domingo, 28 de Setembro de 2014

MEDO - "Cruzando Os Portais do Submundo" (2014, Nyarlathotep Records)




Os Medo estão de volta com “Cruzando Os Portais Do Submundo”, aquele que é o terceiro longa-duração da banda das Caldas da Rainha. Para quem não os conhece, a banda é composta por Medo I (responsável pela execução de todos os instrumentos) e Medo II (vozes e letras) e praticam um black metal que tem nas artes negras do ocultismo a sua maior fonte de inspiração. 






Observando a capa do álbum temos de imediato a sensação que estamos prestes a embarcar numa viagem sonora a um qualquer lugar tenebroso onde imperam as trevas e... o medo! De aspecto simples e cru, a capa faz jus à música que anuncia. Para os conhecedores do percurso da banda até à data não estariam à espera de outra coisa. Estamos, portanto, perante um álbum extremamente cru e sombrio, assentando que nem uma luva no que normalmente se associa a um dos estilos mais extremos de metal. Guitarras austeras a debitar riffs à velocidade de uma metralhadora, vocalizações maléficas e uma bateria a condizer compõem o cerne deste conjunto de 11 faixas que totalizam cerca de 50 minutos de pura negrura. A produção, que se apresenta sem um pingo de polidez, contribui ainda mais para o desejado resultado final. Contudo, existem, aqui e ali, elementos que conferem ao disco a sua própria personalidade e carisma. Falo, por exemplo, da utilização de motivos folclóricos típicos da Península Ibérica, como o uso de gaitas e flautas (“Canto das Almas” e “Invocando Cernunnos ao Anoitecer”), das melodias que surgem esporadicamente entre a toda a escuridão reinante ao longo de todo o disco ou até mesmo da alternância das letras em português, inglês ou latim. Mas o destaque vai mesmo para a prestação vocal de Medo II. Ora a vociferar, ora a cantar ou até mesmo em pleno modo spoken word, Medo II contribui de forma decisiva para a criação de atmosferas diversas que apimentam sobremaneira o álbum. 





Embora este não seja um trabalho que prima pela originalidade ou irreverência, também não se pode afirmar que é “apenas” mais um disco de black metal. “Cruzando Os Portais Do Submundo” é um álbum recheado de momentos interessantes e verdadeiras canções, que de certo cairá no goto dos entusiastas do estilo e não só.


Hugo Gonçalves




sábado, 27 de Setembro de 2014

DE E POR: TREEHOUSES - "Treehouses" (2014, Ed. Autor)

"Rest", a primeira faixa conhecida logo nos primeiros meses do ano, foi apenas uma chamada de atenção.
É certo que até ao EP de estreia que chegou no final do Verão os Treehouses ganharam mais um "s" no nome mas ganharam também uma maior noção do quão bem se pode estar na fronteira entre o extremo do indie-rock mais feérico que possa alguma vez ter vindo de Oregon e o quase emo-hardcore menos matemático. E de que há um poço de honestidade ainda a ferver.
E saíram-se de forma tremenda: certamente não estamos no domínio da perfeição, mas sim no domínio da evolução e da sobrevivência, como outras bandas que não ganharam o tempo suficiente para aproveitar o seu próprio tempo em que vivem.
Para além de sabermos que a capa do EP é uma foto tirada por um dos elementos da banda no campo de concentração de Auschwitz, o que terão mais os Treehouses a dizer sobre o seu trabalho? Foi isso que quisemos saber.






Swells

Composta quando tínhamos o Matheus e o Beirão na Polónia, é a música mais agressiva do EP e relata os últimos dias de uma pessoa com uma doença terminal e como se sente em relação àqueles que lhe querem bem, não querendo ser um fardo e entregando-se à depressão. Foi completamente modificada no própria dia da sua gravação (somos uns indecisos de primeira).


Dinossauro

O nome da música vem simplesmente do facto de se assemelhar com Dinosaur Jr.
Demorámos um bocado a tentar metê-la "tight" e fluente, mas após encaixarmos a letra, lá se formou a música, dando um toque de pandeireta aqui e ali. É sobre tudo o que sentimos quando estamos fechados e aborrecidos em casa; estamos mais sensíveis a questionar a nossa validade, mais emocionais, etc.
Foi também a primeira música em que experimentámos fazer harmonias vocais.


CCCC

Foi das primeiras músicas que fizemos, escrita e gravada na mesma altura que a "Rest" (que também se encontra no nosso Bandcamp) e também aquela que nos fez perceber que as nossas ideias funcionavam bem em conjunto e que o Matheus tinha (mas já deixou de ter) voz de rouxinol. A composição da música está igual desde que a criámos o ano passado, apenas adicionámos mais efeitos no momento da gravação.


Let You Go

É a música mais lenta e melancólica do EP. É uma música final, de despedida, combinando bem com a estética da foto e influenciando a forma como as pessoas viram a nossa música. Começou por ser uma outra música com riffs completamente diferentes mais na onda de Pelican e com partes ambientais mas reza a lenda que a letra e a melodia apareceram num sonho do João.




quarta-feira, 24 de Setembro de 2014

TODOS NÓS TEMOS ANTÓNIO VARIAÇÕES NA VOZ: 30 ANOS DEPOIS



Fins da década de 70 / Inícios da década de 80Do horizonte vazio de Barcelos, alguém se ia insurgindo em terras de capital: António Joaquim Rodrigues Ribeiro. Consta ser cabeleireiro, profissão que nunca foi paixão sua, mas que a necessidade da sobrevivência o obrigou a abraçar. Trabalha no primeiro cabeleireiro unissexo a funcionar em Portugal e a boa fama do cabeleireiro Ayer acaba por fazer com que algumas das individualidades portuguesas mais consagradas da época acabassem por frequentá-lo.

Os clientes e os dois dedos de conversa encarregavam-se da sucessão dos dias, até que aparecia no salão Ayer um cliente diferente. Era Júlio Isidro, que na altura apresentava um programava televisivo na RTP responsável pela divulgação da música que se ia fazendo em terras lusas. António Ribeiro atende-o e os habituais dedos de conversa fazem-no segredar ao ouvido de Isidro: «Sabe, eu também canto. E não canto só enquanto tomo banho ou assim, tenho algumas maquetes. Será que pode ouvi-las?».

António Ribeiro era uma espécie de jogador de futebol de rua, mas que não jogava futebol e, ao invés, ia fazendo algumas demos em casa. De cariz peculiar, as demos eram a representação de um sonho que todos nós, por vezes, já tivemos. António gravava as suas próprias canções sem o acompanhamento de ninguém nem de uma tradicional guitarra, fazendo das suas cordas vocais as cordas de uma guitarra, da sua caixa de ritmos a sua própria bateria. As letras, inteiramente escritas por si, transbordavam autênticas pérolas em que todos se reviam naquela altura – já em tenra fase se iam esculpindo slogans sociais. As maquetes que ia gravando não tinham um propósito bem cimentado, não obstante eram os elementos mais representativos do sonho que o comandava, do desejo que tinha de um dia poder vir a ser músico e a gravar um disco. Júlio Isidro aparecera e repentinamente abrira-se uma janela que fazia com o que sol iluminasse intensamente as paredes físicas do Ayer e com que a força do vento quebrasse as fronteiras de um sonho que passava agora a ter uma pitada de realidade, mesmo que apenas existente na cabeça do ainda não Variações.

