sexta-feira, 21 de Novembro de 2014

DEAD COMBO - "A Bunch of Meninos" (2014, Universal Music Portugal)




Tó Trips e Pedro Gonçalves voltam após três anos de ausência, pelo menos em registo gravado, já que 2013 ficou marcado pela digressão que assinalou os dez anos da banda. “A Bunch Of Meninos” é o título do novo álbum dos Dead Combo, lançado em parceria com a Universal Music Portugal e conta com convidados como Alexandre Frazão (bateria e percussão) e António Serginho (percussão).
Para aqueles menos familiarizados será necessário relembrar a base deste duo, onde desde os primeiros trabalhos editados se destacam as influências de sonoridades western que se combinam com ritmos e referências ao fado, numa espécie de ode à natureza humana. 





O registo de “Waiting For Nick At Rick’s Café” serve perfeitamente para tal - abrindo o disco num tom que, não sendo do Velho Oeste nem da Madragoa, consegue servir um qualquer Rick’s Café em qualquer um dos lugares. Destaca-se o sempre ambiente envolvente, onde os riffs ou solos não são iguais a outros já ouvidos, mas ao mesmo tempo parecem ser os de sempre, aqueles aos quais nos fomos habituando e que tão confortavelmente nos vão preenchendo a alma.
E se o som do Faroeste se continua a sentir intensamente nas cordas de Tó e Pedro, não deixa igualmente de ser verdade que ao longo dos últimos trabalhos o mar que os separava da música feita na ponta da Europa se tem vindo a estreitar cada vez mais, como que na construção de um registo que, sendo do mundo, é ao mesmo tempo facilmente identificável com a banda e se desapega dessa espécie de rótulos anteriormente mencionados. 

Há pontos típicos que têm tomado forma desde o início e se tornam, por essa razão, icónicos. "Miúdas e Motas", por exemplo, transmite todo o atrevimento que os Dead Combo imprimem em algumas das suas músicas, onde as guitarras se vão misturando numa espécie de dança que alterna entre a provocação e a suave cortesia. "Waits", logo de seguida, prolonga esta dinâmica, permitindo com a entrada da percussão e da melódica a liberdade à guitarra em experimentar outros territórios.





A identidade que cada música toma com o nome que lhe é atribuída tem-se tornado um dos aspetos importantes de cada álbum do duo. Em “A Bunch Of Meninos”, além das já habituais quebras de barreiras entre diferentes línguas, há aquele inenarrável explorar de uma marca da Lisboa, parte de um país também ele às camadas, que não se dobra, onde podem ser destacados os curiosos “B.Leza”, que pelo menos obriga qualquer português a dobrar a língua perante o toque “abrasileirado” que a letra e o ponto dão à palavra se ainda não põs os pés naquele espaço, ou a "Dona Emília" que será com certeza o furacão do seu bairro e também do pó que a ZdB acumule. Além disso, parece não existir obrigatoriamente um sentido no alinhamento das diferentes faixas que compõem esta espécie de soundtrack - podia perfeitamente ter início com "Povo Que Cais Descalço", por exemplo, que tal serviria, apesar do registo mais aproximado ao tradicionalismo português, para fazer a vez a "Waiting For Nick At Rick's Café".






A não habitual percussão, pelo menos fora do que o corpo humano suporta sem instrumentos, já anteriormente referida comporta um peso importante no álbum, sendo provavelmente a grande novidade que é capaz de destacar algumas músicas. "Arraia" é talvez o melhor exemplo de tal, com uma energia que faz recordar, por exemplo, aquele concerto de Paredes de Coura em 2012. A própria faixa homónima do disco, apesar de comportar uma guitarra muito mais destacada, surge com uma dinâmica completamente diferente onde parece ser mais fácil a Tó Trips desenvolver solos não tão trabalhados ou complexos, mas com um leque experimental muito mais alargado. Não menos atenção merece "Mr. Snowden's Dream": se a bateria que entra quase a meio da faixa faz jus à misteriosa carga sonora criada até então, é igualmente verdade que a presença do som do metalofone e a sua melodia hipnotizante remete a um universo quase fantasmagórico que a banda sempre soube caracterizar.

“Hawai em Chelas” fecha o disco com sonoridades que remontam novamente à eterna Lisboa das sete colinas, numa balada onde se pode sentir uma espécie de Carlos Paredes vagabundo nos dedos de Tó Trips. A melodia é sempre envolta em lume alto, tal como o paraíso no Pacífico ou a ilha de Chelas há alguns anos atrás; num segundo estamos a surfar Waimea, no seguinte a percorrer a selvajaria urbana.
Afinal são estes os Dead Combo, do Mundo, influenciados por ele e criando a banda sonora para quem nele vive, independentemente de "onde".



João Gil




quarta-feira, 19 de Novembro de 2014

DE E POR: CAIXA DE PANDORA - "Teias de Seda" (2014, Primetime Records)

Antes de se estrearem em disco neste ano, Rui Filipe, Sandra Martins e Cindy Gonçalves construíram com várias experiências, com o projecto RosaNegra em destaque, uma relação pessoal em conjunto e, em vários domínios, uma relação profissional bem sucedida que foi começando a sedimentar-se à volta de temas originais, com ambientes que estão no comprimento de onda que alcança a música clássica e a música do Mundo, apresentados ao vivo por todo o país ao longo do ano passado - já nestes dias 21 e 22 a Biblioteca Municipal Orlando Ribeiro e a Livraria Ler Devagar serão os próximos passos.
A Caixa de Pandora só agora se abre. Nós estamos todos convidados.





Voo do Condor

Paisagem sonora representativa do sentido de liberdade.


Teias de Seda

Teias são as ligações que a música vai ilustrando entre todos e dentro de cada um de nós, que são sempre fortes, mas que têm na sua origem a suavidade e leveza que traduzem a essência do espírito humano, na sua forma mais pura.


Retorno

Se um tema nos pudesse levar a um sítio onde já estivemos, ou a sentir coisas que já sentimos, este "retorno" seria um dos possíveis canais para o fazer. Um retorno que traz consigo a oportunidade de renascer, onde tudo pode recomeçar com um novo sentido





Suíte Vadia

É o contraste e a complementaridade das fórmulas representativas do tribal e do erudito, que se cruzam e se pacificam, numa convivência abrangente e universal.


Num Outro Tempo Talvez

Conta a história de algo que não pôde ser vivido neste tempo, que ficou por viver…


Águas Passadas

Remonta às emoções relacionadas com memórias de tempos longínquos.


IN(Pressão)

O tema mais denso, concertante, épico.


Meio Fado

O encontro entre a desgarrada do fado e a sedução do tango.


Amores Perfeitos

Uma fresca partilha de felicidade, e de amizade.


Valsa do Prado

Alusão à raiz, ao sonho e à holística do viver.​ Uma dança tradicional em plena liberdade campestre.


Luna&Cielo

Feminino, sensualidade, noite, mistério.


Desenfadado

História de sedução entre um homem e uma mulher. Revivalista. A preto e branco.


Machimbombo

Inspirado no balanço dos meios de transporte colectivos africanos, em que a convivência entre o espaço e as pessoas é mais humano do que civilizacional.   


Solstício de Inverno

Recolhimento, introspecção, solitário, dimensão e simbologias nocturnas.


Amores Desencontrados

História de amores impossíveis. Desencontros.


