sábado, 14 de março de 2015

CINEMUERTE - "DHIST" (2014, raging planet)




No ativo desde 2002, os cinemuerte editaram no final do ano 2014 "DHIST", o primeiro de uma série de 3 EP’s que o grupo liderado por Sophia Vieira tenciona editar até ao final de 2015/inίcio de 2016. 
Composto por 5 músicas, este novo registo acaba por corresponder – em parte - ao que a vocalista tinha prevenido no blogue oficial do grupo: “A malta vai estranhar o disco como quem estranha uma pessoa que não reconhece”. 
À primeira audição, duas ou três "estranhezas" saltam de imediato: 3 dos 5 temas têm uma duração superior a 5 minutos, o que só acontecia nos três álbuns precedentes uma ou duas vezes por disco. A própria capa sugere uma identidade menos relacionada com o gótico ou com o metal e, curiosamente, o mesmo acontece com a voz de Sophia que, ora surge de maneira mais pausada, ora acompanha os refrões mais violentos do EP sem a forçar de um modo excessivo. Nota-se menos a importância dada à demonstração vocal, até porque todos nós já conhecemos o potencial em causa, e reforçou-se a vontade de transmitir sentimentos através dela. 







Mais diversa, a voz de Sophia acaba incrivelmente por nos fazer lembrar vozes tão diferentes como a de Chelsea Wolfe, Gwen Stefani ou Rachel Davies, algo muito menos evidente nos três álbuns anteriores. E o mesmo se pode dizer dos instrumentos que vão aparecendo ao longo do EP: os cinemuerte continuam a ser aquela banda inclassificável com influências tanto na pop como na música eletrónica, no metal e no rock de inspiração mais clássica, indie ou gótica. 

Outra das palavras-chave que assenta por completo a este trabalho é, certamente, a intensidade, ou a maneira com a qual a banda brinca com ela. "Dog", primeiro tema de "DHIST", é talvez uma das melhores criações do colectivo até agora. Um registo de mais de 5 minutos onde a voz de Sophia transporta-nos numa atmosfera sombria, auxiliada por sonoridades angustiantes e riffs elevadores. A seguinte "Heaven's Not Too Far" assemelha-se estruturalmente à penúltima "Shining Shadows In The Sand", com menos de 5 minutos e um inίcio lento que explode no momento do refrão. No intermédio, "I’m Too Much Here Without You" é outro dos pontos em que a beleza da voz se destaca, controlada e sem exageros, sobre uma força latente próxima daquela com que se abrem as portas deste disco. Bouquet final: "The Park", uma balada calma e melódica (curiosamente, o tema mais extenso) em que a bateria e as guitarras impressionam enquanto substituem a fugaz ausência da vocalista.





Se noutros trabalhos transparecia sempre o horizonte escolhido pela banda - ora mais eletrónico, ora mais metal ou rock-friendly -, aqui é-nos completamente impossível falar de uma suposta supremacia de um ou de outro género musical. É talvez nessa mescla e coerência que está mais visível a "estranheza" com que se aborda o resultado final fruto das influências múltiplas da banda e do tempo que passa.
Todavia, é no meio de todas estas personalidades inopinadas que se (re)conhece ainda a identidade dos cinemuerte. Essa é, talvez, a maior vitória da banda com este "DHIST".  


Mickaël C. de Oliveira




terça-feira, 10 de março de 2015

DE E POR: BRUNO CAMILO - "Turvo" (2014, Ed. Autor)

Depois do projecto A Cisma ter ganho asas para avistar outros horizontes, tinha chegado a hora de os seus elementos seguirem o seu caminho. Bruno Camilo, um dos elementos da Nova União das Artes, continuou a compor e a mostrar mais originais, mesmo enquanto os A Cisma ainda estavam no activo, e apresentou no ano passado "Turvo", o seu disco de estreia em modo mais íntimo em que se esforça por evidenciar todas as imperfeições que o fazem ter um poder de distanciamento suficiente para retocar do ponto de vista de quem ouve as suas empreitadas musicais. Ainda assim, a importância das palavras e a sua ligação contínua com instrumentais polido de toque só justificável pelo imenso talento continuam a morar aqui. E decerto, passam para a memória de quem lhes dedica uns minutos de empatia.
Numa altura em que 2015 começa a dar sinais de vida, não deixa de ser hora de chamar um pouco da atenção suficiente para estas 11 canções que Bruno Camilo nos descodifica de seguida.






Prefácio A Um Deus Menor

Foi a música escolhida para abrir o disco, porque a letra composta apenas por seis versos resume, em parte, o cerne e intenção deste álbum sendo dessa forma uma espécie de porta entreaberta para todo o disco.


Era Engano

Durante algum tempo o verso 'a sorte bateu-me á porta mas era engano' vagueou pelos meus cadernos. Quando por fim surgiu esta sequência de acordes comecei a repetir sempre o mesmo verso e achei que seria a melodia perfeita para transmitir da melhor forma aquilo que o verso significa. A partir desse momento apenas fui escrevendo à volta dessa imagem, daí surgir a descrição de uma casa em ruína.


Olhos Nos Olhos Cegos

Esta foi uma das primeiras músicas que escrevi em português. Chegou a ser tocada em concertos de A Cisma e senti que não faria sentido não estar no meu primeiro álbum. Mais uma vez surge a imagem de uma casa em ruína - foi minha intenção que aparecesse a seguir ao tema 'Era Engano' para que funcionasse quase como uma ponte para a música seguinte.


Dilúvio

Sempre senti interesse em que a minha escrita se aproximasse da linguagem corrente das pessoas. Daí a expressão 'podia jurar que te ouvi', verso que inicia a música. É uma expressão que gosto muito. A composição em piano surgiu em paralelo com o resto da letra, daí a melancólica repetição de acordes quase como se estivesse a embalar as palavras. Esta é a quarta música do álbum e, quando o estava a 'desenhar', esta era a única certeza que tinha no alinhamento pois em conjunto fecham um ciclo.


Espelho Partido

Esta foi a música que gravei toda numa noite. A letra tem um sentido de esperança que apenas encontrei quando a terminei. É também uma das músicas que escrevi há mais tempo. Como aconteceu com 'Olhos Nos Olhos Cegos' não faria sentido, para mim, não estar no meu primeiro disco visto este abordar várias fases da minha composição.


