quinta-feira, 24 de Julho de 2014

BORN A LION - "III" (2014, Omnichord Records/Raging Planet/Levemusic)




Formados em 2006, provindos da Marinha Grande, os Born A Lion serão, a esta altura desconhecidos apenas para os mais desatentos. Desde cedo que a banda não se mostrou rogada, e muito menos teve algum problema em assumir as influências por detrás do som do power-trio. Black Sabbath, Led Zeppelin, Deep Purple ou Cream são algumas das fontes de inspiração adotadas pelo coletivo e, igualmente, aquelas que se fazem ouvir de forma mais proeminente. Com referências desta qualidade já se tem um bom ponto de partida para se ficar pelo menos com vontade em conhecer melhor o coletivo e a música que pratica.







A caminhada do trio começou em 2006 com o lançamento de "John Captain", a que se seguiu "Bluezebu", em 2009. De um álbum para o outro manteve-se uma espécie de matriz blues em torno da qual orbita a maioria dos temas e assistiu-se, igualmente, a um aumento da intensidade dos mesmos para que não restassem dúvidas que é o rock quem dita as leis. "III" é, como o próprio título indica, o terceiro longa-duração do trio composto por Rodriguez (baterista-vocalista), Nunez (baixo) e Melquiadez (guitarra). É também o disco mais direto  e intenso da banda. Aqui não há espaço para baladas, grandes demonstrações de técnica ou arranjos complexos. Goste-se ou não, em "III" é-nos servido rock. Cru e duro, como devia ser sempre.




É impossível ficar indiferente à robustez e ao ritmo contagiante incutido ao longo de todo o disco. Os ingredientes são muito simples: guitarras distorcidas, sujas e ensurdecedoras, voz aguerrida, riffs com toneladas de peso e um groove que nos agarra do primeiro ao último instante. Do stoner rock de “Heavy Load” ou “Down By The River”, passando pelos interessantes breakdowns de “No Mercy At All”, pelos riffs doom de “Black Pope” ou ainda pelo rock direto de “Evil Machine” e “Poison”, temos em "III" um conjunto de temas para serem ouvidos com o volume no máximo e que decerto não desiludirão os fãs do rawk 'n' roll. São edições como esta que provam que o rock 'n’ roll está, de facto, vivo e de muita boa saúde. Venham mais!
Hugo Gonçalves





segunda-feira, 21 de Julho de 2014

DE E POR: ye77a - "Silver Cord" (2012, Ed. Autor)

ye77a será naturalmente um nome desconhecido para quem conhece mais novos artistas pelo mundo dos espectáculos ao vivo; não tanto para quem está mais habituado a utilizar as novas tecnologias para o fazer, muito menos para quem não concebe que música, teatro e cenografia possam estar totalmente desligados.
"Silver Cord", "um fio prateado que se descreve em viagens astrais que ligam o corpo celeste ao corpo físico, como um cordão umbilical", é o disco mais próximo do formato "álbum" tradicional e também o mais recente que se conhece deste projecto e em que se reúnem as inspirações, mensagens, ambientes sonoros de um filme, "Back & Forward", e de uma ópera, "Esforço do Reflexo", onde as personagens Ruby e a sua sombra, Shadowman, exploram o que é acordar num sonho difuso, que não controlam mas de que esperam sempre sair para a realidade.
Música para fazer dançar a mente entre várias questões e adormecer o corpo, entre as flutuações do techno e melodias da música clássica: é esta a proposta de Daniela e Kako, para conhecer, de seguida, faixa por faixa pelas palavras de Daniela.






Tears Are Not Fears

Em "Tears Are Not Fears"  queria um inicio quase fantasmagórico onde se perde o medo dos medos antigos; é o acordar dentro do sonho onde tentamos reagir dentro de um novo mundo…escuro.


The Comet Song

"The Comet Song" é uma música que podia estar em qualquer sitio no álbum, o ritmo e a mensagem são claros: "deep inside she knows, she is a comet …" 


Kiss of Trust

Em "Kiss of trust" queria  uma fusão entre um barroco clássico e heavy metal; o beijo é como se fosse um pacto de confiança, confiar é o mote: "trust the kiss".


Fake Lie

"Fake Lie" fala sobre os monstros de luz...os meios de comunicação, a TV, rádio, filmes, etc...que nos mentem e preenchem com ideias que não são nossas...o drama reinstala-se no sonho.


You Try 2 Try

"You Try 2 Try" é uma conversa entre a mente e essas ideias e mentiras recebidas através dos monstros de luz; a revolta do sonhador é real, os monstros são exorcizados.


The Size of My High

"The Size Of My High" é um momento importante: falo de falsas expectativas, quando alcançamos algo mas não pelos nossos próprios passos e se quisermos encontrar o caminho do "eu" temos de reverter o tempo e voltar ao ponto de partida, recomeçar o sonho, re-acordar.


Dancerina

"Dancerina" é obviamente uma musica de caixinha de música: a corda é puxada, a música é hipnótica, a Bailarina rodopia na melodia. Inspirada na metáfora que é a bailarina clássica, uma imagem de beleza absoluta, que representa muita dor física para a bailarina, uma dor invisível ao espectador. Na música ela inspira o sonhador a dançar, a sonhar...mesmo com dor há que continuar.


Gueixa

"Gueixa"  é mais uma metáfora de beleza e ritual de quem está ao serviço de outros para agradar mas que representa  muita disciplina  e algum auto-sacrifício para tal:  o ambiente é minimal, numa batida constante que deixa espaço para uma receita quase culinária em ritual de como construir a nossa montanha a ser subida, ou o nosso real objectivo aqui e agora.


Body of Work/Dream OUT

"Body Of Work" e "Dream OUT" são duas músicas que podem ser explicadas no mesmo parágrafo: o sonho acabou com "Gueixa", o sonhador já sabe…tem de recomeçar, tem de acordar. Acordar é o tema desta duas músicas, um acordar da mente; tentar alcançar quem dorme este sonho sem que se esqueça do sonho…que é no fundo uma aprendizagem. Sonicamente, estas duas musicas são como correr sem gravidade. 


Silver

Na ultima música, "Silver", já estamos a caminho do acordar, mas ainda não [acordámos]; já sabemos que temos de acordar, algo que no início do sonho não era claro - pelo menos o que representava esse "acordar" - em "Silver" já estamos a sair deste disco. O ambiente é quase de começo de um disco, uma celebração da luz, da nossa luz, talvez uma viagem astral com um final feliz.




sábado, 19 de Julho de 2014

FRANCIS DALE - "Lost In Finite" (2013, Ed. Autor)





Uma viagem ao finito da vida. É assim que Diogo Ribeiro, mais conhecido como Francis Dale, descreve o seu EP. "Lost In Finite" é o seu primeiro trabalho publicado e podemos dizer que começou da melhor maneira. Já tendo algum reconhecimento pelas covers que faz no seu canal de Youtube, este era o seu próximo passo para se afirmar no panorama português. Fazendo música que diz ser influenciada pela Motown, Jeff Buckley e principalmente pela vida em si, a aposta recai numa sonoridade calma que nos inspira uma vontade de fechar os olhos e sorrir. Dominada pelos ritmos lentos e bem assentes, a sua música e não nos larga facilmente e é ainda complementada por uma poesia cheia de coração e alma.

















A primeira faixa, “Retrospect”, é o exemplo perfeito. Quase como um paradoxo musical, todo o instrumental parece querer dar certezas, enquanto a letra faz questionar, e a faixa desenvolve-se com a mesma maré de sentimentos, simplista mas profunda. De notar o bom trabalho nos teclados e na colocação da voz.
A partir da segunda faixa repara-se numa pequena mudança de atitude, mais intimista e mais soul: “Burning” transparece o amor ardente reconhecido por artistas como Marvin Gaye em música dirigida pelo ritmo mais acelerado, o coração; pela guitarra bluesy, a respiração; e pela voz cheia de emoção, o toque. Temos assim o retrato de paixão transmitido na dimensão musical de Francis Dale.