«Claro que posso ouvi-las. Quando as posso ter?» retorquiu Isidro. Estava confirmado: o sonho acabava de receber o combustível suficiente para poder andar para a frente. E assim foi. Daquele momento até ao convite para ir cantar uma das suas canções ao vivo pouco passou. O mesmo se aplica para a chegada do passo final para a concretização efectiva de um sonho: a gravação de um disco, que teria edição da mítica Valentim de Carvalho. Conta-se que o processo de gravação do disco foi uma das coisas mais estranhas da vida dos músicos que iriam acompanhar Variações. O seu nome artístico, aliás, tem uma finalidade; nas várias entrevistas que concedeu e em que o abordavam acerca da origem do nome Variações, António sempre se defendeu com o mesmo argumento: «uma variação é uma coisa que é naturalmente ecléctica, é aquilo que pretendo ser».

Efectivamente, António (a)variava-se como ninguém procurando desenfreadamente uma modernização a partir da actividade rupestre da herança e tradição camponesa e folclórica. De Nova York até à profundidade das vivências de um Portugal em plena (re)construção pós-ditadura distavam mentalidades, culturas e visões. Nova York nem chega a ser a cidade que nunca dorme, chega a ser um elo metafórico que constrói um qualquer tipo de divergência entre o exterior e o interior, entre a típica cidade e a ruralidade do costume. Mas a verdade é que foi sempre assim que António Variações definiu aquilo que queria; queria construir uma ponte bem segura e fixa nas suas raízes e que garantisse que por lá corresse sem inércia a modernidade.

António chegou ao estúdio da Valentim de Carvalho com uma atitude resignada; iria finalmente alcançar o seu derradeiro sonho, o sonho de lançar um disco. Chegou aos estúdios com um espírito submisso, mas perfeitamente consciente das ideias que tinha e que queria para a roupagem das suas músicas. Era, como já foi referido, um músico selvagem; não tinha qualquer tipo de formação musical, não sabia tocar nenhum instrumento e não sabia sequer ler pautas. É evidente que a priori isto é mais do que meio caminho andado para o vazio. No entanto, mesmo tendo em conta essas adversidades, manteve-se fiel às suas ideias. As instrumentais das canções do seu primeiro disco, Anjo da Guarda (1983), foram feitas tendo por base aquilo que da sua boca saía. A atitude submissa com que encarou a gravação do seu primeiro LP rapidamente se alterou, vincando-se a vertente teimosa de Variações – que, claramente, não estava ali para fazer o que os outros queriam, não estava ali para ser despachado, mas sim para que com o tempo a banda de apoio que o acompanhava aprendesse a decifrar os zumbidos que se iam libertando a partir das suas cordas vocais. A partir daí iniciava-se o processo de tradução que era feito pelas guitarras, pelas baterias e por uma produção que nunca escondeu que gosta de se abarcar à tradição popular.

António Variações jamais poderia ser considerado o melhor músico que tinha entrado pela Valentim de Carvalho. O facto de ser praticamente um analfabeto no que toca à produção da própria música, fazia com que os responsáveis pela mítica editora não acreditassem, naquela altura, num possível sucesso – e também foi por aí que quando Variações entrou nos estúdios para a gravação de Anjo da Guarda se sentia resignado. A vida não é uma esfera e nem tudo gira à volta do mesmo centro. E o centro da vida de Variações era o nome mais marcante do Portugal de então: Amália Rodrigues era descrita por António como um ser que não pertencia a este mundo. Facto é que quem se assume, mesmo que não por si próprio, como a voz do povo, não pode ser deste mundo.

«A primeira música do disco será uma adaptação de um fado da Amália», mais coisa menos coisa, deverá ter sido isto que Variações disse aquando da gravação de Anjo da Guarda. Nas poucas amostras televisivas que retrataram a sua obra, conta-se que se gerou algum pânico no estúdio quando saiu aquela frase da boca de António. No entanto, não baixou as suas calças e manteve-se novamente fiel a si mesmo. A adaptação de «Povo Que Lavas no Rio» para o legado que Variações estava a criar foi formidável e a coisa, inesperadamente, começou a ganhar contornos jamais esperados por Variações: pouco tempo depois do lançamento de Anjo da Guarda estava a abrir um concerto para Amália Rodrigues.

E essa ligação não se ficou por aí: se Amália foi uma das figuras da cultura portuguesa que melhor soube como chegar ao público, António Variações daí herdou uma sapiência tremenda para criar hinos e para edificar espaços para a sua própria celebração. Detentor de um estro filosófico peculiar, mas onde sempre enfatizou o povo como primórdio para o seu pensamento, e de uma escrita que nunca se mostrou muito complexa, António tinha os condimentos certos para vingar a partir das suas letras – e embora a sua voz estivesse longe de ser apaixonante, era detentora de um timbre e de alma inconfundível e é fácil de perceber porquê (afinal, vivia-se a fase embrionária de um pequeno grande sonho que acabara de se tornar realidade).

O tempo tratou de esculpir na história e nas pessoas o legado de António Variações. A partir dali citava-se Variações em tudo o que era canto, mesmo sem as pessoas se aperceberem. E a verdade é que hoje em dia isso ainda prevalece. Hoje em dia, isso até nos acaba por ser inato e até julgamos que se tratam de ditos populares, mas não, está tudo nas suas letras. Essa capacidade de criar canções “citáveis” é única. O mesmo se aplica aos slogans que ajudavam a maximizar a sua grandeza; geralmente, as suas composições seguiam um esquema que acabava sempre por enfatizar uma parte da letra (e neste caso nem vale a pena simplificar e dizer que se tratam de refrões; uma canção de António Variações é toda ela um refrão) e a maneira como ela nos persuade a cada audição que lhe damos é absolutamente brilhante. Em boa verdade, foram principalmente estes factores que fortaleceram a sua obra.

Obra essa que se foi cimentando com o tempo, que foi ganhando dimensão à medida que a hipotética Nova York ia chegando com mais ou menos força a Portugal. Cimentou-se sobretudo a partir do momento que houve uma abertura mental em Portugal suficientemente grande (será melhor dizer: a partir do momento em que Portugal deixou de ter uma mentalidade tão fechada) para falar de uma coisa chamada “orientação sexual”. A imagem extravagante de Variações sempre fez com que muita gente o encarasse de lado, ainda por cima quando se viviam tempos pós-ditadura. Depois de editar mais um disco, intitulado Dar & Receber (1984), António Joaquim Rodrigues Ribeiro não resistiu ao vírus da SIDA – assunto que era um completo tabu para a época em Portugal – e acabou por falecer a 13 de Junho de 1984 numa época em que “Canção do Engate”, que integrou Dar & Receber, era uma das canções mais badaladas pelas rádios nacionais. Na altura, para evitar polémicas relacionadas com a orientação sexual de António Variações, a imprensa nacional recebeu a informação de que o músico minhoto havia falecido de broncopneumonina sem que existisse qualquer referência ao facto deste ter contraído o vírus da SIDA.