Só Guardo O Que Já Perdi

Este é das minhas poucas composições em que a música antecede a palavra. Andava às voltas com este ritmo e melodia há algum tempo. Lembro-me perfeitamente de estar a ouvir a melodia no caminho para casa e apenas surgir a repetição 'no fundo, no fundo'. A partir daí encontrei o sentido que procurava para esta melodia. Retrata o momento em que se abre o peito a outra pessoa mas com a sensação de que quando o fazemos não é a essa pessoa que está a nossa frente que nos dirigimos mas à imagem que temos dela - daí o facto de estar por vezes na terceira pessoa. No final da música ouve-se uma chamada desligada: esse som foi gravado com um telemóvel encostado ao microfone. 


Nesse Cais

Esta é possivelmente a minha primeira composição em piano. Surgiu em 2011 e foi das minhas primeiras gravações amadoras. Retrata um momento real de familiares próximos. É uma composição fotográfica de tudo o que está por trás dos sorrisos nas fotografias.


Resto de Verso

Esta música teve três versões diferentes. Chegou a estar terminada e masterizada. Passados alguns dias voltei a ouvir a música e não sentia qualquer identificação com a melodia, achei que era banal e não queria sentir essa sensação ao escutar qualquer música de 'Turvo'. Falei com o Pedro Madeira (produtor deste disco) e pedi-lhe para regravar a música novamente. Já tinha uma parte desta nova melodia composta e terminei-a em estúdio. Ao ouvi-la comecei a assobiar uma melodia que mais tarde transpus para a melódica. Adaptei os últimos versos enquanto gravava a voz. E o resultado final agradou-me muito mais.


Prece Esquecida

A ideia para esta letra surgiu numa viagem ao Alentejo. Enquanto passeava numa pequena aldeia próxima do Cercal, conhecei uma senhora já idosa que me contou a sua história. Era viúva há cerca de 30 anos e nunca mais amou outro homem. O seu marido suicidou-se muito novo e tinha uma foto dele a sorrir, emoldurada em cima de uma mesa na sala. Essa imagem marcou-me muito, esse sentimento de amor profundo e trágico. Tive nesse momento a consciência que essa era uma realidade recorrente em locais remotos do Alentejo. A letra demonstra uma conversa imaginada por mim entre os dois. Como uma descrição dos seus silêncios num banco de jardim.


Se A Vires Passar

Mais uma vez quis aproximar-me da linguagem corrente das pessoas. Não me consigo recordar da altura mas recordo-me de ouvir numa conversa numa esplanada a expressão 'diz-lhe antes que morri'. Rapidamente toda essa expressão me inspirou e imaginei todo o diálogo entre dois amigos. A letra revela isso mesmo, uma conversa entre dois homens, amigos, onde todo o caos interior é revelado na indecisão. A melodia de piano surgiu naturalmente, pois queria que acompanhasse o ritmo desse diálogo.




Desenho Invernos

Esta música também chegou a ser tocada ao vivo com A Cisma. Sempre gostei muito desta letra e melodia e fazia todo o sentido que estivesse no meu primeiro álbum. Senti alguma dificuldade em torná-la mais simples, porque a composição com A Cisma era mais complexa e dinâmica. Contudo, ao escutá-la em gravações amadoras, achei interessante ser a música a encerrar o disco não só pelo fim melódico como pelos últimos versos, 'ao menos versos, para eu ter onde ficar'. Esta é a simbologia e intenção de todo o disco. Como está escrito no álbum, 'Turvo é a minha verdade, a minha gratidão'. 




TALENTOS PARA A TROCA #3

Para o terceiro tomo de "Talentos Para A Troca" escolhemos 5 grupos, 5 paixões assolapadas que não podemos esconder por muito mais tempo.
É claro que, lá mais para o fim, levamos com uma verrinosa rejeição e chorámos que nem Marias Madalenas abandonadas. Mas enfim, gritamos "resistência" e somos assumidos stalkers das suas novidades.

Porque estes, estes são talentos para a troca: façamo-los maiores e tenhamos a certeza de que mais surgirão. São moedas de troca para um futuro em que haja eco de algo.
E o futuro é já daqui a pouco para os Flamingos, Echo Mountain, Paraguaii, NEVOA e Meia de Leite.


Flamingos



Porquê Flamingos?

(Luís) Fui eu que me lembrei do nome mas já não sei porquê. Acho que estava a pensar em nomes de pássaros e achei Flamingos o mais giro.
(João) É um pássaro elegante e tudo mais, mas nenhum motivo em especial tirando o de precisarmos mesmo de escolher um nome e à ultima hora foi o único em que concordamos.


Como definem a música que produzem?

Podemos dizer que em primeiro lugar que são canções; não é música concreta nem é música de câmara, são canções que fazemos - para além disso, não sabemos, não costumamos definir nada antes de construir. Por isso, as coisas acabam por não ter uma definição muito clara para nós. Muitas vezes acabam por ser as definições das pessoas a clarear-nos algumas ideias. 


Qual é a vossa melhor canção?

(Luís) Pergunta ousada e certeira. Mas, como só temos 3 canções editadas, parece mal responder. Não dá assim tanto trabalho ouvir as 3 canções e decidir, são só 3 (até ver...)!!!
(João) Não me parece justo isso do melhor… mas concordo plenamente com o Luís, oiçam e podem dizer de qual gostam mais!


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

(Luís) Se não fizéssemos música, a parte da comunicação não tinha nada para promover. Nesse sentido, pode dizer-se que a música é mais importante. Mas a comunicação é muito importante e não lhe atribuímos nenhum sentido pejorativo. Temos pessoas a trabalhar connosco que não procuram que sejamos coisas que não somos. Por isso, comunicar e fazer marketing (não sei se é essa a palavra) é só expor-nos como somos e esperar que as pessoas gostem.

(João) Espero que a música, na sua relação com a comunicação que a promove, seja mais importante todos os dias. Acho que o que esta questão propõe é que hoje em dia a qualidade da música parece não importar face à promoção, e de facto acho que isso é uma coisa que existe na música pop. No entanto, concordo que uma vive de mãos dadas com a outra assim como todas as artes vivem, cada vez mais, de mãos dadas com a publicidade dada a quantidade de coisas e consequente necessidade de filtros, etc, etc. Mas sim, eu gostava que “qualidade da música>promoção”.


De que revista não se importariam de estar na capa?

(Luís) Eu adorava ser capa da Bravo mas acho que o Coelho não ia gostar.

(João) Nunca pensei nisso ao ponto de chegar a uma conclusão e sinceramente não me apetece fazer uma busca de mercado sobre boas revistas. Mas qualquer uma dá acho eu.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

(Luís) A Moxila a dançar no Palco Bezaina, no Xispes, em Barcelos.
(João) O que o Luís disse, se bem que a Moxila a dançar no Picadilly também não foi mau. Basicamente apareçam num concerto de Vive Les cônes e aprendam uns 'moves'.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

DJ Youtube.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

(Luís) Tudo menos FLAC.
(João) Qual é o problema do FLAC?
(Luís) Não lê em bué lados!


