terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

DE E POR: LOTUS FEVER - "Search For Meaning" (2014, Ed. Autor)

Bernardo Afonso, Diogo Teixeira de Abreu, Manuel Siqueira e Pedro Zuzarte formam os Lotus Fever. Sim, os mesmos Lotus Fever que um dia já se chamaram Roadies.
Para "Search For Meaning", aquele que é o seu disco de estreia, a grande ajuda veio da reunião dos fãs em torno da banda mas é do seu trabalho que, para além da coerência, resulta um disco muito mais maduro, trabalhado e aprofundado partindo do instrumental e do sentido típicos do enorme edifício que é o pop-rock contemporâneo.
Coisa que pode parecer fácil para quem cita MGMT, Radiohead, Tame Impala ou José Cid como referências mas que é difícil (e ainda bem que não se concretiza) de imaginar.
Numa pequena pausa de espectáculos para novas gravações, a banda reflecte connosco acerca da viagem pelo seu próprio potencial entre o poder da realização alheia e toda a magia de uma transformação constante, em consciência.
Palavra por palavra, ponto por ponto, conceito por conceito, canção por canção.




An Awakening

Esta música funciona como introdução ao álbum e também à "Freedom".
Experimentem ouvi-las de seguida...



Into The Light

É um dos temas mais antigos do álbum e é quase como que uma ordem para agir. Gostamos bastante de tocá-la ao vivo pela energia que tem.


Collapse

Foi a primeira música a ficar totalmente pronta e uma das que mais gostamos. Talvez por ter um pouco de tudo e por não termos posto nenhuma espécie de restrição quando a estávamos a compor.

Introspection

Focámo-nos muito no groove da música quando a estávamos a desenvolver e sabíamos que queríamos acabar com algo psicadélico o suficiente para entrarmos na parte mais 'obscura' do álbum.





Volatility

Esta foi sem dúvida a música que mais dores de cabeça nos deu. A estrutura sempre esteve mais ou menos definida, mas experimentámos uma quantidade absurda de instrumentos e moods. Foi exactamente por isso que nos decidimos pelos contrastes e nas diferentes secções ter sempre uma abordagem diferente. Gostamos especialmente da parte jazz, como gostamos de chamar, com o solo de trompete. 


Set In Stone

É a música mais antiga do álbum, já estava praticamente toda pensada ainda nos tempos do EP. Por isso também quisemos introduzir coisas realmente novas, como a batida electrónica. Deu-nos algum gozo gravar um solo de bateria numa música que parece ser balada ao piano.


Oceania

Foi das músicas onde mais trabalhámos todos os pormenores a nível de som.
Era crucial que o tema fosse um crescendo até à explosão final.



Freedom

O conselho é o mesmo: oiçam a 'An Awakening' e logo a seguir esta.


Split Step

Começou por ser uma música instrumental que tocávamos nos ensaios. O Manel era especialmente obcecado pela música, só queria tocar o 'Prelúdio' que era como chamávamos aquele bocado de música. Evoluiu para uma coisa completamente diferente, mas os restos desse 'Prelúdio' ainda estão lá, no fim.

Mild Temptations

Queríamos fazer algo mais rock, mais pesado, mas que não caísse no óbvio.
Achamos que o conseguimos de certa forma, ninguém espera aquele 'circo' (outra alcunha) no meio da música.



Fulfilled

É uma música instrumental do álbum e quisemos criar uma espécie de caos de melodias. Para os mais atentos, reparem nas melodias de outras músicas do álbum que vão aparecendo.


Because I'm I

É a última música do álbum e funciona como uma resumo de tudo o que foi dito e tocado. É uma viagem dentro da própria viagem. Tivemos um coro de crianças a cantar nesta música e foi uma experiência muito porreira.




domingo, 15 de fevereiro de 2015

DE E POR: GRANDFATHER'S HOUSE – “Skeleton” (2014, Ed. Autor)

Tiago Sampaio e Rita Sampaio, que junta a sua voz em 2013 já com o projecto em andamento, formam uma dupla de irmãos de sangue e também a dupla não menos inspirada pelo one- man-bandismo Grandfather's House, uma das referências prontas a dar cartas da agência/promotora/programadora Bullet Seed.
"Skeleton", o EP de estreia, lançou-os definitivamente no ano passado com 7 temas em que embora com o rock e o falso minimalismo alternativo em fundo conseguem derivar para territórios mais crus, blues e/ou mais folk
Com um 2015 a começar altamente movimentado em palco mas enquanto os festivais não regressam em pleno, há tempo igualmente para dedicar à (re)descoberta da música do duo e traduzir-se a 100% para tempo de antena de tudo o que está por detrás destas canções, em directo. 





Drink of You

Foi a única música que surgiu mais espontaneamente, em apenas um ensaio, quase. Talvez tenha sido essa espontaneidade que lhe conferiu um carácter genuíno e nos fez sentir que esta seria a música que melhor representa a nossa música, tornando-se assim o primeiro single deste 'Skeleton'.





I Ain’t No Joke

Este tema é o grito de revolta do EP ou o que mais se aproxima de algo do género. 
Descreve a forma como às vezes sentimos que perdemos o controlo no rumo que a nossa vida toma ou nos sentimos verdadeiras anedotas nas mãos de alguém que não sabemos quem e não sabemos bem porquê.
Contudo, com um riff de guitarra risonho e melodias de voz tudo menos melancólicas tentamos mostrar o lado encorajador dessa mensagem, à partida negativa.


Keep Talkin’

Foi com esta música que surgiu a hipótese de incluir novos instrumentos ao vivo: quando em estúdio introduzimos teclados na Keep Talkin’. Assim, uma nova abordagem foi tomada em relação às músicas que compunham todo o nosso reportório, ao vivo e em disco.