Foi-se o artista, ficou a obra. E dói pensar que Variações construiu o seu próprio legado num escasso ano de actividade permanente. Do ponto de vista musical, Variações foi aquilo que os nossos tempos teimam em garantir-nos a sua extinção: um ser que vive dos seus sonhos mas que é sempre igual a si mesmo, um ser mais humano do que músico e com canções que conseguem ter uma amplitude social tremenda, um “analfabeto” musical que tem mais música dentro de si do que a esmagadora parte das músicas que saltitam de rádio em rádio. Foi o responsável pela modernização da música pop em Portugal e o seu principal massificador e o que é certo é para nos servir uma nova era nunca precisou de extinguir aquelas que outrora se viviam. Se me perguntassem quem foi António Variações, não teria dúvidas em dizer que foi e que ainda é a voz de todos nós. E estamos órfãos dela desde há trinta anos. “Nova York” chegou-nos para ficar, António também, mesmo que os seus vestígios físicos estejam imersos e bem lá no fundo. Todos nós temos António Variações na voz.


Emanuel Graça




terça-feira, 23 de Setembro de 2014

A VELHA MECÂNICA - ENTREVISTA

Foi ainda no FUSING Culture Experience que estivemos à conversa com os elementos de A Velha Mecânica sobre um novo videoclip que tinha saído pouco antes, sobre alguns detalhes do estreante "Tanto Por Dizer E Ainda Assim Se Escondia" e sobre algumas curiosidades de uma banda que mais tarde viria a impressionar em cima de um palco Experience dedicado a boas estreias ao segundo dia de festival e também no regresso às imediações da Figueira para o Woodrock Festival.
Sem maquilhagem instrumental, a palavra de Fernando Oliveira, Pedro Correia aka Sonny Boy, Johnny Gil, Zé Diogo e Marco Paulette, senhoras e senhores.






BandCom (BC): O que é que faz dos A Velha Mecânica uma banda de Coimbra ? Será mais pelas "estórias" que contam, como no tema "Aspirante" por exemplo ?

Pedro Correia (PC): Somos uma banda de Coimbra, é verdade... Mas nem todos os elementos são de Coimbra. A minha terra natal é Bragança. Foi em Coimbra que nos conhecemos, que temos o nosso quotidiano enquanto banda. Agora a nível de sonoridades... há sempre aquele estigma do rock‘n’roll de Coimbra, de bandas como os Tédio Boys, entre outras... Mas acho que isso ressentiu-se mais nos nossos projetos anteriores do que propriamente nos A Velha Mecânica. Acho que o legado que nós tivemos dessas bandas foi mais o da vontade de ser músico. Em relação às temáticas, o tema “Aspirante” fala concretamente de uma pessoa de Coimbra, de uma daquelas personagens que, basicamente, todas as cidades têm, cada um com a sua "estória"...


BC: Os invisíveis...

PC: Sim... Surgiu na altura em que estávamos a compor temas para o álbum e infelizmente coincidiu com o falecimento desse senhor que as pessoas apelidavam de “aspirante”. Andava sempre a mostrar uma credencial que devia ser da tropa, tinha uma rotina muito própria... na Baixa, principalmente, toda a gente conhecia o Aspirante. Na altura em que estávamos a tratar das composições para o álbum, foi encontrado morto no rio Mondego. Depois, vimos que um senhor escreveu num blog da Baixa de Coimbra um artigo sobre as histórias do Aspirante na ocasião da morte dele, que tinha ido para a tropa, etc... então pensámos "porque não fazer um tema também sobre ele?”
De uma forma um bocado mais poética, vá lá... 


Marco Paulette (MP): E se calhar é o único tema em que falamos concretamente de Coimbra e da cidade. 



BC: Qual é a vossa ligação com a língua, a história portuguesa, muito visível no tema "Bandeira Negra"?

PC: Sim, é inegável a alegoria marítima nesse tema...
À medida que fomos tocando cenas e cantando em português, no meu caso, senti muito mais ao ouvir em português, tem uma forma mais crua, mais direta. No meu caso, sai mais verdadeiro.



BC: Como é que explicam que as bandas que cantam em português tenham tantas dificuldades em exportar as suas músicas quando sabemos que o fado não tem dificuldade nenhuma lá fora ?

Johnny Gil (JG): O fado é património...
Mas é uma dificuldade normal, a Espanha tem o mesmo problema, a França também.
.. 

PC: O fado é folclore português, é música tradicional...

JG: Mas acho que até há uma divulgação muito grande da música em português, como é o caso do Brasil, ou até dos PALOP's.





BC: Quais foram os critérios que determinaram a escolha dos convidados?

PC: O Victor Torpedo era quase uma presença obrigatória. Estávamos há uns instantes a falar das influências de Coimbra, ele era uma delas. Sempre gostei muito dele.
O Fuse... nasceu a ideia de que queríamos um rapper...



BC: Também pelo 'rap' português ser um dos maiores defensores da língua portuguesa ?

PC: Exatamente, que tivesse um bocado essa bandeira...

JG: Na altura da gravação do álbum, já tínhamos aquele formato. Decidimos que queríamos pôr alguma coisa mas não sabiamos muito bem o quê...
Depois o convite surgiu naturalmente.


PC: Na altura estava a fazer um trabalho com a Riot Films. E em conversas com o Paulo Castilho, ele disse:“convidem o Fuse, ele vai adorar, é a cena dele...”.
Nunca me tinha lembrado dele até então. E ele tem um bocado o nosso universo obscuro, com a cena do Inspector Mórbido. Mas também não queríamos dar um ar muito rapper à coisa.


MP: Ele disse-nos que tinha ouvido o nosso álbum e que tinha feito duas coisas: uma versão mais rappada, se assim se pode dizer, outra mais spokenword. A letra, o ritmo, a cadência... nota-se que é o Fuse a dizer as coisas. Estamos muito contentes com o trabalho dele, adaptou-se muito bem.

PC: E também aconteceu numa fase da vida dele um bocado complicada.
Então, acabou por dar-lhe uma carga emocional muito grande - à letra e à prestação dele.



BC: Já tocaram com ele e com o Victor ao vivo ?

PC: Éramos para tocar com o Fuse hoje. Mas teve outros compromissos e não nos podemos adiantar muito sobre isso...(risos)


BC: Esta presença no FUSING soou para vocês como uma nova vitória? Estavam à espera?

JG: Sim, já no ano passado houve uma pequena abordagem. Mas depois à última hora não deu, o cartaz estava fechado. Não tivemos ainda tempo para apreciar o festival, chegámos mesmo agora, não estivemos cá ontem...
O cartaz a nível de música está fantástico, este festival é muito bom para a zona centro. 