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

(Luís) Argentina Santos
(João) Não querendo insistir, Kurt Vonnegut.


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

(Luís) Perguntar não ofende.
(João) Sei lá, imagino que uma pergunta pouco informada.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

(Luís)

R. Stevie Moore - Schoolgirl: canção para uma tarde de Primavera na esplanada da FCSH. 
Pega Monstro - Amêndoa Amarga: canção para passear à noite na Morais Soares.
DJ Marfox - Lágrimas e Dor: canção para ouvir no carro, a voltar para Lisboa depois de uma grande festa de passagem de ano.
Alfredo Marceneiro - Senhora do Monte: canção para olhar no infinito.
Lewis - Like to See You Again: canção para um 'date' discreto ao dia de semana.

(João)

Tomba Lobos - Massa com Atum: canção para deprimir sem estragar.
João Nada - Dinheiro Pra Te Pagar: canção para ouvir num concerto de João Nada.
HHY & The Macumbas - Gysin: canção para ouvir em casa a destilar com os amigos depois de uma noite de S. João.
Ariel Pink - Dayzed Inn Daydreams: canção para a vizinhança ouvir.
Idir - A Vava Inouva: canção de embalar para se ouvir antes de ir dormir.



Echo Mountain



Porquê Echo Mountain?

Echo Mountain nasceu de uma junção de 2 palavras: a primeira, de um nome que tínhamos em cima da mesa para a banda que era "Miss Echo", mas descartámos"Miss" rapidamente. Mas Echo queríamos ter no nome. Ao mesmo tempo que se procurava o nome, o Pedro Pinto de Carvalho andava a ouvir um disco do Tomas Hallonsten com mais dois músicos, Johan Bertling & Andreas Werliin, que se chama "Time is a Mountain" e daí o nome, a fusão de Echo e Mountain...


Como definem a música que produzem?

Não somos nós que definimos a nossa música, tanto mais que não procuramos uma estética ou estilo ou o que (se) quiser chamar. Fazemos o que as nossas capacidades e limitações musicais nos permitem fazer sem estar agarrado a este ou aquele ouvinte, preferimos que seja o ouvinte a decidir qual a pasta no seu PC ou na prateleira de casa... não vamos obrigar ninguém a dizer que somos isto porque nós dissemos que o somos.


Qual é a vossa melhor canção?

Não temos propriamente canções, temos uma composição com 23 minutos que decidimos partir em 7 partes para melhor divulgar e com a certeza que não punha em causa o todo...


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

Não fazemos marketing, fazemos música. Não promovemos, divulgamos. Não gostamos de olhar para a música como um produto que se vende e que se esgota passado um curto espaço de tempo...chegar a mais ouvintes sim mas sem técnicas de manipulação ou de imposição.

De que revista não se importariam de estar na capa?

A capa é como o 'zapping': viu, passou. Mas sermos entrevistados para algumas publicações sobre música seria uma honra e um prazer.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Glastonbury.



Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Grooveshark.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Cada um que ouça a musica no formato que lhe for possível ouvir.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

http://www.ghostbox.co.uk .


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Gostam de música?


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

-2 graus de temperatura, 1500 metros de altitude, noite de lua nova e céu limpo a ouvir uma canção de The Advisory Circle.
Duke Ellington - Caravan: estender roupa num dia de sol. 
Steven Wilson - Luminol: Piccadilly Circus em hora de ponta.
Fausto Bordalo Dias - Ao Longo De Um Claro Rio De Água Doce: rua da estação de Vila Real no Outono.
Ibrahim Maalouf - Conspiracy Generation: gare de caminhos-de-ferro de Paris.
Pataniscas e tinto na Senhora da Pena e uma canção de Jeff Buckley.




Paraguaii



Porquê Paraguaii?

O nome é algo que vai identificar o projeto para sempre e por isso mesmo decidimos escolher um nome sem nenhum conceito ou valor pessoal, pois poderia comprometer-nos no futuro. Daí a nossa escolha ser um nome que fosse feliz, sorridente, exótico e ainda imageticamente colorido.


Como definem a música que produzem?

Neste momento encontramo-nos a compor em modo 'random' e o primeiro EP tem 5 músicas. Não nos queremos carimbar com um estilo ou uma definição mais concreta da música que criamos, preferimos que seja o nosso subconsciente a tomar conta da criação e nesse estado entramos numa espécie de 'hipnose criativa'. Sentimos mesmo que é o mais genuíno a fazer.


Qual é a vossa melhor canção?

A melhor 'canção', 'música' ou 'tema' é sempre aquela que nos faz arrepiar aquando da interpretação da mesma. Esse mesmo efeito é o nosso filtro para a escolha dos temas para o EP. Concluindo, no EP não temos propriamente temas favoritos ou 'o melhor tema', fazem todos parte de uma energia temporal que foi o momento de criação.


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

A música sem dúvida que é muito importante, infelizmente hoje em dia a comunicação é tão efémera que temos de alimentar diariamente o fluxo dessa mesma comunicação. São ambas as partes importantes, diríamos até 50/50, não há uma sem a outra. 


De que revista não se importariam de estar na capa?

Tirando as revistas 'cor de rosa' queremos estar em todas as capas. 


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Não há uma sem três :)


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Preferimos não responder a essa questão. Isso implicaria discutir outros assuntos que dizem respeito a indústria musical e da forma como ela está a ser encaminhada. 


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Para ouvir música, vinil sempre. 


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Cinema: Vincent Gallo 
Música: Frank Zappa 
Literatura: Aldous Huxley 
Artista Plástico: Jean Michel Basquiat


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Não temos propriamente alguma questão que nos faça irritar. Nós meditamos muito e não conseguimos ficar irritados :)


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

Warpaint: para fazer amor.
LCD Soundsystem: para festas com amigos.  
Velvet Underground: para adormecer.
Yo La Tengo: para tomar café com alguém.
DARKSIDE: para limpar a casa. 




NEVOA



Porquê NEVOA?

Desde o início que decidimos que queríamos um nome simples e em português. Achamos que em inglês todos os nomes que nos poderiam interessar já estão usados. NEVOA surgiu espontaneamente e consideramos que se adapta perfeitamente à música que fazemos.


Como definem a música que produzem?

Orgânica, extrema, de alguma forma épica, obscura, mas ao mesmo tempo bela.


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

Para nós, a música é o essencial. É e deve continuar a ser. No entanto, hoje em dia o marketing é mais importante que nunca.


De que revista não se importariam de estar na capa?