After The Storm 

Também sendo o folk uma grande influência para nós, talvez esta música seja a mais representativa dessa mesma influência. Expõe uma faceta um pouco menos presente nas restantes músicas, mesmo em termos de interpretação.


Life Deserves

'Life Deserves', na verdade, surgiu quando saímos do estúdio para jantar, em mais um dia de gravações com o João Pedro Ferraz, que produziu este disco. Surgiu uma vaga ideia e, no final do jantar, corremos para o estúdio e começamos a gravar e a fazer experiências e nasceu este tema muito influenciado em Pink Floyd.
Começou por ser um complemento para a 'Lost Woman' mas rapidamente evoluiu e ganhou uma força e dimensão que não esperávamos, o que a tornou uma lufada de ar fresco para nós e para o disco, até porque foi a única música composta em estúdio. 





Lost Woman (lado A e B)

Pesada carga de 'old fashion' blues e soul. O facto de ser o primeiro tema composto para o EP explica esta carga de blues mais crua e não tão reinventada como nos restantes temas. No disco, é o marco do nosso início.




quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

CRUA - "CRUA" (2014, Ed. Autor)




CRUA é o nome escolhido para designar o coletivo lisboeta composto por Carlos Carvão (guitarra), Daniel Neves aka MMMOOONNNOOO (noise, electrónica e efeitos) e André Hencleeday (percussão, drones, noise e vocalizações). Para melhor explicar a essência do projeto remetamos a descrição feita pela própria banda, que diz que CRUA é "mais uma colaboração perpétua do que uma banda, na medida em há um propósito intrínseco de experimentar com a energia de qualquer maneira que se revelar necessário, usando quaisquer meios disponíveis. Uma miragem como se estivesse numa hipnose alucinatória dentro de um superhumidoven”. Desde o título, passando pelo conceito gráfico e finalmente pelo som praticado pelo trio, todos os elementos funcionam de forma complementar para o conceito intrínseco ao registo homónimo da banda e que assentam que nem uma luva no resultado final apresentado.



"CRUA", anteriormente nomeado como "CRUA I" antes da renomeação dos dois EPs "I" e "II" para "CRUA" e "BRUMA" (editado pela AVNL Records tal como o novo EP "Zorn Gottes" de MMMOOONNNOOO) respectivamente, é um álbum experimental, com alicerces no rock mas dando espaço a que outras influências andem de mãos dadas como a música ambiental, o noise, o shoegaze ou o stoner, todas elas contribuindo para um disco que se revela como uma verdadeira obra monolítica e de cariz minimalista. É impressionante a forma como o trio consegue, ao mesmo tempo, criar uma dinâmica envolvente ao longo do álbum, com espaço para cada detalhe sobressair e apercebermo-nos da importância de cada momento na música que estamos a ouvir.
 

Em “Kerak”, numa toada demorada e arrastada ao jeito de um funeral doom, os efeitos da guitarra fazem lembrar o exorcizar de almas penadas enquanto que a distorção e a batida certa da bateria acentuam o ambiente sorumbático e negro do tema até “Iboga” começar onde “Kerak” nos deixa. O compasso lento parece, por vezes, dar lugar a ritmos mais acelerados que acabam por não o ser, enquanto a guitarra une-se aos efeitos como elementos criadores do ambiente global.
De seguida, o contraste mais progressivo de “Corrente” assoma e conseguimos denotar as várias camadas sonoras do tema, cada uma delas repleta de particularidades que, no seu todo, contribuem para fazer desta uma música intensa, dinâmica e forte, como atesta o seu final épico a contrastar com a lentidão até então. O disco termina com Cerca de uma hora depois, “Boche” finaliza o trabalho com o avanço de uma melodia inicial mais vincada que nas faixas anteriores, com os elementos electrónicos a terem a sua quota parte neste particular, e o desenvolver de uma fase mais intensa com a guitarra e a bateria a caminharem inseparáveis num ritmo galopante - uma palavra especial aqui para o desempenho na bateria que se distingue dos demais temas pelo vigor da sua execução e dinamismo imprimido à música. Sem dúvida, um tema extremamente interessante e intenso que funciona como um resumo de tudo o que se pôde constatar nos minutos anteriores.





"CRUA" é um disco surpreendente e arrojado, bem executado, onde todos os pormenores contam. Decerto não será para todos mas terá, seguramente, muitos fãs, principalmente junto daqueles que (ainda) conseguem ter a mente aberta a sonoridades mais experimentais.


Hugo Gonçalves




DUQUESA - "EP" (2014, NOS Discos)




Juntar uma pitada de Barcelos com uma imensidão de Verão e uma boa dose de pop descontraída. O resultado desta receita está à vista: nada mais nada menos que o EP homónimo de Duquesa. E quem se afigura sob este título nobiliárquico? Nuno Rodrigues, já bem conhecido pelo público português pelos The Glockenwise, que agora despe-se do rock n’ roll para nos oferecer seis canções bem carregadas de honestidade quotidiana, desenvoltura e inocência. 
Mais uma edição com o selo da NOS Discos, este curta-duração conta com várias participações de, entre outros, João Rafael Martins (colega de banda), Tojó Rodrigues (baixista dos Black Bombaim) e André Simão (la la la ressonance, Dear Telephone). 







Todas as faixas que constituem este "EP" são devaneios autobiográficos de Nuno que este considerou “não caberem em Glockenwise”, pelo que a sua sonoridade é mais “terra-a-terra”, solarenga e catchy.

São tempos felizes e estivais aqueles que nos ocorrem com “Times”, a primeira faixa que nos delicia com o cariz intimista da voz de Nuno, com a guitarra que parece dançar com a percussão e com os três que se fundem sob a forma de uma melodia castiça. 
Sem gelados não se faz um Verão e por isso continuamos a viagem à praia com “Ice Cream” - a fórmula repete-se e convida-nos a relaxar com duas ou três cervejas à beira-mar, apesar do solo de guitarra que tenta rebelar-se...calma, aqui é sempre verão, basta fechar os olhos.

