sábado, 16 de Agosto de 2014

LAVOISIER - Entrevista

Seja pelo talento nas versões que fazem, seja pela consistência dos originais que vão lançando, é fácil gostar dos Lavoisier, um dos nomes que mereceram destaque no 2º dia de concertos do Festival BONS SONS 2014 como fruto do regresso de A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria a Cem Soldos e da própria banda aos palcos portugueses.
A Igreja esteve toda iluminada pelos Lavoisier e não queremos nem por nada transformar a atenção que devem continuar a chamar noutra coisa qualquer. Ora vamos lá: acordai!





BandCom (BC): Neste momento, o que é Lavoisier? É já uma entidade própria diferente da simples junção entre a Patrícia e o Roberto? 

Lavoisier: Acreditamos que a simples união, gera automaticamente um entidade própria.
Tentámos desde o inicio afastar as individualidades e focar mais no elemento exterior a nós, a música, e que só assim ganharia uma identidade própria. 


BC: Além da vida profissional, o que vos trouxe Berlim de novo à vossa vida
artística? Mais saudades de Portugal e das raízes? 
Lavoisier: 
Berlim trouxe uma nova visão, novos horizontes mas sobretudo um novo sentido do Real.
Representando, mais ou menos, uma montra fidedigna do que se passa culturalmente um pouco por todo o mundo, Berlim apresenta-se como um pequeno palco onde tens o muito bom, mas também consegues encontrar o muito mau, terra do querer é poder e do querer é fazer.
Deambulando numa cidade longínqua, questões como o "cantar em português" ou fazendo musica como português hoje no mundo, parecem brotar e ao que a nossa melhor resposta ter-se-à traduzido na expressão musical.
Relativamente ao facto de viveres fora do teu país durante quatro anos, as saudades fazem-te acreditar num Portugal utópico onde tudo resulta de uma forma próspera, aprendes a amar e a defender algo que se assume como a tua maior missão, mas a verdade é que olhando de fora para dentro tudo se torna objecto de interesse profundo, querendo-se perceber as próprias raízes sem pressões ideológicas ou patrióticas, talvez facilitando um melhor diagnóstico.


BC: Regressar de um país que não é aquele em que nasceram e apresentar de forma consistente a vossa música tem sido mais fácil do que fazer o trajecto inverso, ou seja, trabalhar primeiro a partir de cá e seguir depois para o estrangeiro à procura de holofotes para o vosso trabalho?

Lavoisier: A experiência de tocar música em português para quem não a entende trouxe-nos mais a procura de uma musicalidade, que não se traduzia tanto pelo significado da palavra mas sim pelo seu som e pela sua expressão. Com muito menos "lírica" e com mais harmonia e dissonância.
Sabemos que o percurso que escolhemos dita a música que fazemos e nesse sentido não nos arrependemos da escolha.
O ser mais fácil de apresentar em Portugal só o foi num sentido, é que a vontade de mostrar, apresentar e partilhar o que tínhamos andado a fazer em terras longínquas era muita.
Tudo isso é um processo, chegámos há um ano a Portugal e sentimos que ainda temos muito que tocar e partilhar.
É um trabalho árduo, e por vezes com condições muito precárias mas com a certeza de que o queremos fazer.


BC: No final de todo o processo, que características musicais principais notam na música de Lavoisier? São muito diferentes das características das vossas influências e das vossas preferências como ouvintes (sabemos que já fizeram uma canção dedicada a John Lennon e Jeff Buckley)?

Lavoisier: A música de Lavoisier nada mais é do que um reflexo artístico das nossas experiências de vida. Se nela se pode encontrar traços musicais de uns artistas mais do que outros é certo que também se encontrará ideias ou atitudes que nos levaram a fazer um determinado tipo de música em que a primeira regra seria o não preconceito.
Talvez, por causa disso, sintamos que temos muito a aprender e que a estética do que fazemos, não se prenda com o que ouvimos ou com o que lemos, mas mais com o que temos para dizer e como o que queremos fazer; se isso por vezes for mais visível na expressão de um tema popular português, que seja, mas nada nos impede de o procurar num português do Brasil ou num inglês do anglo-saxónico.


BC: Duas recolhas musicais já incluíram os Lavoisier: os “Novos Talentos FNAC” em 2013 e a mixtape nº 52 da Mercedes-Benz. Para além da satisfação natural, este sentimento de pertença a um grupo de artistas com canções valiosas é também um sentimento de que a música popular é ou pode ser moderna?

Lavoisier: Ficamos muito contentes com o reconhecimento do nosso trabalho. E principalmente muito felizes por fazer parte de uma geração tão próspera a nível musical em Portugal.
Em relação à musica popular e/ou moderna, são conceitos difíceis de definir.
Tentamos fazer musica sem preconceitos, mas sabemos que existem. Abordar a música popular portuguesa foi para nós inevitável num processo de auto conhecimento, mas jamais negando a nossa época e o nosso tempo.
Não nos agradam os puristas. 


ÁGUAS QUE MOVEM MOINHOS from TARABELO on Vimeo.


BC: Falem-nos um pouco sobre a vossa participação no projecto “Águas Que Movem Moinhos”.

Lavoisier: Acontece em forma de convite pelos realizadores do projecto. Havendo uma conexão com a terra de Vinhais, sendo o Roberto natural de lá.


BC: Apesar dos vários palcos que já pisaram, os Lavoisier ainda continuam a marcar presença em eventos simbólicos e com um valor especial associado a esse momento. Não é apenas o poder mostrar a vossa música, mas também marcar a vossa presença num momento único, que vos continua a motivar para um espectáculo ao vivo, é isso? 

Lavoisier: Para nós faz sentido fazer música e apresentá-la ao vivo.
O que nos continua a motivar é a vontade de fazer mais e melhor. Todos os palcos são diferentes, todos os públicos são diferentes, todos eles te trazem memórias, seria injusto compará-las qualitativamente. Acreditamos que a nossa "ascensão" não se traduzirá na escassez de "palcos simbólicos": se é palco merece o teu respeito e dedicação.


BC: O que tem a Murmürio que mais nenhum colectivo tem?

Lavoisier: O trabalho com a Murmürio é muito recente. Mas o que nos agrada na agência é que é uma pequena empresa que respeita os músicos, e que é "maluca" o suficiente para enfrentar "os monstros" do grande mercado e acreditar que é possível fazer de outra maneira.


BC: A “antropofagia” é uma das lacunas principais da música popular portuguesa para que esta não se transforme e chegue a outros patamares como a música brasileira chegou?

Lavoisier: O conceito "antropofagia" acontece num contexto. Se no Tropicalismo ela assumiu um papel importante para se poder perceber uma identidade cultural, que não queria ser vista como estanque, mas sim evolutiva e consciente de uma realidade que os rodeava nos anos 70, em Portugal esse termo não suscitou na altura, matéria que possamos hoje analisar como forma de lacuna ou não. Até porque possuímos um vasto legado de influencias africanas, brasileiras e europeias com uma bela dose do imperialismo norte-americano, o que faz com que tenhamos vários artistas que se sintam mais confortáveis/disponíveis para se exprimirem noutro idioma que não o deles.
Palavras como Tropicalismo ou Antropofagia suscitam em nós um tipo diferente de atenção: estas fazem-nos crer que o português de hoje não pode ser indiferente à sua história e à relação que tem com o Mundo, quer seja em presença física ou virtual. A digestão de culturas diferentes existe em qualquer pessoa, apenas achamos que o artista português se encontra algo mais privilegiado pelo contacto imediato com influencias tão variadas.