Actualmente não nos identificamos com nenhuma revista de música.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Primavera Sound.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?
 
Nenhum dos três.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

WAV e vinil.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Para quem gostar do nosso género de música sugerimos o álbum de estreia de Earth and Pillars e o 'III I' de Darkspace.

(Nuno)

Lawrence English - Wilderness Of Mirrors
Lau Nau - Nuukuu
Enslaved - RIITIIR
Ulver - Messe I.X-VI.X 
Wardruna - Runaljod-Yggdrasil

Livro: "Name of the Wind" do Patrick Rothfuss
Filme: “Solitaire” das Sweetgrass Productions

(João)

Ultimamente tenho ouvido muito o novo álbum de Run the Jewels, que recomendo vivamente. No que toca a cinema, ainda estou pasmado com a qualidade do 'Interstellar' e da sua banda-sonora.  



Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Essa música tem solo?


5 canções para 5 cenários/situações diferentes.

(João)
 
Alcest - Summer's Glory: quando está sol e não tenho literalmente nada para fazer.

Deafheaven - The Pecan Tree: quando quero ficar bem disposto.
Future Islands - Balance: quando quero comemorar alguma coisa.
Nothing - Bent Nail: quando estou sem paciência.
Les Discrets - Une Matinée D'Hiver: para qualquer viagem.

(Nuno)
 
This Town Needs Guns - 
Cat Fantastic: para ouvir no Verão.
Katatonia - Unfurl: para um passeio à noite.
Agalloch: Not Unlike The Waves: para uma manhã de Inverno.
The Gaslamp Killer - Nissim: prá festa.
Wardruna - NaudiR:
quando está um frio de rachar.




Meia de Leite



Porquê Meia de Leite?

Porque Deus assim o quis e nós não questionamos Deus, nunca.


Como definem a música que produzem?

Uma junção entre lilás, excrementos e muita droga.



Qual é a vossa melhor canção?

Temos orgulho em fazer temas péssimos, dentro desse registo são todas muito boas.
Mas 'prontos', a 'Dama da Coluna' vai ser sempre uma muito especial. O melhor é mesmo aparecerem nos concertos.



Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

Antes pelo contrário, o mais importante é mesmo promover e fazer vídeos giros.
É isso que nos atrai, a música está em terceiro plano.



De que revista não se importariam de estar na capa?

Todas, em especial as que são lidas na casa de banho com um carinho especial pela Maria.



Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

Questionamos sobre isso todos os dias, a própria música que fazemos tenta responder a essa questão, a nossa alma está angustiada.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Sim.



MP3, FLAC, WAV ou vinil?

 .


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Jesus K and the Sick Sick Sicks, Vicente/Marjamaki, Techno Widow, D.R. Sax, Putas Bêbadas, Miguel Torga, Nirvana, Madabaya...



Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Pá aqui há uns tempos fizeram-nos a seguinte pergunta 'MP3, FLAC, WAV ou vinil?'
Foi muito irritante.



5 canções para 5 cenários/situações diferentes?

Os Patinhos: remonta muito àquela situação em que chegas a casa da 'night' e desmaias na banheira.
Machadinha: é muito aquela situação em que assim do nada te encontras numa relação lésbica com uma gorda.
O Jardim da Celeste: é óptima para quando aquela tua namorada mais boa te dá permissão para lhe ires ao ânus.
O Meu Chapéu Tem Três Bicos: para aquela situação em que o balão do João sobe no ar sem parar.
Meia de Leite - Chocolate:
 aquela situação em que a existência te cai sobre o espírito e tens desejos de abrir o abdómen para que possas retirar os intestinos com o propósito de os fritar em óleo de palma e ofereceres à tua mãe no Natal.







segunda-feira, 9 de março de 2015

DE E POR: OFFICER DICK - "Gambling Against Myself" (2014, Ed. Autor)

Poucos têm sido ultimamente os tempos em que os Officer Dick mantêm a mesma formação. Olhando para o mais recente EP "Gambling Against Myself", a questão transmuta-se para um mito urbano inexplicável: não só porque é extremamente oportuna e luxuosa em tempos de crise a ideia de apostar contra o próprio destino como também a recuperação da melhor conjugação entre melodia e agressividade que o punk e o hardcore alguma vez corporizaram é um prazer dos diabos para quem o faz dedicando a 100% memórias perdidas de um estilo musical - alguns dirão mesmo lifestyle - tão tentador para quem ouve.
Dirão que o DIY é um pólo de atracção para quase tudo o que a militância feminina possa ter de bom de ladies dedicadas a groupies fanáticas (aka Dickettes). Fica para quem ouve e lê as próximas linhas o agradecimento pela abordagem despretensiosamente fresca à noção de "fazer tudo com poucos recursos" que tantos já ousaram saber e dizer que sabiam/sabem/souberam alguma vez. E que as estatísticas não sejam despojos da infelicidade alheia.






Officer Dick Programs A Radio Party

Uma junção de 'clips' de rádio e televisão para dar a impressão de que este EP é extremamente conceptual e não apenas uma junção de todas as músicas que tínhamos composto. Reza a lenda que todos os 'clips' foram gravados pelo JAntónio numa fatídica noite de Abril em que ele decidiu entrar armado nos estúdios da Cidade FM.


Never Alone

Esta música já estava feita há muito tempo: como não tínhamos letra e não tivemos paciência nem tempo para encaixar nada antes de começar a dar concertos, decidimos deixar como um instrumental.
Porque é que se chama assim? Porque o nosso antigo vocalista tinha escrito uma letra para a mesma com esse título. Antes de gravarmos o EP, esse mesmo vocalista desapareceu do mapa e nunca mais o vimos. Fontes próximas dele disseram-nos qualquer coisa sobre uma viagem espiritual, mulheres peludas e 'bondage' japonês mas o que interessa é que a música ficou sem letra porque nenhum dos restantes membros da banda a conseguia cantar enquanto tocava o seu instrumento (não esse instrumento seus marotos hehehe). 


Angry Puppet 


A ideia nesta música era misturar 'ska' com uma sonoridade pesada. Tentámos misturar 'blast beats' com 'riffs' de 'rock' e estruturas pouco convencionais numa música sobre marionetas. Na ponte, ouvidos mais atentos poderão descobrir uma guitarra a fazer ritmo de 'ska' por detrás de toda a barulheira.


Make 'Em Crawl

Antes este som chamava-se 'Mind Control' mas depois fartámo-nos e achámos que faltava alguma coisa. Como eu [JAntonio] tinha comprado um chocalho e não sabia para o que é que o devia usar, o Isidro encarregou-se disso e depois pôs a segunda parte.