PC: Festivais como o FUSING são muitos bons para Portugal mas mais do que isso, revela que as pessoas e as organizações estão dispostas a apostar na música portuguesa que tem grandes talentos.

MP: É sem dúvida uma vitória para a zona centro, e a Figueira é a paisagem ideal. 





BC: Quais são os vossos planos para o futuro?

JG: Vamos tocar aqui perto agora, em Quiaios, no WoodRock. 

PC: Tivemos um ano um pouco parado, estávamos ocupados com outras coisas...
E agora, se calhar, é que estamos a fazer a tour deste álbum. Vamos marcar outras datas agora.


JG: E para o ano voltamos aos estúdios. Não te podemos dizer se vai sair um EP ou um álbum...mas qualquer coisa virá.

PC: Hoje, aliás, vamos tocar músicas novas...


BC: E agora, para acabar, se vocês têm tanta coisa para dizer, o que é que ficou por dizer hoje? Não me escondam nada... 

Todos: (Risos) Já dissemos tudo... Continuem a desfrutar...apareçam nos nossos concertos...não escondemos nada!

Mickaël C. de Oliveira




sábado, 20 de Setembro de 2014

DE E POR: TIME FOR T: "Time For T" (2014, NOS Discos)

Algarvio de nascença mas brightonian de ofício, Tiago Saga sempre se esforçou por criar o seu próprio trabalho. Primeiro a solo, chegaram entretanto outros elementos de Inglaterra, Espanha, Suiça e Portugal e assim se desenvolveram os Time For T entre outras bandas da cena local como os Beautiful Boy e Common Tongues.
Tornaram-se verdadeiros papa-festivais em Inglaterra e entretanto também um dos Novos Talentos FNAC e papa-concursos de novos talentos portugueses que já lhes renovaram o arsenal de instrumentos, os horizontes com a presença nos palcos do NOS Alive e Super Bock Super Rock e bem recentemente desbravaram caminho, entre outros, para o Palco Santa Casa do MEO Sudoeste com o convidado especial NBC. 

Há uma ubíqua réstia de talento aqui, definitivamente, e o novo EP homónimo dos Time For T lançado há poucos meses, sucessor de "Mongrel" e "Dream Bug" e para o qual contribuiu uma campanha de crowdfunding, confirma-o.
Após o sucesso do NOS em D'Bandada, é de Tiago o tempo para conhecermos este novo trabalho.




Long Day Home

Esta canção surgiu depois de chegar a casa após uma longa aventura, ou seja, depois de uma longa direta com muita festa. A canção reflete o sentimento de diversão total que leva a um momento em que nos apercebemos que precisamos de descansar em casa durante um ' longo dia em casa'. Os sons utilizados são psicadélicos para dar o efeito da falta de sono...


Human Battery

Chamamos à canção 'reggae country' pois tem uma grande mistura de momentos reggae no baixo mas há uma grande presença de slide guitar. O tema fala da ansiedade sobre o futuro e sobre o facto disso ser muito fatigante: "é tão fácil complicar as coisas..."


Jazz Cigarettes

Uma canção que compus no meio do inverno mais comprido da minha vida! Uns 7 meses na Ilha Inglesa. A canção conta com os nossos amigos Ellie Ford na harpa e voz e Andrew Stuart-Buttle no violino. Acho que, em termos sonoros, é a melhor canção neste disco.


Free Hugs

A nossa canção mais 'pop'! O sentimento de grande solidão mesmo quando temos muito amor à nossa volta. O refrão estava a pedir uma voz especial e pensei logo numa cantora sueca chamada Elin Ivarsson. Ela entrou no estúdio e gravou a sua parte de forma natural e ficámos todos muito contentes com o resultado final.
Fizemos um vídeo engraçado em que fomos literalmente oferecer abraços às pessoas nas ruas de Brighton. Transformou-se num dia incrível.





Johnny

Esta música nasceu do nosso gosto comum por música da África Oeste e Sul. Paul Simon é uma grande influência também. A história é sobre uma personagem de Brighton que é um bocado maluca. Mendigo durante o dia e poeta à noite. O Juan (percussionista e cantor) perde-se no final da canção e canta com o coração na boca.


Donkey Stallion

Uma canção folk sobre os nossos tempos. Uma reflexão sobre o facto de, cada vez mais, ser impossível prever o futuro. É uma das canções em que tenho mais orgulho. Gravámos ao vivo no estúdio como um 'adeus' ao disco.
A Bo Lucas canta comigo em algumas partes. Ela tem uma vóz de seda...




quinta-feira, 18 de Setembro de 2014

REVERENCE VALADA - DIA DOIS | "Mãe, são sete e meia da manhã e ainda estou a ver concertos. Grande FestiVALADA”

Com os concertos a começarem com um atraso de cerca de uma hora, os portugueses DREAMWEAPON subiam ao palco Rio quando o relógio já marcava as três horas da tarde. Para quem não está a par, estamos aqui perante uma das maiores valias que o tempo se encarregará de trazer até nós; o facto de viverem das cinzas de bandas como The Jesus & Mary Chain, não os impede de fazer com que a sua música consiga navegar por outras marés e, em boa verdade, acaba por ser apenas um ponto de partida para a exploração das cordas e para a edificação de muralhas de distorção que nos atormentam a alma. Apesar de ainda só terem editado um EP, não temos a mínima dúvida que aqui está um caso muito sério para o presente e para o futuro do que por cá se faz: é esperar pela estreia nos discos em formato longa-duração. (8/10)


Também bastante positivo foi o concerto dos MUGSTAR, banda inglesa que abraça a onda de krautrock que nasceu em contingente alemão entre o final da década de 60 e o início da de 70. Repletos de sintetizadores – elemento-chave que ladeia grande parte das suas canções e que confere o que na altura do despertar alemão era o agente futurístico que impingiam nas suas sonoridades -, a música dos Mugstar foi propensa a viagens pelo espaço cósmico do space-rock; e muito basicamente, foram um dos nomes do cartaz que ensinaram a outros nomes presentes no cartaz que o space-rock merece uma estrutura mais complexa e menos repleta de fuzz e distorção ou de sintetizadores a zumbir ininterruptamente. (7,5/10)


Seguiam-se os portugueses ASIMOV e a sua nave espacial que, para o género a que pisca o olho, segue uma composição invulgar: será legítimo defender que estes adoptam o space-rock para lhe chamarem rock e vice-versa. Celestiais, sempre a libertar camadas intensas de fuzz e de batidas bem salientes e pesadas, ou mais contidos, com uma guitarra em transição e a acatar papéis mais abrasivos, os Asimov mostraram durante o seu concerto que jamais desprezarão as suas principais raízes: as raízes tradicionais do rock, o amor e a sapiência que se transborda a partir da guitarra e aqueles cabelos longos que não enganam ninguém. Só por isso merecem o nosso apreço, mas o seu concerto também foi, claramente, um acréscimo que se vincou na nossa cabeça de que eles sabem o que fazem. (7/10)