Lavoisier - "Eu não me entendo" de José Mário Branco from MPAGDP on Vimeo.


BC: Como emigrantes, e para além dos artistas nacionais que vos inspiram e que apreciam, há outros casos de portugueses a fazer música lá fora que vos cative?

Lavoisier: Tivemos contacto com o Carlos Bica, residente em Berlim, com o qual fizemos umas colaborações e pudemos aprender bastante.  
Em Berlim conhecemos vários músicos/artistas portugueses que nos têm inspirado bastantes. 


BC: Qual a vossa ligação com outras artes, como o cinema ou a ilustração? 

Lavoisier: Ambos estudámos na ESAD, Caldas da Rainha. O Roberto frequentou o curso de Som e Imagem e a Patrícia estudou Design de Cerâmica e Vidro. Em relação ao cinema ainda não houve grande ligação, havendo somente uma animação musicada para as TED Talks a convite da Maria Nogueira e uma pequena participação sonora na série "Nada Tenho de Meu"  de Miguel Gonçalves Mendes.
Já com a ilustração a Patricia faz todo o trabalho gráfico do projecto.


BC: Quais os planos dos Lavoisier para os próximos tempos que possamos ficar a saber?

Lavoisier: Nos próximos tempos estaremos por Portugal em concertos: o próximo festival será o Avante e dia 26 de Setembro temos o lançamento do trabalho "Projecto 675" uma edição limitada de 675 CDs que contou com a colaboração de José Fortes, o "captador de emoções". Para mais detalhes sobre os próximos concertos, podem encontrar a informação actualizada no nosso website.

André Gomes de Abreu




sexta-feira, 15 de Agosto de 2014

SEQUIN - Entrevista

Quando a vi pela primeira vez em palco, fazia parte da The Ballis Band e encantava com o domínio da expressão em diferentes idiomas.
Mas agora, "Penélope" é a aventura a solo no regresso de Sequin à música que mais gosta de fazer, com um novo EP de JIBÓIA que já se vislumbra para breve e em que a sua contribuição é central. É uma Ana Miró com novos horizontes - musicais, artísticos e até pessoais - que encontrámos antes de mais algumas etapas de outro Verão cheio de concertos. 






BandCom (BC): Sequin: “bubblegumpop” electrónica, doce, íntima, pessoal. Mais perto, na maneira como vês o teu trabalho, de Bat For Lashes ou de Fever Ray?

Sequin: Acho que a minha música é um misto das duas coisas, sem ser coisa nenhuma. Há um lado negro, melancólico, introspectivo e ao mesmo tempo um lado festivo e despreocupado na minha música, no fundo o reflexo das minhas vivências e daquilo que eu sou.


BC: Quão difícil é fazeres a tua música, para ti, e depois expô-la ao vivo num espectáculo em que também te tens de mostrar às pessoas?

Sequin: Fazer música é aquilo que mais amo fazer, por isso não me é nada difícil, e muito menos me é dificil partilhá-la com os outros. Gosto muito de tocar ao vivo e é para as pessoas que faço a música.


BC: Entre outras experiências, chegas até Sequin vinda de registos totalmente diferentes com o Óscar Silva (JIBÓIA) e com os The Ballis Band, em que quem ia dando a cara era a Ana Miró. Sequin, e particularmente este “Penélope”, representa mais a tua personalidade como artista, a “chegada a casa”, ou é também mais um caminho para o autoconhecimento? 
A Sequin consegue também integrar-se dentro de, por exemplo, a 
versão da “Tuareg” da Gal Costa com que te estreaste ao lado do Óscar há uns Milhões atrás ou dentro do registo dos Heats?

Sequin: Acho que Sequin é finalmente o meu projecto, de uma ponta a outra, é tudo o que está em mim, é a minha casa, e a minha possibilidade de me afirmar enquanto compositora, já que nos outros projectos a composição das músicas passa mais pelos outros músicos com quem colaboro, ficando apenas a parte vocal a meu cargo.
A Ana Miró integra-se em todos os projectos, são o que eles têm em comum, não acho que haja nada de Sequin em Jibóia, onde o desempenho vocal é completamente distinto e mesmo em Heats acho que também é algo diferente, mais rock, mais forte, mais destemido. Sequin é o projecto onde eu posso ser mais transparente e estou sem dúvida mais exposta a nível pessoal.




BC: Lançaste o “Beijing”, o teu primeiro tema como Sequin, bastante antes do disco estar pronto e estar cá fora. Foi um bom teste à reacção dos que te seguem?

Sequin: Claro que sim! Acho que correu muito bem, muito para além das minhas expectativas. Foi o primeiro passo deste projecto e acho que entrei com o "pé direito" ou diria mesmo que entrei a "pés juntos"! 


BC: Nota-se uma relação entre o que vais deixando no Conception Rouge, o teu blog, e as letras deste teu trabalho. O que mais te motiva para escrever e/ou para compor?

Sequin: Tudo me motiva para escrever e para compor. Sempre o fiz, e escrever para o blog ou para as músicas acaba sempre por ser um mesmo trabalho. Se bem que ultimamente não tenho tido muito tempo para escrever para o blog, já que a música está a correr bastante bem e me tem tirado muito tempo livre.


BC: Com os Heats, os trópicos. Com Sequin e JIBÓIA, o Oriente cosmopolita e voltado para o exterior. No passado, os The Ballis Band eram também uma conjugação de vários submundos da música europeia. Qual o continente que mais te fascina, musicalmente falando? Porquê?

Sequin: Todos me fascinam, o mundo em geral, todas as pessoas e todas as histórias que o integram. Não me sinto nada portuguesa na música que faço, acho que é algo que vai além fronteiras e não tem um lugar especifico de existência.


BC: Dentro do catálogo da Lovers & Lollypops não há assim tanta pop, especialmente electrónica. Pode-se dizer que a visibilidade que a L&L tem cada vez mais está também a crescer em diversidade com a adição de projectos como o teu?

Sequin: Acho que todos ficámos a ganhar com esta colaboração. Fico muito feliz por fazer parte dessa família que é a Lovers, por poder fazer parte dos seus projectos e caminhar com eles, e também por eles depositarem confiança no meu trabalho e nas minhas ideias, e sinto-me bastante confortável.


BC: Apesar do facto de o Moullinex ter produzido o teu disco, e tendo em conta que há uma presença marcante de vozes femininas nas próprias canções do Luís, poder-se-à dizer que todo o processo de concepção final do disco foi também um momento de aprendizagem, de simbiose entre vocês?

Sequin: Claro que sim. Quando comecei a trabalhar com o Luís já tinha quase todas as músicas compostas e terminadas, mas o trabalho que conseguimos desenvolver juntos e a sabedoria dele enquanto produtor trouxe bastante brilho às músicas e força. Aprendi muito com ele, e acho que o resultado final que está à vista, mostra muito daquilo que conseguimos juntos!


BC: Enquanto Sequin, lideras ao vivo uma banda com mais dois rapazes para partilhar palco com, entre outros, as Warpaint. Enquanto membro dos Heats, dás voz à música feita por ti e por mais quatro rapazes. Como é, por um lado, liderar formações em que és a única mulher que as integra, e por outro lado, que sensações te desperta o facto de pertenceres também a um grupo que está a dar os seus primeiros passos e a passar novamente pelos concursos de bandas?

Sequin: Sempre gostei muito de trabalhar em banda, e sempre me dei muito bem com rapazes, acho que são mais práticos e descomplicados. Também gostava de experimentar ter um projecto só com raparigas, mas até hoje não se proporcionou. Sinto-me muito bem a trabalhar em todos os projectos, e acho que isso me faz crescer enquanto artista. 
Estar a começar uma caminhada com os Heats é algo que me deixa bastante contente, é bom trabalhar e ver crescer um projecto, e a passagem por todas as fases é um sabor diferente de trabalhar sozinha.