Segue-se “True”, agora num registo de maior folia. Aqui, a guitarra consegue libertar-se melhor, sendo acompanhada por um delicioso assobio e um piano despretensioso e divertido. Apesar do que se possa pensar, Nuno não é um “Douchebag” e constatamos isso com esta faixa: é altura de a Duquesa baixar a sua guarda e revelar-se sensível e importado. Primeiras impressões à parte, esta é uma canção que cumpre o seu objetivo, cola-se ao ouvido, mexe o pezinho e até poderia pertencer ao reportório dos The Glockenwise.
“Boy” embala-nos para um fim que está próximo, deixando inteiramente a cargo do piano um instrumental simples e leve de um bom filho que à casa torna. “Abade Nation” é directamente dedicada à sua terra natal, Abade de Neiva, transbordando coolness e espontaneidade por uma guitarrada que nos leva às suas raízes barcelenses deste rapaz, transbordando “coolness” e espontaneidade. Nada de melancólico, portanto. Uma ode à família, aos amigos, aos vizinhos e aos tempos pontuais que lá passa.






Apesar de cumprir muito bem o seu papel em modo Glockenwise, Nuno Rodrigues poderá ter aqui uma porta aberta sempre que quiser enveredar por caminhos em nome próprio. O epicurismo pautado nesta meia dúzia de músicas contrasta ironicamente com a grandiosidade característica da nobreza e esse é um dos pontos fortes deste projeto a solo. Sempre que existirem saudades do Verão ou que a chuva chateie lá fora, estará sempre pronta uma Duquesa para nos receber no seu palacete modesto, onde a temperatura não desce dos 25 graus e existe todo um buffet de gelados.



Inês Martins




segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

RICK CHAIN - "Voyager" (2014, raging planet)



"Voyager" é o primeiro álbum a solo de Rick Chain, músico de créditos firmados no panorama musical a tocar há cerca de 25 anos em bandas como We Are The Damned, Twentyinchburial, Besta ou Sinistro. O multifacetado músico ficou responsável pelas guitarras, baixo e vozes e fez-se acompanhar por Paulo Lafaia (bateria) e Rui Rocha (teclas), assim como Luís Tavares na bateria em dois temas. Neste longa-duração, Ricardo Correia teve a oportunidade de explanar algumas ideias que não se enquadravam em outros projetos, o que simultaneamente levou a que este tivesse a possibilidade de cantar e tocar outros instrumentos, liberdades artísticas naturalmente resultantes de um trabalho em nome próprio. E ainda bem que o fez porque, embora não seja propriamente um cantor, a voz tem um papel preponderante no resultado final do disco. Ora a berrar ou a cantar, a voz rouca e agressiva de Chain cai que nem ginjas num CD composto por um conjunto robusto de canções. Para além disso, as influências do rock clássico assim como as sonoridades mais modernas do estilo fazem-se ouvir ao longo de todo o alinhamento, o que contribui para que Voyager reúna todos os elementos de um bom registo rock






O disco arranca com “Art Less”, rock moderno sem rodeios que vive essencialmente dos bons riffs de guitarra; “They Call Him Darkness” onde são novamente as guitarras a destacar-se num tema orelhudo e muito bem conseguido que conta ainda com o excelente desempenho de Rick Chain nas vozes e ainda “Boat Made of Clay”, uma música dinâmica com bastante ritmo e uma bridge interessante onde os sintetizadores aparecem para dar um toque especial. Após tanta pujança surge “Revenant Sea”, que se destaca pelo seu ritmo arrastado e por uma toada mais melancólica e melódica com um competente solo de guitarra pelo meio.
Ainda estamos a ouvir os últimos acordes de “Revenant Sea” e eis que emerge “Heavy Sharks”, um retorno de rompante às músicas mais possantes, simples e certeiro e complementado com boas melodias aqui e ali. Já “Watertrail”, por seu turno, é um dos temas mais viciantes de todo o trabalho com a sua abordagem direta, os seus riffs simples e aditivos e a forma como Rick Chain dá voz às letras.
Já bem na segunda parte de "Voyager", “The Eternal Fool” tem na sua génese muito do rock clássico setentista (Deep Purple, por exemplo) principalmente pela forma como os teclados assumem o protagonismo ao longo da faixa - mas os riffs musculados, a interessante prestação vocal e a forma atmosférica como a canção termina levam-nos, igualmente, a querer ouvi-la uma e outra vez. De seguida temos aquele que foi o single debutante, “No Ocean Big Enough”: cerca de 4 minutos de nostalgia, intimismo, negrume e dos mais bem conseguidos de todo o álbum.
As últimas “Faith Capacity” e "Capricorn" surgem, por um lado, para nos voltar a abanar com os seus riffs pesadões e agressivos e um refrão que nos fica na memória complementado com um bom solo de guitarra, e por outro com aquela que, pautada inicialmente de forma lenta e melódica e depois a intercalar-se com Rick Chain a cantar no sentido mais lato da palavra e com fases mais pesadas, é a faixa mais extensa das dez e que finaliza de forma épica uma excelente jornada musical de muito e bom rock.






Em suma, “Voyager” é um bom compacto de rock onde, acima de tudo, fica demonstrada a versatilidade e a capacidade de Rick Chain em adaptar-se a outras circunstâncias.
Algo que, atenção, nunca esteve verdadeiramente em causa.