“Pie In The Sky” continua com o que a faixa anterior deixou pendente, a declamação de uma paixão que nos dá e tira vida, mas desta vez com o pesar do que foi e já não é. O início do fim não mostra raiva mas sim melancolia, que está, de certa forma, em paz consigo própria. Aqui conseguimos ouvir o apogeu da guitarra como uma forma de expressão, chorando quando a voz já não consegue retratar a emoção presente. O instrumental em si não é melancólico mas sim de uma extrema serenidade, o lado calmo da tempestade. “Overture”, a última faixa, é o começo e o fim desta viagem. Feita de nostalgia, fecha este EP com um encanto natural. Francis deixa que as palavras o capturem e que falem por si, quase como um convite para repetir a audição de todas as músicas. O sujeito musical, dentro do seu pesar, é invadido por todos os pensamentos e deixa-se dominar sem medir as consequências. Não é um final trágico, mas sim uma redenção cheia de beleza.





Ao todo, são quatro faixas, um EP, uma história. Chegamos ao fim a pedir, a ansiar por mais uma amostra do talento deste artista. Com uma noção instrumental que, apesar de não ser particularmente inovadora, transmite bem a mensagem, com uma produção cuidada em quase todos os pontos, temos em Francis Dale soul e R&B que prometem.

Marcelo Franca





segunda-feira, 14 de Julho de 2014

GOBI BEAR - "Inorganic Heartbeats & Bad Decisions" (2013, Murmürio Records)






Gobi Bear é o alter-ego de Diogo Alves Pinto, um entusiasta singer-songwriter vindo das terras do nobre D. Afonso Henriques. O seu contacto com a música é bastante recente: experimentou aventurar-se nas cordas em 2010, o seu 1º ano da faculdade. Por entre várias tentativas de iniciar projectos musicais, começou a enveredar pelos caminhos a solo e, ao longo do tempo, foi descobrindo a música e a música foi descobrindo Gobi Bear. Hoje é um dos mais promissores multi-instrumentistas portugueses e o seu primeiro LP é exemplo disso mesmo.

“Inorganic Heartbeats & Bad Decisions” mantém a identidade criada já pelo anterior EP “Mais Grande” de 2012. A sua génese continua a assentar sobre um dueto entre guitarra e voz; no entanto, este seu novo trabalho revela-se mais denso e maduro e não podemos esquecer também a vertente mais electrónica que acaba por conferir ao disco uma tendência mais pop. Um caminho menos experimental mas mais acessível às massas, um pouco à semelhança do que outros one man band, como é o caso de Noiserv, têm feito. São 13 faixas construídas sobre várias histórias, sobre várias estórias, ora suas, ora de filmes ou contos. Fazer de narrativas canções é um desígnio de uma voz bem doce, que corre ao sabor dos acordes dos instrumentos delineada por uma percussão subtil, embora bem ritmada, feita precisamente de “Inorganic Heartbeats & Bad Decisions”. 





O começo com “Joana”, onde a electrónica encarrega-se de abrir as hostes para “Eli/Abel”, em que o instrumental se assume protagonista e a voz é também um instrumento que cria ritmo próprio, empederne em “Wooden Toys” que nos desperta uma dose de nostalgia pela sua melódica escolha de acordes e ritmo bem marcado. Por entre um enorme dedilhar de acordes com breves resquícios de distorção vamos-nos aproximando de “Animals”, o tema que coloca lado a lado a guitarra, violoncelo e violinos num arranjo belíssimo e profundamente harmonioso onde a voz serve de leme. O auxílio do baixo bem definido ajuda a que não se perca o embalo quando visitamos a pujante “Scarecrow in the Rain” e de seguida, já na recta final, a distorção das guitarras de "A Thousand Light Bulbs" e a mais serena "Monica II”, onde uma suave melodia ritmada acompanhada de coros assume o bom fecho.





Todo o feitiço, o afecto, o acabamento de uma delicada técnica da guitarra com a voz: “Inorganic Heartbeats & Bad Decisions” não nos irá acalmar o espírito mas com certeza apaziguar-nos-à a alma.

João Ribeiro




domingo, 13 de Julho de 2014

DE E POR: DISAPPEARER - "Disappearer" (2014, Ed. Autor)

Após o final de um projecto que não rumou nem terminou onde e como se pretendia, Pedro Coelho Pereira reagiu com a produção de novo material e viu a sua vida pessoal interferir com a sua identidade artística. Uma nova epopeia de composição, um sentido crítico refrescado, um fluxo de consciência a partir do 0.
O melhor do resultado de todo o tempo que passou entre 2011 e este ano, uma conjugação refinada de rock, metal e música industrial que não tem que ser mais coerente, de mais alta fidelidade ou menos psicadélica nem na hora dos retoques finais, está plasmado agora na sua estreia homónima como Disappearer. 8 faixas em que contamos com o seu apoio para as conhecer melhor, uma vez ultrapassado largamente o nosso filtro de selectividade.






Forget Me Pills

A faixa "Forget Me Pills" nasce de um stream of consciousness de 30 minutos (riff inicial) ao qual foram adicionados mais e mais elementos, tendo sido depois bastante encurtada. A ideia original era fechar o álbum com esta música, e o nome original era "Fuck You, I'm Gone", passando depois para "Forget Me Pills", baseando-me na altura no constante uso e abuso de tantos de drogas psicotrópicas (com receita médica) e do constante desejo de esquecermos de quem somos, tornando a memória humana cada vez mais selectiva e/ou controlável.


Dog From Hell

A faixa Dog From Hell nasce de um riff meio sludge/doom ao qual foi adicionado um solo tocado numa guitarra desafinada com várias cordas partidas. As letras referem-se ao "rádio" que está sempre ligado na mente de alguém que está doente e que tem demasiado tempo para pensar - (in)conscientemente - na sua mortalidade.





Goodnight Mr. Frankenstein

Em 2012 com a perda de um dos meus melhores amigos, aquilo em que estava a trabalhar na altura, e que para todos os efeitos já era quase um álbum completo, foi descartado, talvez por ser demasiado enérgico numa altura em que não me sentia nada enérgico. A faixa Goodnight Mr. Frankenstein é sobre alguém muito importante que perdi/perdemos.


Psycho Jane

"Psycho Jane" não é sobre marijuana, no fundo é sobre uma "Jane" psicótica que persegue quem quer e que mata com uma "bondade sufocante". Originalmente procurava fazer uma música para ouvir no carro de noite, não sei se consegui.


Blue

"Blue" era originalmente um rip-off de Killing Joke, com o tempo passou a ser uma espécie de rip-off de Voivod. Liricamente é sobre o vício mental que o pessimismo/negativismo proporciona a muita gente (eu incluído).


Stuck In A Loop

A ideia por trás da "Stuck In A Loop" é a repetição constante da existência moderna, qualquer que seja a realidade individual; esta repetição tornou-se infecciosa, viciante e familiar, tal e qual o ambiente que a música tenta evocar.


Garrote Vil/Metal Heart

As últimas duas faixas foram divididas apenas por conveniência porque nasceram de uma composição única em piano; ter um "Metal Heart" é um trocadilho foleiro que tem pouco a ver com o gostar de heavy metal, mas mais com o saudosismo no coração que o blinda a novas emoções, e como isso pode levar inevitavelmente à auto-destruição. O último verso é baseado numa música medieval inglesa.




domingo, 6 de Julho de 2014

DE E POR: The Lazy Faithful - "Easy Target" (2014, Chifre)

Quando, como acontece com muitas outras bandas, nos cruzámos com o registo gravado de "Leave Me Alone" dos The Lazy Faithful ao vivo na Avenida dos Aliados em 2010, sabíamos que estávamos perante algo singular: entre referências pop/rock/punk muito clássicas, aquele rasgar de postura estilo MC5 era mais do que viciante e símbolo de quem já estava a ultimar repertório e personalidade.
Os The Lazy Faithful, entretanto, cresceram no fino encadeamento de guitarras arranhadas e ritmos implacáveis. E se forem este Sábado ao Coz Village Festival vão poder presenciar o que pedimos a Tommy Hogg que nos contasse sobre cada uma das faixas de "Easy Target", a estreia em longa-duração.






Two Lines In The Sky

Uma das músicas escritas na sua grande parte durante a gravação do disco. A letra é uma tentativa de mistificar a experiência numa discoteca (as duas linhas no céu são criadas por holofotes). "Two Lines in the Sky" foi a primeira frase escrita desta música.


Down In One

Escrita principalmente por mim, é inspirada no som dos The Jam, banda de mod rock/new wave britânica no final dos anos '70. "Down In One” é a expressão inglesa para "de penalti".