BC: A tua experiência de palco já se compõe de concertos em vários países. Quais são os próximos destinos ideais para apresentar este disco?

Sequin: Gostaria muito de fazer uma tour pela Europa, sem dúvida passando por Londres e por Berlim ou Amesterdão, acho que a minha música se enquadra lá. Veremos o que vai acontecer.


BC: O que podemos esperar da Sequin para os próximos tempos? O que nos podes contar sobre a tua participação no novo trabalho do JIBÓIA?

Sequin: Nos próximos tempos vou estar por cá, a apresentar o álbum de Sequin. No Outono vou estar a apresentar o novo trabalho de Jibóia! Estou muito contente com o que fizemos nos últimos meses, e acho que o novo EP está muito diferente e interessante. Não posso adiantar muito mais. Entretanto também lançarei o EP de Heats! Tenho muito trabalho ainda este ano!

André Gomes de Abreu




quinta-feira, 14 de Agosto de 2014

NICE WEATHER FOR DUCKS - Entrevista

Os Nice Weather For Ducks não abrandam na promoção de "Quack", o disco de estreia lançado há 2 anos, e já têm regresso marcado a Espanha para fazerem parte do cartaz do Festival Europa Sur. Com a Europa cada vez mais perto - e não é de espantar dada toda a luminosidade que emana de cada vez que se vêem em formato acústico ou eléctrico - achámos indi(e)spensável colocar-lhes algumas questões quando um segundo disco de originais já se perspectiva, embora sem data confirmada. Bons tempos para patos, e não só, sobretudo quando Leiria consta do respectivo cartão do cidadão. 





BandCom (BC):- À partida, a palavra “originalidade” é a que melhor define os nomes que escolheram para a vossa banda e para as vossas faixas. Difícil de descrever e de reduzir a um único género musical, interessa-nos saber como decorreu o processo de composição e de finalização do disco e qual foi a trama.

Nice Weather For Ducks (NWFD): O processo de composição foi bastante tranquilo, levámos algumas ideias de casa para a sala de ensaios nas quais fomos trabalhando e, no fim dos ensaios, geralmente, juntávamo-nos à volta duma mesa e escrevíamos as letras em conjunto. Fomos tocando durante cerca de um ano e antes de irmos para estúdio tínhamos 12 músicas, das quais escolhemos 10 para figurarem no álbum. 


BC: “Quack” é um disco de descrição de viagens já realizadas ou por realizar?

NWFD: “Quack” é o início de uma viagem, não sendo necessariamente uma viagem física. “Quack” também pode ser uma esponja, que pela sua natureza, absorve coisas.


BC: “Quack” já é de 2012 e ainda o andam a tocar ao vivo este ano sem um sucessor anunciado. Em que fase do desenvolvimento de um novo disco (se ele vai existir) se encontram actualmente?

NWFD: A próxima fase é espremer a esponja. Estamos ainda em fase de composição e a ideia é aproveitar o que de melhor havia no “Quack” enquanto exploramos uma série de sonoridades novas.


BC: Que banda portuguesa mais vos influencia ou, pelo menos, ouvem em casa, no carro, no mp3?

NWFD: Provavelmente os Allstar Project. Vimo-los vezes sem conta e decidimos que queríamos ter uma banda que fizesse as pessoas sentirem-se como nós nos sentíamos nos concertos deles.


BC: Qual foi o ponto mais determinante na vossa carreira?  O convite da Optimus Discos?

NWFD: Um bacano que nos viu ao vivo pela primeira vez e decidiu criar uma editora. Falamos do Hugo Ferreira e da Omnichord Records, claro.


BC: O vosso disco “Quack” foi bem recebido, logrando várias críticas positivas, inclusivamente uma na revista francesa Les Inrocks. Qual foi o impacto desse artigo na vossa carreira? Como o receberam?

NWFD: Na altura ficámos bastante surpresos, mas orgulhosos, claro. Fomos todos ao café beber uma cerveja para comemorar e depois nunca mais nos lembrámos disso até à semana passada.


BC: Notámos que a maioria das reviews e dos artigos escritos na Les Inrocks sobre bandas portuguesas são de dois lusodescendentes, o que já provocou nalguns leitores a sensação de que esses jornalistas defendem mais a “prata da casa” do que a qualidade musical. Acham que seriam feitas essas críticas se os jornalistas fossem, por exemplo, bretões e falassem de uma banda bretã?

NWFD: Por acaso ainda não tivemos oportunidade de conhecer os autores dos textos mas o espírito latino é tramado para essas coisas. É como reparares que lá a imagem é de uma banda mas quando transpõem o artigo vão buscar imagens de outras. Quando falam disso quase se ignoram os mais pequenos ou os que não são das duas cidades grandes. É a lei do mercado. No entanto para quem vê de fora não há receio de falar de algo que não seja da capital ou do Porto. Isso denota interesse, curiosidade e pesquisa. E nós ficamos contentes, ainda que a foto já não nos favoreça muito.





BC: Curiosamente, e pegando novamente no exemplo francês, todos os artigos sobre fado têm sido sempre escritos por jornalistas franceses, sem raízes lusas. Será que os franceses, e até outros povos, continuam a reduzir a música portuguesa apenas ao fado?

NWFD: E vão continuar a reduzir enquanto não houver um apoio sério e promoção ao que é feito em Portugal. A nossa música independente ou alternativa está ao nível da melhor do mundo. Mas a que vem de lá de fora é que é fixe. Se não tivesse havido apoio de vários lados para exportar a Amália se calhar nem do fado falavam hoje. 


BC: Nem sempre sucede, mas vemos assiduamente os Nice Weather For Ducks em várias datas com outras bandas também de Leiria e da própria Omnichord Records, que chegou a lançar um split-CD vosso com os First Breath After Coma. É um ambiente saudável o que se vive entre a comunidade musical em Leiria? É um bom ambiente que se tem propagado à cidade ou ainda não?

NWFD: Era e é um “split”, mas em vinil, numerado, sete polegadas. Uma coisa mesmo bonita. O ambiente entre a grande maioria das bandas de cá é como um casamento poligâmico, só com as partes boas a manter a chama sempre acesa. 


BC: A compilação “Leiria Calling” de que fazem parte…já vai atrasada em relação ao boom musical de Leiria? Surge no momento certo? É representativa da Leiria musical neste momento?

NWFD: Se olharmos para o CD, que tem 14 temas, só há uma música com dois anos, três ou quatro do final do ano passado e o resto é tudo de 2014, foi mesmo no ponto.





BC: Já tocaram em festivais, em salas fechadas e até numa sala de estar num dos primeiros Sofar Sounds Lisbon. Onde se sentem melhor a tocar ao vivo?

NWFD: Gostamos de encarar um concerto nosso como se fosse uma espécie de festa de arraial. Mesmo em espaços mais intimistas, tentamos sempre que o público se sinta a vontade para poder dar um pulo ou outro ou mesmo um piropo. No fundo, o conceito é provocar uma reacção positiva para quem se desloca para nos ver, seja em que espaço for.


BC: O Luís também faz parte dos Team Maria e, independentemente de serem das mesma cidade, nota-se claramente uma semelhança em alguns momentos entre a sonoridade dos Nice Weather For Ducks e a dos Team Maria. Consideram que este facto pode ser prejudicial à diferenciação das duas bandas?