Hugo Gonçalves




quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

DE E POR: THE RAMBLERS - "Wet Floor" (2015, Music In My Soul)

"Wet Floor": assim é o título do disco de estreia dos The Ramblers, Mafalda, Ricardo e Luís, composto de 13 faixas no total (a última é uma faixa-bónus devido à recuperação de "Blues Nest"). Embora numa nova editora, a banda não se afasta muito das suas origens e continua, por um lado, à procura de assentar de vez um refrescar do blues-rock da actualidade à medida que ascendem a novos palcos, e por outro a não renegar a tendência tradicional do género de evoluir e mesclar-se com outros ritmos e sonoridades até chega a um híbrido da world music entre o rock n' roll - aqui já os Rolling Stones de "Midnight Rambler" já não chegam com a mesma intencionalidade e intensidade.
As influências e as lembranças continuam a ser muitas e a capacidade de trabalho da banda, em estúdio e ao vivo, não deixou de ser impressionante e de garantir uma sobriedade ao nível da opinião generalizada que arrancam.
O que mudou nesta (r)evolução no passado que é presente? Foi o que pedimos que os The Ramblers nos contassem numa pequena passagem por cada uma das canções deste registo.



























Pow How

Um 'pow-wow' é uma reunião dos povos nativos da América do Norte. Nós somos um bocado índios também (pelo menos quando nos juntamos) e por isso tínhamos de ter o nosso próprio termo. Este 'single' e o 'videoclip' são um Pow-How do início ao fim!





Witch’s Creed

O Richards pegou numa música pirata e fez um 'riff' de rock. A Rosie fez uma letra sobre uma batalha apocalíptica de queima às bruxas. 'It’s awesome like that'.


Carry Me Back

Estava um frio de rachar na auto-caravana onde dormimos durante uma semana quando gravámos o nosso primeiro EP em 2012. Como tal, o Richards e o Lou entretinham-se a tocar guitarra e harmónica para ir aquecendo durante a noite, até lhes dar o sono. A 'Carry Me Back' nasceu aí, com guitarras acústicas e harmónica. Mais tarde, a Rosie acrescentou a letra durante a digressão de promoção do CD numa noite em que dormimos na casa de Pombal do Richards, depois de tocar em Coimbra. Aos poucos fomos apresentando a música ao vivo e ela foi crescendo dessa maneira, cada vez mais poderosa, até ao que podemos ouvir neste disco.


Little Girl Trouble

Esta música é querida. A sério, é mesmo mesmo querida. E nós assumimos isso, sem vergonha. Às vezes também faz parte. Explorámos uma sonoridade e ambiências um pouco diferentes da nossa área de conforto e o resultado foi surpreendente para nós!


Dead Men Tell No Tales

Oh. Dirty, dirty blues, man…


Wet Floor

Típico processo de composição da banda. O Richards e o Lou juntaram-se em casa, juntaram o 'riff' de cada um num só, fizeram uma pequena estrutura e depois o embrião da música andou pendurado nos ensaios durante um mês ou dois sem que lhe pegássemos a sério. Quando nos juntámos para finalmente preparar o álbum, percebemos que tínhamos esta pérola por usar. Como o nome do disco já estava decidido mas não tínhamos música de 'apoio' a Rosie escreveu uma letra que fala da nossa jornada até este disco. Ah, e temos coros em falsete.


Come Together

Nope, não é uma 'cover' dos Beatles. No distante ano de 2011 (ou 2009, não fazemos ideia) o Lou mostrou à Rosie a linha de baixo que ficou até hoje. À mesa de jantar da cozinha da avó dela (tão rock ‘n’ roll) estruturámos a música com a letra. Por alguma razão que desconhecemos tivemos de esperar até 2014 para a gravar. A onda da linha de baixo era bué de 'reggae', mas com os coros e arranjos de guitarra acabou por ficar muito 'soul', muito boa onda!


Blues Nest

O álbum devia ter só 12 faixas, foi isso que a editora pediu. Mas depois decidimos que era mesmo mesmo importante gravar a primeira música que compusemos, em 2007. É um 'blues' que fez uma paragem sabática das nossas 'setlists' ao vivo mas que voltou recentemente, também por nostalgia, e como tal achámos que fazia todo o sentido ter a nossa primeira composição no nosso primeiro 'long-play'.


The Rambler

'Blues-rock' com cheirinho a 'country'. De certa forma é a nossa homenagem ao legado do Johnny Cash.


Old Dimes

'Riff' da Rosie, que nos cantou tal e qual como queria o arranjo da nova letra. O Richards deu-lhe o toque Muddy Waters, o Lou deu-lhe o toque de 'soul' 'et voilà'!


Rockin’ And A-Rollin’

Na edição 100 do Offbeatz convidaram-nos, junto com outras bandas, para interpretar uma 'cover' de uma música à nossa escolha no Musicbox. Na altura celebravam-se os 50 anos da morte do Elmore James por isso achámos interessante tocar uma 'cover' da 'Shake Your Money Maker', que é um 'blues' bastante arcaico mas tão rápido e 'groovy' que sempre o curtimos imenso. Fizemos um arranjo diferente (com um toque Stevie Ray Vaughan) e tivemos reacções brutais nessa noite. O arranjo era tão diferente do original que nos concertos seguintes decidimos pegar numa letra pendurada do Richards que a Rosie completou e mantivemos viva a música. Mas deixámos o mote no final da música: 'Shake Yo’ Money Maka'!


Prayer

Numa noite de pow-how (ver descrição da primeira música) acabámos a cantar e tocar a 'Povo que Lavas no Rio' da Amália Rodrigues, com as guitarras acústicas. Mas o avanço da noite era tanto que fizemos uma versão 'blues'. Quando mais tarde tentámos reproduzir o que tínhamos feito baralhámos completamente a progressão dos acordes, mas no meio dessa confusão o Richards compôs um 'riff' lindíssimo de guitarra 'slide'. A nova letra e interpretação da Rosie deram uma vida nova à música e no final decidimos acompanhar todos a guitarra numa espécie de cantar boémio/alentejano (na melhor das nossas possibilidades!). 