Work It On Out

Uma das músicas mais antigas do disco, escrita durante a primeira encarnação da banda. Foi uma música para provar a mim próprio que conseguia escrever uma música, daí vem a sua simplicidade lírica e instrumental.


Magnificent Medicine

O nome vem de uma parte desta música que foi omitida há vários anos, fala sobre um médico que receita LSD a um utente. É uma boa música para mostrar os talentos do nosso baterista Gil, ao vivo.


Good Night

O primeiro single do álbum descreve as noites destrutivas que se vive na baixa portuense, especialmente o momento de reflexão do dia seguinte.


Frosted Glass

Uma música muito distinta do resto do disco. Fala sobre o vidro fusco metaforicamente, como algo que intercepta a tentativa de ficar a conhecer alguém melhor. É uma das duas músicas do disco que já existiam mas com estruturas muito diferentes.


Don't Let It Be

Uma das músicas mais "dark" do disco. O riff surgiu por instinto durante um ensaio. O título não é uma referência à música dos Beatles, banda da qual tenho grande admiração.


Jumpin' Over Walls

Escrevi esta pouco depois de ter ouvido a "Pinhead" dos Ramones, e consegui usar menos palavras.


Discussions

Uma simples música de punk que fala sobre discussões num casal problemático e o resultante comportamento auto-destrutivo.


Don't Even Know

Quando tocávamos esta música ao vivo dizia que a tinha escrito em 1973. É muito Free, Bad Company...


Easy Target

Outra música que existia com uma estrutura bastante diferente. Quando a escrevi tinha um som mais california punk, o Rafa fez um bom trabalho ao sugerir que pegássemos na letra e fazermos outra música.




segunda-feira, 30 de Junho de 2014

3/1 #2: Todo o hip-hop instrumental tem a sua voz












É comum ouvir-se, seja no próprio meio do hip-hop nacional ou no exterior, que falta profissionalismo e seriedade ao hip-hop português. Em 2006, Rocky Marsiano dizia numa entrevista: “Acho que muito poucos vêem isto de uma forma profissional e isso reflecte-se na maneira como nos vêem de fora. Se calhar olham para nós de uma maneira muito diferente daquilo que eu gostava que nos vissem. Existe muita imaginação e talento no hip-hop em Portugal, só que falta depois esse à-vontade… talvez mais experiência e idade”. Não se fala portanto de falta de ideias, de originalidade, mas sim do alcançar do último degrau - dificilmente atingível, é verdade - pelo pouco dinheiro que ainda hoje flui nessa área mas também por falta de apoios e por culpa também de certos estereótipos. 
No entanto, há que salientar que o hip-hop instrumental nacional, sombra e essência do hip-hop português, tem dado bons frutos.
Exemplos máximos dessa boa colheita: os registos de Rocky Marsiano (aka D-Mars), um dos avós da cena nacional, Roulet, da casa ENCHUFADA, e MOZE.



Dado o boom de bandas e beatmakers que apareceram graças à banalização da Internet, no hip-hop, como em todos os géneros musicais, impera o reino da quantidade.
Para se desmarcar, trazer a sua pedra ao edifício, o beatmaker cada vez mais tem de ir beber no seu íntimo profundo para extrair dele a peça fundamental que fará dele um elemento crucial e relevante. 

Nesse campo, onde Rocky Marsiano celebrou o Brasil, o funk e o jazz, Roulet seguiu o caminho mais sinuoso do zouk, da kizomba, do R&B e do kuduro, género que até agora mais lhe associávamos. 
A viver actualmente em Amesterdão, Rocky Marsiano quis neste álbum transmitir um espírito de verão, contrastando com o ambiente frio que o rodeava. Do seu "Music for All Seasons" sobressai uma pesquisa sofisticada, cool, lounge, bem acompanhada nalguns temas pelas vozes sublimes e bem-vindas de Yinske Silva e de Bruce James, em "Standing". O espírito festivo e dançável não é levado ao extremo, nunca se utilizando os brasileirismos como clichés mas empregando respeito maxímo. 

No caso de Roulet, a ousadia é maior. Porquê? Aparentemente, a credibilização do kuduro ou mesmo de quase tudo o que vem de África como influências claras e benéficas para a evolução da música eletrónica e/ou rock 
em Portugal não está ainda totalmente finalizada - “Tanto azeite”, lia-se num dos primeiros comentários feitos em directo ao Boiler Room em que passou DJ Marfox. Contra isso, Roulet apostou claramente em todos os ambientes musicais que associamos aos PALOPS e acrescentou-lhes o R&B, a soul e o zouk. "Beats d’Amor" soa quase como uma declaração de amor a todos esses géneros que sempre o influenciaram mas que só agora se traduzem em música sua. O resultado é claramente positivo, original e demonstra que Roulet tem tudo do músico instrumental multifacetado, tanto no kuduro como no zouk, como também na vertente chill que desenvolveu em "Home Again".

No caso de MOZE, se a capa é bem sugestiva, no conteúdo de "Best of Nothing" ouvem-se laivos agradáveis de electrónica onírica, pontuados com EUA e, na segunda metade, com a presença assídua do piano, glorificada no angustiante "Goodbye". Mais uma vez, impera neste registo a mestria e a versatilidade do artista, que vai beber a todos os géneros os elementos plásticos da sua obra musical de hip-hop, de qualidade acima da média.


Mickaël C. de Oliveira




domingo, 29 de Junho de 2014

DE E POR: PAST UNDONE - "SEE YOU TOMORROW (2014, Ed. Autor)

"See You Tomorrow" é o EP que marca o regresso às edições do quarteto sintrense Past Undone, cerca de um ano depois da estreia com "Time Lapse" e de terem integrado a mui recomendável "13 Portuguese Metal Compilation”. São mais 3 canções que mantêm o rasto doom metal com as tão queridas influências ora mais góticas, ora mais a puxar para as sinfonicas clássicas ou jazzy, num registo progressivo e novamente muito entrosado no desenvolvimento melancólico das suas melodias com o negrume que se espera, mas com os pormenores no uso de sintetizadores e vozes a elevar o panorama geral. 
Mas nada melhor do que dar a palavra aos elementos da banda para nos falarem mais um pouco sobre cada um dos temas. 




See You Tomorrow

Esta música surgiu de acontecimentos importantes na vida de alguns dos elementos da banda, que perderam pessoas próximas recentemente.
O até amanhã (“See You Tomorrow”) é uma despedida para o dia que nunca chegou.
Musicalmente, o tema vai crescendo de intensidade, começando acústico e acabando de uma forma mais intensa, simbolizando inicialmente a tristeza e acabando em revolta. Há uma melancolia que acompanha o tema no seu todo.
O fim do tema é também o mote para o resto do EP conceptual.


Dear Son

Esta música é uma carta. A identidade que perdeu alguém na primeira música, dirige-se nesta música ao filho, que irá perdê-la. Utiliza a experiência anterior para evitar que o filho seja consumido pela perda, como ela foi.
É o tema com maior duração do EP. Numa primeira parte, há um prolongamento da música anterior, ou seja do sentimento de revolta. Musicalmente, encontramos várias intensidades ao longo da música, o início é instrumental, seguindo-se um refrão mais melódico, terminando a música com uma parte doom.


Time to Pray

A terceira faixa é um momento de reflexão sobre a morte de alguém. Este tema retrata a perda de sanidade de quem sofre com a perda.
A parte instrumental acompanha esta temática, tornando-o no tema mais negro do EP.




quarta-feira, 25 de Junho de 2014

UANINAUEI - "Dona Vitória" (Capote Música, 2014)




Quatro anos depois do disco de estreia e um ano após o EP "Menina Vitória", eis que surge o segundo álbum de originais dos alentejanos Uaninauei. "Dona Vitória” surge como a evolução natural do primeiro trabalho onde o rock apresenta-se como elemento aglutinador de um conjunto de temas que demonstram uma apetência para criar grandes canções como já vem sendo hábito neste quinteto de Évora. Excelentes letras que retratam de forma crua e direta diversos aspetos da vida; uma instrumentação extremamente competente e eficaz na criação do ambiente propício a cada uma das músicas; uma prestação vocal incólume do princípio ao fim e umas pitadas de rock progressivo e até mesmo de folk na sua vertente mais pesada são, em traços gerais, os ingredientes que fazem de “Dona Vitória” um registo a ter em atenção.