Era uma música com uma letra diferente e um inglês digno do Zezé Camarinha. Já não me lembro [André Isidro] do que é que falava a outra letra, mas esta é aquela típica crítica aos ricos e corruptos que tantos 'brofists' nos 'shows' de 'hardcore' e tantas carícias das Dickettes nos valeu.



Caesar

Caesar é uma pessoa. Ele só ouvia U2, Nickelback e as compilações 'NOW' até 2007 mas depois descobriu os Arctic Monkeys e com essa descoberta veio a mania que conhecia toda a música do Universo. E não me vou alongar [André Isidro] mais nas descrições porque tudo o resto é dito na música. Quanto ao instrumental em si foi todo meticulosamente copiado de uma 'demo' extremamente obscura dos Dead Kennedys conseguida pelos meus pais quando assistiam ao programa da Oprah em que o Jello Biafra enfrentou a Tipper Gore. A minha mãe no meu 12º aniversário entregou-me essa 'demo' juntamente com o Tony Hawk Pro Skater e daí surgiu a minha paixão pelo 'punk', bem como o nome da banda.

A segunda parte desta música foi feita num ensaio em minha casa [JAntonio] em que o baixista antigo se baldou. Apesar de ser das músicas que gosto menos é das que mais curto tocar porque nos concertos dá para inventar sempre e toco sempre a segunda parte de maneira diferente eheh.


Because

Fala sobre a falta de originalidade. Depois de acabarmos a música descobrimos que o seu 'riff' principal é igual ao da 'Loose Nut' dos Black Flag. Há quem considere isso hipócrita. Nós consideramos uma cena muito 'meta'.

Esta é a minha música favorita [JAntónio] e acho que com outra produção ainda ficava melhor. É super simples, agressiva e resulta sempre bem ao vivo.


Officer Dick Turns The Radio Off

Não sei [André Isidro] como é que o JAntónio conseguiu estar tanto tempo a gravar nos estúdios da Cidade FM e, depois de ter visto a pen USB ensaguentada que ele me entregou com os clips, prefiro nem perguntar.




quinta-feira, 5 de março de 2015

XINOBI - ENTREVISTA

Não haverá melhor lugar para XINOBI se inserir do que na cena electrónica portuguesa que está cada vez mais exportável. E não haverá, a julgar pelo Verão passado, pedestal mais honroso do que o sucesso da personalidade dos Vicious Five como nota de que sem eles haveria toda uma década musical que não teria sido a mesma em Portugal.
Agora é Tio Patinhas de tudo o que se quiser derivar da palavra "festa", pai de remisturas de temas de gente tão diversificada como John Grant, Toro Y Moi, Nicolas Jaar e, bem recentemente, Redshoes, Bruno Cardoso tem um passado rico em vivências que não riscam histórias para se substituir à interpretação das suas memórias, ao que agora vê como a direcção certa de uma encruzilhada profissional, pessoal, melómana, constante.
"1975" está para XINOBI como o recente "Voyager" está para Mirror People: cada um deles, um primeiro capítulo altamente mastigado por novos formatos e ideias para divulgar criatividade vítima do abraço em tempo útil da divisão portuguesa da Universal Music.
Eis a auto-exploração de um protagonista táctico nas próximas linhas.






BandCom (BC): O título do teu disco, “1975”, remete para o ano em que os teus pais regressaram de Moçambique e foram viver para Trás-os-Montes. Afirmaste, numa entrevista ao Público, que algumas fotografias deles nessa altura fizeram-te lembrar uma série de filmes com a mesma estética. Como explicas que por exemplo o cinema português, como também o teu disco, nutram uma atenção tão particular a esse período da história? Que lembranças tens hoje dos tempos que passaste no norte de Portugal?

XINOBI: Este período da História de Portugal é fértil para qualquer cineasta ou escritor. É suficiente recente para cimentar com factos um documentário sólido. Para a Ficção torna-se fácil moldar uma história familiar ou um romance – que tenha como base memórias de inúmeras pessoas, pois embora tenhamos 40 anos passados sobre 1975, não houve ainda um salto geracional suficiente amplo para diluir memórias e enredos.
Eu nunca vivi realmente no Norte. Nasci na ressaca do “retorno” das colónias e acabei por vir viver para Lisboa antes de completar 1 ano de vida. Mas em puto fiz muitas férias e passeios no Norte, pelas terras dos meus avós. Os meus pais quando chegaram, nascidos em Moçambique, não pertenciam a lado nenhum. Naturalmente acabaram por pertencer ao êxodo dos muitos que partiram rumo às cidades em busca de trabalho e estabilidade. A minha infância está cheia de momentos com referências a esta transição – o antes e pós 25 de Abril: pessoas a falar sobre o assunto; discussões animadas sobre política sobre o que era bom e já não é, sobre o que era mau e agora vai ser melhor; sobre expectativas. A televisão, a rádio, etc.
Consigo perfeitamente pintar a conjuntura dos anos antes de eu nascer, podia ilustrá-la em escrita, por exemplo. Acabei por referir-me a ela musicalmente - no entanto, neste álbum não procurei, de todo, fazer um retrato do ano de 1975.



BC: Quais seriam, neste teu disco, as tonalidades que mais te fazem lembrar esses tempos?

XINOBI: Principalmente as tonalidades que geram momentos mais contemplativos. Por exemplo, eu não considero este álbum como uma obra nostálgica, de todo - mesmo sabendo que tenho nele elementos que remetam para a nostalgia, como a letra da "Mom and Dad" ou alguns dos momentos mais melancólicos. Diria que associo mais as três primeiras músicas a “esses tempos”, principalmente o ambiente que podem ouvir em “Polana” que, creio, é também o meu tema favorito.


BC: Noutra entrevista, disseste que não conseguias “ver música desprovida de raízes”. Quais são, para ti, as “raízes” da tua música?

XINOBI: As raízes da minha música são tão dispersas quanto o minha procura incessante por música que não conheço. Sou muito adepto de absorver o que me é novo e agregar rapidamente ao que faço. Mas, para ser simples, posso afirmar que as raízes centrais da minha música se encontram no disco e no house, nas bandas-sonoras dos meus filmes favoritos, no rock e na Jamaica. Pelo meio está o meu sangue latino e luso, mas esse é-me intrínseco – não é a raiz da minha música, mas completa-a.


BC: Conta-nos um pouco mais sobre a escolha dos singles deste trabalho e da sua ligação com os videoclips criados.