NWFD: 
Isto é Team Maria. Isto é Nice Weather for Ducks. Isto é um hamster num piano.
Mas bem, nunca pensámos muito nisso, mas cremos que a semelhança não seja assim tão significativa.


BC: Nestes últimos tempos têm aproveitado para também se mostrar ao estrangeiro, sobretudo em Espanha: já estiveram no último Monkey Week, vão estar na edição deste ano do Festival Europa Sur. O futuro dos Nice Weather For Ducks passa também por outros países? Sentem diferenças entre a recepção da vossa música em Portugal ou em Espanha, por exemplo?

NWFD: Temos tido oportunidade todos os anos de ir ao pais vizinho tocar, geograficamente esperamos que a “evolução” seja exponencial, depois da Península Ibérica que venha o resto das penínsulas e por aí fora. Sentimos algumas diferenças principalmente no idioma; no que toca ao objectivo em concreto de ir a um festival, a coisa funciona praticamente da mesma forma que aqui.


BC: Como receberam o convite para o FUSING Culture Experience? O que acham do conceito do festival? Foi mais fácil aceitá-lo por ser na zona centro?

NWFD: O FUSING é um festival que consegue oferecer muito mais do que música e que aposta a sério na produção nacional. É criativo, tem casa na praia e, olhando para o cartaz, está impecavelmente bem vestido. Por isso, como dizia o outro... o que isto precisava era de um FUSING a cada esquina.


BC: Que concertos deste festival aconselhariam e porquê? 

NWFD: Os manos First Breath After Coma, Sensible Soccers, Slow Magic, You Can’t Win, Charlie Brown, Capitão Fausto, Octa Push, tantos… vejam tudo o que conseguirem!


Mickaël C. de Oliveira




domingo, 10 de Agosto de 2014

FESTIVAL BONS SONS 2014: DA ORGANIZAÇÃO À REALIZAÇÃO

No ano passado a estreia do FUSING Culture Experience, este ano a edição de balanço do festival BONS SONS. Desde 2006 que a aldeia de Cem Soldos, no concelho de Tomar, se fecha sobre si mesma e abre portas aos festivaleiros que procuram, tanto como música de qualidade, a genuinidade da música que surge a cada momento, em qualquer lugar, como já não se pensava ser possível.
Em 4 dias de avaliação do futuro, do festival e da música portuguesa que 55 nomes representarão de 14 a 17 de Agosto, a evolução, os destaques e o impacto de um festival que se nacionalizou a partir de uma aldeia que com ele beneficia no antes, durante e depois são questões para Luís Ferreira, director artístico do festival, responder.





BandCom (BC): Até chegarmos à edição deste ano, o Festival BONS SONS passou por algumas transformações e redimensionou-se à escala de um festival de impacto nacional. De que forma estas alterações impactam a aldeia de Cem Soldos e também o espírito deste festival?

Luís Ferreira (LF): Até ao momento o impacto tem sido positivo. Temos conseguido chegar ao nosso público. A todos aqueles que gostam de música e valorizam a aldeia. Desde o início que nos consideramos uma plataforma de divulgação da música portuguesa e é nesse sentido que queremos continuar a trabalhar. O crescimento mediatico é um resultado desse trabalho e todos saímos beneficiados. Os olhares nacionais tornam-nos também mais exigentes com o nosso trabalho. Com a diversidade e qualidade da actual oferta musical nacional o BONS SONS não tinha outra hipótese senão crescer.


BC: Ao contrário de outros festivais de Verão, o BONS SONS surge integrado no plano de actividades de uma associação local. Ou seja, é um festival feito por quem é de Cem Soldos em Cem Soldos. Além disto, há três palcos no festival que continuam a beber o seu nome de figuras marcantes da história da música portuguesa – Palco Lopes Graça, Palco Giacometti, Palco Aguardela – e continua a haver um espaço para A Música Portuguesa A Gostar Dela Própria e agora para os Prémios Megafone que se
preocupam com quem lida de uma forma original com o que é tradicional. É por aqui,
pelo apego às raízes e às pequenas homenagens à História, que poderá passar o que
vos distinga de outros festivais?

LF: Esse é um dos olhares do festival mas não é o único. Valorizamos a identidade e o legado cultural, tanto colectivo como individual. É esse o reconhecimento que queremos fazer com as homenagens a este três visionários que dedicaram o seu trabalho ao estudo das tradições para as poderem transportar para actualidade de cada um. Não vivemos da cristalização do passado mas queremos trabalhar numa vanguarda e num presente que dá pistas de futuro. O futuro não se consigna à construção de prédios espelhados nas grandes cidades. Também o espaço rural evolui e não está condicionado apenas aos queijos e enchidos. É neste lado mais orgânico e ambíguo que queremos trabalhar. Uma espécie de futuro evolutivo que vive das referências do passado e as transporta para o futuro. Um presente atento aos novos estímulos e que os abraça sem recorrer a rótulos e a definições segregadoras.


BC: No mesmo fim-de-semana do Festival BONS SONS 2014 haverá, pelo menos, 3 outros cartazes, 3 outros festivais de impacto nacional destinados a públicos semelhantes e também com uma forte aposta na música nacional. Como comentam este facto? É uma situação que por vós deverá/poderá ser alterada?

LF: Este fenómeno mostra que, em 2006, estávamos certos. Certos que a música nacional iria criar o seu espaço e que haveria público para um festival de música portuguesa. Agora, após uma longa caminhada, há espaço para muitos mais. Estamos a fechar o primeiro ciclo de 5 edições. Após esta edição, que esperamos que corra bem, iremos repensar o nosso modelo. O nosso modelo nunca foi confortável até pela grande diferença face aos outros festivais. O BONS SONS nasce da vontade e mobilização de toda uma Aldeia na divulgação da música portuguesa e da nova ruralidade, sem intervenção de uma produtora, focada na obtenção de lucro. Entre cada edição colocámos sempre novos desafios e quisemos levar o espírito desta Aldeia a todos. Neste momento, vivemos a moda dos festivais e, dentro de pouco tempo, apenas ficarão os que têm realmente efeitos e que não vivem apenas de modas. A palavra "Festival" é demasiado lata e abarca muitos eventos que nada têm a ver uns com os outros, tanto nos seus objectivos como na sua oferta.


BC: Não se repetem nomes de 5 em 5 anos, não se realiza um festival de ano a ano mas sim a cada dois anos. São princípios de que continuarão a não abdicar?

LF: Essa será uma reflexão que vamos fazer após esta edição. Dois anos pareceu-nos um intervalo razoável para minimizar o impacto na Aldeia que queremos partilhar e também para nos dedicarmos a outros projectos de desenvolvimento local. Os únicos dogmas do BONS SONS são a promoção da música e cultura portuguesa e a vivência da aldeia de Cem Soldos. Todos os outros modelos são mutáveis caso nos faça sentido.





BC: O cartaz do BONS SONS 2014 foi conhecido na sua totalidade mesmo antes de terminar o período para compra de entradas a preço reduzido. É mais fácil atrair público sabendo este já totalmente ao que vem?

LF: Muitos são aqueles que já vêm ao BONS SONS pelo seu conceito e pela coerência da sua programação. Contudo, gostamos que estejam alinhados com o programa. Queremos continuar a ser um festival para quem gosta e valoriza a música. Além de organizadores de um Festival especial, de nos partilharmos entre ambientes rurais e urbanos, também somos consumidores de música e de outros Festivais.  Assim, também pensamos o festival com todas as características que gostaríamos de sempre ter. É este profissionalismo e compromisso com o público que depois amplifica a vivência da aldeia.