O arranque faz-se de forma decidida com a melodia q.b., o bom refrão e um riff principal interessante de “Gémeo Mau”, a que se segue “Maria Manuela”, que serve de exemplo quanto à já referida  instrumentação que se revela bem oleada. Boas melodias de guitarra, um bom suporte do baixo ao longo do tema e uma boa interpretação do homem das baquetas produzem uma atmosfera algo etérea com resquícios de rock progressivo aqui e ali.
Em “Assaltos Legais” voltamos aos ritmos galopantes, com o seu refrão orelhudo e um bom solo de guitarra perto do final bem ao estilo hard rock antes de “Aldeia Sem Taberna”, a faixa mais longa do registo com cerca de 8 minutos. Talvez por isso haja espaço para a mudança de ritmos que aqui encontramos: um começo de forma arrastada e pesada, enquadrando-se perfeitamente com o conteúdo da letra - o refúgio no álcool como forma de fugir à desilusão de uma vida vazia e sem amor - a levar-nos até um final em que somos confrontados com algo que poderia ser retirado de um LP de folk metal de alguma banda oriunda do norte da Europa. São variações como esta que prendem o ouvinte e contribuem como fator de inesgotabilidade do disco.







Seguimos então para “Limites do Juízo”, faixa bem ao estilo rock, acelerado, com bons arranjos e riffs pesadões que funciona como uma sátira/crítica à adição das massas ao nonsense praticado pelos media em geral, com excertos áudio retirados de alguns conhecidos programas popularizados nos órgãos de comunicação social e que ilustram bem a mensagem que a banda quer passar. A sucessora “Nascer Crescer Morrer” conta com as participações especiais de Joana Margaça (voz) e Tó Zé Bexiga (teclado) em destaque naquela que é uma verdadeira ode à vida, com todas as suas transformações, enquanto em “Adamastor” continuamos num tom declaradamente rock, pesado e enérgico num clima apocalíptico emergente, fazendo jus ao título.
Já na recta final, ingressamos em “Virgem do Descanso”, um tema algo corrosivo e igualmente melódico, com laivos de art rock muito ao estilo duns Tool e com uma prestação vocal em evidência, e na rockeira “Cabeça de Motor”, curta e sem grandes rodeios.


Em “Dona Vitória”, os Uaninauei conseguiram produzir um disco de qualidade indiscutível que facilmente agarrará os fãs de rock em geral, bem como aqueles que apreciam as vertentes mais complexas do género. Como bónus, temos o facto de este ser um trabalho inteiramente em português o que, não sendo por si só sinónimo de qualidade é, indubitavelmente, algo de salutar. Sem dúvida, um álbum a descobrir e redescobrir por muito tempo.



Hugo Gonçalves




domingo, 22 de Junho de 2014

DE E POR: MODERN JUNGLEMAN - "Woman From Dogtown" (Cogwheel Records, 2014)

Alexandre Pereira, Mário Jader, Rui Carneiro e Diogo Esteves formam desde 2012 o quarteto aveirense Modern Jungleman, que acaba de lançar o EP de estreia "Woman From Dogtown", pelo selo de Coimbra da Cogwheel Records. Depois do Maioàbrir da final do concurso de bandas do festival Loureiras Beats, foram precisamente Alexandre e Mário que acederam ao nosso convite para falar um pouco mais sobre cada uma das 5 canções que fazem parte deste registo onde é claro que as influências pessoais de cada elemento transparecem e em que o rock é o elemento principal, sem nunca ganhar peso suficiente para sair de um ambiente mais alternativo.





The Prophet

Apesar de ter sido a última música a ser feita para o EP, é capaz de ser a mais antiga. Quando ainda éramos só três tínhamos uma base inicial já feita e um dia quando o Mário voltou a pegar nela, descobrimos algumas parecenças bastante descaradas com o riff da "Jesus Christ Pose" dos Soundgarden, o que nos obrigou a remodelar a estrutura e mesmo a melodia da própria música, deixando apenas o refrão antigo que tínhamos.
A canção fala dos falsos profetas, ou melhor dizendo, dos viciados em drogas. Este, em especial, não está perdido nas suas ilusões, sabe bem da sua realidade, como se destaca no refrão. Ele quer libertar-se do vício, saber o que há para lá da escuridão, porque sabe que, no fundo, aquele mundo é um autêntico vazio… mas, por outro lado, não quer enfrentar a outra realidade, que é de ficar limpo e ter uma vida estável. Curiosamente, embora tenha sido a nossa última composição, já desde o início da banda que queríamos fazer um registo assim: negro, pesado, mas que no fundo do seu ser, há uma luz, algo de positivo para agarrar. É, sem dúvida, dedicada a uma realidade tão presente nas grandes cidades.


Shadow Man

Foi das primeiras a sair das nossas mentes e a razão por o nosso EP ser tão conceptual. E uma das razões por ser uma música tão especial para nós, foi por ser tão natural. Ao contrário da "The Prophet", por exemplo, em que tivemos que analisar rigorosamente cada sequência, mudança de ritmos, quebras, solos, intensidade do refrão, na "Shadow Man" foi um processo quase como em piloto automático. A composição é praticamente toda do Mário. Ele fez uns dedilhados, levou para o estúdio e tocou com um refrão improvisado. Gostámos imenso a partir logo desse momento, pelo ambiente a fazer lembrar uns The Doors menos efusivos. Era a nossa “balada”! E não mudámos praticamente nada desde então, tirando a inclusão de um sintetizador para dar ambiente e corpo à melodia. É uma música sobre o amor e paixão e as diferentes dimensões emocionais de cada um. Acaba por ser uma letra pessoal, metaforizada pelo amor incondicional do "Shadow Man" pelas suas vitimas.


Bloom

"Bloom", a música feita por experiências vividas. É sobre Dogtown, quando a luz da Lua ilumina toda a cidade, quando os falsos profetas, prostitutas, corrupção, tudo sai para a rua. Existe quase um lado apocalíptico neste canção. Ficámos rendidos, porque é diferente, é única. É o conceito no seu auge. Muito obscura, mas com uma enorme sensibilidade!
Até à última hora estivemos na dúvida se a devíamos incluir ou não no alinhamento do EP, com receio do resultado final e de como soaria no seu todo, mas depois do excelente trabalho do Duarte na sua produção não tivemos mais dúvidas. Em termos de composição, a música surge numa altura em que o Alex estava viciado no "Animals" dos Pink Floyd mas só tinha com ele uma guitarra clássica, sendo que o resultado saiu um pouco ao “lado”. Ele começou por fazer os primeiros segundos, enquanto o Mário arranjou logo um refrão para o processo. A ideia de inserir o violoncelo na última parte da música veio também de um desvario de madrugada com alguns copos à mistura, estávamos já nós em Coimbra a meio das gravações.
Queríamos que esta música soasse como um ritual. E, na nossa opinião é isso mesmo: um ritual de todas as nossas personagens. A letra é vaga, mas é uma letra carregada de significados e experiências que todos nós passámos.


Woman From Dogtown

O Nick Cave bateu-nos à porta e era por esses lados que queríamos andar, nuns blues mais crus e disfuncionais – também a pedido do Mário -  mas onde pudéssemos meter algo de nós, que nos caracterizasse. A personagem Henry Lee é um ponto fulcral e acho que os fãs do mesmo tenham notado ou vão notar isso. O processo de composição foi muito parecido com a "Bloom". O Alex trouxe uns acordes e o Mário completou o resto. Tanto esta, como a anterior provam a nossa empatia na criação de melodias, como músicos. Precisamos sempre um do outro. Quanto à letra, o Mário tentou escrever algo muito objectivo, uma história. Tendo já algumas bases do conceito, foi só criar mais uma personagem: a prostituta de Dogtown. Uma mulher bela, destruindo relacionamentos, casamentos, tudo em troca de dinheiro, ouro. Durante imenso tempo tocámos esta música ao vivo sem metade dos solos que estão hoje na versão final, sendo que a maioria foi mesmo aparecendo com o tempo, numa certa necessidade de preencher o “vazio”. É uma música com grande densidade sexual. Tentamos fazer com que o refrão fosse isso mesmo, sexo em melodias.