Deuses Menores

Foi o 1º tema composto para a Caixa de Pandora, talvez um prenúncio! Um tema intenso e apaixonado, que reflete o nosso envolvimento neste projecto a três; ‘Deuses Menores' deixa a "Caixa" entreaberta para que outras memórias e confissões sejam descobertas.




sexta-feira, 14 de Novembro de 2014

LOS SAGUAROS - "Yuma" (2014, Hey, Pachuco! Records/Experimentáculo Records)




Quem nunca se cruzou com o imaginário daqueles filmes western que sempre nos acompanharam? Míticas também são aquelas bandas sonoras características desses filmes e é nessa área de influência que podemos esperar o álbum de estreia de Los Saguaros, onde vemos um pouco de tudo entre o desert rock até aquele rock n’ roll que delicia os ouvidos.
Diogo Augusto e Samuel Silva não são novos nestas ‘bandas’, também eles integraram os extintos Sonic Reverence e The Wage, integram agora os The Jack Shits e pelos palcos têm muito passado e, pelo que parece, deixando a sua marca tal como os 9 ilustradores que convidaram.





Em “Yuma” temos energia para dar e vender. Temos uma bateria com o ritmo rock n’roll, temos uma guitarra a oferecer uma passagem de 12, e outras vezes de 6, cordas de concordância face à atmosfera presente de tal forma que mérito é algo que não lhes podemos tirar - em Portugal não é habitual ver deste tipos de sonoridade e eles captaram-na muito bem. 
Dez é o número das canções que compõem este primeiro disco de Los Saguaros, esta história que começa com uma “Intro” propriamente dita a construir o ambiente e a localizarmo-nos espacio-temporalmente para o regresso do “Django”, aquele velho nosso conhecido dos western de que toda a gente ouviu falar, e a sonoridade não fica nada atrás do que nos lembramos das passagens tanto do Corbucci como do Tarantino. Seguimos depois com o som da harmónica e a guitarra a explicar-nos a melancolia viva, uma percussão a nos fazer lembrar uma cascavel pelo deserto a mostrar-nos o porquê de o western-rock estar tão bem presente em “Rattlesnake”.
Faltava algo neste disco que foi muito bem incorporado no single “I Killed My Girl”. Sim, falamos da voz, que canta repetidamente esta máxima com uma guitarra a divagar mas sempre no compasso certo que define todo o enredo. 






A banda também não quis deixar passar um pouco do nosso país e deu nome a um tema da tão bem conhecida “Nazaré” pelas grandes ondas e tão boa para o surf, para ecoar o surf-rock, o complementar ideal do devaneio árido. De seguida, “Fuck It, I’m Leaving” alude a um regresso do deserto a uma casa bem lá no fundo com alguém a tocar um velho blues do Mississípi, com vontade de se libertar de algo.
E um pouco de origens latinas? "Yuma" não nos deixa de surpreender em origens e em “Flamenco Girl” pensamos logo numa bailarina de ar e olhar sedutores e o encontro é de caras com a música que nos faz mergulhar numa cultura tão próxima de nós e que alicia só com os ritmos mais básicos de flamengo mas com a guitarra elétrica. “River Kwai”, título resgatado a um filme de 1957, não se estranha com a história que se detém pelos altos e baixos prisioneiros de uma boa coesão entre guitarra e bateria. Bem, se já temos saudades do romance e da voz, eles aparecem de novo em “Baby, Take Me Back”, onde temos de regressar a uma "ela" e vemos um bocado do desejo de ficar, sem palavras, pelas onomatopeias para suspirar e tê-la de volta.

Assim regressamos à última paragem que dá o nome ao álbum: “Yuma”. Que bela maneira de deixar realmente uma marca com o nome de uma cidade do Arizona que é maioritariamente desértica. Um final cheio de riffs com sabor a tabaco seco e lembranças de batalhas tribais muito bem conseguidas, por sinal, no voltar ao básico do desert-rock com um pouco de surf-rock para apimentar a situação.  

Ouvindo o trabalho, ficamos com uma boa impressão de algo conseguido em Portugal que dificilmente iria ser feito e que, no final de contas, nos deixa bem harmonizados e nos faz automaticamente recorrer a recordações daqueles filmes de Sábado à noite na RTP2. Pois isso, isso são muitas e boas memórias, mas ainda bem que os Los Saguaros estão cá, agora.

Marco Duarte




quinta-feira, 13 de Novembro de 2014

CRUCIFIED BY US - Entrevista

Já entretanto na sua 4ª edição, o concurso Finding The Way promovido pela Amazing Events no Stairway Club, em Cascais, tem sido um bom lugar de promoção, crescimento e suporte de novas bandas rock de todo o país em que o público também decide e tem influência mas onde mais interessa: na própria noite do espectáculo.
Como um dos parceiros da 3ª edição, encontrámos na final do concurso 4 nomes conhecidos: os Laydown, os Gata Funk, os Zipperness e os Crucified By Us.
Surpreendentemente, foram estes últimos os vencedores e claramente aqueles que mais urgência têm em mostrar-se. Não esperemos mais.






BandCom (BC): Em primeiro lugar, de onde surge o nome Crucified By Us?

Crucified By Us (CBU): O nome Crucified By Us não tem relação alguma com qualquer religião. Inicialmente os Crucified By Us eram chamados Warcraft, mas tivemos de mudar o nome devido a este estar associado a outras entidades. Quando o escolhemos, por aceitação da formação da banda da altura, não tinha nenhum significado em especial: o nome veio-nos à cabeça e todos achamos que era um bom nome. No entanto, à medida que fomos criando a nossa identidade como banda, percebemos que o nome tem alguma ligação com certos temas que abordamos.


BC: Apesar de se terem formado em 2012, ao fim de um ano já tinham várias canções originais prontas, mesmo com algumas alterações na formação da banda. Já tinham tocado juntos antes? Qual o segredo para tanto trabalho para apresentar realizado em tão pouco tempo?

CBU: O "segredo" para em pouco menos de dois anos termos já vários temas prontos é talvez a dedicação e a paixão com que escrevemos os temas. Não existe nenhum segredo, nenhuma magia em especial, quando se desfruta do que se está a fazer as coisas saem naturalmente.


BC: Quais os principais temas que abordam na vossa música?

CBU: Não existem temas específicos em que nos gostamos de focar. Todas as nossas músicas e letras vêm de experiências passadas por nós e da relação que temos com o Mundo à nossa volta. Talvez, devido a isso, não tenhamos muitos temas em específico que gostamos de abordar: por exemplo, a nossa música "The Reverend Tholomew Plague" é uma música em homenagem a um grande músico e inspiração para milhares de pessoas, o baterista Jimmy "The Rev" Sullivan, mas o nosso reportório aborda outros temas como a revolta e a indignação com certas "regras" da sociedade na música "F*ck Morals".


BC: 2 raparigas, uma na voz, outra no baixo, e 3 rapazes. Têm figuras, masculinas e/ou femininas, para que olham e consideram exemplos a seguir? Quais?

CBU: Obviamente que sim. Achamos que todas as bandas têm as suas influências, bandas ou artistas que os levaram a querer criar e fazer música. No nosso caso em particular, a nossa maior influência vem da banda norte-americana Avenged Sevenfold, mas temos outros artistas que tiveram um papel fundamental na criação da nossa identidade como banda, artistas de variadíssimos géneros musicais, de Slash e Halestorm até Slipknot e Metallica.


BC: Esta é a primeira presença em concursos de bandas dos Crucified By Us? Como 
avaliam a forma como decorreu o concurso, os vossos competidores e como se 
sentem? O que gostaram mais?