XINOBI: Honestamente, para singles escolhi, ou ando a escolher, os temas que são mais canção e que fogem um pouco ao enredo mais abstracto de alguns dos instrumentais. É uma escolha clássica contundente com a “norma” da indústria da música. Não me chateio nada com isso, pois não fiz nenhum dos singles com o objectivo de o serem. Deixei os videoclips um pouco na mão de outras pessoas, ainda que no primeiro para a "Mom and Dad" tenha contribuído com input extenso. No segundo single, "Real Fake", cujo vídeo estreou agora, o meu input foi residual. O realizador Rui Vieira interpretou a música de uma forma que eu não esperaria e eu adorei.


BC: O teu disco poderia servir de banda sonora para um filme. Qual seria o enredo e qual seria o teu papel? A tua experiência com o teatro Praga inspira-te a pensar numa aventura cinematográfica?

XINOBI: Eu sou muito timído para actor. O filme, no entanto, seria a história de um rapaz a lutar para fazer do seu hobby a sua profissão. E sim, seria meio auto-biográfico.
O trabalho que fiz com o Moullinex e com o Teatro Praga para uma re-interpretação d' "A Tempestade" de Shakespeare musicada por Purcell foi talvez a minha maior aventura artística até à altura de lançar o álbum. Tenho a certeza que o input emocional, estético e físico que apreendi aquando do trabalho com o Teatro Praga foram cruciais para alguns momentos do álbum. Eu quero fazer música para filmes, independentemente da proveniência dessa vontade de a fazer.


BC: Um dos teus autores favoritos é o Paul Virilio, pensador, entre outras coisas, da velocidade e do medo, dois elementos segundo ele interligados. A “sincronização mundial das emoções” é também um dos elementos que aborda. São preocupações tuas? Achas que a música, hoje em dia, é mais fácil de chegar a todo o lado por haver uma maior uniformização da cultura no mundo e porque as pessoas tendem a ter as mesmas expectativas?

XINOBI: A primeira vez que li Paul Virilio fiquei deprimido e achei que não havia qualquer tipo de futuro para a relação humana com proximidades definidas, e que tudo o que era físico iria ser desvalorizado, que no imaterial residia um futuro, negro, etc. Hoje, por exemplo, não sinto desconforto para com isso. Não me choca nada a elasticidade espacio-temporal que os canais de comunicação nos permitem usufruir. É interessante que do meio da fumarada de lixo cibernético ainda haja multidões virtuais que se materializam na rua com objectivos que não se podem limitar ao online. Arrepia-me que, como Virilio defende, uma nova tecnologia traga inerentemente um “acidente” ou uma catástrofe anunciada, ou que uma tecnologia inventada para um bem seja usada de forma atroz. Algures, ele falava do comboio como tendo sido uma invenção que unificaria povos mas com o comboio veio também a possibilidade tecnológica que disparou a Primeira Guerra Mundial...etc. Com a Internet veio uma ideia de proximidade absoluta mas também apareceu um novo ser solitário, que se entrega ao online e esquece o offline. Um pouco uma versão radical d' "O Homem Da Multidão" de Edgar Allan Poe, desolado e sem identidade, ou d' "A Multidão Solitária" de David Riesman - com tanta gente por perto a sentirmo-nos mais sozinhos do que nunca.

A  música e principalmente o consumo de música reflectem tudo isso. E padecem de algo como um totalitarismo do excesso: tens tudo em demasia e não consegues quase nunca canalizar um foco de atenção a algo em especifico. É muito fácil ser melómano de superfície, principalmente com o Google ou um Shazam mesmo à mão. Eu adoro a disponibilidade total da música mas por outro lado sinto saudades de lutar para poder ter um disco.  Ou de acreditar numa review e encomendar um disco mesmo à bruta, sem medos – “logo se vê se é mesmo bom”. Hoje, [os] problemas são tentar que conteúdos do Spotify que desejo ter offline caibam na memória de um dispositivo. Que preocupações mais fúteis diria eu de mim mesmo e de uma geração que vai alargando a idade...  

Tenho pena de não conseguir ter disciplina de audição. As sugestões de Youtube ou Spotify que aparecem recorrentemente mexem em demasia com a atenção que atribuis à música.





BC: Antes de chegarmos ao teu primeiro disco, assistimos ao funeral condigno dos Vicious Five de que também fizeste parte. Já consegues olhar para trás e analisar a importância de todo o trajecto dos Vicious Five? É verdade que ficam mais marcados os melhores momentos do que os piores momentos?

XINOBI: Os melhores momentos ficam sempre acima, mas os momentos maus que tenham sido decisivos não são nada fáceis de apagar da memória. Sei que os The Vicious Five foram importantes para uma data de putos e que os levaram a fazer bandas e a celebrar o facto de estarem vivos. Missão cumprida.


BC: Cada vez mais vê-se pessoas a dançar num concerto de pop-rock da mesma forma que o fariam numa pista de dança e, por outro lado, cada vez mais pequenos públicos que concebem a música de dança como demasiado texturada e preferem compreender passo a passo, camada a camada, o que vão ouvindo. É mais difícil entender aquilo que faz, como se faz alguém dançar e/ou mexer-se ao som de uma música do que se possa imaginar?

XINOBI: Eu tenho uma dificuldade tremenda em estruturar de forma certa uma música para que ela apele da melhor forma aos sentidos de uma pessoa numa pista de dança. Até porque uma pista de dança não se pode resumir e unificar numa pessoa só. Consigo, no entanto, fazê-lo. No fundo, é estar no estúdio a pensar como DJ. Unir esta disciplina de música para pista com as directrizes de uma canção pop-rock sem que se desrespeite nenhum dos géneros é outra luta. Há artistas que a fazem tão bem que acabaram por unir públicos e daí o comportamento de que falas se tornar normal. O caso de Caribou é paradigmático de como se podem unificar subtilezas de vários géneros pop sobre uma base dancy.


BC: Entre diversas remisturas, colaborações com outros artistas e originais teus, já muito vimos e ouvimos falar de XINOBI mas, certamente, estará muito trabalhado guardado numa gaveta. A que é que dás maior importância na altura de desenvolver um determinado tema? Acontece-te com frequência empenhares-te tanto numa faixa e depois chegar a um beco sem saída por tanto trabalho e tantas ideias concretizadas em tão pouco tempo?

XINOBI: Tenho um contentor de esboços, ideias, músicas quase terminadas...
A dada altura acabo por desenvolver o que vai correndo melhor dentro do material que gosto. Se até certo ponto este processo pode parecer – e até é – meio aleatório, depois o pragmatismo tem de vencer e nada melhor que um deadline que me faça focar em definitivo nos temas que tenho a desenvolver.