BC: A 2a edição dos Prémios Megafone, um Palco Rua com destaque para a originalidade e o festival Walk&Talk integram também este ano o Bons Sons. Quais as vossas expectativas para estas novidades? Serão para continuar?

LF: Acreditamos que são para continuar. Os Prémios Megafone estão completamente ajustados aos nossos objectivos e gostávamos de perpetuar esta parceria. Estamos certos que todas as restantes novidades são para continuar.


BC: Este ano apostaram também na realização de duas acções de lançamento, uma em Lisboa, outra no Porto, e ainda uma noite no Musicbox dedicada ao festival. Qual o balanço destes eventos?

LF: O balanço é positivo. Com estas acções pretendemos relembrar que é ano de BONS SONS e tentar chegar a outros públicos. Queremos que o Festival seja também o propósito para o debate de ideias em torno do desenvolvimento da Música Portuguesa, da indústria musical e a perspectiva sobre os vários públicos.  Por sermos um festival bienal queremos promover atempadamente um maior envolvimento das pessoas na reflexão destes aspectos. Assim também conseguimos colocar o festival nas agendas de todos com estas multiplicações e prequelas de aquecimento para o BONS SONS.


BC: Tal como a música portuguesa, o cartaz do Bons Sons 2014 também já chega
além-fronteiras? Já têm dados que vos permitam confirmar a presença de público
estrangeiro no festival?

LF: Sim, embora de uma forma tímida. Nas edições anteriores tivemos alguns países convidados (Brasil, Cabo Verde e Espanha) que abriram o festival ao mundo e criaram alguma visibilidade nos media internacionais. Sabemos de antemão que vários grupos internacionais estão a organizar-se para vir ao BONS SONS. Contudo, ainda investimos pouco nesse sentido. Será, sem dúvida, um dos grandes objectivos das próximas 5 edições.


BC: Para terminar, quais serão os outros pontos de interesse do festival e não só que também merecem destaque?

LF: Gostamos de trabalhar em parceria e em cada edição aumentamos a nossa rede. Nesta edição as actividades paralelas são resultado de várias parcerias, como os passeios de burro (AEPGA - Associação para o Estudo e Protecção do Gado Asinino), os projectos de arte urbana (Walk&Talk - festival de arte urbana), os concertos na igreja (MPAGDP - Música Portuguesa a Gostar dela Própria), a Noite Prémios Megafone (Associação Megafone), as sessões de curtas metragens (Curtas em Flagrante) e a música para crianças (Associação Canto Firme). Acreditamos que estas actividades fortalecem o programa do BONS SONS e amplificam a descoberta de Cem Soldos. Sendo o BONS SONS um evento cultural queremos que o seu programa seja mais vasto e para isso trabalhamos com quem já está do terreno e o faz muito bem.


BC: Já se pensa na próxima edição e na comemoração dos 10 anos desde a primeira edição do festival?

LF: Sim, estamos apenas à espera do sucesso desta edição para confirmarmos a nossa perspectiva para o futuro do BONS SONS. O festival é "apenas" um dos projectos que estamos levar a bom porto, em Cem Soldos. É o nosso projecto embaixador e o elemento agregador de toda a acção da associação.





André Gomes de Abreu




GUTA NAKI - "Perto Como" (2014, Meifumado Fonogramas)

Na música portuguesa actual continua a haver espaço para um trio que sabe bem o valor que o tempo tem e, naturalmente, render estruturas prontas a desfazer em palco ora por uma voz incrível, ora pelo racional do virtuosismo lírico e instrumental. Se ainda se pode acreditar numa banda de carreira, os Guta Naki encarnam por completo a descoberta que expulsa o dogmático, o direitinho, o imutável de quem se quer manter único a tentar completar o exercício do passo seguinte. 





"Perto Como" é o segundo disco dos Guta Naki e as diferenças são claras: há uma concentração no que de pop e de orgânico era resquício no primeiro trabalho e, com isso, um ganho evidente de coesão ao longo de todo o trabalho. Há, nesse sentido, um plano de fuga ao sentido negativo do inesperado, alargando um espectro emocional sem o direccionar. Continua a perpassar por aqui o mesmo encanto despercebido, confessional, feito de um minimalismo dandy, de uma luminosidade misteriosa adestrada por um estoicismo carregado e, claro, pelo experimentalismo, musical e físico, de vários territórios. 
O problema principal é a contradição que surge para além de temas como "Meu Amor É Índio", "Zeferino" e "Terra de Ninguém", onde é devida a consideração pelas palavras e pelos bons créditos em carteira, e a sedução fatal por "O Homem Que Dança", que não é apenas um bom single ou uma boa canção: são 4 espectaculares minutos pop abertos, em suspenso, com uma das letras menos trabalhadas do disco. Em suspenso porque não há que sentir culpa pelo facto de não haver ali nos arredores do alinhamento paragens como esta e pelo facto de que o disco não conseguirá "crescer" mais do que a resposta que inconsequentemente tentaremos sempre dar ao dilema entre preferir os Guta Naki deste ou do anterior álbum e com mais ou menos minutos por cada um destes 10 temas novos. 





O valor está cá e estamos a falar do segundo disco de uma banda que já deu mostras de que a sua evolução será sempre no caminho de uma nova surpresa. A chatice com a herança, diferente ou ainda maior que a anterior, pouco interessa. A verdade é que, desta vez, há que esperar para ter mais que uma boa e ilimitada sombra. 

André Gomes de Abreu





sábado, 9 de Agosto de 2014

DE E POR: A VELHA MECÂNICA - "Tanto Por Dizer e Ainda Assim Se Escondia" (2013, Faca Espião)

Menina de sete saias, A Velha Mecânica é um caso de respeito na procura de desmultiplicar pequenos detalhes que não se querem repetíveis.
Como seria de esperar, a necessidade de alcançar outros horizontes é compreensível e compreendida pelo já experimentado grupo: Pedro Correia, por exemplo, é agora também um muito mais electrónico Sonny Boy; João Gil faz parte do brilhantismo dos Marla.
A associação à subreptícia Faca Espião faz com que "Tanto Por Dizer e Ainda Assim Se Escondia" seja um trabalho a descobrir pelo público, e não apenas pela sua maior penetração em certos nichos, mas também pela própria banda, que encontra em Fuse dos Dealema o guardião do subsolo de que necessitou para fugir/encontrar (riscar o que não interessa) a sua própria sombra.
Depois do êxito em várias aparições, chega de novo o tempo de festival, primeiro no FUSING Culture Experience, mais tarde no Woodrock Festival.
Como trabalho de casa prévio, a lição bem estudada, a obra ainda melhor escutada. Palavra aos artistas para emoldurarem cada uma destas canções.

    
























Tanto Por Dizer/António Viagens

A música "Tanto Por Dizer", apesar de aparecer separada, serve como interlúdio ao disco em si,e principalmente à faixa "António Viagens", encontrando-se abrangida pelo mesmo processo de criação e composição. Aliás, a frase musical que se faz ouvir na "Tanto Por Dizer", foi retirada da "António Viagens". 
Provavelmente a primeira d' A Velha Mecânica, mesmo até antes de haver banda.

Pareceu-nos natural que fosse a primeira do disco também.
O nome surgiu quando dois dos elementos estavam a ver um showcase do Tó Trips,
músico que todos nós admiramos. É uma espécie de homenagem.
A letra desenvolve-se a partir do conceito da "verdadeira viagem", que é a vida.
Aborda a perspectiva da finalidade do ser humano, um ser de potencialidades infinitas
mas temporal. É esta temporalidade que nos faz confusão. O "larápio" que é o tempo,
corremos atrás dele mas nunca o apanhamos. A vida com prazo de validade.