CBU: O concurso Finding The Way do Stairway Club foi a nossa primeira presença num concurso de bandas e em palco também. Foi a nossa primeira aparição pública como banda. Nós gostámos imenso desta experiência, o pessoal do Stairway acreditou em nós, deram-nos a oportunidade de participar e sempre nos apoiaram em tudo. O facto de termos ganho foi mesmo a cereja no topo do bolo. Todas as bandas que participaram e com que tivemos o privilégio de partilhar o palco foram fantásticas tanto nas eliminatórias como nas semi-finais e na final. Aprendemos muito com esta experiência.





BC: Tal como quase todas as bandas no Mundo, os Crucified By Us estão também nas 
redes sociais. Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

CBU: Tem de existir um equilíbrio entre a música que fazemos e a promoção que depois é feita. Nós achamos que a qualidade de uma música tem de ser sempre superior à promoção feita, nunca o contrário, pois caso a promoção seja maior que a qualidade da música, vai haver uma certa desilusão por parte do público. Por isso, tentamos sempre fazer o melhor possível dos dois lados.


BC: Durante os vossos ensaios ou por outras vias de convivência, têm bandas amigas com quem vão crescendo e trocando impressões ou trabalham mais isolados?

CBU: Nós tentamos sempre aprender um pouco com o feedback que vamos recebendo do público e de outras bandas. Conhecemos algumas outras bandas locais e/ou de amigos, por exemplo um outro projeto do qual o nosso baterista faz parte. Trocamos impressões com estas bandas, familia, amigos e fãs de forma a melhorarmos o nosso trabalho de forma a torná-lo o melhor possivel.


BC: Com quem gostariam um dia de vir a tocar, em Portugal e/ou no estrangeiro?

CBU: Como outra banda qualquer, gostaríamos de um dia poder vir a tocar com as bandas que tiveram um papel importante na nossa criação como banda. Artistas como Avenged Sevenfold, Halestorm, Slash e todos os outros artistas que nos impulsionaram a prosseguir música.


BC: O que querem acrescentar à actualidade da música portuguesa?

CBU: O que nós gostávamos de acrescentar à música portuguesa é que é possível fazer algo original e apreciado sem ser necessário sucumbir a tendências e modas nos géneros musicais. Vê-se muito hoje em dia muitos artistas começarem na música a fazer algo que o público já gosta de ouvir, não se vê muito uma banda fazer algo novo. É isso que nós queremos fazer, é isso que é preciso acrescentar à música portuguesa.


BC: O que querem fazer imediatamente a seguir na vossa carreira?

CBU: Talvez a gravação do nosso EP de estreia, "From The Heart". Achamos que é importante agora darmos a conhecer ao público quem são os Crucified By Us, o que eles fazem e o que eles representam. Já recebemos feedback bom do single que lançámos no YouTube, "Don't Ever Let Me Know", o que foi muito gratificante, e podemos prometer que o resto do EP será tão bom, com muito rock, alma e paixão.



André Gomes de Abreu




terça-feira, 11 de Novembro de 2014

LOS WAVES - "This Is Los Waves, So What?" (2014, Sony Music Portugal)




Os Los Waves, antes conhecidos como League, têm “casa” em Lisboa e Londres e são uma banda formada por Jorge da Fonseca, José Tornada, Marco Jung e Bruno Santos. “This is Los Waves So What?” é o primeiro LP e bebe de uma inspiração californiana repleta de uma vibe indie descontraída com algumas nuances psicadélicas, tribais e rock das décadas de 70 e 80. A sua identidade e divulgação da mesma começou a construir-se no estrangeiro, mais precisamente em Inglaterra e nos Estados Unidos, como banda que chamou primeiro a atenção lá fora e só depois “transportou” verdadeiramente o seu reportório para o panorama musical português. Acaba, por isso, por tornar-se curioso ouvir como esta mudança ocorre de vários EPs para uma única e mais extensa compilação de temas.





Quando “Hyperflowers” inicia o registo, assalta-o com uma reminiscência de The Vaccines, com um baixo pronunciado que confere à faixa um ritmo agradável, mas a seguinte “Modern Velvet” é a faixa mais obscura do álbum, cujos teclados reforçam essa ideia, com a voz de José Tornada a demonstrar uma dose avantajada de emoção e potência, mesmo que disfarçada por uma espécie de delay. Segue-se “Strange Kind of Love” e aqui a sua introdução desperta-nos para um registo mais veranil, a sua batida revela um lado mais punk desta banda que não pára de brotar referências. Para confirmar esse facto chega “Golden Maps”, um brinde eletrónico que mostra que estes rapazes não têm medo de mostrar dos vários sitios de onde vieram. Quase a meio do registo, “Darling” é a faixa perfeita para single: acelerada e curta para fazer furor nas rádios e obrigatoriamente a deixar sorrisos naquele cenário em que alguém aumenta o volume num carro qualquer que passeia à beira-mar.

“Still Kind Of Strange How Days Won’t Go By” marca uma quebra de ritmo importante e mostra um lado mais vulnerável, com o domínio da guitarra e bateria a passar de uma maneira cliché, quase digna do baladeiro-romanticota. Na nova versão de “Your World” é impossível não pensar nos tempos áureos dos The Strokes; lá atrás, no EP "Golden Maps" lançado pela NOS Discos, ficou uma outra versão, muito mais despida de camadas musicais e essencial para indicar alguma evolução no rumo da sua musicalidade. “Got A Feeling” é, sem dúvida, um chamamento ao verão, onde nos deliciamos com a presença tribal, a chamar um pouco para os Crystal Fighters ao contrário da
tentativa de stoner sujo descombinado com a parte eletrónica que se segue e que se torna o elemento surpresa de "Jupiter Blues". “How Do I Know” torna-se repetitiva, embora de repetição pensada, quando parece que pode não resultar desde que a meio da mesma já nada de novo é adicionado. Fórmula um pouco gasta, portanto, antes do final com “Belong (Sister)”. E é um final agradável, com uma guitarra melosa cheia de delay assim como a voz e quebrando a sequência do resto do álbum, embora ainda haja a oportunidade de sermos surpreendidos pelas contas que se podem fazer à diversidade de géneros que conseguem abarcar ao longo de todo o disco mesmo que pequenos detalhes, como a convivência da eletrónica com a electricidade da guitarra, sobressaiam.





“This is Los Waves So What?” é um disco com demasiadas influências, dando a parecer que é um fruto verde no que toca à transição, reforçada pela mudança de nome (apesar desta ter ocorrido meramente por motivos logísticos). Numa só audição viajamos numa espécie de carrossel à volta do mundo da música, com direito a repetição. E mesmo com essa viagem, é possível que os Los Waves tenham a tendência de ir em busca de uma sonoridade mais específica para os caraterizarem. Ainda assim, vale a pena ouvir como essa procura se processa, visto que encontramos atributos peculiares em cada uma das músicas. Sejam League, sejam Los Waves, não restam dúvidas que poderão vir a trazer para o panorama musical português coisas que outros ainda não trouxeram.



Inês Martins




DE E POR: O ABOMINÁVEL - "Enteléquia" (2014, Ed. Autor)

Definem-se e mostram-se como uma banda à flor da pele mas que amadurece, dentro e fora do seu acervo, quando as suas músicas necessitam e ela própria necessita. Depois do EP de estreia, da consolidação do perímetro de influências com a emergência do colectivo da Biruta Records e agora com "Enteléquia", o disco de estreia, os cinco que também são O Abominável aproveitam para renovar público pelo Norte e Centro, com concertos marcados para o final do mês em Guimarães, Coimbra e Viseu.
Mas antes destes e de outros concertos de quem já passou por Paredes de Coura ou pelos maiores concursos de novas bandas como o Festival Termómetro, a serventia faz-se aqui, faixa por faixa.