This Is Not The World That I've Made

[Mário] Das músicas mais recentes que fizemos, esta foi a escolhida para ser o nosso primeiro single. A composição vem quase toda da mente do Alex. Desde o dia em que ele me mostrou eu sabia que tinha de desviá-la do conceito do EP. Queríamos que soasse como uma música duma geração, e, neste caso, é sobre a nossa, sobre a geração portuguesa actual e as dificuldades que muitos jovens passam actualmente, devido à austeridade e à própria crise da Europa. É sobre isso o conteúdo das letras desta música. O desejo de abandonar tudo e partir para uma nova realidade. O disco em si é obscuro. Mas nesta música, é como uma despedida, uma desfragmentação completa do ser, uma mudança! Um adeus a Dogtown! A escolha certa para encerrar esta história. 




sábado, 21 de Junho de 2014

THE WEATHERMAN - ENTREVISTA

As crises são oportunidades. É num vendaval de umas quantas, talvez incontáveis, que Alexandre Monteiro, The Weatherman, é um dos artistas que esboça novas soluções enquanto projecta uma internacionalização mais sólida, integra várias das "janelas que se abrem" no pequeno mercado musical português e trabalha em novas canções.
Mesmo quando após o terceiro e homónimo disco as comparações com artistas de renome da brit-pop se intensificam num país sem razões/argumentos para desdenhar talentos, é com mais pequenos grandes sucessos que 2014 aparenta ser uma herança altamente desejável. Fomos saber mais.






BandCom (BC): Como foi o teu 2013?

The Weatherman (TW): Foi um ano muito gratificante para mim enquanto Weatherman, depois de algum tempo considerável em que estive um pouco retirado, no qual consegui concretizar um terceiro disco da forma que idealizei bem como dar um número razoável de concertos. Tive 3 singles a rodar durante o período de um ano inteiro, um dos quais deu especialmente nas vistas em termos de airplay, o "Fab". Abriram-se ainda portas a nível internacional, o que me deixa muito satisfeito com as perspectivas que proporcionaram. Tive um feedback em termos de público como nunca tinha experimentado antes.


BC: O teu disco mais recente “The Weatherman” é um pouco diferente do “Jamboree…” e do “Cruisin’ Alaska” e integra mais elementos pop. Era a altura certa na tua carreira para o lançar e tentar chegar a outros públicos? Planeias ficar mais pela pop ou voltar a experimentar mais e noutros terrenos? 

TW: Este é o disco em que me concentro em aprimorar o conceito de música pop de 3 minutos, foquei-me em fazer bons singles.  Continuo a procurar a canção pop perfeita, por isso ė muito provável que o próximo disco traga mais um lote de canções pop, desta vez com uma sonoridade mais analógica. Fiz as pazes novamente com as guitarras, por isso é provável que ponha de lado a electrónica desta vez, em favor de uma sonoridade mais orgânica.


BC: Não sabemos em Portugal lidar com a pop music, muito embora tenhamos tantas referências do exterior que tentamos integrar e retratar?

TW: Portugal não é predominantemente um país de canções, mas eu acredito que é possível devolver a ideia ao público mais genérico de que a pop também pode ser arty.


BC: Referes noutras entrevistas que este disco é "o mais autobiográfico" que já fizeste. Ficaste satisfeito/preenchido com a “autobiografia” globalmente e com a sua passagem para um projecto onde agora também tocas com banda? É mais “fácil”, menos doloroso escrever sobre situações alheias ou nem por isso?

TW: É mais difícil ser-se explicitamente autobiográfico, não propriamente doloroso, pelo contrário, tocar canções sobre pessoas e lugares que eu conheço dá um significado mais profundo à minha experiência enquanto músico. É também libertador, no sentido em que sinto estar a resolver-me em certos aspectos em relação à minha vida pessoal. Torna-se também mais emotivo tocar certas canções nos concertos. Por outro lado se calhar deixo menos espaço para o imaginário das pessoas se apropriar das canções.





BC: A contribuição da Emmy Curl em “It Took Me So Long” é um dos momentos especiais deste último trabalho e dentro das colaborações com que contas. Como surgiu esta oportunidade?

TW: Surgiu essencialmente porque estávamos a preparar a nova edição do disco e seria oportuno incluir alguma novidade. Eu sentia que esta canção era especial e não tinha ficado completamente satisfeito com a primeira versão, por isso foi uma boa oportunidade para voltar a pegar nela. Por outro lado, eu e a Emmy já tínhamos falado há muito tempo em fazermos algo juntos, e não foi propriamente com surpresa que descobrimos que as nossas vozes juntas resultam na perfeição.


BC: Já neste ano fizeste parte da delegação portuguesa destacada para o festival Eurosonic em Groningen. Conta-nos como foi a experiência, as reacções que tiveste. Está na hora da internacionalização, de saltar para outros planetas como sugeria o videoclip da “Proper Goodbye”? É a forma ideal de prolongar o “tempo de vida” de um disco antes de preparar e lançar o seguinte?

TW: Curiosamente a experiência no Eurosonic por si própria não foi decisiva na globalidade daquilo que consegui a nível internacional no inicio deste ano. Quando lá toquei já tinha conseguido por exemplo o interesse por parte da Mojo, agência holandesa, em trabalhar com The Weatherman, e já tinha planeado lançar o disco internacionalmente. É também uma forma de prolongar a vida de um disco, embora isso não seja o objectivo principal. 


BC: Não é muito vulgar em Portugal um conceito como o do Westway Lab em que tens a oportunidade de participar e de criar com outros artistas. Que mais-valias retiras para o futuro? 


TW: Qualquer oportunidade para colaborar com outros artistas é sempre boa, e muitas vezes traz resultados surpreendentes. Eu encaro esta experiência com grande excitação, como um abrir de portas para mundos que estão por explorar. E quando a partilha de experiências entre músicos resulta, pode ser das melhores coisas que advêm da vida artística.


BC: Outro conceito, não tão frequente até há algum tempo, é o dos festivais de música 100% de origem portuguesa e com cada vez mais atenção à interacção com o estrangeiro e com vista à exportação. A cidade do Porto é o local ideal para acolher um evento como o Jameson Beatzmarket?

TW: Acredito que sim, no sentido em que existe um envolvimento especial entre o meio musical, algo difícil de encontrar nas grandes metrópoles, onde é tudo mais disperso. É uma cidade relativamente pequena, que cria condições para que as pessoas se sentirem próximas. 





BC: O teu disco mais recente deve a sua existência também em parte ao Fundo Cultural da GDA. Vai ser possível encontrar um novo equilíbrio entre indústria musical, artistas e público de modo a que todos beneficiem e possam subsistir?

TW: Não sei, o mais importante mesmo é continuar a seguir o meu caminho, fazer as coisas como acho que devo fazer, e tentar resistir a todas as adversidades que os músicos enfrentam neste tempo, onde o mais importante é lutar para conseguir continuar a ter condições para continuar a trabalhar. 


BC: Que datas mais próximas estão agendadas que nos possas revelar? O que reserva 2014 para o The Weatherman e para o seu público?

TW: Tenho algumas datas em formato acústico até ao verão, estamos a trabalhar para voltarmos a tocar no Norte da Europa, possivelmente no Outono. Entretanto vou começar a gravar novo disco, que desta vez poderá ser um "meio disco" - um EP.



André Gomes de Abreu




sábado, 14 de Junho de 2014

DE E POR: AMPLIFICADOR D'ALMA: Amplificador D'Alma (2013, Ed. Autor)

Carlos Alves, João Ganilho, Luís de Barros e José Luís de Barros são os responsáveis por levar o Amplificador d'Alma a bom porto, de Campo de Ourique, ou da Bobadela, para o Mundo, apenas após alguns meses de riffs de guitarra improvisados a que se acrescentou apenas para finalizar a percussão e o violoncelo num registo que capta bem a essência que o post-rock e o blues-rock tão bem partilham. Não é por acaso que quando lhes pedimos que nos falassem um pouco sobre cada uma das 5 faixas deste trabalho recearam que os seus ouvintes pudessem perder a possibilidade de "ouvir e deambular pelas músicas", idealizando "as paisagens sonoras associadas a cada música".
A nosso ver, que gostamos sempre de um bom ponto de partida, as suas descrições ainda ajudam mais.





Onde Os Pés Me Levarem

Sem destino, vamos traçando um caminho sobre este mundo, ao sabor dos nossos passos. Somos matéria volúvel que segue em frente e anseia por mais.