Aspirante

Relembra uma pessoa muito conhecida em Coimbra, costumava divagar pelas ruas e pedia
dinheiro e cigarros. Gritava frequentemente com as pessoas, e dizia coisas que muitas
vezes assustavam, mas era alguém que, mal ou bem, fazia parte de Coimbra.
A canção chama-se "Aspirante", porque era como ele se apelidava. Tinha que ver com o seu passado enquanto tropa, e diz-se que foi no exército que sofreu um acidente gravíssimo que o deixou num estado de demência.
Apareceu morto no rio Mondego, em circunstâncias estranhas, e achámos que lhe
devíamos prestar uma última homenagem.


Mil Homens

Com uma sonoridade mais "rock", esta música é muito especial para nós pois conta com a
participação do nosso querido Victor Torpedo, nome incontornável da música portuguesa, que nos marcou profundamente, não só na música como em vários aspectos da vida.
Tivemos o prazer de o ter neste álbum, foi quase um sonho tornado realidade.
Fala sobre a força de vontade, e a vontade de viver e vencer.


Bandeira Negra

O nome "Bandeira Negra" surge da tradução literal do nome de uma banda que teve muita
influência em alguns de nós.
A partir desse nome criámos um refrão. Uma alegoria marítima. Mesmo a nível musical
tentámos dar a sensação do balanço de um barco do mar. Fala-se da vontade de deixar
tudo para trás e começar de novo. Começar sem ilusões, apenas recomeçar,
O resto da letra ficou a cargo do Fuse de Dealema, que criou um texto fantástico,
acabando por acomodar o refrão num conjuntos que nos agrada bastante.
Sendo o Fuse um músico que todos admiramos, esta música acabou por ser das mais
especiais do disco.


Dedos

Provavelmente o único tema "amoroso" do disco, ou que se refere a ele de forma mais
directa. É o nosso primeiro single e teledisco (gravado pelo Leandro Silva).
A letra tem que ver com a celebração do amor. "Os dedos que partem o frio" referem-se à vulnerabilidade do amor que precisa de constante cuidado, "o corpo que não aceita o que viu", diz respeito à quase incredulidade de algo tão bom nos poder acontecer, "o teu nome teceu à aranha canta o meu nome", quando vemos o amor em toda a parte e em todas as situações.
Esta música é o resultado de uma das primeiras jam's d' A Velha Mecânica, permanece no
disco praticamente da mesma forma como foi criada. É cruelmente honesta.





Um Quarto De Hotel

Fortemente inspirado em "Twin Peaks" do Mark Frost e David Lynch, funciona como um
interlúdio.
Extremamente solitário e introspectivo, procura um lugar longe do frio, qualquer lugar...


Esposa Cão

Tema raivoso. Raiva de quem não quer saber, não quer saber de quem sente. Apenas quer subir na escada social. Não liga a meios para atingir fins. Essa pessoa é a esposa cão. Até um dia...


Fujída

Encerra o disco. Como todo o álbum é bastante negro, pretendeu-se acabar com uma
mensagem de libertação e esperança.
Esta música funciona como um hino ao optimismo. A letra remete para a alegria e o
sentimento de liberdade característicos da infância.
Grita-se "partida, largada, fugida! A mim não me apanhas tu! Até os pulmões saírem pela
boca.




BESTA - "John Carpenter (2014, Raging Planet)




A BESTA está de volta e promete não deixar pedra sobre pedra. “John Carpenter” é o sexto registo da banda e presenteia-nos com um conjunto de temas que, no seu todo, compõem um trabalho coeso e cheio de peso, muito peso! 
Para quem conhece a banda, já sabe aquilo com que pode contar ao ouvir este disco, ou seja, uma dose industrial de grindcore capaz de levar o ouvinte a desejar espalhar o caos à sua volta. 








No entanto, este disco tem alguns pontos interessantes que o diferenciam da maioria das edições do género. Em primeiro lugar, como o próprio nome indica, este trabalho surge como uma homenagem a um dos génios do cinema de terror o qual dá nome ao álbum bem como a algumas das faixas que o compõem. Seria difícil encontrar um tema que assentasse tão bem num disco do género, certo? Há que notar igualmente que este não é apenas mais um álbum de grindcore. Ao longo do disco nota-se uma notória influência da crueza e irreverência do punk na sua variante mais crust em temas como “O Carro Assassino” ou “A Bíblia de Satanás”. Mas o colectivo composto por Gaza, Lafayette, Paulo Rui e Rick Chain não se fica por aqui e confronta-nos com mais algumas boas surpresas. Falo dos temas onde o ritmo abranda e o groove de riffs mais arrastados e pesadões entram em força: músicas como “O Princípe das Trevas”, “Assalto à 13ª esquadra” ou a já referida “A Bíblia de Satanás” são bons exemplos disto. Esta alternância de ritmo mune o disco de um factor extra de interesse, destacando-o dos demais.






Em apenas 13 faixas e, para além de tudo o que foi referido, “John Carpenter” é um disco com toneladas de peso, com brutalidade q.b., uma bateria a desferir blast beats em todas as direções, guitarras sujas e agressivas, um baixo sempre presente e um desempenho, no geral, extremamente competente e consistente. Mas isso já não é novidade para ninguém.
Agora resta colocar o volume no máximo e tentar não partir nada. Aviso-vos desde já, que não será tarefa fácil.


Hugo Gonçalves




sexta-feira, 8 de Agosto de 2014

PRIMITIVE REASON - ENTREVISTA

Uma outra forma de experimentar, várias formas de abordar a necessidade de criar.
Mais do que despertar o culto de um passado glorioso, os Primitive Reason orgulham-se de uma carreira a redesenhar as fronteiras que confrontaram e a reinventar-se, à procura de consolidar o sucesso que foram obtendo e marcar ainda mais o panorama musical português nuns dormentes anos 90 e início dos 00s.
Nem sempre obtendo o mesmo reconhecimento que nos seus primeiros trabalhos, a banda de Guillermo de Llera, o único membro restante da formação original, apresentou no ano passado o regresso aos discos com "Power To The People". É precisamente a Guillermo que pedimos agora algumas pistas, respostas e visões sobre 20 anos de Primitive Reason.





BandCom (BC): 20 anos e 6 discos depois, como chegam os Primitive Reason a esta fase da sua carreira? Ainda são “a banda improvável vinda de um local improvável” como Cascais?

Primitive Reason (PR): Sim, ainda somos “a banda improvável vinda de um local improvável”, mas mais “aquela banda improvável vinda de um local improvável”.
Após um hiato de 5 anos os Primitive Reason voltaram com as forças redobradas e as ideias muito mais claras, como se pode ouvir no novo disco "Power to the People".
Chegamos num grande momento de forma a nível de inspiração e de motivação, e com a sorte de estar a trabalhar com uma equipa que nos percebe. A boa fortuna parece estar a acompanhar-nos e tem surgido muito interesse na banda vindo, principalmente, de fora, que dá a entender um futuro risonho, cheio de aventura e novas experiências.


BC: Portugal também mudou ao longo destes anos? Em que aspectos – não só económicos, mas sobretudo artísticos?

PR: Portugal, a nível artístico, modernizou-se um pouco. Parece haver um menor abismo entre o que se faz cá e muito do que se faz lá fora. Pode responsabilizar-se a Internet, o facto de que muito artistas portugueses "curtem" lá fora, ou o facto de que muitos artistas estrangeiros optaram por morar cá, no nosso país de tanto sol.