Os norte-americanos BARDO POND são uma banda mítica e isso é quase uma verdade irrefutável. O seu concerto foi lindo e isso tem de ser uma verdade irrefutável. Mas o seu concerto foi mais pequeno que o pénis de um sul-coreano e isso é uma verdade inquestionável (porque está cientificamente comprovado que assim é). Durante as três canções que foram tocadas no concerto houve espaço para que quase tudo se complanasse no mesmo espaço e no mesmo tempo: da música propriamente dita, tocaram-nos canções diversificadas entre si onde se conseguiram articular de uma maneira que mesmo quando estão a ser ruidosos, os norte-americanos conseguem ser detentores de uma das mais belas sonoridades que já ouvimos. Houve tempo para se enfatizar a voz ao invés de distorcê-la como acontecia nos tempos embrionários de Amanita, 1996, - de onde tocaram uma canção durante o concerto. Houve tempo para uma pequena bronca entre a belíssima vocalista e o seu guitarrista: «FUCK ME», dizia ela. Demorei mais tempo a escrever isto do que o tempo de duração do concerto: foi uma pena, foi uma desilusão, foi um choro tremendo. Ambos mereciam mais: eles e o próprio público; soberbo enquanto durou, no fim a nossa tesão de nada serviu – empataram-nos aquela que estava a ser a melhor foda do festival. Queríamos mais, queríamos mais. (8,5/10)


Voltámos à carga em A PLACE TO BURY STRANGERS, banda norte-americana responsável pela abertura do palco maior do festival. Aguardados com alguma ansiedade por quem foi até à Valada, os norte-americanos foram objectivos e claros no seu propósito: estavam ali para incomodar, no bom sentido, quem os via. Assim foi; possivelmente menos barulhentos do que em estúdio – e o facto de o som do palco Reverence naquele dia poder estar mais alto também se salientou nos concertos posteriores -, trespassaram a sua agressividade para outros lugares: em palco há robustez e preenchimento que, conectados, conduzem a performance para uma cena de porrada. E basicamente foi isso que aconteceu – as guitarras ganhavam asas e voavam constantemente pela mão de quem as dedilhava (e em boa verdade, nós também acabámos por voar juntamente com elas). As muralhas de distorção que iam constantemente criando saltavam ao tímpano mais próximo e iam-nos derretendo os ouvidos. O que acontecia em palco exteriorizava-se: a desordem acompanhou-nos durante todo o concerto. No fim ficámos apenas a achar que mereciam mais tempo (nós e o público). (8/10)


Os PSYCHIC TV são uma das bandas mais idiossincráticas dentro do panorama da música experimental dos anos 80 e em palco podem não ter mostrado o seu lado mais baseado na experimentação – a vertente industrial, por exemplo, que era o habitat preferido deles, foi esquecida -, mas acabaram por demonstrar porque é que foram uma banda essencial daquela época, rubricando um concerto que, à falta de mais e melhores palavras, foi bonito. Melódicos e com uma presença em palco fulminante por parte de Neil Megson/Genesis P-Orridge (são a mesma pessoa) – que, de resto, mostrou-se com uma voz invejável -, arranjaram tempo para tocar “Interstellar Overdrive”, dos Pink Floyd. Uma surpresa que não foi assim tão surpresa para quem conhecia, mas que possivelmente causou algum impacto em quem não estava a par da singularidade do projecto comandado por Orridge. (8/10)


De seguida, talvez o nome mais esperado de todo o festival: os HAWKWIND são conterrâneos e contemporâneos de bandas como Led Zeppelin ou Black Sabbath. O seu primeiro disco remonta-nos a 1970 e o facto de vermos senhores que tinham idade para ser nossos avôs em palco a dar um recital de psicadelismo como muitas bandas que passaram no Reverence Valada não tiveram a capacidade para fazer dá que pensar. Numa primeira parte mais contidos, fizeram com que o concerto fosse crescendo gradualmente – e cresceu tanto que acabou por se desenlaçar no seu próprio clímax. Na sua estreia em terras lusas (muito possivelmente terá também sido a única passagem dos ingleses por cá), os Hawkwind demonstraram o porquê da sua grandeza: foram dos primeiros nomes a mesclar os sintetizadores nos riffs vertiginosos das guitarras (que naquele dia se mostraram menos intensos do que há 40 anos atrás – é a lei da Mãe Natureza) e passadas quatro décadas ainda aqui existiu mais intensidade e complexidade do que o genérico clima psicadélico em que vivemos. Professores de muitos, fixaram a ideia de que quem sabe nunca esquece; caso para dizer: grandes velhos. Despediram-se com projecções de folhas de cannabis e com “Hassan I Sahba”. (8/10)

Pelo meu relógio eram horas de ver os MÃO MORTA; Possivelmente uma das bandas mais importantes da história da música portuguesa, Adolfo Luxúria Canibal & Companhia chegaram ao Palco Reverence e tinham à sua frente uma das maiores enchentes do festival (possivelmente, a rivalizar com essa enchente só mesmo Electric Wizard e os anteriores Hawkwind). Era merecido, façamos-lhes a justiça devida. A partir do momento em que chegaram, a missão era nítida: trazer ali um dos melhores concertos do festival. Missão cumprida; com uma setlist a incidir um pouco por toda a discografia dos bracarenses, edificou-se um concerto memorável, onde o perfil vocal singular de Adolfo foi fielmente conservado. Entre as canções tocadas, destacam-se “E Se Depois”, “Barcelona”, canções do novíssimo Pelo Meu Relógio São Horas de Matar e “Até Cair”, onde Adolfo, um dos maiores poetas não poetas que Portugal viu nascer, chegou mesmo a simular uma queda – e um dos pontos fortes do concerto, como sempre, foi a presença de Adolfo (é um Deus e basta). Foram embora sob fortes aplausos cravando-nos ainda mais na cabeça de que a história musical nacional é dependente deles, dizendo que «pelos seus relógios eram horas de matar». Já deram o mote, que se faça a revolução. (9/10)


Passámos do vinho para a água quando chegou a vez dos BLACK ANGELS: não temos nada contra reviver tempos idos, mas temos contra clichés e contra pessoas que andam perdidas no tempo. Ouvir Black Angels sem saber quem são tem a sua piada – som alegre q.b., ritmo mexido, uma tonalidade muito com o espírito sessentista ou setentista norte-americano à mistura e o cliché total de que se revestia o surf e o psych rock. Certo, agora vou ver quem são: uma ajuda do Wikipedia disse-me que são uma banda norte-americana formada em 2004. Acho que agora percebem o porquê de quase ter adormecido durante o concerto (depois vinham as jams e cortavam sempre o flow). Sabe bem ouvir sem saber o que é, mas há um problema comum a muitos outros nomes que têm investido no revivalismo desta espécie: o passado fala mais alto. (4/10)


