seria o mesmo se não tivesses estudado jazz antes? O jazz foi deixando de ser um fim em si mesmo para passar a ser um meio para “algo mais”, mais livre?

JR: Sem dúvida, concordo completamente com a última afirmação: com o passar da minha carreira e com a experiência que fui ganhando enquanto pessoa e enquanto cantora, fui percebendo que o jazz, essa extraordinária escola onde tanto aprendi, não tinha que se encerrar em si mesmo – lá por ter estudado jazz, não significa que só cante temas dentro desse estilo! – e acredito que o meu desembarque na sonoridade das “músicas do mundo”, por um lado, tem tudo a ver com a pessoa que sou, com a forma como fui criada (com uma avó moçambicana e uma avó portuguesa), com o facto de ter nascido em Arroios e morado em Alfama, com aquilo que de mais genuíno e quente me apaixona na vida mas, por outro lado, sem o percurso no jazz, não teria conhecido os músicos com quem toco e as influências seriam certamente outras, assim como o resultado final.




BC: Consegues estabelecer algum tipo de comparação entre Brasil e Portugal no que diz respeito a públicos? Isto é, achas que poderias apresentar todos os teus projectos musicais em Portugal e no Brasil com o mesmo tipo de recepção?

JR: Embora Portugal e Brasil tenham todo um oceano a separá­‐los, e por muito que algumas pessoas estranhem ou até discordem, o facto é que falamos a mesma língua, a Língua Portuguesa. É certo que com sotaques diferentes, mas em português. Por essa razão, acredito que os meus projectos musicais assentes nas músicas do mundo estão aptos a serem apresentados nos dois países e, por não ser tão usual este tipo de linguagem no Brasil, tenho sentido um enorme impacto no público brasileiro. No entanto, espectáculos mais performáticos acredito estarem mais democratizados em Portugal, o que não deixa de ser um desafio nesta minha estadia pelo Sul do Brasil.

BC: Existem cada vez mais públicos, mais artistas e mais formas de os artistas procurarem mostrar o seu trabalho e aprenderem sobre outras perspectivas. Já estiveste em Terena, no Alentejo, numa residência artística a convite do Projecto Lamparina. Para além de residências artísticas, workshops e outras formas de exploração artística até integradas entre si, que outras iniciativas, mais ou menos alargadas, veria com bons olhos uma Mestre em Artes Performativas como tu que existissem mais assiduamente para estimular e aperfeiçoar o crescimento dos artistas?

JR: Gosto muito do formato da residência artística. Acho extraordinário que se possa reunir um número de artistas no mesmo espaço onde, para além de criarem algo, convivem, partilham refeições, conversam, trocam experiências... Acredito que os resultados finais saem bastante mais ricos do que se estivesse cada um no seu lugar, a criar isoladamente. No fundo, acredito numa maior contaminação entre arte e vida e penso que quanto mais diversificada for essa contaminação melhor: imagine-­se uma residência não só para artistas, mas também para médicos, bombeiros, engenheiros, economistas... que resultados incríveis poderiam sair desse caldeirão de experiências?


BC: O que é que mais te atrai a atenção num tema que ouças?

JR: Para te dar uma resposta genérica: o arranjo do tema. Numa resposta mais específica: a linha melódica e a sua interpretação. A voz. A respiração, a dicção, a emoção.


BC: Lembras-­te do espectáculo que mais gostaste de dar?

JR: Um dos espectáculos que mais gostei de dar foi no Terraço da Associação dos Amigos do Minho, ali no Intendente, a convite da programação de Verão do Espaço SOU, em 2013. Cantei acompanhada pelo Múcio Sá na guitarra e apresentámos repertório da nossa “guaramiranga”, um duo que foi criado para viajar pelos caminhos das músicas do mundo influenciados pelo tango, pelas mornas, pelo fado, pela bossa nova... Foi um concerto muito bonito, num local simples mas com uma vista de cortar a respiração, o horário foi muito bem escolhido, pois começámos a cantar era ainda dia e terminámos à noite, um público extremamente atento e generoso... foi mesmo muito bonito.



BC: A uma pessoa com mobilidade reduzida erguem­‐se muitas barreiras. Se essa pessoa decide seguir os seus objectivos pela via artística, ainda mais barreiras se erguem ao longo do seu caminho. Porém, a relação do público em geral com quem mesmo assim tenta ser bem sucedido é esquizofrénica: tão rapidamente aplaude e lhe presta atenção, muitas vezes por razões exteriores ao seu talento, como passivamente deixa que tudo ou quase tudo caia no esquecimento. Existe, em primeiro lugar, alguma altura na tua vida em que se pára para pensar ao colocares­te nos sapatos de outros artistas? Sentes­‐te ainda mais realizada pelo teu percurso?

JR: Bom, eu sinto imenso orgulho no meu percurso. Efectivamente, sou uma pessoa com mobilidade reduzida, ou seja, sofri um acidente que me condicionou a locomoção, alterando os meus hábitos de vida do preto para o branco. Esse foi um momento para parar, reflectir, olhar para dentro e perceber quem era e o que queria fazer. Felizmente, o acidente que sofri não me retirou a habilidade de cantar nem a capacidade intelectual para me dedicar àquilo que mais gosto de fazer, que é a performance artística. Hoje, agora, olho para trás e vejo inúmeros motivos de orgulho, em mim, nos outros, nas minhas conquistas e também nas derrotas, que me dão oportunidade para crescer. Colocarmo-­nos nos sapatos dos outros nunca é fácil, mas é extremamente recompensador.


BC: Onde é que se dão as maiores lições: nos palcos ou quando te pedem para falar aos outros?