BC: O Cinema São Jorge foi a sala escolhida para em Março comemorarem a vossa longevidade. De que sala(s) ou festival(s) guardam as melhores memórias?

PR: Para mim o "nosso" primeiro Super Bock Super Rock em 1996 acho eu. Pela novidade daquilo tudo e pelo facto de partilhar palco com o David Bowie que, para mim, nos anos 80 simbolizava uma certa irreverência dentro do mercado pop.


BC: Como descreveriam este mais recente “Power To The People”? Mais do que uma simples mostra de vitalidade?

PR: "Power to the People", estilisticamente falando, é um "fechar do circulo"; um "voltar às raízes" e um "ponto de partida". Simboliza um novo início para os Primitive Reason, um renascer das cinzas...


BC: Apesar das mudanças na formação, o Guillermo manteve-se e parece que a sonoridade dos Primitive Reason também. Mesmo com um caldeirão de influências, vemos a banda a concentrar-se serenamente em registos, em ritmos, no grooveque lhe trouxeram bons resultados no passado embora não seja “mais do mesmo”. É assim?

PR: Pode descrever-se assim, sim. Sempre tive o cuidado de proteger bem as raízes sonoras dos Primitive Reason, e apesar de esta ser uma banda que arrisca muito propositadamente, sem medo de falhar, há um núcleo musical, um "core" que sempre mantivemos, como se pode ouvir em todos os discos. Como disse anteriormente, sendo este disco um "voltar às raízes" obrigatoriamente teríamos que revisitar certos géneros musicais. Mais do que fazê-lo porque nos trouxeram algum reconhecimento ou sucesso, fizémo-lo porque consideramos que esses géneros são um fenómeno local entre os Primitive Reason e Portugal, produto de um contexto cultural da música que é único entre Portugal e os PALOP, e que representam algo de original e importante. Falo claro, do que eu denomino o afro-tuga ou afro-ska.





BC: Este disco não é claramente dador de êxitos como os casos de “Kindian” e “Seven Fingered Friend” mas denota uma preocupação a cada momento com o detalhe. Tendo em conta a sua complexidade instrumental, a preocupação com o detalhe é um dever ou antes uma precisão para explorar mais caminhos, agarrar mais o ouvinte, fugir do mais fácil e acessível?

PR: "All of the above".
Este é o disco da consolidação e houve uma clara preocupação com o "fazer bem". Depois de 5 anos sem lançar um disco era importante frisar e relembrar que esta banda é uma banda a sério e não um projeto efémero. Igualmente importante era mostrar que a música pode "entrar bem" nos ouvidos sem ser demasiado simplista e sem recorrer sempre à mesma fórmula. Como o bom vinho, que nos diz tanto pelo sabor, os discos profundos, bem trabalhados e compostos também ganham com o passar do tempo.


BC: As reacções a este disco, por parte da crítica e do público que já tanto vos elogiaram anteriormente, têm ido ao encontro das vossas expectativas aquando da composição do seu alinhamento?

PR: Ainda tenho que ouvir alguém dizer que o disco não presta. Para mim significa que se soube perceber o disco porque, vamos ser honestos, há discos incompreendidos no seu tempo. Com isto não digo que o "Power to the People" é muito "à frente" e de difícil digestão, muito pelo contrário, estou sim a dizer que o estilo musical de Primitive Reason nada muito contra a corrente, e há alturas em que não há abertura de mercado para aceitar de bom grado a nossa proposta musical.


BC: O Bob Brockmann, que foi quem produziu o vosso último disco, é um contacto ainda dos tempos da vossa aventura pelos Estados Unidos ou é mais recente?

PR: O Bob é um contacto recente que surgiu por sugestão do nosso manager.


BC: Entre o “Some of Us” e o “The Firescroll” lançaram a vossa própria editora, a Kaminari Records, por onde ainda hoje lançam os vossos próprios discos. Alguma vez pensaram em também lançar discos de outros artistas pela Kaminari? O que pesou mais na sua criação: tentar escapar à crise da indústria ou tentar escapar às pressões que tentavam moldar a vossa carreira?

PR: Sobre lançar outros artistas pela Kaminari: sim, e nos próximos dois anos não só serão lançados vários projetos meus pela Kaminari, como também de outros artistas que sigam a mesma filosofia de "fazer a música pela arte".
Criámos a Kaminari precisamente para escapar às pressões que tentavam moldar a nossa carreira. A resposta ao "têm que fazer outro "Seven Fingered Friend" foi fazer o "Kindian". Sempre estivemos destinados a entrar em conflito com quem tentasse fazer fórmula de sucesso com esta banda porque uma parte inerente e importante dos espírito Primitive Reason é precisamente a irreverência contra os "Sistema" e os "Powers That Be" (até parece que estou a escrever uma letra).


BC: Até há pouco tempo parecia que os Primitive Reason estavam, sem razão aparente, a passar ao lado de uma maior carreira internacional. Todavia, também com o advento de novas formas de os artistas interagirem na e com a Internet, isso parece ter mudado muito rapidamente. Que planos têm para se mostrarem no exterior? É uma prova de que a Internet tem para os artistas tanto vantagens como desvantagens?

PR: A Internet tem quase só vantagens para o artistas. O velho sistema que existia no mundo da música não era vantajoso para os artistas. Por toda a sua dedicação, sacrifício, e esforço as bandas ficavam com menos de 10% dos lucros de um disco, e só recebiam esses 10% após recuperar todo o investimento feito pelas editoras. Era preciso destruir este sistema e, felizmente, a Internet proporcionou-nos isso. Agora o poder está na mão do artista de gerir a sua carreira "direct to fan".
Sobre os Primitive e a nossa carreira internacional: o "Power to the People" foi lançado na Alemanha e outros países circundantes, e estamos em via de lançar noutros países da Europa, no Brasil e nos Estados Unidos. Em Setembro estaremos em Espanha a tocar e a negociar o lançamento no nosso país vizinho.





BC: Tal como outros artistas com mais anos de experiência, sentem que a comunidade dos vossos seguidores, a “Primitive Tribe”, está também a crescer e a rejuvenescer-se? Por outro lado, sentem-se os pais de bandas como os Kumpania Algazarra ou Farra Fanfarra que vão entretanto surgindo?

PR: A "Primitive Tribe" é um verdadeiro fenómeno. Há pouco tempo fizemos um concerto um pouco atípico porque foi inserido numa feira do artesanato, com cadeiras para o público e aconteceu algo de inesperado. Todas as crianças passaram o concerto a dançar à frente do palco e acabaram por invadir o palco para fazer o concerto connosco. Alguns, filhos de uma geração anterior de fãs, outros porque se identificaram com o "lado primitivo" da nossa música, mas todos eles vibraram e contagiaram o resto do público.
Não somos necessariamente pais dessas bandas que são muito boas, diga-se já. O que fizemos foi ser a primeira banda nacional a sair completamente da caixa e fazer música que nunca se tinha ouvido em Portugal. De certa forma, e com toda a humildade, fomos responsáveis só por abrir a porta e mostrar outros caminhos. A responsabilidade e mérito de trilhar esses caminhos é inteiramente das bandas que o fizeram. Estão de parabéns todas as bandas que trouxeram algo de novo e enriqueceram a música portuguesa.


BC: Bem há pouco tempo os Zimun estiveram em Portugal a convite do Abel e do Guillermo. Como se conheceram? São colaboradores a contar para futuros discos?

PR: Sim e sim. Criámos uma afinidade tal com os Zimun que quando formos proximamente ao Brasil vamos visitá-los e, quem sabe, fazer estrada com eles. Estamos já a falar de fazer uma canção juntos mas os detalhes não podemos divulgar ainda.