Enteléquia
Expressão sentida e ingénua acerca do anti-sufrágio em que a realidade da existência se debruça, sem voto para mudar o inevitável mas mesmo assim, operá-lo com questões básicas mas essenciais para quem sofre por antecipação.



Fleuma

A música começa com uma introdução suave que transita para uma espécie de Valsa que marca a cadência do tema, alternando este ternário com um quaternário marcando dois momentos distintos.


Real Demais Para Existir

O ambiente desta música está envolto em fobias. A produção tornou-a "fechada" mesmo que, em momentos, haja rasgos de maior intensidade. Contém a intenção de encarar o "teu modo de ser".



Rasto

Um dos momentos mais contrastantes do álbum, entre um suspense "bluesy" e um "hard freestyle". Uma música que vive do momento.


Palavra do Eu

Esta poderá ser a nossa música em modo "vintage". Os teclados do Elísio Donas levam-nos para um ambiente outrora vivido e o solo final de guitarra do João é próprio de um misto sonhador com uma faceta, talvez, de pleno equilíbrio.
Não sei porquê, mas nos fins de tarde daqueles dias cheios de calor, esse mesmo solo não me abandonava a consciência.


Circo e Tu
Ficção inspirada numa possível história de amor disfuncional com o lema "fighting like Sid and Nancy", um amor que puxa de pistola e de obsessões compulsivas acabando, ao contrário da inspiração, num acto de amor numa colina com um céu estrelado.


Mónade 

Este tema tem um ritmo gingão, que surge em parte de influências ouvidas com amigos de ascendência africana. O constante palpitar da batida e um riff durão contrastam com elementos que sugerem a libertação de algo ou de alguém.


Calíope 

É a "balada" do álbum, pois apesar de não permitir a dança a dois (com o corpo colado intimamente à outra pessoa), permite o sexo a dois (com o corpo colado intimamente à outra pessoa). Sem dúvida é uma música com um carácter bastante intrínseco.


Corda

Nas gravações da corda, perguntei ao Leonardo: "o que é que sentes por teres o Maze a cantar num verso que criaste?". É quase como o culminar de qualquer coisa. Não me recordo muito bem do processo de composição desta faixa, mas sei que era uma música em que tínhamos de insistir na sua vida, e no fim, naturalmente, fechar o álbum.




sexta-feira, 31 de Outubro de 2014

JAVA DELTA - "Anything Goes" (2014, Ed. Autor)




"Anything Goes" é o nome do EP lançado por João David, mentor do projeto eletrónico Java Delta, composto por seis temas que vão beber à french touch francesa, ao funk e à house algumas das suas maiores influências. Mas também ao rock, e até ao post-rock, como o demonstra a sua colaboração, mais recentemente, com colectivos como os Quelle Dead Gazelle e os Heats.




Omnipresentes, as máquinas são acompanhadas a maior parte do tempo por vozes que ditam letras escritas por Beatriz Brunelli, Gonçalo Constanza, Guilherme Geraldes, Inês Pimenta e The Roman. Há músicas claramente mais viradas para a pista como "Alpha"; outras, como "Ridin’ Solo", lembrando os seus mentores Daft Punk e não apenas pelo uso da voz distorcida. 
"The Hang Glider" e "Omega" têm incorporados nos seus estratos uma french touch que ela própria fez mais que se inspirar dos anos 80. De facto, a música é mesmo assim: uma cadeia alimentar onde a extinção de uma banda dos anos 80 pode ter ditado a morte à nascença de uma banda dos dias de hoje, antes da eclosão.
Uma atmosfera dançável onde alguns synths mais negros e lentos tornam a música por vezes próxima de uns Orgy em vias de reaparecimento. "Courtship Display" é talvez um dos temas onde o mundo da electro-pop gótica emerge mais ao longo do disco enquanto que "Ode" é aquele resultado estranho de um Daft Punk old school misturado com o último álbum, isto sabendo-se que este registo saiu antes do novo álbum dos franceses. 





Melting-pot dos mais variados géneros musicais, "Anything Goes" não é propriamente dos discos mais inovadores de 2014. Não deixa no entanto de nos apresentar, para um primeiro registo, um disco sólido e coerente, que assume plenamente as suas influências e que tenta fazer delas as premissas de algo com dimensões bem maiores. E o exemplo máximo disso é mesmo o remake "Pillow Spacefight", fruto da colaboração com os QDG, lançado há poucas semanas. A evolução, essa, já não é Nѳva.


Mickaël C. de Oliveira




terça-feira, 21 de Outubro de 2014

FESTA DO 45º ANIVERSÁRIO DO TEATRO MARIA MATOS - REPORTAGEM



“I'm not a minister, I'm not a philosopher, I'm not a politician, I'm in another category.” Sun Ra

No passado Sábado o Teatro Maria Matos presenteou-nos com uma dupla celebração: o seu quadragésimo quinto aniversário e o centenário do nascimento da icónica e complexa figura Sun Ra num espectáculo que envolveu uma série de ilustres da música portuguesa quer em cima do palco quer fora dele. Mas tal como referira o programador de música Pedro Santos, o objectivo principal era o de "celebrar o aniversário, mas subverter o foco de atenção. Não deve estar em nós, mas no que se passa em palco”. Como já havia sido feito há dois anos com John Cage, Sun Ra, nome artístico do norte-americano Herman Poole Blount, considerado figura proeminente, visionária e revolucionária do jazz pela sua originalidade e influências – afrobeat da Nigéria, improvisação, funk do Peru, electrónica, avant-garde, hard bop, religião e filosofia - mas também pintor, filósofo e poeta, através do convite endereçado a 4 artistas e aos frutos das suas vivências. Nuno Rebelo, o ex- “Street Kids” e “Mler Ife Dada”, Bruno Pernadas, extraordinário e tecnicista guitarrista que tem exactamente no jazz um dos seus mais sólidos pontos de interesse a solo ou em grupo, os Gala Drop e por fim Mo Junkie, juntos numa viagem que teve origem na Av. Roma, com passagem pelo Egipto (a cultura que mais influenciou Sun Ra) e ponto de paragem em Saturno.





A casa estava recheada quando pelas 16h30 a comitiva dirigida por Nuno Rebelo, da qual faziam parte jovens músicos do Conservatório de Música Calouste Gulbenkian de Braga e o bracarense Gil Teixeira de La La La Ressonance, subiu ao palco para dar início às festividades.
O palco e a indumentária dos músicos permitiam-nos sentir claramente em frente à Sun Ra Arkestra e o concerto começou com uma série de documentos vídeo de Sun Ra e sonoros experimentais que criavam o mote para que numa linguagem musical crescente incorporássemos a viagem tortuosa pelo espírito misterioso e sideral de Sun Ra. Nota para a originalidade e irreverência da direcção artística e musical de Nuno Rebelo que teve até um momento em que o palco deixou de se limitar pelas paredes das instalações do Teatro e passou para um pequeno largo nas imediações do Edifício – porque afinal, as filosofias de Sun Ra, leiam-se pouco ortodoxas, pediam e mereciam sempre o menos convencional. Todo o momento revelou-se uma justa homenagem por aquele que tinha mais ligações ao músico, onde os sopros, os violinos a secção rítmica e o poderoso coro celestial conseguiram amplificar e eternizar temas como “We Travel The Spaceways” ou o clássico “Space is the Place”.