Lucky Sour Cream

Esta música é qualquer coisa. Pelo 'riff' de guitarra, pela interpretação e coros da Rosie e pela letra. A letra foi construída pela Rosie através da junção de recortes de várias palavras que escrevemos em pequenos papéis num bar. O 'riff' de guitarra do Richards vem-lhe da fase Ravi Shankar e a bateria e o baixo dão-lhe uma vida poderosa. Daquelas músicas que nos custa a acreditar que fomos mesmo nós que fizemos. Mas fomos: se quiserem ter a certeza podem comprar o disco porque está lá nos créditos!




terça-feira, 20 de janeiro de 2015

TALENTOS PARA A TROCA #2

Estes são tempos novos. Tempos mais cinzentos para alguns, menos para outros.
A linguagem do hype já não existe, a antecipação intersecta o presente e o "agora" é uma exigência permanentemente insatisfeita.
O início de um novo ano já pouco certifica, para o melhor e para o pior: as surpresas e as desilusões multiplicam-se, desenvolvem-se, contraatacam-se por esperanças e novidades.
Mas estes são talentos para a troca: façamo-los maiores e tenhamos a certeza de que mais surgirão. São moedas de troca para um futuro em que haja eco de algo.
Conheçam um pouco melhor estes cinco. 


Sun Blossoms



Porquê, simplesmente, Sun Blossoms?

Porque o sol aumenta-nos os níveis de serotonina e faz-nos sentir bem; costumo sentir-me muito mais inspirado nessas alturas, é quando costumo escrever e a minha música acaba por ser um produto disso. Gostava de fazer as pessoas sentirem-se no melhor dia de Verão quando ouvem Sun Blossoms.


Como defines a música que produzes?

Não gosto de colar designações em música, mas se tivesse de explicar a alguém diria que é 'rock' 'dreamy' e um pouco preguiçoso.


Qual é a tua melhor canção?

Não sei, espero que ainda não tenha escrito a minha melhor canção. Estou mais interessado em saber a opinião de quem ouve em relação a isso, acho que o que se torna mais importante é a interpretação pessoal que cada um faz e a forma como se identificam com a música do que o que eu acho sobre elas. É muito difícil ter uma opinião sobre o nosso próprio trabalho porque nunca vai ser imparcial, sinto que sou demasiado crítico quando muitas vezes são coisas que não importam muito; ninguém quer saber se gravaste com a melhor qualidade de som de sempre ou não, boa música é boa música e deve ser apresentada da forma mais genuína.


Pensas que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o 'marketing' que tens de fazer para a promover?

Acho que hoje em dia muitas bandas perdem mais tempo na divulgação do que na própria música só para terem aquela margem de 30 segundos em que alguém te ouve na 'net' e decide se vai ouvir mais ou não. Eu gosto de fazer música e é nisso que me concentro, é isso que é mais importante. Eu não ganho dinheiro nenhum com a música, se tivesse de perder mais tempo com divulgação e 'marketing' preferia fazer outra coisa.


De que revista não te importarias de estar na capa?

Não é uma coisa que ambiciono, não acompanho regularmente nenhuma revista.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Nunca fui a nenhum mas acho que o Primavera costuma ter os cartazes mais interessantes.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Alguém usa Pandora ou Grooveshark?


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Cassete.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura musical?

Em termos de cinema gosto de Jodorowsky, o 'El Topo' e o 'Holy Mountain' são dos meus filmes preferidos. Além disso, gosto muito do '8 1/2', 'Gummo', 'Blow-up', 'Enter the Void', 'A Clockwork Orange', 'Scorpio Rising'... e a banda sonora do 'Five Summer Stories' feita pelos Honk também é muito boa.
Em termos de música há demasiado mas algumas das bandas que me influenciam são Velvet Underground, Brian Jonestown Massacre, Sonic Youth, Guided By Voices, The Clean e Further.


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Não há nada que me irrite muito, depende do contexto.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

The Clean - Point That Thing Somewhere Else: andar na rua sozinho e sabes exatamente para onde vais.
Brian Jonestown Massacre - Telegram: desilusão.
Tomorrows Tulips - Free: amor.
The Growlers - Empty Bones: festa.
White Fence - Slaughter on Sunset Strip: adeus.



insch



Porquê insch?

insch é uma palavra que deriva de um termo céltico escocês, perdido no tempo, em que uma das suas interpretações é 'santuário' ou 'porto seguro', até mesmo 'ilha' ou 'terra firme' num sentido mais literal. E a música, esta banda, tem esse mesmo significado para nós, um porto seguro do que nos rodeia, o tal santuário para onde podemos ir e expressar as nossas emoções e criatividade.


Como definem a música que produzem?

Não é fácil responder a essa pergunta porque o não estabelecimento de rótulos nem fronteiras óbvias foi uma das poucas regras que definimos à partida. Diríamos que a melhor definição que podemos fazer da nossa música é a seguinte: intensa (nos 'riffs', nas distorções, na sonoridade), muito pessoal/biográfica (nos temas, nas letras) e honesta (tocamos essencialmente para nós e não procuramos receitas fáceis/de sucesso).


Qual é a vossa melhor canção?

Provavelmente a próxima que criarmos, também porque estamos a crescer como compositores e como banda (ainda não completámos sequer 1 ano). É muito difícil definirmos preferências porque o facto de não nos limitarmos musicalmente faz com que tenhamos músicas com sonoridades muito diferentes entre si, umas mais 'rockeiras', outras mais alternativas, outras ainda mais calmas e introspetivas. Não existe consenso, nem na banda nem entre amigos, o que tem acontecido é a preferência de cada um variar ao longo do tempo.