O Desconhecido
De olhos semi-cerrados, sinto a brisa e penso em ti... Penso como será este passo no desconhecido.


Contigo Nas Estrelas

De um fogo de artifício estelar, para um átomo na minha mão. Somos feitos da mesma matéria. Somos pó de estrelas.


Caracol Azul

Caminho lentamente sob o escaldante céu azul. Olho apenas para as pedras que vou pisando no caminho. Os passos vão marcando o meu destino. Sempre que avançamos deixamos algo para trás. Eu, deixo o pó...


O Caminho

Num cinzento amanhecer lisboeta, ele sai à rua. Pára e olha para o rio à sua esquerda surpreendendo um tímido beijo de uma Tágide. Ele sorri e segue o seu caminho.




RITA REDSHOES - ENTREVISTA

Desde "Lights & Darks" passaram-se quatro anos muito intensos na vida de Rita Redshoes. Desdobrando-se em colaborações e vários espectáculos à procura de outros públicos, só há cerca de um mês chegou às lojas o terceiro disco da carreira, "Life Is A Second of Love", um disco marcado por um claro amadurecimento das ideias dispostas nos dois primeiros trabalhos que lançara a solo, com produção a cargo de Gui Amabis e participações dos brasileiros Regis Damasceno e Dustan Gallas e dos portugueses Ana Cláudia Serrão e de Afonso Cabral, David Santos (Noiserv) e Salvador Menezes, três membros dos You Can’t Win Charlie Brown. As próximas apresentações ao vivo neste mês correrão FNACs de Norte a Sul do país e nos próximos meses Rita Redshoes está já confirmada para o ciclo de concertos Victoria Summer Acoustic Concerts (a 24 de Julho, em Madrid) e para a primeira edição do festival O Sol da Caparica (a 16 de Agosto).
O seu desenvolvimento artístico, a par com a sua forte consciência de cidadã do Mundo, foram linhas gerais para as perguntas que lhe colocámos.




BandCom (BC): Como tem corrido o desenvolvimento da tua carreira pós-segundo disco e até este 
momento, em que vais lançar o terceiro?

Rita Redshoes (RR): Tem sido um percurso que me tem feito crescer enquanto artista e pessoa e onde, através das canções e colaborações com outras pessoas, me tenho conhecido melhor e encontrado a minha identidade. 


BC: É interessante notar que, entretanto, há outro antigo membro dos Atomic Bees e até dos Photographs, o teu irmão Bruno, a obter notoriedade a solo como Senhor Vulcão. Ficámos mais a ganhar do que a perder com a vossa ascensão com diferentes identidades? 

RR: A ganhar. Não por mim mas por poderem conhecer o trabalho a solo dele. 


BC: Fica, contudo, a ideia que com a experiência das bandas-sonoras de “Estrada de Palha” e “O Facínora” com o Paulo Furtado, está também aqui outro possível companheiro para futuras aventuras num tipo de sonoridade diferente de Rita Redshoes...

RR: Tenho tido a sorte de me cruzar com músicos e artistas talentosos, com quem as diferenças acabam por trazer coisas novas e positivas quer ao trabalho em conjunto, quer ao meu trabalho a solo. O Paulo é uma dessas pessoas. Tenho muito orgulho daquilo que já fizemos juntos e sim, espero que os nossos caminhos musicais se cruzem mais vezes.





BC: Após 4 anos de interregno chega finalmente este terceiro disco em Maio. É uma espera demasiado prolongada para a intérprete Rita Redshoes?

RR: Não, foi a espera necessária para chegar a este disco. Foram 4 anos muito importantes a muitos níveis que me fizeram compor e cantar estas canções de uma forma mais honesta e crua. Creio que se me tivesse obrigado a gravar um disco antes não estaria tão feliz com o 
resultado. 


BC: O que pode esperar o público de "Life Is A Second Love", após a transição de "Golden Era" para "Lights & Darks", quanto ao resultado final e quanto às suas principais influências e referências? Que influência teve o Gui Amabis e o seu trabalho de produção em todo este processo?

RR: As referências continuam as mesmas, coisas do passado, anos 50, 60 e 70 sobretudo. Este é o disco onde sinto que de uma forma mais feliz consegui expor a sonoridade que tinha em mente para as canções. Contei com a preciosa ajuda na produção do Gui Amabis que percebeu o que eu procurava e de uma forma brilhante me ajudou a construir a sonoridade do disco como um todo e a respeitar o espaço para cada instrumento e para a minha voz. 


BC: A edição deste novo trabalho em CD estará a cargo da Universal Music Portugal, mas haverá também uma edição em vinil a cargo da Rastilho Records. Como surgem estas duas associações? São duas outras equipas que vêm ajudar na carreira da Rita Redshoes? 

RR: São certamente duas equipas que irão ajudar-me a fazer chegar o meu disco às pessoas. Com a Rastilho já tinha trabalhado no disco anterior, com a Universal é a primeira vez mas estou muito feliz com estas parcerias porque respeitam a minha arte e acreditam em mim. 





BC: Falando de outras paixões tuas, a psicologia e o ballet, estas têm sido também importantes no teu desenvolvimento artístico como Rita Redshoes? Se sim, de que maneira? 

RR: Hum...o ballet há muitos anos atrás, creio que sim. Tive a oportunidade de desde pequena estar próxima de algumas formas de arte e poder encontrar a minha expressão através delas. O ballet foi a primeira. A psicologia foi um interesse tardio mas que me fascinou. Não creio porém que interfira directamente na minha música mas houve questões que a nível pessoal foram importantes nesta área. 


BC: Poderemos também aqui acrescentar o teatro? Como diria Brecht, “todas as artes contribuem para a maior de todas as artes, a arte de viver”?

RR: O teatro sem dúvida. Foi onde pela primeira vez toquei ao vivo, no grupo de teatro da escola. Aprendi muito ao assistir a todos os processos inerentes ao montar uma peça, desde cenários à construção das personagens, etc. Essa experiência tocou-me muito. 


BC: Também foste aluna da Escola Superior de Música. Sentes que ao nível da formação 
musical poderá existir actualmente algum tipo de formatação dos alunos ou, pelo contrário, a sua importância continua a ser decisiva? E, por outro lado, estaremos a negligenciar a formação musical de quem não será, no futuro, um músico profissional mas sim um público?

RR: Acho que desde a altura em que estudei até aos dias de hoje as coisas mudaram muito para melhor. Essa formatação era mais evidente há uns anos. Agora penso que as mentalidades estão mais abertas, há outra geração de professores influenciados por outras experiências e isso altera a forma de ensinar. Continuo a achar que as artes são negligenciadas no nosso país. Tenho a certeza que se o ensino contemplasse de uma forma mais inteligente e séria o ensino das artes, em poucos anos teríamos um país mais evoluído a todos os níveis. 


BC: Nos concertos que tens dado fora de Portugal, como tens sido recebida? Existe algum país pelo qual tenhas sentido uma ligação especial?

RR: Tenho sido muito bem recebida. Pessoas curiosas com o que faço e o que se passa no 
nosso país, o que é bastante carinhoso. Gostei particularmente de tocar na Suécia, onde 
inclusivamente fiz alguns amigos que entretanto já viajaram até ao nosso cantinho.


BC: Tiveste já a experiência de apresentar os novos temas na última edição do Belém Art Fest. Deu para notar alguma(s) característica(s) na receptividade dos mesmos?

RR: Foi bom regressar, senti que as pessoas estavam com vontade de voltar a ver um concerto, o que foi uma óptima sensação. Até agora os temas novos têm sido muito bem recebidos. As pessoas no final falam muito de algumas das canções e nunca são exactamente as mesmas, o que é muito bom. 





BC: Quanto a próximos concertos em agenda, que datas já estão confirmadas?

RR: Estão a ser marcadas.


BC: Por fim: poderá ser neste disco em que, tal como o espectáculo que apresentaste, vamos encontrar também a “Other Woman” por detrás da Rita Redshoes?

RR: Sou uma, inteira, mas neste disco há uma exposição maior de mim. 


BC: E qual a mais decisiva mudança a ter que ser feita em Portugal nesta altura?

RR: Haver pessoas que amem de facto o país e que o consigam gerir com sabedoria, verdade e amor ao próximo.