JR: São lições diferentes... nos palcos, a comunicação é mais para dentro de cada um, enquanto que ao falar aos outros a comunicação é direccionada para o todo e aberta à troca de experiências. Acredito que quando existem trocas surge um sem número de possibilidades de crescimento e de fazer futuro, que é o maior ensinamento que podes dar a alguém.


BC: Com quase 30 anos neste momento, o que gostarias de fazer até aos 40 que não fizeste até agora?

JR: Adoraria conhecer Moçambique, onde se encontra parte das minhas raízes. Espero ter a oportunidade de conhecer o país e, quem sabe, partilhar a minha música!


André Gomes de Abreu




quarta-feira, 24 de junho de 2015

DE E POR - TIO REX - "Ensaio Sobre A Harmonia" (2015, Biruta Records)

Intrigados por Miguel Reis aka Tio Rex não ter já passado por cá com maior insistência?
Não seja por isso. Saiu há cerca de um mês "Ensaio Sobre A Harmonia", o novo trabalho do intérprete e compositor setubalense que continua a procurar as suas nuances preferidas entre um trajecto tão clássico mas também tão actual.

Nada de pretensiosismos - sabemos que gente que gosta de se exprimir atacando precisamente o que é mais difícil de materializar também não pretende ser "simplezinha" - mas o título não é nenhum tratado ou declaração de intenções grandiosas. Segundo o próprio, esta é tão somente a continuação da sua carreira e, mais precisamente, do seu anterior EP "5 Monstros".
Cada um destes 8 novos temas reflecte, diz, "um estado de espírito diferente", "texturas", "estéticas" e "ambientes diferentes". Uma espécie de banda-sonora para quando pensar sobre "palavras, pessoas, gestos, acontecimentos" ao nosso redor não é demasiado e o Mundo disso também se pode fazer, confrontando um excesso de "robotização" com "o que faz de nós humanos". Transpondo para a realidade pessoal do Tio Rex, o Narrador Polícia, é uma busca pela sua própria "harmonia" antes que os dias terminem. Ei-la.





BOM DIA! e outros pensamentos

Como quase todos os meus discos até agora, este também começa com um instrumental. É o início da viagem e, para tal, recorri a uma composição de guitarra, que criei originalmente para a banda-sonora de uma peça de teatro de um amigo, na qual participei em 2014 – e que dá o título ao tema –, sobreposta a uma 'cassette' com uma gravação dos meus pais a falarem comigo, quando tinha 2 anos, e que eles guardaram até hoje (e agradeço-lhes por isso: Obrigado Mãe e Pai!!!). Este tema representa o despertar físico. 


O Despertar da Alma    
    
Sendo o “ganhar de consciência”, este tema faz a transição do plano físico para o plano do pensamento e do sentimento. Assim, sempre o imaginei como um tema que pedia um   ambiente delicado e épico ao mesmo tempo – materializado pelas várias camadas de cordas compostas pela dupla de meninos-prodígio que são a Gallantry (João Máximo e Bruno Mota) que com enorme mestria produziram o disco –, e um mote simples e directo: “A Salvação do Coração Não Se Aprende”.    

    
Emancipação  
    
O grito de soltura do disco, “Emancipação”, representa o choque do “eu” com o Mundo. É o desprender das amarras da sociedade, que nos tende a empurrar para certos caminhos, muitas vezes sem nos dar a hipótese de nos perguntarmos a nós mesmos quem somos e para onde queremos ir. Nesse sentido, sempre achei que faria sentido ser um tema que fosse beber aos meus tempos de adolescência, muito marcados por concertos e consumos musicais de cariz mais pesado e na onda do 'post-­‐hardcore'. E, como    tal,   fez todo o sentido convidar o Davide Lobão, companheiro com quem partilhei mais palcos e que tem um disco novo excelente, em nome próprio, aí a rebentar, a dar-­lhe forte na guitarra eléctrica. Volta Bisonte! ‘Tás    perdoado!!!       
    
(Ressalva: O Bisonte era a banda em que o Davide era vocalista e que nunca deveria  ter acabado. Não tenho por natureza atribuir títulos de gado a ninguém...)    

    
A Travessia    
    
Metáfora para a caminhada solitária que é a vida. Onde, por muito que estejamos rodeados de pessoas no plano físico, no âmago amamos, sofremos e sorrimos sempre dentro do nosso peito. Para tal recorri à imagem de alguém que navega num barco enorme mas sozinho. As incríveis manas Falcão aka Golden Slumbers, com as suas   doces vozes e harmonias singulares, representam as sereias que atormentavam os marinheiros nos antigos contos épicos dos mares. Como uma presença constante a relembrar o sujeito de que, depois de viver tudo, o fim é garantido.     

    
Reflexão  
    
Uma  pausa para “respirar”. Não merece ser explicada mas sim ouvida e sentida.    

   

O Que O Tempo Destrói    
    
Um brinde aos que perdi. Vou a caminho (e levo um banjo)!    
    

A Cura    
    
“A Cura” representa a compensação de pensamentos e eventos menos positivos, através do tomar de riscos, em busca de algo melhor. Ilustra a passagem da zona de conforto para o desconhecido na esperança de um amanhã mais bonito e luminoso. Aqui, os “meus irmãos” e conterrâneos Um Corpo Estranho fizeram um trabalho exemplar, que já lhes é característico, na materialização sonora da entrada no desconhecido. Além de grandes amigos, são pessoas que admiro imenso e, por serem donos e senhores da estética que lhes é própria, nunca tive dúvidas que seriam as pessoas certas para dar cor a este tema. Mesmo que essa cor seja o preto.  
    
    
You’re My Machine And So Much More  
    
Já  dizia Virgílio: 'omnia vincit amor'. O amor e o clarinete do meu amigo Zé Miguel Zambujo.    




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