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

É e será sempre. Numa entrevista de 2013 ao Noisey, o Josh Homme (QOTSA) disse '[...] when you expect anything from music, you expect too much. You play for yourself, you play to enjoy it and you make the most of it, for you. period.'. Antes de mais, tem de vir a música. A comunicação e o 'marketing', naturalmente da maior importância, são complementos ao essencial: a música. Se o que criarmos não tiver qualidade, e por qualidade entenda-se 'o sentimento mútuo de estarmos a criar algo com intensidade e significado para a banda', não há 'marketing' que lhe valha. A música que produzimos será sempre mais importante que a comunicação e o 'marketing' que façamos, mesmo que signifique que nunca venhamos a tocar para mais de 50 ou 100 pessoas.


De que revista não se importariam de estar na capa?

Há poucas (risos)! Não nos importaríamos de estar na capa de revistas que fizessem um peça interessante sobre o nosso projeto, não necessariamente publicações musicais. Naturalmente, havendo possibilidade de escolha, gostaríamos que fossem as revistas que seguimos habitualmente, a Blitz, o NME, a Rolling Stone, entre outras. Mas até na revista do Expresso seria interessante, se fizessem uma edição dedicada a música, por exemplo. 


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

O curioso é que provavelmente cada elemento da banda iria para um festival diferente, dadas as referências e personalidade musical que cada um traz ao trio. O Migalhas (bateria) é mais 'pop', o Manel (baixo) é mais 'indie' e alternativo e o Tiago (guitarra e voz) é mais 'rock'.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Tradiio. É uma plataforma/app portuguesa de distribuição gratuita de música nacional, bom para se ouvir coisas novas. Os insch andam por lá!


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Objetivamente, pouco importa, desde que seja boa música, com o volume bem alto. Sentimentalmente, temos uma preferência clara pelo vinil (o Tiago e o Manel coleccionam vinis), há toda uma mística na 'sensação física de música' que um vinil carrega e que entretanto se perdeu com a digitalização da indústria. Não é por 'puritanismo do som' mas até pelo efeito oposto, o vinil é o formato que melhor capta o realismo e as imperfeições das gravações, os trastes da guitarra e até o som das palhetas nas cordas...enfim, os pormenores que tornam a música humana e não apenas retalhista do Pro Tools do 'autotune'. Mas andamos todos com o iPod no bolso, não sejamos hipócritas (risos).


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura musical?

Como referimos acima, (entre o trio) ouvimos estilos de música tão diversos e até mesmo 'divergentes' que as sugestões iriam de Chet Faker ao novo de FNM. A evolução de cultura que mais gostaríamos de ver acontecer seria a de as pessoas ganharem gosto/iniciativa a sair de casa para procurarem música nova e original, de bandas que tentam criar e expressar emoções próprias. É frustrante a dificuldade em encontrar mais espaços para tocar música original, estar sempre a ouvir 'é uma pena não tocarem uns covers'.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

'Não querem cá vir tocar de graça, que assim promovem a vossa música?' (já tocámos várias vezes sem cachet mas é a 'chica-espertice' quase sempre inerente a essa questão que nos incomoda)


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Deftones - Be Quiet And Drive: para abrir a pestana nos dias de mais sono, para dar aquela energia extra.
Nine Inch Nails - Right Where It Belongs: para nos motivar a sermos melhores, a lutar contra a hipocrisia e crítica que tantas vezes nos rodeia.
Silverchair - Emotion Sickness: para 'fritar' intensamente nos momentos tristes ou melancólicos.
Rage Against The Machine - Killing In The Name Of: para fechar uma boa noite de copos, com os amigos do peito, e fazer um mini 'mosh-pit'.
The White Stripes - Ball And Biscuit: quando te queres sentir poderoso e a pessoa mais 'cool' da sala.




bibi ross




Porquê, simplesmente, bibi ross?

Lembro-me vagamente de ter idealizado originalmente B.B. Ross e de ter deixado a ideia evoluir para Bibi. Ambos começam pela mesma letra do meu nome próprio, Beatriz, e sempre quis um nome que preservasse essa identidade que já me era intrínseca. Ross é simples e soou bem, de maneira que na sua totalidade acaba por me remeter para o universo do 'R&B', seja pela diva Diana Ross ou pela baterista da Beyoncé, Bibi McGill.


Como defines a música que produzes?

A música que faço é maioritariamente R&B e 'hip-hop', muitas vezes, melancólico, triste, e lento. É claro que há excepções, ‘I Belong To You’ é o melhor exemplo. As minhas letras, quase sempre auto-biográficas, podem também surgir de fantasias, histórias ou frases que acho que valem a pena serem cantadas. Tenho explorado vários lados mais alternativos, porque acho que a inovação parte do impulso de alterar o que 'está a ser feito'. Acima de tudo, penso que a minha música tem cor e substância. Pelo menos tento que tenha.


Qual é a tua melhor canção?

‘So Far’, até agora (lol).


Pensas que, hoje em dia, a música que crias é mais importante do que a comunicação e o marketing que tens de fazer para a promover?

A música que crio tem de ser boa e eu tenho que acreditar nela. Não posso promover um mau produto, nem um produto que não me diz nada. Enquanto estudante de Design de Comunicação, sei bem como a minha identidade/conceito e estratégia de 'marketing' são importantes para a promoção da minha arte. No entanto, sou da opinião de que excelente música sem qualquer promoção é melhor e bem mais importante (e de louvar) do que mediocridade publicitada por todos os lados.


De que revista não te importarias de estar na capa?

Billboard (e da Vogue, já agora). 


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Glastonbury. 


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Soundcloud.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Vinil. Mas vá, à falta do vinil, MP3.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura musical?