Por volta das 18h45 era a vez de Bruno Pernadas subir ao palco para nos abrilhantar com os seus arranjos, musicalidade e técnica naquela que é a sua praia – o jazz e a improvisação. Trazia consigo velhos companheiros de trabalho e outros colegas de projectos mais atuais, entre eles Pedro Pinto, João Rijo e João Mortágua. No palco, um tripleto de saxofones, trompete, vibrafone, duas baterias, piano e por fim Margarida Capelo e Afonso Cabral que vieram acrescentar uma nova dimensão à epicidade criada pelos instrumentos. A sua abordagem foi diferente: não se limitou a fazer réplicas da obra de Sun Ra, mas sim a construir edificações sonoras a partir dos alicerces de temas como “Lanquidity” ou “Rocket Number Nine” num percurso de verdadeiros momentos de improvisação para os saxofones e duelos guitarra-vibrafone sempre acompanhados de uma robusta secção rítmica e um piano poliglota. Era, por isso, no meio de grande cumplicidade musical e humana que Bruno Pernadas e companhia realizavam uma fusão de pensamentos e viagens cósmicas através de um espírito aberto a todas as possibilidades musicais.





Já próximo das 20h15, o som dos Gala Drop, através da sua forte componente electrónica, fez por materializar o arquétipo dos mitos e da suprema harmonia do universo de Sun Ra. Através do uso intensivo do sintetizador, da distorção da guitarra, do reverb ou do simples eco, os Gala conseguiram de facto narcotizar o público e trazer até ao Maria Matos todo o espírito rítmico de Sun Ra, apoiando-se no seu extenso portefólio angariado em experiências variadas de palco. Grandes fãs de Sun Ra, mas pouco ligados ao jazz, conseguiram estabelecer uma comunicação tal com uma outra dimensão onde mora Sun Ra que a certa altura parecia que o mesmo estava ali em cima do palco a dirigir-se a todos, de uma forma curta mas enérgica.





Nos intervalos entre os concertos e no fim do espectáculo chegava sempre a hora de ir beber um belo porto ao MM Café e ouvir aquilo que Mo Junkie, alter-ego de Edgar Matos ainda nos tinha para contar. Como prescrição de clínico para uma melhor digestão, Mo Junkie, munindo-se da sua electrónica esotérica, iam passando pelo seu gira-discos canções como “Angels and Demons at Play” ou “A Joyful Noise” conjugados com samples milimetricamente escolhidos numa operação caótica, mas ao mesmo tempo intuitiva, num novo plano temporal.
Foi uma tarde intensa para todos, ao nível do magnetismo do Mundo do "génio-Líder" da Arkestra. Sun Ra. 




Texto de João Ribeiro

Créditos das fotografias: José Frade




sábado, 18 de Outubro de 2014

DE E POR: OCTOBER HORSE - "Conduct" (2014, Ed. Autor)

"Conduct" é o primeiro trabalho dos October Horse, quarteto da Maia
pós-qualquer coisa/pós-tudo onde os instrumentais bem tecidos imperam e beber inspiração divina a vários géneros e figuras não é coisa dos livros, nem dos menos ortodoxos. 

Inspirados no Império Romano para o nome da banda e progredindo, extrapolando-o para histórias à moda antiga tendencialmente instrumentais, com mais ou menos moral, os quatro músicos contam mais sobre as seis faixas deste EP de estreia que, como já vem sido hábito, é mais um resultado de uma campanha de crowdfunding bem sucedida de quem, noutras alturas com menos espaços de ensaio, menos acidentes de percurso fortuitos e menos condições de mostrar o seu trabalho, ficaria preso na rede em vez de fazer tão somente parte dela.





Atlas 

Fala sobre o titã condenado a carregar o céu aos ombros e faz um paralelo entre o Homem que carrega aos ombros o flagelo das religiões que ele próprio cria. É o primeiro tema do álbum, que começa calmamente, como uma “cidade a acordar”. 


Cadger

O típico homem dos subúrbios que perdeu toda a fortuna (referência também à Deusa Fortuna, deusa romana da sorte) do dia para a noite e agora contempla as ruas vestindo outra pele, estando agora na outra margem da sociedade. Funciona como "single" da banda e é o tema para o qual foi realizado o "videoclip" de estreia.





Waving 

Inicialmente “Waving Man” (nome alterado para manter todas as faixas do álbum com apenas uma palavra), fala sobre uma história fictícia onde os homem pregam crenças de fim do mundo tendo legiões de seguidores, havendo no entanto quem as considere disparatadas e dogmáticas, limitando-se a acenar "adeus" enquanto supostamente o Mundo rui e o céu lhes desaba na cabeça. 


Clink

Inspirada na história de Charles Bronson, nome fictício do “condenado Britânico mais violento de sempre” que está preso há 34 anos tendo passado 30 anos em confinamento solitário, sem nunca ter morto ninguém, sendo apenas acusado de inadaptabilidade social. A letra é narrada sob a perspectiva do prisioneiro, tentando fazer ver a quem a lê, como seria estar do seu lado e na sua pele. É o tema mais “pesado” do álbum e tem participação de Cláudio da Silva, vocalista dos Engaging The Dead.



Zenith 

A faixa maior do álbum é também a menos pesada. Inspirada no tema inicial da “Sagração da Primavera” de Igor Stravinsky, uma peça que modificou completamente toda a música erudita do século XX. Tem duas partes e um ponto alto, um zénite, como indica o título. A primeira parte fala sobre o lutar pelo desejo de que as memórias boas vençam e perdurem e, após esse pico e concretização, vem a segunda parte, o vazio, o sentimento de que tudo acabou e a contemplação solitária da passagem do tempo.


Andromeda

Retrata a vaidade como o grande pecado da humanidade. Conta a história da Princesa Andrómeda, condenada a ser acorrentada às rochas em maré baixa e morrer afogada com a subida da maré pelo Deus dos Mares, insultado pela vaidade da princesa ao
proclamar-se mais bela que as filhas deste. Retrata também aspectos mais pessoais da banda e do percurso que fez até ao momento. Foi o primeira tema a ser composto, com o "riff" inicial a alternar sucessivamente entre compassos diferentes.





terça-feira, 14 de Outubro de 2014

M.A.U. - "Safari Entrepreneur" (2014, Ed. Autor)




10 anos depois do começo na Dinamarca e com uma nova formação, os M.A.U. chegam ao seu terceiro álbum com "Safari Entrepreneur" que se compõe com um total de 12 canções e várias colaborações que vão de encontro ao que tem suscitado que se tenha, curiosamente ou não, falado tanto do seu trabalho nos últimos meses: recriações e remisturas de canções que nos dão a descobrir novos pontos de vista de temas mais conhecidos e mesmo alguns novos nomes a ter debaixo de olho. Não deixa de ser estranho e, sobretudo, assustador para novos músicos e produtores que tantos tenham desistido aparentemente dos M.A.U. ou que tenham memória de peixe ao ponto de ser necessário que surja o próprio grupo como "editora" deste disco. Ainda para mais quando a maturidade, feita de coisas boas e coisas más, é tal que as exigências e os oráculos estão de tal forma descompassados que conseguimos ganhar todo o tempo para ouvir uma banda.