João Gil




quarta-feira, 11 de Junho de 2014

NOS PRIMAVERA SOUND 2014 - DIA 3

Último dia do NOS Primavera Sound; não vamos assumir o cliché de dizer que «guardou-se o melhor para fim», mas a verdade é que o último dia do evento portuense foi, segundo a nossa perspectiva, aquele que mais nostalgia albergou consigo. Primeiramente seria uma oportunidade única para ver nomes como Neutral Milk Hotel e Slint (banda mais ansiada por este escriba). Segundo, era o dia em que já carregávamos na alma o peso do adeus a um sítio e a uns tempos em que fomos mais do que felizes. Num dilúvio de emoções, tudo era simultaneamente bom e mau.





Às 17:55h lá estavam os YOU CAN’T WIN, CHARLIE BROWN em cima do palco NOS para nos fazerem felizes. É rara a ocasião em que a sua música não nos transporta para paisagens revestidas de cor e de vida e, por agora, nenhum dos seus dois discos deixou de cumprir em questões qualitativas. Se a estreia com Chromatic já tinha sido motivo maior para retermos o seu nome bem presente na nossa cabeça, o recém-editado Diffraction / Refraction é, por agora, a sua prova maior do modo como a sua freak folk repleta de sintetizadores faz corar os nomes que a acabaram por consolidar e massificar enquanto género musical. A setlist para o espectáculo, como expectável, deambulou entre os dois discos de originais e trouxe-nos uma surpresa para o fim: uma versão de “Heroin”, dos lendários The Velvet Underground. Não será necessário dizer que deram o melhor concerto português desta edição do NOS Primavera Sound e que, como esperando, foram a banda lusa com maior aglomerado de pessoas. Além do óbvio (de que são, indubitavelmente, um dos nomes maiores da actualidade da música portuguesa), outra conclusão: a sua felicidade contagiante já merecia outras paragens.


De seguida, seriam os inesgotáveis resquícios dos Sonic Youth a esvoaçar pelo Parque da Cidade ao som de LEE RANALDO & THE DUST. Ao mesmo tempo, HEBRONIX ia tocando no palco ATP. Já é um dado adquirido que os Sonic Youth são uma das bandas mais importantes de sempre da história da música independente (é claro que devem, em grande parte, ao maestro Glenn Branca) e também já é sabido que o seu fim em nada alterou a essência dos projectos musicais dos seus fundadores (Thurston Moore com os Chelsea Light Moving, Lee Ranaldo com os The Dust ou Kim Gordon com os Body/Head vão-se alimentando do banquete de uma vida – os Sonic Youth). LEE RANALDO & THE DUST não nos conseguiram trazer outra coisa que não saudades, que não lamentações pelo fim de uma das maiores bandas de todos os tempos – o mal está em fazê-lo propositadamente.


Celebrada por poucos é o que se pode dizer da estreia em Portugal de Daniel Blumberg, ex-líder dos Yuck, na pele de HEBRONIX. Entre a concorrência com Lee Ranaldo e com os ecos dos You Can’t Win, Charlie Brown, o minimalismo folk-avant garde-slowcore da combinação violino-guitarra altamente manipulada contou com um público fiel mas reduzido no palco ATP, numa clara demonstração das diferenças entre os públicos de Barcelona e do Porto e da pouca penetração das canções de “Unreal” pelas playlists prévias de educação auditiva, que claramente não preferiram o seguidismo noisy de Jim O’ Rourke perdido entre desencantos libidinosos, explorado mas não totalmente concretizado.

Depois da passagem a solo pelo festival em 2012, Jeff Mangum voltou este ano acompanhado da sua banda de quase sempre: os NEUTRAL MILK HOTEL. A banda, nome maior do colectivo Elephant-6, foi uma das que acatou maiores responsabilidades pela consolidação definitiva da esfera indie na década de 90. Por trás do sucesso, uma enorme obra-prima: In The Aeroplane Over The Sea, de 1998. Jeff Mangum com a sua banda em palco, e contrariamente ao que se tinha passado há dois anos, já não era aquele filho da mãe deprimido agarrado à guitarra e a cantar sobre amores, desamores, vida e a ausência dela. Tivemos a prova em 2014 que os Neutral Milk Hotel foram uma banda um pouco à parte do mundo que os rodeou; a voz de Mangum, imperfeitamente perfeita, e o seu estro lírico persuadem-nos de uma maneira arrebatadora. Surpreendentemente, ou não, os Neutral Milk Hotel são mais ruidosos do que aquele plano lo-fi que se constrói numa densa simbiose em cada uma das suas canções. Rotulem a sua música como vos apetecer, mas hão de deparar-se com os todos os vossos rostos frente a frente no seu principal cerne. É claro que por lá corre muito mais folk de que outra coisa, mas a ambiguidade intrínseca aos norte-americanos transporta-nos para um reportório de mixórdias onde todos chocamos. É caso para dizer que também a sua música é “Two-Headed”. 

O alinhamento do concerto prendeu-se, sobretudo, à sua maior obra, mas não foram (nem podiam ser) esquecidos alguns dos êxitos de On Avery Island. Mangum ia dançando ao mesmo tempo que libertava o fuzz da sua guitarra para nos dizer «I love you, Jesus Christ!», os destroços que esculpiu em In The Aeroplane Over The Sea e o enigma que fez da sua pessoa pós-1998 já contam com perto de duas décadas e afinal são os seus principais amigos que pisam consigo o palco NOS. Sozinho, faz estremecer o coração do Parque da Cidade em “Oh Comely”; viram-se lágrimas e nelas se podia perfeitamente ter espelhado o quão humana é a oitava faixa de ITAOTS. Por entre mais sucessos, “Ghost”, “Untitled”, “Song Against Sex” ou “Two-Headed Boy Part 2”, o concerto desenlaçou-se ao som de “Engine”. Mangum, sorridente, despediu-se do Parque da Cidade. Não sabemos o que será feito dele futuramente (uma boa possibilidade é continuar-se a manter invisível do mundo – bem constatável pelo facto de não ter deixado ninguém tirar um registo fotográfico do momento -, deixando crescendo a sua barba, ganhando o aspecto de vagabundo e continuando a deprimir até que volte a pisar um palco novamente com os seus amigos), sabemos apenas que depois de um concerto destes ele é tão humano quanto as suas canções e que afinal a sua tristeza é tão efémera quanto a vida.

Em 2014, o NOS Primavera Sound fecha o ciclo de Jeff Mangum com a glória dos Neutral Milk Hotel e não é descabido que, havendo uma reunião dos Czars no futuro, JOHN GRANT tenha nova passagem marcada pelo Parque da Cidade. Ao contrário do primeiro, Grant gozou de uma passagem inequivocamente vitoriosa pelo Palco Super Bock, entre dois nomes de peso do dia como eram os Neutral Milk Hotel e os The National. Num fenómeno com o seu quê de surreal para a hora de jantar, a plateia presente parecia estar perante um dos seus cabeças-de-cartaz da noite, ou pelo menos com capacidade para tal, uma vez evidenciada agora uma faceta pop-rock electrónica e barroca ainda mais confessional mas ainda solidamente baladeira, sombria e interpretada por uma voz ímpar. Embora sem Sinéad O’ Connor, o alinhamento balançou muito mais para o lado de “Pale Green Ghosts”, do ano passado, com as excelentes “I Wanna Go To Marz” e “Queen of Denmark” no “olá” e no “adeus” a um dos marcos do NOS Primavera Sound de 2014.



Chegava a vez de Portugal mostrar o amor, já conhecido por toda a parte, pelos THE NATIONAL. Apesar dos norte-americanos terem passagem garantida por terras lusas quase todos os anos (a ponto de já podem comprar um estaminé qualquer por aí), confesso que até esta altura nunca os tinha visto. Iria vê-los, com muita pena minha, na sua pior fase; o último disco dos The National não nos trouxe nada de novo e acabou por soar a mais do mesmo. Ainda assim, trata-se de um disco razoável. Em palco, os The National são conhecidos pelas suas incríveis performances. Não é de estranhar que, por isso, as expectativas estivessem bem lá em cima. Depois de viagens por toda a discografia, onde foram tocados sucessos como “Fake Empire”, “Sorrow” (com participação especial de St. Vincent), “Abel”, “England” ou a estrondosa “Mr. November”, e não só (também se levantaram ecos de Surfjan Stevens em “Ada), acabei por ficar com a sensação de que o concerto soube a pouco. E não, o concerto esteve longe de ser mau (foi, na sua verdade, excelente), mas por vezes sentiu-se que as tropas de Ohio não conseguem ter o mesmo impacto quando viajam aos seus tempos mais recentes (“Graceless”, “I Need My Girl” ou “Sea Of Love” – pecou apenas por isso e pelas músicas que faltaram ser tocas (um festival pede a “All The Wine”). Na maior enchente do festival que me recordo, talvez as nossas expectativas estivessem demasiado altas.