‘Decoded’, livro Jay-Z.
‘This is It’, documentário Michael Jackson.
‘Life Is But A Dream’, documentário Beyoncé.
‘Sister Act’, clássico.
‘Off The Beaten Track’, documentário Buraka Som Sistema.
‘8 Mile’, filme Eminem.
‘Revolt TV’, bom site de notícias do mundo 'hip-hop';
‘Soulection’, editora discográfica independente baseada em LA, faz tournées pelo Mundo, é possivelmente a melhor fonte de música de R&B alternativa do mundo, de momento;
‘YG Entertainment’, record company, e o 'K-Pop' no geral, é digno de caso de estudo, pela qualidade e enormidade da indústria musical asiática;
Por fim, ‘Dreamgirls’, para as meninas que querem ser cantoras.

Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

'Então, ainda cantas?', ou então, 'Porque é que não vais cantar aí a uns barezitos?'.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

A$AP Rocky - Fashion Killa: andar na rua com alto estilo, 'sunglasses on'.
Dire Straits - Boom, Like That: viagem num carro descapotável com os cabelos todos a esvoaçar.
Rich King - Freedom: experimentem pôr esta música a tocar se estiverem no avião, as nuvens por baixo e um sol radiante, é mágico prometo.
DJ Khaled - I’m On One: in the cluuuuub!
Jill Scott - When I Wake Up: o meu despertador.



Só mais uma:

PARTYNEXTDOOR - Persian Rugs:
 para aquela noite sensual com alguém especial, you know...




Ekco Deck



Porquê Ekco Deck?

É uma forma de catalogar uma parte do nosso trabalho ligado à musica de dança electrónica. Remete para a ideia de recolha de 'samples' ou 'loops', que é a base deste trabalho.

Como definem a música que produzem?

Techno.


Qual é a vossa melhor canção?

Normalmente é a última que fazemos. 


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

Há boa música e há bom 'marketing': são assuntos distintos, ambos importantes.


De que revista não se importariam de estar na capa?

Revistas de música e Correio da Manhã.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Os três, claro, e se possível o Burning Man.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Só experimentámos o Spotify.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Preferimos não usar MP3.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura musical?

Música: The Caretaker.
Cinema: 'Stranger by the Lake', de Alain Guiraudie. 


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

'Porquê Ekco Deck?'


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Phillipe Manoury - Dickinson Studies: para ouvir em casa no sofá, volume quase no máximo, até deixar de ouvir discussões do apartamento de cima.
The Shaggs - Philosophy Of The World: ao acordar e desligar logo.
Aphex Twin - Circlont6A: num 'sidecar' a caminho da praia, no Inverno.
OM - At Giza: encostados de castigo a um canto.
Ekco Deck - Flagpole: em qualquer altura (um dos temas do EP de estreia com edição para breve).





Crude



Porquê Crude?

Por ser multilingue, porque nos lembra energia, fósseis, passado e presente e também pelo seu outro significado não energético: cru, não polido. 


Como definem a música que produzem?

Restos de organismos com milhões de anos a serem queimados libertando 'rock' e psicadelismo para a atmosfera.  


Qual é a vossa melhor canção?

Poderíamos ir pela resposta fácil e dizer que é aquela que ainda não compusemos. Até pode ser verdade mas falando do que já existe, a 'Datura', uma música que já apresentámos ao vivo mas que ainda não gravámos.


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

Pensamos que no fundo são coisas indissociáveis e que cada vez mais se sobrepõe a forma ao conteúdo. Gostamos, no entanto, de acreditar que a música é o mais importante e que sem ela não haveria nem comunicação nem 'marketing' para promover algo que não existe. 


De que revista não se importariam de estar na capa?

Da Oil & Gas Journal, ser capa da revista da Galp ou sonhando mais alto, ser capa da Shell ou da BP. Não obstante, e sendo mais terra a terra, não nos importaríamos de ser capa da Terrorizer ou da Revolver. 


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

A resposta varia conforme cada membro da banda mas qualquer um destes seria uma grande experiência. Unanimemente teríamos de optar por um que não consta na pergunta: Roadburn. 


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Sharknado.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

K7 só para sermos 'trendy'. Na realidade apreciamos os quatro formatos cada um à sua maneira:
 - Vinil pelo 'vibe' e qualidade de som.
 - WAV pela qualidade e por ser o 'standard' em estúdio.
 - FLAC porque soa  maravilhosamente sendo mais prático que o WAV.
 - MP3 porque apesar da perda de qualidade é extremamente portátil.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura musical?

3 sugestões musicais:
 - Such Hawks Such Hounds
 - The Rocky Horror Picture Show
 - Pink Floyd: Live at Pompeii


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Todas as perguntas acima feitas. Ok, agora sem brincar, qualquer pergunta que vise distrair da música que fazemos e se foque em algo que não nos interessa. 


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Clemente - Vais Partir: cavalgar nas auto-estradas.
Ana Malhoa - Tá Turbinada: lutar contra a guerra. 
Sleep - Dragonaut: vegetar.
Fela Kuti - Expensive Shit: comer.
Led Zeppelin - Rock n' Roll: beber.








quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

IV NOITE FETRA & AMIGOS - 27/12/2014 - REPORTAGEM

Apesar do difícil posicionamento no calendário, a 4ª noite/dia da Cafetra Records não seria a oportunidade consensual de meter o espírito natalício na gaveta e avançar para o espírito baderneiro de um novo ano. Aliás, numa Lisboa cada vez mais centralizada no que a espaços de concertos diz respeito, percebe-se que, por estes dias, a localização da Caixa Económica Operária reúna apenas quem tem a genica de abandonar a força do hábito. Mas uma sala tão convidativa e bela merece estar ocupada e a Cafetra, com o mesmo "a" que o poder feminino toma como seu e reclamaria no balanço final, deu-lhe essa luminosidade em troca de derrubar as barreiras de uma normal tarde de Sábado.