O cansaço já nos cercava – dois dias vividos intensamente e pouco mais de 8 horas dormidas no seu conjunto já nos ia limitando as capacidades – e por isso só voltámos para os esperados MOON DUO, que deram um concerto ameno: pouco emotivos, possivelmente porque no dia anterior um dos seus membros tinha ido parar ao hospital, e com pouca garra, as guitarras assumiram, como expectável, o principal alicerce da base da construção das suas canções; porém, o facto de as terem estendido em demasia levou-nos quase a que, em quase todo o concerto, prestássemos mais atenção às próprias projecções do que à própria música. Caso para dizer que uma imagem consegue ser mais psicadélica do que mil palavras. (5/10)


Saímos para THE OSCILLATION a meio de Moon Duo e saímos bem: no Palco Rio estava-se a presenciar um senhor concerto de uns britânicos que não gostam de estabelecer barreiras ao longo das suas músicas. Heterogéneos, os The Oscillation conseguiram, de novo, trazer a luz que até ao concerto de Black Angels parecia estar sempre presente: ora com guitarras distorcidas em primeiro plano ora com o baixo a assumir os contornos da pintura que se ia esboçando, foram crescendo a cada canção perante o pouco público presente (só mais tarde, depois do concerto de Moon Duo ter terminado, é que foi chegando mais público ao Palco Rio). É nome para se estar atento. (7,5/10)


De seguida, a festa era portuguesa: primeiro os EQUATIONS, depois Jibóia. Os primeiros, para mim, foram a maior surpresa do festival. Mais concisos e menos exploratórios do que o seu primeiro disco longa-duração nos mostrara, os lisboetas vão-nos mostrando que estão menos preocupados com as equações e muito mais preocupados com um aprumo na estética sonora para que esta soe mais concisa sem que para isso tenham de abandonar a experimentação que sempre acompanhou as suas canções. Hoje em dia, contrariamente a outrora, já não se berra de maneira estridente. Hoje em dia as guitarras estão menos rápidas sem que para isso se tivessem de desertar dos prismas da math-rock. Hoje em dia existe um sintetizador/teclado que nos remete para uma psicadélica foleira quando o som que dali se brota está muitíssimo longe disso. Os Equations de hoje estão completamente diferentes de os de 2012 e nem precisaram de muito para que isso acontecesse, apenas de engenho e maturação. Claramente rubricaram um dos melhores do Reverence e, a adivinhar pelo que vimos, vem daí um dos discos do ano. (8,5/10)


Assim de cabeça penso que o relógio marcava as impensáveis sete da manhã quando Óscar Silva, aka JIBÓIA, subiu ao Palco Sabotage para o encerramento do Reverence Valada. Loops contínuos a florirem a partir do seu teclado, mãos na guitarra e pintava-se a Arábia na Valada. A música de Jibóia é quente e tem na passagem para o palco um trunfo tremendo: aliás, é lá que se vê o que é e quem é Jibóia. Não nos faz serpentear, mas pouco falta – que o diga o senhor da primeira fila que fazia um comboio humano imaginário sozinho. Há demasiado para dizer sobre este concerto, mas vou-me limitar dizendo que a partir do momento em que se despertou o primeiro loop este foi o melhor momento de todo o Reverence Valada. Onde é que já se viu um festival terminar às 7:30 da manhã com um concerto que, comparativamente com todos os outros, teve pouca gente mas onde todos os intervenientes estavam a dançar como se fosse o último dia da sua vida? É nestes casos que também se revela a grandiosidade das coisas – em 24 Hour Party People diz-se constantemente que um dos primeiros concertos dos Sex Pistols foi histórico e só estavam lá cerca de dez pessoas. Em Jibóia, o número foi um pouco superior mas todos os seus contornos levam-nos a querer apelidá-lo da mesma maneira: histórico. E todo o mérito foi dele – é preciso saber-se para não deixar aborrecer quem não dormiu nos dois dias anteriores e quem tinha a “cama” ao seu lado. Jibóia manteve-nos com ele até ao fim e, bolas, eram sete e meia da manhã. (9/10)

Texto por Emanuel Graça


Fotografia por José Vidal




quarta-feira, 17 de Setembro de 2014

REVERENCE VALADA - DIA UM | "Fez-se luz a partir da escuridão da noite"

Quem esteve lá, certamente terá sentido: foi ali, bem naquela hora, que começámos mesmo a sentir que o Reverence Valada era, ou pretendia ser, um festival diferente de todos os outros que habitam o canto mais à esquerda da Europa. Vive-se a altas rotações – depois da festa de aquecimento ter durado até tarde, os concertos do primeiro dia do festival do Ribatejo iam começar a partir do meio-dia. Ah, qual sono, qual cansaço, qual quê; no Reverence todos éramos um veículo em que o seu combustível eram os decibéis que iam voando a partir dos inúmeros amplificadores montados em palco. Em alguns momentos as nossas viagens mostraram-se viscerais e intensas, noutras nem por isso – foi o caso daquilo que se passou durante a tarde do primeiro dia.



O primeiro concerto que vimos seguiu a linhagem daquilo que se havia passado nos desfecho do dia anterior: os THE FEELING OF LOVE também são franceses e também acabaram por nos deixar um pouco aquém – claramente abraçados à pop de perfil mais psicadélica, deram-nos um concerto morninho onde apresentaram trabalhos como Reward Your Grace, de 2013, e Dissolve Me, de 2011. (4/10)

Sucederam-lhes as guitarras: FRANÇOIS SKY & GUESTS acabaram por dar um concerto sólido, onde evidenciaram que a partir das cinzas Sonic Youth também existe espaço para aplicar uma película que catapulta a sua música para paragens mais propícias ao psych-rock – porém, ficou a nota de que se pode fazer menos (isto é, que se pode encurtar as suas canções para que elas não caiam no aborrecimento) e melhor. Muito possivelmente, um dos melhores interessantes de toda a tarde – e o aviso que devemos estar atentos a estes alemães. (6,5/10)

Seguiam-se os norte-americanos THE ASTEROID #4, que tocavam no palco Rio. Possivelmente uma das maiores desilusões do festival, os norte-americanos nunca conseguiram elevar-nos para outro patamar que não o da monotonia – fazendo com que, por exemplo, sentíssemos saudades daquilo que raramente está presente nas suas canções: jams. (4/10)



Esperava-se mais, mas ainda assim, quando comparado com o concerto que veio a seguir, apetece dizer que o concerto de The Asteroid #4 foi monumental: os BOMBUS são uma banda sueca que, muito possivelmente, rubricaram um dos piores concertos que já vi – não sabem o que fazem nem o que querem fazer, não conseguem optar por uma vertente mais pesada ou por uma vertente mais na onda do hard rock – e convém dizer, hard rock em 2014 de uma banda que nasceu em 2008? Alguém que lhes faça um update -, fazendo com que o seu todo soe a um misto inócuo e vazio. (1/10)