BC: A palavra “snobismo” aparece em algumas entrevistas tuas. Em que é que isso te afecta na tua actividade como músico? Onde o vês mais presente? Será que, por exemplo, um clube mais "snob" é forçosamente menos acolhedor para um músico como tu ou nem por isso?

XINOBI: Obviamente que todos acabamos sempre por julgar os outros por acharmos que o nosso entender da vida é o mais fixe. Somos todos "snobs" em certo ponto do nosso universo. Não me recordo bem em que contextos falei de snobismo...
Um clube "snob" será um clube que te julga pela roupa que trazes? Ou será aquele que oferece uma programação que agrada menos às massas e mais a nichos? Não sei muito bem. Mas nenhum destes casos me afectou por aí além enquanto músico. É entrar, fazer o que se tem a fazer. Detesto que haja alguém que se pense superior só porque detém consigo mais conhecimento sobre algo, mais dinheiro, uma cara mais bonita ou whatever; no entanto, curto ser um "snob" gigante quando, por exemplo, vejo o apogeu de uma mediocridade absolutamente indiscutível, como por exemplo numa Casa dos Segredos (ahah). Da mesma forma, um músico virtuoso pode olhar para mim e rir – "olha para este fedelho... pfff, não sabe nada, anda aqui a desacreditar o que é realmente a música".


BC: As ligações que tu e a própria D.I.S.C.OTEXAS em que apareces integrado conseguiram estabelecer com grandes salas europeias são o fruto de uma nova apreciação da música portuguesa, mais actualizada, no estrangeiro?

XINOBI: Creio que de início foram fruto da desterritorialização da nossa música. Isto é, quando comecei a ter feedback fora de Portugal não o tive como consequência de viver em Lisboa mas porque a música que fazia não representava claramente o lugar de onde vinha. Nos "entretantos", tenho a plena noção que alguma da música que escrevi tem roots populares portuguesas - ainda que maioritariamente distorcidas, e também acredito que se olhe para, por exemplo, a cidade de Lisboa como mãe de cultura exótica que é fixe enquadrar num festival ou num clube europeu ou seja de onde for. Muito por culpa de uns Buraka Som Sistema, dos Madredeus, dos Dead Combo, ou Moonspell e por exemplo, mais recentemente, dos PAUS. Portugal hoje oferece realmente algo fresco – simultaneamente genuíno e universal – que pode contaminar o Mundo. Aqui anda-se a fazer do melhor que se faz no Mundo, ainda que sem as infraestruturas que muitos tem acesso lá fora.





BC: Muitos espectáculos e muitas horas no estúdio depois, este é ainda o teu primeiro LP. Ainda subsiste alguma pressão, sobretudo na hora de o apresentar ao vivo?

XINOBI: Eu, por mais seguro que esteja em relação a algo meu, na altura de o defender tenho sempre o nervoso miudinho à perna. Entro em modo autista uma boa meia-hora antes e devo parecer um pateta antipático. Para mim, a pressão aumenta quando há expectativas sobre ti, e por exemplo num DJ set é muito fácil arruinar a tua posição para com os teus fãs se quiseres agradar rapidamente a todos os presentes que ainda não te conhecem e que se calhar nem estão preocupados em conhecer-te. Num concerto também podes desapontar muito mas com outras texturas e, por norma, a apresentar apenas a música que é da tua autoria. Nunca deves soar mais "xôxo" ao vivo do que o que gravaste em estúdio, por exemplo.


Mickaël C. de Oliveira




quarta-feira, 4 de março de 2015

DE E POR: MONSTER MINE - "Monster Mine" (2014, Ed. Autor)

Em Monster Mine, Diogo Ferreira faz um pouco de tudo: compõe, escreve letras, toca, canta. Do reconhecimento desta vontade de ubiquidade a fazer reflectir o nome do projecto no nome do primeiro disco é um pequeno passo: afinal, como refere, "todas as canções são sobre os nossos monstros internos, a relação íntima que temos com os nossos monstros e a relação deles com os monstros dos outros!".O condensar de várias ideias bebidas a inúmeras referências não apenas musicais dá-nos um disco extremamente interessante com pistas de quase todos os "monstros sagrados" da música como PJ Harvey, Siouxsie And The Banshees, Nick Cave ou Bauhaus mas com um toque de reincorporação de classicismos de quem se assume e se redefine noutra época, a dos 00s.
Um diário de canções que Diogo nos explica ao pormenor de seguida.






There's Still Life

Esta foi a mais rápida das canções a ser escrita. A letra deu por si primeiro e depois ao lê-la apareceu a melodia. Será a mais autobiográfica, mais directa e com um som mais convencional um pouco 'vintage'. Os monstros aqui podem ser um familiar, um colega de escola ou nós próprios mas existe sempre uma luz a seguir.


Look Out

Mais uma vez a letra foi escrita primeiro há uns quantos anos e era um desabafo sobre o quanto um amigo meu me estava a enfurecer com a sua inércia, preguiça e contentamento em não ser uma expressão maior de si próprio. Depois apercebi-me que a canção era sobre mim também. Esta tem um som mais electrónico, mais dançante apesar de mudar a meio para algo diferente.


Taste

Esta é outra canção que vai mudando de forma enquanto vai avançando acabando numa explosão 'rock' que é electrizante ao vivo. O resultado final é muito próximo da 'demo' original.


Addressing The Land

Escrevi a letra mais como um poema e tal como o 'There's Still Life', ao lê-lo a música visitou-me rápidamente e lembro-me que estava deitado na cama numa manhã qualquer. O tema é uma mistura que para mim faz sentido de uma forma estranha. É sobre a violência física e emocional entre seres humanos que tem um impacto físico e espiritual na Natureza. O piano rítmico é a linha condutora da canção.


Crystal Swan Lake

O piano foi composto primeiro e obedeceu a uma estrutura própria que resultou em eu sentir que o texto teria que ser declamado em vez de cantado. Foi muito divertido encontrar formas estranhas de interpretar esta personagem que tem várias vozes. Gravei três faixas de voz com a intenção de criar uma personagem que ao falar parecesse que tinha várias pessoas dentro de si. É quase um exorcismo de uma vida sem rumo, claustrofóbica e árida. É uma vontade irreprimível de querer renascer.


Dew Drops

Esta canção foi a minha tentativa de incluir um pouco de mitologia no imaginário do disco. O primeiro refrão refere Loreleii e Rusalki que personificam a sombra, o pântano, o que se esconde e observa por entre as árvores. O segundo refere Brighid e Laume que personificam a justiça, a bondade, o valor da imaginação e a luz que se manifesta através da Natureza.