Apesar de o colectivo relacionar o conceito do álbum com o misocentrismo criativo e de convivência civilizacional em favor do androcentrismo - o que sente ao longo do disco quando cada tema ressuscita emocionalmente todo o trabalho ou uma minúscula parte dele - , "Safari Entrepreneur" é, musicalmente, o trabalho em que os M.A.U. reflectem de uma forma mais urgente uma vontade de integrar e percorrer todas as pequenas variações da pop electrónica. Onde o pequeno pitch daqueles coros, o silêncio humanóide após os beats mais cáusticos e o encadeamento dos sintetizadores mais chillwave ou mais dreamy, seja pelas beiras do classicismo dos A-Ha ou Human League, seja pelo toque de modernidade e de acolhimento de M83, Junior Boys ou Fischerspooner, se encontram e convergem na percepção de uma possível história. Uma preocupação, no final, mais direccionada para as canções e nem tanto para a reinterpretação de esquissos das fronteiras musicais, por maior trampolim que tenha sido imediatamente antes (e certamente não se esquece que o foi) entre a conjugação de pet peeves a gordas assumpções de África a vaguear pela tentadora "Dance Safari", pela retumbante "Children Playing Adults", pelo excelente candidato a single "Off To Berlin" e por "Safari Entrepreneur (part I e part II)".    






Se a estreia dos Sensible Soccers é o disco que me permite acreditar que vale a pena seguir uma banda ao ponto de poder encontrar-me com uma possível desilusão, o regresso dos M.A.U. é o disco que pode reconciliar qualquer um com o grau de seguidismo necessário, por um lado, e com a qualidade diversificada que nem todos os discos de um determinado género atingem, por outro. Em qualquer franja do Globo.
André Gomes de Abreu 





sábado, 11 de Outubro de 2014

AINDA TENS QUE OUVIR #11: AMAMOS DUVALL - "Amamos Duvall - I & II" (2012, FlorCaveira)




Ao que parece foi (quase) tudo feito em casa, com secções sampladas e muito "corte e costura". Será uma catarse descomprometida de Tiago Cavaco, o artista anteriormente conhecido por Tiago Guillul. Uma experimentação em que a expressão artística se sobrepõe à perfeição. A imprevisibilidade e aparente falta de critério é banalizada ao ponto de nos imergirmos nela. É quase pecaminosa, e agarrou-me a este registo, devo dizê-lo. 

A Motown junta-se a Beastie Boys e começa "Amamos (Robert) Duvall": "Atanásio Contra O Mundo" intriga-nos e põe-nos alerta, com uma bateria que vive num mundo à parte e uma voz que nos confunde e mantém em tensão. Entra então em cena a homónima "Amamos Duvall" para nos acalmar e serenar, num beat seguro e poderoso e uma voz que nos dá o outro lado deste disco, o lado alegre e gozão, menos experimental e mais pop"Sirenata", "Os Rapazes Do Pouco Fazem Fogo" e "Homens De Água (Igrejas Cheias Ao Domingo Parte II)" seguem-lhe o rasto, num registo igualmente pop mas mais corrido, a fazer lembrar Os Pontos Negros. São as três músicas mais conservadoras deste disco 1.





"Rãs Nos Aposentos De Reis" começa a abrir horizontes, fazendo a cama para o resto do álbum com uma balada sentida e contida, "Casa Com Vista Para As Trincheiras" é um grito de revolta no meio do sarcasmo. Um loop de metáforas e ironias apocalípticas, seguindo o conceito de "Atanásio..." mas transformando o groove funk num industrial a la Nine Inch Nails, transmitindo a mesma tensão do início ao fim da música. "O Que É Que Se Passa Contigo?" dá-nos outra vez alegria: se ela é “disciplina em forma de motim”, é discutível. Se esta música é um alegre motim seguido por uma guitarra repetitiva e eficaz... na verdade, não é ela o que mais interessa: nesta altura já não sabemos o que fazer, não pensamos em guitarras, pensamos no que virá a seguir. 
E temos razão porque o que vem a seguir é da exclusiva responsabilidade de um infantil sintetizador e uma música apropriada dos 3 aos 99. É nada mais que uma canção. Daquelas que o Zeca fazia tão bem, daquelas em que dá para sentir África. "Miudagem, Como É Que É?", o exemplo do gozo total, do divertimento que Tiago Cavaco retirou deste trabalho e do liricismo descomprometido e cortante que vai pairando aqui e ali (PS: sempre quis ver os adeptos de Itália no Mundial de 2006 numa música).
"Rocha No Coração" é uma mistura de Rancid com música tradicional portuguesa, acabando com um desabafo reggae...creio que a descrição diz tudo.

"Contigo Sou Sempre Agradecido" é um deleite melódico com um loop feio e irritante de fundo.


A primeira parte de "Amamos Duvall" salda-se, assim, como um CD muito fácil de ouvir, difícil de perceber, muito influenciado mas único. Muito pessoal mas aberto ao ouvinte, eloquente, em que o que é para ser ouvido é dito. Importado mas renovado e facilmente exportável com assinatura própria.





Chegamos a este ponto, isto se seguirmos a obra ordeiramente, agradavelmente embalados no desenrolar das músicas,e das diferentes abordagens deste gigante corte e costura com sabor a novo. 
Com "Estás Casado Com O Estado" e "100 Toneladas" somos mais uma vez presenteados com um rock eficaz, de letras irónicas e cortantes e, qual sapo cozido em água morna, nem sentimos a entrada nesta segunda parte. 
"Faz Filhos" não tem muito que se lhe diga: uma ode à natalidade embutida num groove bem construído, de quem sabe o que faz e que hipnotiza do início ao fim. "A Casa Vem Abaixo" e "Xungaria no Céu" soam bem e estão muito bem produzidas, eléctricas e quadradas, mas cheiram a redundância. Contrariando esse aspecto entram em cena e em contraste a "Orquestra De Ladrões" - um fantasma com identidade bem definida, que paira e deixa a sua marca neste registo – e "Alguém Perdeu O Ferrão", hip-hop assente na excelente interpretação de Tiago Cavaco sonoplastificada com pormenores de ouro. 
A seguinte "Também Queres Cantar" é pequena e muito boa canção, sai da fórmula habitual e é um deleite de licks de guitarra e sons reverberantes que acompanham uma melodia muito bem construída. 
Já quase a terminar, "Qual É O Segredo Por Que As Meninas Gritam De Medo?" e "Esquadrão Túlipa" são provavelmente os temas mais inócuos deste trabalho. Não deixando de ser divertidos de ouvir, chegam a ser cansativos.





"Amamos Duvall" acaba feliz. "Canção Para A Sílvia E Para A Fátima" é feliz e "
A Medida Da Felicidade" é uma boa música e pode ser o resumo deste disco. A mestria pop aliada à celebração da resignação perante um qualquer poder superior. Confesso ser imune à mensagem, ou mesmo à sua interpretação. Gosto, isso sim, da construção musical por trás dela. Das melhores deste segundo CD.

Um trabalho com muito bons apontamentos, sujeito às limitações assentes nas fundações em que foi construído, e que peca por alguma excessiva repetição de conceitos. No entanto sentem-se, entre várias nuances, dois registos principais. Um, descomprometido e jocoso, em que o divertimento vincado na criação passa para o ouvinte, e em que a enorme mestria da composição vem de quem sabe cativar e bem tratar o ouvido. Outro, um registo mais intimista e complexo e, a meu ver, aquele que dá a verdadeira cor a Amamos Duvall.