BC: Quais as próximas datas já confirmadas para podermos ver os Primitive Reason ao vivo?

PR: 11 de Agosto - Carviçais Rock. 14 de Agosto - FUSING, Figueira da Foz. 24 de Agosto - Festas do Mar, em Cascais. Tudo grandes e bons concertos!


André Gomes de Abreu




segunda-feira, 4 de Agosto de 2014

FIRST BREATH AFTER COMA - ENTREVISTA

2014 tem sido ano de fruição completa para os jovens First Breath After Coma. Fazem versões altamente elogiadas, o conhecidíssimo "The Escape" já anda pelo Youtube interpretado por outras pessoas e, para além de terem uma agenda de concertos regularmente preenchida e já com datas no país vizinho, são um dos nomes por que incontornavelmente passam todos os ditames, nacionais e já internacionais, sobre Leiria - a provar isso, a sua presença na compilação "Leiria Calling" recentemente lançada e que a 8 e 9 deste mês vai dar origem a um festival de dois dias no Salão Brazil, em Coimbra.
Ainda a promoverem a sua estreia em disco com "The Misadventures of Anthony Knivet", o FUSING Culture Experience, o Festival Bons Sons, o Festival Paredes de Coura e o Loureiras Beats são 4 festivais em cerca de duas semanas para somar aos palcos por onde já passaram. Aproveitando a pausa e a preparação para um Agosto que não será de férias, falámos com a banda sobre pouco mais de meio ano de revolução à mão de um conjunto de 9 canções. 






BandCom (BC): Sabemos que uma das primeiras músicas que ouviram depois de terem passado por um “estado de coma” com a vossa banda precedente foi “First Breath After Coma” dos Explosions in the Sky. Agindo de forma oposta, qual seria a música que gostariam de ouvir no último suspiro antes de entrarem em coma?

First Breath After Coma (FBAC): Em tom de brincadeira seria a "If I Die Tonight" dos mexicanos Last Breath Before Coma.


BC: Sentem que estão mais perto da pop ou do post-rock?

FBAC: Nós não vamos muito à bola com rótulos. Gostamos de vários géneros musicais, que de uma maneira ou de outra, reflectem-se na música que fazemos. Para este disco o post-rock foi uma dessas referências. 


BC: As pequenas e grandes vitórias que alcançaram em concursos foram determinantes para a vossa ascensão. No meio de todas elas, qual foi a vossa conquista mais saborosa?

FBAC: A primeira tem sem dúvida um sabor especial, porque foi o primeiro concerto que demos com este projecto e tivemos a felicidade de ganhar o “ZUS!”. Deu-nos motivação para continuar, porque há muita coisa que queremos fazer ainda.


BC: Li numa entrevista que o vosso álbum “The Misadventures of Anthony Knivet" é um disco à volta do mar, do “ir por aí fora”. Em suma, um disco com ligações ténues com um passado áureo e um presente mais negro?

FBAC: Sim, exactamente. É impossível, nos dias que correm, não estar afectado pelo presente. O disco representa o combate ao conformismo e acima de tudo um sentimento de esperança.


BC: Já começaram a compôr para um novo álbum? Se sim, seguirá as mesmas pisadas do precedente?

FBAC: Estamos numa fase embrionária, ainda é cedo para saber algo em concreto. Mas se nos limitássemos à sonoridade do primeiro, seria apenas uma repetição, apontamos para algo novo.





BC: Os adjetivos qualificativos e epítetos escolhidos pela imprensa para vos designarem acabam sempre por ser um pouco redundantes e mencionarem também bandas estrangeiras. Uma crítica que já pudemos ler também numa entrevista do Hugo Ferreira da Omnichord Records. Como é que um artista reage a essa profusão de perguntas semelhantes, de influências incutidas que nem sempre correspondem à realidade que queriam sugerir/transmitir?

FBAC: Afecta-nos essas tais redundâncias, soa-nos sempre a uma análise superficial do que nós somos. Mas acreditamos que quanto mais genuíno se tornar o nosso trabalho ao longo dos tempos, menos espaço haverá para adjectivações vazias.


BC: O Hugo Ferreira (Omnichord) e o Carlos Matos (Fade In) são dois dos grandes nomes da cidade de Leiria. Com a atual situação da “fuga dos cérebros” que o país está a sofrer, o que acham que a cidade mais perderia com a hipotética emigração destes dois?

FBAC: Sem dúvida que são duas pessoas que têm influenciado, e muito, o crescimento da cultura e principalmente da música que se tem feito por Leiria. A cidade perdia dois motores fundamentais desse movimento. 


BC: Pensam que a cultura é uma das principais forças de Leiria?

FBAC: A principal força de Leiria está nas pessoas que acreditam e lutam pela sua cultura.


BC: A compilação “Leiria Calling” de que fazem parte já vai atrasada em relação ao boom musical de Leiria? Surge no momento certo? É representativa da Leiria musical neste momento?

FBAC: Surgiu no momento certo, porque veio afirmar o boom musical de Leiria. Para além de representar o presente, alimenta a esperança de um futuro promissor.


BC: Nestes últimos tempos têm aproveitado para também se mostrar ao estrangeiro, sobretudo em Espanha: já estiveram no último Monkey Week, vão estar na edição deste ano do Festival Europa Sur com os Nice Weather For Ducks. O futuro dos First Breath After Coma passa também por outros países?

FBAC: Sem dúvida. No futuro, gostaríamos de ter mais datas noutros países já que a primeira experiência correu muito bem. Além disso, a aposta no mercado estrangeiro pode abrir-nos novas portas.


BC: Como receberam o convite para o FUSING Culture Experience? O que acham do conceito do festival? Foi mais fácil aceitá-lo por ser na zona centro?

FBAC: O conceito do festival agrada-nos, porque abrange vários tipos de arte numa localização especial. Daí o convite nos ter deixado expectantes por tocar lá. Todos os concertos são bem vindos, independentemente do local. Um exemplo disso, é que este mês vamos estar em Paredes de Coura e no próximo em Espanha.


BC: Que concertos deste festival aconselhariam e porquê? 

FBAC: Estamos curiosos por ver Slow Magic, Fachada e When The Angels Breathe, já que nunca tivemos oportunidade. Os Nice Weather For Ducks de certeza que vão dar um grande concerto também. 





BC: O fim-de-semana do 15 de Agosto vai ser movimentado para várias bandas portuguesas, como é o vosso caso: vão estar no FUSING Culture Experience e também no Festival Bons Sons. Há algum tempo dizia-se que um dos problemas do crescimento das bandas em Portugal estava na falta de locais e de eventos para tocar. Nesta altura, quais são as maiores dificuldades para os First Breath After Coma? Ascender ao topo dos cartazes dos maiores festivais?

FBAC: A maior dificuldade para nós é a fraca credibilidade que a capital deposita em projectos vindos de uma cidade pequena como Leiria. Por isso, garantirmos um lugar nos cartazes dos maiores festivais é complicado para um banda com uma editora independente, mas queremos conseguir superar esse tipo de obstáculos. 


BC: Já tocaram em festivais, em salas fechadas e até numa sala de estar num dos primeiros Sofar Sounds Lisbon. Onde se sentem melhor a tocar ao vivo?

FBAC: Gostamos de tocar em espaços abertos, mas em salas intimistas tem um sentimento especial, porque o ambiente enquadra-se mais com a nossa naturalidade musical.


Mickaël C. de Oliveira







Twitter Facebook More

 
Powered by Blogger | Printable Coupons