Logo a abrir, Francisca Salema ou sallim fez da primeira meia-hora um dos momentos da tarde com a demonstração mais pública de afecto por todos os que se encontravam na sala que é...deixar os mesmos à deriva, aquela em que ouvir cantar sobre um desgosto amoroso soa tão bonito como não o ter. A mesma sequência de momentos em que não correr tudo perfeito é maior que a perfeição em si mesma.
Toda a cenografia por detrás de uma pequena e aparentemente frágil rapariga reproduz-se a partir e para além, como uma voz angelical e uma guitarra preciosamente decorada por alguns efeitos a sobressaírem por cima da pop confessional e intimista tão honesta que quase se agarra à vida. Temas gravados por aí não faltam - até um EP, "dois", que falha por pouco as listas de melhores de 2014 -, difícil é continuar a passar ao lado.

Aparte 100 Leio, Kimo Ameba, os Iguanas e o suporte a Éme (e "n" outras coisas, não falássemos do grupo de amigos antes sequer de haver Cafetra), Lourenço Crespo aparecia de seguida numa das primeiras vezes a tocar a solo. Para já, com apenas um orgão e a postura de um falso/desajeitado organista que não se importa com nada, o B Fachada que visitaria a festa lá mais perto do seu final é, se não uma muito óbvia referência, o artista de dois últimos trabalhos, sobretudo "Criôlo", que oferece a mais óbvia das comparações. Fora isso, já sabemos, e duvidamos em igual medida, que num futuro muito próximo nada disto vai ser verdade.






No anti-ramerrame, na montanha-russa de concertos a alta velocidade da tarde, a estrela óbvia Éme poderia ser o não tão óbvio senhor que se seguiria. A militância despertada com o concerto de Lourenço Crespo e o destaque imprimido às canções simples e brilhantes do mais recente "Último Siso" foram servidos como deve ser, com pouco mais do que uma guitarra acústica e coros a brotar quase de todos os cantos da sala. Para além de crooner da tarde e apresentador/manager de craveira, Francisco Correia, Smiley Face ao microfone, guardou cerca de 20 minutos para, dentro do imaginário teenager do novo/velho milénio e da filosofia cara traduzida para o mundano, o comic relief desgarrado da tarde com uma guitarra, um ukulele e um telemóvel feito caixa de ritmos.
Com o último espectáculo da tarde, abria-se um cenário musicalmente mais denso, pautado e univocalmente instrumental para a noite. Os Go Suck A Fuck com Van Ayres, fazendo do ruído electrónico ambiente de trabalho para detalhe de joalheiro, seriam os primeiros a abrir a porta para a electrónica da Cafetra antes da pausa de jantar.



Como previsto, e continuando a cumprir os horários previstos, era Sara Rafael que corria para demonstrar afincadamente como Jejuno o lado mais obscuro e dolente do trash noise que os Go Suck A Fuck e Van Ayres tinham deixado em aberto ao anoitecer. Drones depurados pelas regras do psicadelismo orquestrado nem-tanto-ao-céu-nem-tanto-à-terra, por batidas desprendidas como as melodias e por referências descoordenadas.
De descontrolo e viagem momentânea e abstracta também vinham o saxofonista Pedro Sousa, o violoncelista Miguel Mira e o baterista Afonso Simões falar logo de seguida cruzando com um crescendo de entusiasmo improvisação e jazzfree-jazz, de construção e desconstrução permanentes e altamente celebradas por todos os presentes que já não distinguiam transe electrónico de sincretismo orgânico.
Em trio inesperado e antes das irmãs Reis, as Putas Bêbedas trocavam as voltas para não "tocar o mesmo disco" antes dos Tropa Macaca. Um festival impressionante de punk-metal corrosivo mas descomprometido a atacar os tímpanos com o estranho sentimentalismo e shoegaze de "Jovem Excelso Happy", LP de estreia a que os elogios de Julian Cope não são, e com razão, estranhos, nem que seja pelo facto de mais uma vez até o que parece imperceptível merece palmas e um headbang furioso.








As Pega Monstro conseguiram crescer: só isto seria um feito digno de nota. A sequência inicial de novas canções, como "Amêndoa Amarga", revela que o mesmo pop-rock lo-fi orgulhosamente cru e suado que lhes conhecemos do disco de estreia homónimo, a que resgataram "Fetra" e "Afta", está apenas a saber lidar com o mesmo síndrome da idade, acumulando e reflorescendo a partir do limar de novas camadas de ritmos, anti-ritmos e filtros de impaciência malsofrida. É como se o segundo disco que está para chegar em breve fosse o melhor disco de sempre não editado - nesta noite foram apenas 30 minutos tão bons e tão cheios que não deram para lhes abafar a timidez com que ainda ensaiaram um encore. Antes dos DJs, os Tropa Macaca deram de barato projecções vídeo abstractas e uma performance musical de série e de mestria a acompanhá-las. Dão-nos narrativas improvisadas que podemos tentar encaixar como tudo o que já aprendemos do ambient noise ou dos Cabaret Voltaire.
Poderia ser assim, por esta ordem, que se descreveria este concerto não fosse o facto de o abstracto e o misterioso ficarem, não apenas poeticamente falando, acima das cabeças de quase todos e de ali à frente estar tudo colado à densidade de texturas de uma fusão entre techno-house industrial primata, agressivo, e guitarradas angulares e exploratórias sem linguagem de catalogação e com todo o propósito e oportunidade para a sua devida apreciação.






Muitos adjectivos já correram pelas linhas que se colam à Cafetra.
Parece ser a última oportunidade de gostarmos, de ouvirmos música da adolescência ou com espírito adolescente, de fazer crescer algo em que se acredita a partir do sangue.
Atacar o tradicionalismo e o "passar por cima" das estruturas convencionais é não pensar seriamente no bem comum que se reconfigura ciclicamente por cima de qualquer realidade, seja a das Olaias ou a da Comporta: por isso, "escolhe o teu veneno, algum vai ter de ser".



Texto de André Gomes de Abreu

Fotografias por Zé Vidal
(galeria completa em
facebook.com/bandcom)




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