Chega a hora do concerto mais esperado da tarde por este que vos escreve: WOODEN WAND é um dos cantautores com mais potencial que apareceu nos últimos anos, porém raramente o conseguiu comprovar desmembrando as suas canções em dois distintos pólos: um pólo onde nos consegue siderar de uma maneira medonha e outro onde estende tanto algumas das suas canções que elas acabam por cair num beco de aborrecimento sem saída. Ao vivo, o segundo pólo simplesmente não existe. Com uma postura em palco impecável, amigável e com influências na maneira de tocar e cantar que enganam – quem não se lembra da passagem «I was at home listening to Electric Wizard»? -, James Jackson Toth assume-se, sem medo algum, com um dos principais trunfos que o leque da história recente dos cantautores tem para nos oferecer. Concerto soberbo e, claramente, o primeiro grande concerto do Reverence Valada. (8/10)

Passar dos ritmos mais calminhos da folk de Jackson Toth para o turbilhão dos SUNFLARE não correu bem – e talvez isto nem se tivesse dado por culpa dos próprios Sunflare. Os lisboetas têm ideias salubres e sabem aquilo que estão a fazer, só ainda não sabem bem aquilo que realmente querem; sabe bem em estúdio, mas falta ainda aprimorar para a passagem para o palco. Esperemos por uma nova oportunidade. (4,5/10)

Os CAVE também prometiam, mas acabámos por sair de lá defraudados – é o problema de grande parte dos discos de space-rock; enfatiza-se demasiado a produção dos discos e quando estes passam para o palco vinca-se a falta dos tais pós mágicos. Numa mixórdia que assume os sintetizadores como um dos principais fios condutores da sonoridade, houve pouquíssimo espaço para que se ouvissem as guitarras e o baixo, que acaba por ser preponderante na génese musical, visto que uma das principais influências prende-se ao krautrock, o que desmoronou a ideia de que aqui podia estar uma das surpresas do festival, infelizmente. (4/10)


E por falar em surpresas do festival – e não que não contássemos com isso -, os RINGO DEATHSTARR foram um dos nomes maiores da tarde do primeiro dia do Reverence Valada e tudo porque saíram da forma pela qual mais os conhecíamos. Contrariamente ao que mostram em estúdio, a patente My Bloody Valentine quase não pesa em palco – há muita noise pop e pouco shoegaze, desprezam-se as vozes abafadas e passam-se a criar melodias que nos são familiares pelo carácter alegre que albergam com isso – a performance de “So High” foi um dos momentos altos do dia - e, acima de tudo, faz-se aquilo que quase nunca acontece em palco quando assistimos a um concerto que repesque o legado de Loveless: eles mexem-se e mexem-se bem. Naturalmente, um dos melhores concertos da tarde. (7,5/10)

Seguiam-se os WOODS, que chegavam numa altura propícia para os receber – estávamos no final da tarde e nada melhor que um som bonito e atrevido para aquela hora. Vinham para apresentar o seu mais recente disco, intitulado With Light and With Love, mas também sem esquecer o seu belíssimo Bend Beyond, de 2012. Versáteis, foram constantemente alternando entra uma vertente de singer-songwriter, que nos faz facilmente lembrar a doçura dos Wilco, e uma vertente mais mexida onde as jams assumem um papel fulcral – e, curiosamente, foi precisamente aí que o concerto foi melhor. (7/10)


20h, abria o palco Reverence: a banda responsável pela abertura do palco principal do Reverence Valada nunca na vida podia esconder de onde vinha – os THE WYTCHES são britânicos e isso nota-se em todos os aspectos: no próprio sotaque, na maneira de actuar em palco e na maneira como não conseguem disfarçar os seus fascínios por uma tal de banda chamada Arctic Monkeys. Nos dois primeiros pontos, não existe qualquer tipo de problema. A partir daí é que já começam a surgir, porque apesar destes mostrarem mais do que AM mostrou, por exemplo, jamais poderá ser algo comparável com os primeiros trabalhos dos Monkeys, trabalhos esses onde o r&b começou a ser implementado no rock. Não soube mal, mas já ouvimos a mesma coisa só que melhor. (5/10)



Naquele palco tocaram de seguida os Swervedriver, banda que do pouco que vimos não nos impressionou e que, por isso, trouxe-nos a oportunidade para irmos até à vila carregar baterias para o concerto dos RED FANG. Assim foi, chegou-se ao Palco Reverence de baterias carregadas para vermos uma das últimas esperanças que surgiu para a salvação do espírito rock – equipados a rigor (se bem nos recordamos, o baixista dos Red Fang estava equipado com uma camisola dos míticos Slint), os norte-americanos fizeram com que se desse o primeiro crowdsurfing da história do Reverence Valada. De onde estávamos posicionados não víamos suficientemente bem, mas acredita-se que também foram pais do primeiro mosh. Percebe-se porquê: os Red Fang são uma banda sem merdas no que toca a atirar-nos às feras e ainda bem, ainda bem – existisse mais rock assim. Tocaram-nos canções de todo o seu reportório discográfico, incluindo do seu disco homónimo de 2009, e foram responsáveis pelo início do despertar da luz. (8/10)


Despertar de luz que só continuou depois dos Graveyard terem ido embora do palco: chegava a hora dos ELECTIC WIZARD. Começava a hora de abanar o pescoço incessantemente, chegava a hora dos tempos de abano entre todos os festivaleiros ser medido pelo tempo certeiro que o baterista dos demorava a bater com as suas baquetas nos pratos da bateria – e certo é que estava tudo perfeitamente compassado. O som podia estar mais alto, é verdade – diz que a partir da minha casa, em Aveiro, não ouviram nenhum barulho do concerto a circular pela atmosfera -, mas a cena é que a passagem dos Electric Wizard pelo Palco Reverence foi, à falta de melhor termo, do caralho. Para que se desse efectivamente a consolidação do stoner enquanto género musical, existe um nome que jamais nos podemos esquecer: o dos Sleep. Os Electric Wizard são seus fiéis seguidores e têm em Dopethrone um dos melhores discos da história do género – foram tocadas desse disco duas canções, curiosamente das melhores: “Dopethrone” e “Funerapolis”. A um ritmo certeiro, e com a promessa que os #4 Asteróides / Asteroid #4 chegavam durante a tarde, houve a desordem: os quatro asteróides chegavam ali àquela hora e eram os quatro elementos da banda britânica. Traziam consigo imenso peso e a ideia de que os graves que saiam daquele baixo ecoavam todas as redondezas – felizmente, que se saiba, não houve tentativas de suicídio por parte dos habitantes da Valada. Tudo correu como esperado: concerto do dia, do festival, do ano, de sempre. Pode nem ter sido assim (não foi), mas no meio do turbilhão sonoro que disparava contra nós foi com essa ideia que abandonámos o Palco Reverence. Despediram-se com “Black Mass”. (9/10)