A apropriação da xungaria é coisa séria, e não é para todos, dizem. 8,5/10


Hugo Hugon




quinta-feira, 9 de Outubro de 2014

DE E POR: THE RISING SUN EXPERIENCE - "Beyond The Oblivious Abyss" (2014, World In Sound)

A contemporaneidade não é o seu mantra - antes são o resultado de décadas de consolidação do rock e há algum tempo passaram por cá em entrevista; entretanto, Tiago Jónatas e os The Rising Sun Experience lançaram digitalmente no ano passado um nova orgia espacio-ambiental altamente hard-rockiana e psicadélica de título "Beyond The Oblivious Abyss" que tem tido eco por todo o Mundo.
A não menos importante chegada, pela alemã World In Sound, do disco aos formatos físicos, CD e vinil, e a (curta) passagem pelo palco de estreia do Reverence Valada servem de propósito para um peditório de conhecimento e sabedoria sobre este disco de um dos rostos importantes do psicadelismo em Portugal antes da aparente "moda" internacional.





Countries Off...

A letra é inspirada numa palestra que o vocalista Nelson Dias assistiu do Miguel Portas sobre Crise Mundial.
É um tema com bastante percussão e é unânime a todos que ficou uma boa mistura de funk-rock com prog-rock :)
A secção mais ambiental/experimental perto do final do tema foi conseguida apenas com os harmónicos produzidos ao dedilhar por detrás do braço da guitarra em simultâneo com a manipulação do RE-201 Space Echo, um delay de fita analógico dos anos 70 agora máquina de culto.
Esta ideia surgiu ao Tiago Jónatas quando produzia e criava o ambiente sonoro para o vídeo "Aporos" da artista Miriam Sampaio.


The Integrity

Tema hard-rock mais "zeppelinesco".
A inspiração da letra surgiu das muitas conversas telefónicas que o Nelson teve com o Tiago sobre a forma como hoje em dia se comercializa e se expõem os trabalhos artísticos perante a sociedade. Bem como o facto de muita gente envolvida nestes processos (criativos e não só) não ter noção que nem sempre o caminho da indústria fácil é o mais íntegro e respeitável.
Foi o primeiro tema a ser retirado para divulgação deste novo disco e o primeiro a ter "videoclip" produzido pela Storylines.





Infinite Space Of A Man Without Character

Este tema aponta o dedo a um ser humano completamente vazio de valores e ideais e que vive das aparências.
Esta música nasce como reacção à duração dos outros temas da banda. Todos os temas estavam a sair extensos com 7, 8 minutos e o Tiago propôs-se a fazer um tema curto de 1'; saiu este com 1'30",  um "rock" enérgico até um pouco para o "punk" com uma parte central de inspiração progressivo-psicadélica. Dois géneros que nos anos 70 chegaram a ser antagónicos, porque o "punk" em 77, como sabemos, veio "matar" o "rock" progressivo, como género "popular".





Sailing On The Corner Of Dante's Eye

Último tema a ser composto para o álbum
Inspirado no "rock" progressivo e sinfónico dos anos 70.

É a nossa primeira música em que usamos sons de mellotron.
A letra é baseada numa reportagem que o Nelson leu numa revista sobre o tráfico de seres humanos para diversos fins, na maioria das vezes sem retorno.


Wasted Dreams Of Red Flowers

É uma "suite" composta por 5 secções musicais.
É um tema que fala de um rapaz que vive a vida num labirinto, com altos e baixos, aparentemente como toda a gente, mas um rapaz insatisfeito que quando vai abaixo vai muito fundo e quase sempre parece de lá não sair…depois volta à luz…depois retorna à escuridão e não sai desses dois estados.
Tem sonhos... difícil é vivê-los.
Neste tema usámos sintetizadores analógicos como o Moog e o Prophet, inspirado nos sons das antigas bandas de "rock" progressivo.




quarta-feira, 8 de Outubro de 2014

VIRCATOR - "Vircator" (2014, Ed. Autor)




Muitas vezes somos confrontados com o aparecimento de bandas que prometem imprimir a sua marca e não deixar ninguém indiferente mas revelam-se, por este ou aquele motivo, autênticas desilusões. Isto não significa que a vontade não estivesse lá mas, pura e simplesmente, as coisas não correram como previsto, acabando a banda por cair no esquecimento. Depois existem coletivos como os Vircator. Oriundos de Viana do Castelo e formados em 2012, são compostos por Pedro Cunha (guitarra/voz), Paulo Norinha (bateria), Pedro Carvalho (guitarra) e Marcelo Peixoto (baixo) e prometem agitar o panorama musical underground português e, quiçá, com um bom suporte conseguirão trilhar os caminhos do sucesso fora de portas. 




A estreia da banda consumou-se com a edição do EP homónimo que resulta de algumas sessões gravadas pelo grupo nos Estúdios Sá da Bandeira, no Porto. Praticantes de um post-rock refinado, este é um registo bastante competente e que não deve nada em termos de qualidade ou destreza técnica a qualquer outro álbum do género. “Dysnomia”, no princípio, é uma faixa muito bem produzida, com bonitas melodias de guitarra e uma secção rítmica bem entrosada e consistente, terminando de uma forma distinta conferindo à faixa uma dose de variedade sempre bem-vinda. Soturna e melancólica, “Mindless Order” é a música que se segue. Num ritmo sempre lento, as melodias sobressaem ainda mais com um baixo bem vincado e uma bateria sempre presente. A meio da música surge a voz, embora com parcas palavras e de forma limpa, enquadrando-se na perfeição no ambiente criado pelos restantes instrumentos.
Passando para “Moneghetti”, um tema instrumental mais direto mas nem por isso menos melódico com algumas incursões um pouco diferentes que apimentam a coisa, chegámos então ao final do disco com “Izbat River”, o single de avanço de "Vircator" que impacta por um crescendo entre teclas, bateria e guitarra e, no seu todo, revela-se um como um verdadeiro diálogo entre as teclas e a guitarra naquele que é o tema mais psicadélico e progressivo do disco. 






Vircator é sem sombras de dúvida uma excelente estreia de uma banda que demonstra facilidade em criar boa música. É certo que este é apenas o EP de estreia mas não é difícil perceber que o potencial aqui demonstrado é um bom prenúncio para os próximos capítulos.

Hugo Gonçalves




terça-feira, 7 de Outubro de 2014

BLAC KOYOTE - "Quiet Ensemble" "(2014, PAD)




"Quiet Ensemble" é o nome do segundo registo de José Alberto Gomes enquanto Blac Koyote na editora PAD. Um álbum que tanto explora o silêncio como o detalhe sonoro, apelando a uma multitude de horizontes longίnquos e vagos, ora negros, ora perdidos por detrás de um véu de uma nuvem com (im)perfeições azuis.




Por entre a música mais fúnebre de temas como "Hello World" e "Rancor", originalmente criado por RA (Ricardo Remédio), intercalam-se três temas mais planantes, mais minuciosos, onde o detalhe se torna música: "L’Arbre Des Songes" e "Put Me In Loop Please"/"Antes Era Assim". O encerramento é feito depois com a trilogia "Ínsua Triptych" (Theme, Home, Leaving), onde o diálogo com RA permanece, retomando-lhe sonoridades, impingindo-lhes um ar mais introspetivo e mais leve na negrura. No fundo, é talvez nesses três temas que a escolha entre o negro e o planante é a menos evidente - esses dois elementos mesclando-se como nunca o tinham sido até agora. 





Ouvir "Quiet Ensemble" é um exercίcio de estilo que nem todos poderão entender: o experimentalismo, o misto de influências musicais do autor e a pesquisa de sonoridades alternativas não sendo sempre muito apelativas quando se escuta em casa. Posta essa suposta falta de empenho do auditor de lado, que pode achar estranha a importância do silêncio e das sonoridades quase inaudίveis no processo de criação musical, há aqui todos os elementos para viajar não só metaforicamente como também musicalmente: um disco que nos permite conhecer/descobrir tonalidades e percursos sonoros a priori distantes que aqui vão aparecendo e desaparecendo ao longo do registo. Ao vivo, imagina-se que é daqueles álbuns que ganha outra dimensão, com acompanhamento visual.