The Calling of Winter

Escrevi esta canção numa sexta-feira de manhã há alguns anos atrás. Acordei deprimido e extremamente infeliz com a falta de rumo na minha vida. E foi assim que, sentindo-me uma nulidade, arrastei-me até ao piano digital que tinha no quarto e compus a parte do piano sem a introdução que está na versão final. Essa parte foi composta enquanto estava em estúdio a gravar o disco porque senti que a canção precisava de algo mais. Escrevi a letra logo a seguir e nessa mesma manhã tinha a canção terminada. A letra descreve a vida dos habitantes de uma aldeia que vivem em completa comunhão e compreensão pelos ciclos das estações e da terra. De repente são invadidos por bárbaros e esta é a parte orquestral a meio da música onde cada personagem defende-se vitoriosa contra os invasores. É uma metáfora da forma como por vezes temos de defender-nos das invasões externas quer seja uma pessoa, uma ideologia ou a sociedade que nos quer controlar.


Show Yourself, Satan!

Musicalmente mais agressiva e dramática sobre a forma agressiva-passiva como nos tratamos uns aos outros e que muitas vezes é aceite socialmente. Alguns sons foram tirados directamente da 'demo' que fiz em casa.


Monster Mine

Aqui todas as pontas se unem e o tema do disco atinge um auge. Foi divertido usar diversos sons como vidro a partir-se, lobos a uivar e vento no meio do turbilhão sonoro e ameaçador com um leve toque 'sci-fi' nos refrões. Esta música foi inspirada pelo filme 'Dog Soldiers' em que um grupo de pessoas se barrica numa casa no meio da floresta para escapar aos lobisomens. 





Work Hard For The Man

Esta música passou por várias encarnações, inclusive uma versão em português, até chegar a esta versão final. Foi inspirada por um documentário sobre uma seita em Portugal (no Alentejo, julgo eu) que vi na televisão há muitos anos. A discrição de abuso mental e sexual ficou comigo e senti que tinha de contar esta história em forma de canção. 


She Had A King (Who Was A Queen)

Outra canção inspirada num filme. Nesta vez em 'De-Lovely', sobre a vida de Cole Porter. Mais precisamente uma pequena cena em que o Cole Porter estava a lanchar no jardim com a sua esposa Linda. Ela, amando-o incondicionalmente, sugere que ele conheça um grande amigo dela que julga ser o parceiro ideal para ele. A canção é verdadeiramente sobre ela e o amor que sentia por ele, querendo acima de tudo a sua felicidade. Comecei a escrever a canção nos arquivos onde trabalhei e completei-a em casa. O título 'She Had A King' veio de uma canção da Joni Mitchell, uma das minhas maiores influências - 'I Had A King' - que conta uma outra história completamente diferente, mas fascinante. 


Rowing

Também comecei a escrever esta músicas nos arquivos e lembro-me de o ritmo ser muito mais lento, quase arrastado. Também é muito fiel à 'demo' e apesar de ter um ambiente muito 'jazz', acaba num estilo mais 'rockeiro'. 




terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

DE E POR: LOTUS FEVER - "Search For Meaning" (2014, Ed. Autor)

Bernardo Afonso, Diogo Teixeira de Abreu, Manuel Siqueira e Pedro Zuzarte formam os Lotus Fever. Sim, os mesmos Lotus Fever que um dia já se chamaram Roadies.
Para "Search For Meaning", aquele que é o seu disco de estreia, a grande ajuda veio da reunião dos fãs em torno da banda mas é do seu trabalho que, para além da coerência, resulta um disco muito mais maduro, trabalhado e aprofundado partindo do instrumental e do sentido típicos do enorme edifício que é o pop-rock contemporâneo.
Coisa que pode parecer fácil para quem cita MGMT, Radiohead, Tame Impala ou José Cid como referências mas que é difícil (e ainda bem que não se concretiza) de imaginar.
Numa pequena pausa de espectáculos para novas gravações, a banda reflecte connosco acerca da viagem pelo seu próprio potencial entre o poder da realização alheia e toda a magia de uma transformação constante, em consciência.
Palavra por palavra, ponto por ponto, conceito por conceito, canção por canção.




An Awakening

Esta música funciona como introdução ao álbum e também à "Freedom".
Experimentem ouvi-las de seguida...



Into The Light

É um dos temas mais antigos do álbum e é quase como que uma ordem para agir. Gostamos bastante de tocá-la ao vivo pela energia que tem.


Collapse

Foi a primeira música a ficar totalmente pronta e uma das que mais gostamos. Talvez por ter um pouco de tudo e por não termos posto nenhuma espécie de restrição quando a estávamos a compor.

Introspection

Focámo-nos muito no groove da música quando a estávamos a desenvolver e sabíamos que queríamos acabar com algo psicadélico o suficiente para entrarmos na parte mais 'obscura' do álbum.





Volatility

Esta foi sem dúvida a música que mais dores de cabeça nos deu. A estrutura sempre esteve mais ou menos definida, mas experimentámos uma quantidade absurda de instrumentos e moods. Foi exactamente por isso que nos decidimos pelos contrastes e nas diferentes secções ter sempre uma abordagem diferente. Gostamos especialmente da parte jazz, como gostamos de chamar, com o solo de trompete. 


Set In Stone

É a música mais antiga do álbum, já estava praticamente toda pensada ainda nos tempos do EP. Por isso também quisemos introduzir coisas realmente novas, como a batida electrónica. Deu-nos algum gozo gravar um solo de bateria numa música que parece ser balada ao piano.


Oceania

Foi das músicas onde mais trabalhámos todos os pormenores a nível de som.
Era crucial que o tema fosse um crescendo até à explosão final.



Freedom

O conselho é o mesmo: oiçam a 'An Awakening' e logo a seguir esta.


Split Step

Começou por ser uma música instrumental que tocávamos nos ensaios. O Manel era especialmente obcecado pela música, só queria tocar o 'Prelúdio' que era como chamávamos aquele bocado de música. Evoluiu para uma coisa completamente diferente, mas os restos desse 'Prelúdio' ainda estão lá, no fim.

Mild Temptations

Queríamos fazer algo mais rock, mais pesado, mas que não caísse no óbvio.
Achamos que o conseguimos de certa forma, ninguém espera aquele 'circo' (outra alcunha) no meio da música.



Fulfilled

É uma música instrumental do álbum e quisemos criar uma espécie de caos de melodias. Para os mais atentos, reparem nas melodias de outras músicas do álbum que vão aparecendo.


Because I'm I

É a última música do álbum e funciona como uma resumo de tudo o que foi dito e tocado. É uma viagem dentro da própria viagem. Tivemos um coro de crianças a cantar nesta música e foi uma experiência muito porreira.




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