Dali para a frente os concertos iriam decorrer nos palcos secundários, dando-se por encerrada a fase do Palco Reverence. Eram duas da manhã e chegava a vez dos portugueses PROCESS OF GUILT, responsáveis per um dos melhores discos do ano em 2012 com Faemin. Têm tanto poder que nem parecem de onde são: quem diria que havia eborenses a tirar horas de sono ao tempinho da sesta em pleno Alentejo. Os Process of Guilt tinham uma missão espinhosa pela frente: tocar depois do assombro que foi o concerto de Electric Wizard. Não se deram mal, longe disso: foram responsáveis pelo continuar de uma luminosidade que não se sentira durante a tarde, dando um concerto intenso e triunfal. Não é muito fácil estipular uma barreira para podermos definir os PoG; tanto se prendem à lentidão do doom como fazem transições repentinas para o post-metal que uns tais de Cult of Luna têm libertado por aí. Não escondendo as influências, a tarefa acresce em termos de dificuldade; porém, qual dificuldade qual quê. Não sendo únicos, os portugueses têm sangue frio e instinto animal, transportando-nos com uma frieza incrível das ambiências típicas daquilo que é selado pelo “pós” para a entropia e o inferno que se vai pintando através de gritos que vão nascendo de uma voz que, diga-se de passagem, é uma das melhores vozes que podemos encontrar no metal hoje em dia. Berrando, gritando ou contemplando: rubricou-se um dos melhores concertos do dia naquela que é, cada vez mais, uma das melhores bandas de metal do panorama europeu. (8,5/10)



Voltámos à carga em THE TELESCOPES e, uma vez mais, a luz continuava. Mais experimentais do que em estúdio e também menos preocupados com a vertente shoegaze que ladeia as suas composições, saímos do concerto de The Telescopes sem saber quantas ou quais as músicas que tocaram e a verdade é que esta é também a magia de ver um concerto ao vivo: o factor surpresa. Os The Telescopes surpreenderam em todos os aspectos, menos num: já sabíamos que iria ser um grande concerto. Assim foi. (8/10)


O último concerto do dia que vimos também falava português: chegava a hora dos BLACK BOMBAIM mostrarem porque é que são, neste momento, uma das maiores bandas do mundo (e tenho a perfeita noção que isto jamais poderá ser considerado uma hipérbole) disto a que chamamos de psych-rock. E é fácil perceber porque é que isso acontece: têm três elementos com uma qualidade tremenda e dentro do mesmo estilo musical conseguem fazer música para quem não gosta dos estilos que se encontram desse próprio estilo. Se não gostarmos de stoner, temos lá as guitarras que nos transporta para uma maresia espacial. Se não gostarmos de stoner nem de space rock, podemos interpretar os barcelenses com uma nova vaga quem nascido do krautrock: batida contínua, baixo em grande destaque e uma guitarra que quando aparece, regra geral, é para partir a loiça toda. O facto de serem quatro da manhã em nada afectou os acontecimentos: iam-nos descarregando uma energia incrível. É a tal história: no Reverence somos, ou éramos, veículos em que o combustível eram os decibéis que saíam a partir de cada concerto. Aqui conseguimos encher o depósito; a luz continuava. (8,5/10)



Texto por Emanuel Graça

Fotografias por José Vidal




REVERENCE VALADA - DIA ZERO | "Quando a experiência supera a música"

Quinta-feira (11 de Setembro de 2014), 17h: 

Chega-se a Reguengo e avista-se o autocarro do outro lado da estação de comboios; entra-se e viaja-se por uma quantidade imensa de terras agrícolas. Estamos numa das margens do rio Tejo, estamos a escassos quilómetros da pacata aldeia da Valada. Chegamos e passadas cinco dezenas de metros reparamos que a placa que anuncia o fim da Valada aparece. Caramba, é uma aldeia pequena – mas suficientemente grande para ter tudo à mão. Monta-se o estaminé, que é como quem diz, montam-se as tendas, convive-se um pouco com a comunidade e chega a hora de conhecer o que se esconde na Valada. A avenida é extensa e nela e existem comes-e-bebes a funcionarem vinte e quatro horas por dia e um mini-mercado que nos relembra que ir às compras pode não ser só pegar no carrinho, meter aquilo que queremos lá para dentro, pagar e ir embora – o ambiente fez de nós uma parte da sua comunidade. Atravessa-se a avenida e já com o som a chegar até nós vemos a Marina, local onde se fez uma espécie de “recepção ao campista”. São perto de 21h e mira-se, no horizonte, o sol a pôr-se no Tejo. As poucas pessoas presentes sentam-se, lado a lado, na alta colina de pedra que proporciona uma vista panorâmica sobre o palco e, consequentemente, sobre o artista. Um porrinho aqui, um porrinho acolá; uma garrafa de vinho na minha mão, outra na tua. O warm-up para o Reverence Valada era bem mais do que um aquecimento para aquilo que podíamos esperar do festival enquanto evento musical – foi, sobretudo, um modo de prever como iria ser a própria experiência inerente à estadia na pacata Valada.


Os concertos propriamente ditos começaram com alguns atrasos e ainda conseguimos apanhar pitada de SOUQ; os Souq são uma banda nacional proveniente de Aveiro que, para já, nos vai dando evidências de que podem vir a ser um caso interessante no panorama experimental da música portuguesa. Com as suas influências a beberem de fontes díspares entre si, vai-se, por exemplo, do jazz ao rock progressivo, mostram-nos aquilo que muita gente por este Mundo vai conseguindo ter quando mescla coisas que, a priori, não fazem sobressair uma convergência totalmente conseguida. Saxofones aqui e acolá, mas sempre a aparecerem quando as guitarras aceleram e que nos trazem um pouco à lembrança os Cows, que se serviam do punk e dos saxofones para fazer belíssimas obras como Cunning Stunts, os SOUQ acabaram por nos trazer um concerto agradável e a promessa de que há ainda mais espaço para a sua evolução: é estarmos atentos. (6,5/10)

Os senhores que se seguiram eram franceses e davam-se pelo nome de AQUA NEBULA OSCILLATOR; é mais do que sabido que dar-nos versões em 2014 de tempos idos está na moda. A nova vaga psicadélica vive maioritariamente disso, pena é que isso já nos vá cansando de um modo preocupante: os franceses nunca escondem que esta época não é a deles, evidenciando sempre ali e acolá o piscar de olho à fase dos Pink Floyd em que estes eram comandados por Syd Barrett. Nada a apontar, mas foram mais as vezes em que esses tempos foram-nos mal (re)contados do que bem. (5,5/10)




O nome mais esperado da noite também era francês: os MARS RED SKY têm levantado alguma poeira na cena psych/stoner rock com o seu belíssimo Stranded In Arcadia, disco editado já no presente ano. A expectativa, por isso, era grande; porém, e apesar de o concerto nunca ter aborrecido nem algo do género, a verdade é que se esperava mais de uma banda que fez do psych-rock habitué dos nossos tempos, com claras evocações a Tame Impala na maneira que se dá alento às vocais, um espaço navegável para que o stoner também tenha voz e palavra instrumento. Da passagem do estúdio para o palco, esvaiu-se o essencial: pozinhos mágicos que a produção consegue implementar nas suas composições. Ao vivo, tornam-se mais contidos, menos barulhentos e sofrem uma decadência absurda em termos celestiais – o que ao mesmo tempo não os impediu de darem um concerto positivo, mas com um paladar agridoce. (6,5/10)


Texto por Emanuel Graça

Fotografias por José Vidal




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