Escura, distorcida, silenciosa, aérea, apaziguadora, angustiante: José Alberto Gomes consegue criar no auditor uma confusão de sentimentos, através da sua música, que o deixam sem qualquer palavra. Há peças que se ouvem e que são difίceis de descrever. "Quiet Ensemble" é uma dessas, entre o negro, o tempo suspenso, e o silêncio, juntos.

Mickaël C. de Oliveira




quinta-feira, 2 de Outubro de 2014

MIKE BEK - Entrevista

É sempre perigoso, e mentiroso, afirmarmos que nada temos a aprender com o exterior. Mas se há coisa que devemos evitar é que o exterior nos ensine algo que nos possa passar debaixo do nariz: ou fomos suficientemente maltratados antes para não prestarmos atenção, ou somos simplesmente seguidores e não estamos onde devíamos estar.
O jovem João Máximo aka Mike Bek é um destes casos, em nome próprio ou nos não menos talentosos affairs laterais como os Naked Affair. Depois de um primeiro EP, "Sleepless Nights", "Legacy" é o novo trabalho que conta com a colaboração de outros dois talentos, o de Tio Rex e o de emmy Curl, e aproxima de forma muito eficaz tudo o que a electrónica, a folk e o blues terão em comum.
À nova etapa em nome pessoal junta-se já neste mês inteiro a jornada de celebração de 3 anos da editora de sangue, a Extended Records.
A propósito, lembram-se de agir e não reagir, de atentar e não perguntar? Serve para todos, para quem selecciona e edita e para quem assina pela criatividade. 






BandCom (BC): Foi pela vertente mais electrónica que começaste a criar música? Quando é que percebes que consegues criar algo que te realiza e que passa a ser importante para ti?

Mike Bek (MB): Antes de começar a compor já era DJ de música electrónica, por isso quando surgiu a vontade de começar a compor as minhas próprias músicas a electrónica foi o caminho óbvio. Eu diria que compor é sempre um entusiasmo pois há sempre elementos e técnicas novas a explorar. É a vontade deixar a tua marca, de fazeres as coisas à tua maneira e de participares no mundo da música.


BC: Na actualidade e na tua opinião, é mais interessante/estimulante/relevante, como ouvinte, dar um novo groove electrónico a um blues ou a um rock mais estilizado ou continuar a debater ou explorar as fronteiras de um género musical específico?

MB: Eu diria que nos dias de hoje em que há uma fácil globalização da música, explorar novas fronteiras de géneros específicos pode ser difícil e por vezes pouco interessante. Acho que é mais interessante pegar em géneros de música intemporais e modernizá-los, dar-lhes timbres novos, aplicar técnicas de outros géneros e obter um resultado diferente. 


BC: Do “Sleepless Nights” ao “Legacy”, as diferenças são substanciais. Muito mais à procura do orgânico e um foco menor no bass n’ beats. É pelo caminho de fusão, de encontros entre géneros menos próximos, que pretendes seguir e criar a tua própria identidade?

MB: Diria que sim. É bom ver que as pessoas notam as diferenças. E sem dúvida que o caminho que pretendo seguir é esse mesmo. Mas nunca se sabe.


BC: No “Legacy” contas com as colaborações do Tio Rex e da emmy Curl que também já têm experiência em integrar-se na música de outros autores que pode ser radicalmente diferente do que fazem. Mas também te vemos regularmente com a influência e ajuda de outros amigos, também eles músicos. Em que pensaste e com que critérios/intenções seleccionaste quem convidaste especialmente para este novo trabalho?

MB: Primeiro comecei por trabalhar com o produtor Bruno Mota com quem já tinha trabalhado para o "Sleepless Nights EP" e juntos idealizámos o "Legacy".
Para a "Carve Your Mark" pensámos no Tio Rex porque para além de o ter conhecido na altura do lançamento do "Sleepless Nights" achámos que seu registo de voz seria ideal para dar uma voz com influência blues e folk. Foi óptimo trabalhar com ele, para além de uma grande empatia, senti que ele deu voz exactamente à mensagem que queria transmitir.
Com a emmy Curl não foi diferente. Eu já conhecia o trabalho dela e sempre pensei numa colaboração. Tal foi possível com a "Night Trains" e o resultado foi ainda melhor do que esperava.






BC: Novo Talento FNAC 2014 e já com convites para alguns conceitos diferentes como o Jameson Beatzmarket ou capítulo II do Red Bull Silent Garden há um ano atrás. Tudo isto é a prova de que a música do Mike Bek está a penetrar nos públicos-alvo pretendidos, a chegar a quem tem que chegar?

MB: Sim, estou agora a começar a chegar ao meu público-alvo mas acho que ainda falta bastante.


BC: Como produtor e já com experiência a remisturar outros temas e outros artistas, que prazer retiras desta parte do teu trabalho? Em que temas gostas de pegar? Ajuda-te também a desenvolver a tua criação?

MB: Normalmente gosto de pegar em músicas das quais já gosto mas imagino uma abordagem diferente ou pequenos caminhos diferentes. De vez em quando gosto de remisturar músicas porque obriga-me a trabalhar mais com áudios, com edição e a dar outro propósito à música original. 


BC: Foste um dos que chegou à fase final de um concurso de DJs promovido pelo Musicbox. Quando boa parte da música que se ouve tem a assinatura de novos produtores, que características têm que ter os melhores para que a sua música sobressaia e seja mais fácil distinguir o trigo do joio, o que tem alma do que tem apenas técnica de botões e cabos? 

MB: Eu diria que não é algo muito fácil de explicar porque tudo tem a ver com o propósito da música e da sua vibe. Já ouvi músicas muito baseadas em loops e serem bastante interessantes como já ouvi temas pop idealizados até ao pormenor que acabaram por não ter interesse. Mas diria que a maior taxa de sucesso está nos produtores que sabem o que querem alcançar.


BC: Notas alguma maior ou menor receptividade quando estás atrás da mesa de mistura exclusivamente como DJ do que quando estás à frente do palco em formato live?

MB: Ao contrário do que estava à espera sinto uma muito maior receptividade quando toco em formato live. Estava à espera do contrário porque ao vivo toco o que produzo, independentemente do público, ou seja é algo que faço para meu próprio usufruto.


BC: Ao contrário de alguns produtores, optaste por editar e associar-te a uma editora, a Extended Records, que se estreou também contigo nos lançamentos com o “Sleepless Nights”. Qual é a sensação de lançar o disco #1 de uma editora? A teu ver, qual o papel actual e futuro da Extended Records na cena nacional e internacional?

MB: A Extended convidou-me a pertencer ao seu leque de artistas antes sequer de ser uma editora. Eu mostrei o meu EP, ainda em construção e desde logo houve interesse em lançar. Eu diria que desde o primeiro lançamento há uma vontade por parte da Extended em lançar música não só a nível nacional mas também internacional, prova disso é a maior parte dos lançamentos estarem em praticamente em todas as lojas online.





BC: Quais os próximos passos do legado do Mike Bek? Aonde acreditas que podes chegar?

MB: Por muito cliché que pareça ainda há muito para fazer e muito para alcançar.
É esperar para ver.



André Gomes de Abreu




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