Dum Dum Girls ou Charles Bradley: qual a melhor alternativa aos The National? A julgar pela coolness concentrada no palco ATP, a nova tentativa bem sucedida de integrar um histórico num festival que, embora sendo altamente cosmopolita, não deixa de ser predominantemente pop-rock. Totalmente maximalizada, a banda de CHARLES BRADLEY, esse performer deepsoul de eleição ressuscitado no documentário “Soul of America”, tem quase (ou mesmo) tudo o que um espectáculo exige: uma banda perfeitamente integrada que faz também serviços mínimos nos coros, um apresentador melhor do que muitos, o domínio de todos os caminhos do que se pode colocar em cima da soul e do blues e hinos celestiais como “Why Is It So Hard” e “You Put The Flame On It”. Uma espécie de desforra dos tempos que agora já não contêm os nomes que edificaram um género e uma canção e em que a sua irmã da Daptone, Sharon Jones, é figura de proa. Bolas, ainda há quem faça bom trabalho de casa nas editoras pelo Mundo fora…mas até que ponto tanta atenção repentina não se esfumaçará? Essa é a pergunta que fica sem resposta enquanto Bobby Womack também não for consumido, mais do que pelo tempo, pela demência de Alzheimer.


Antes da hora de espreitar outros palcos, a tenda Pitchfork, no seu dia mais interessante, era entre o final do concerto dos The National e o início dos de St. Vincent e Slint dos norte-americanos de Massachusetts SPEEDY ORTIZ que, não pondo em causa esforço que tenham empreendido, não saíram muito do registo agradável do garage-rock meio noise-pop colegial tipicamente mais datado do que alguns focos de sucesso da mesma altura que se reuniram para voltar aos palcos nestes últimos tempos. Nada que impeça, contudo, de apreciar o talento uma melodiosa e irreverente Sadie Dupuis que, independentemente dos músicos que a acompanhem, tem os tiques de personalidade necessários para que o seu nome seja mais do que um minúsculo epitáfio de quarto de adolescente em que, por acaso, os pequenos problemas dão origem a grandes canções.  

Chegava a tão ansiada hora: passavam trinta minutos da meia-noite e os SLINT subiam ao palco ATP. Estávamos nós na terceira fila do concerto. Estávamos a uns escassos metros daquele bando dos quatro que um dia decidiu começar a fazer música a sério quando ainda tinham catorze e quinze anos. Sempre defenderam a escola que frequentavam era o principal propulsor para o seu espírito criativo em tão tenra idade. Reza a lenda que nessa idade deram um concerto, ainda sem a sua formação definitiva, para os seus companheiros da escola. Reza a lenda que esse concerto durou uma hora, reza a lenda que já aí despertavam e aliavam o amor pelas harmonias de uns Misfits a devaneios demorados pelo silêncio. Não reza lenda nenhuma, está tudo num documentário: Breadcrumb Trail. “Breadcrumb Trail” é também a primeira faixa de uma besta de perfeição: Spiderland, de 1991, foi o segundo disco do quarteto sob o nome Slint. 


O concerto começava e os prognósticos dão-se antes do jogo começar: iria sair dali o concerto do festival. Não fomos defraudados. «São a melhor banda do mundo, caralho!», gritou alguém da plateia. O grito estava certo, quase tão certeiro como quando “Breadcrumb Trail” se abre para nós. As cabeças abanam-se, o legado celebra-se, as diferenças sobressaem; Tweez e Spiderland não parecem filhos dos mesmos progenitores. Se por um lado existe a manutenção do espírito post-hardcore/math-rock veiculado por um dos seus principais mentores, Steve Albini, por outro, pelo lado de Spiderland, existe o equilibrar de forças entre o silêncio, o dilúvio e a experiência. Se por um lado se abanam cabeças incessantemente, por outro existe mais espaço para meditarmos e repensarmos na sua grandeza. São os contadores de histórias; “Don, Amon” nasce da fusão de um baixo com uma guitarra e de um spoken-word constante. Termina numa distorção como por asfixia depois de levitar por entre cada átomo de ar que compõe a atmosfera que se vive no Parque da Cidade. Felizmente, o respeito pelo artista foi enorme e fez jus àquilo que se pedia: silêncio e devoção. Foram-se embora dizendo “Goodmorning, Captain” e a praia ali tão perto. No fim, nostalgia a correr-nos pelo corpo. Sabíamos que era um acto irrepetível, mas nem nos nossos melhores sonhos equacionámos poder ver tanta grandeza junta. Não foi um mero concerto de uma vida, foi muito mais do que isso: foi o comprovar da existência de quatro seres que na casa dos vinte anos esculpiram algumas das obras mais louváveis de todos os tempos e alteraram os paradigmas musicais desde então. A evolução após a sua existência acalmou, o conceito de novo também, quanto ao de único é deles e de pouco mais. Não sabemos o que será feito deles futuramente, mas tal como se gritou em “Goodmorning, Captain”, «I’ll miss you».

Depois de um concerto assim (ler acima), quase tudo iria soar banal: foi o que nos aconteceu com TY SEGALL. Monstro da garage rock actual, Ty Segall subiu ao palco ATP em dia de aniversário. Bem, vamos ser francos: apesar de ter alguns discos com um qualidade assinalável, Sleeper e mais um ou outro disco pecam por nos dar sono. Em palco não chegámos a ter sono nem a abrir a boca a acusar a presença dele, mas Ty Segall nunca nos conseguiu demonstrar aquilo que realmente é (ou foi) para além de ser um mestre a tocar guitarra. Estava a ser mediano, mas depois de Slint era como comprar um bolo-rei e calhar-nos a fava.



Bem diferente da primal screamer Ida No no ano passado, Cameron Mesirow, GLASSER, ocupava o mesmo lugar na programação do palco Pitchfork com os mesmos objectivos. Curiosamente ou não, foi também quando o ritmo do concerto abrandou e se tornou um pouco mais exploratório, etéreo e negro que os verdadeiros atributos do duo norte-americano de “Ring” e do mais recente “Interiors” sobressaíram em alturas como “Landscape”, “Design” e “Mirrorage” num apelo electrónico e metódico ao hedonismo à flor da pele correspondido pelo numeroso público que se dividia entre algo mais funky como os !!! e a alternativa inércia/curiosidade pelo registo frenético ligado a outras voltagens do aniversariante Ty Segall. Para quem ficou, sobrou o brilho da voz altamente dinâmica de Mesirow que lhe soube incutir um certo misticismo e mistério não abafados pelo chamamento cafeinado de percussões convidativas. És tu, “art pop” título de disco de Lady Gaga?

CLOUD NOTHINGS eram quem se seguia. A priori, tinha-os avançado com um dos grandes concertos do festival. Colocar uma banda de post-hardcore (mesmo que por lá corra um fio pop bem vincado) a tocar às três da manhã é, à falta de melhor termo, para partir com tudo. Efectivamente partiram: houve mosh, crowdsurfing, empurrões e cerveja espalhada pelo chão. Mais turbulentos e caóticos do que em estúdio, a harmonia pop é sempre uma constante nas canções dos norte-americanos que facilmente podiam ser confundidas com hinos à época juvenil. O alinhamento do concerto andou sempre à volta de Attack on Memory e de Here and Nowhere Else, disco editado já este ano, e desenlaçou-se com a portentosa “Wasted Days”. É bom quando a expectativa é cumprida.

A festa portuense encerrou-se no festão incrível de PIONAL, que nos trouxe um set ecléctico mas sempre abraçado ao house. O NOS Primavera Sound já tem data de regresso marcado: época primaveril de 2015.

Texto por Emanuel Graça / Glasser, Charles Bradley, Speedy Ortiz, John Grant e Hebronix por André Gomes de Abreu

Fotografias cedidas pela organização (créditos: Hugo Lima) / Gonçalo Loureiro




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