Terça-feira, 18 de Junho de 2013

MOURAH - "SUBLIME (THE BREAKUP SESSIONS) EP" (2013, Nmusic)




10 anos desaguam em 1 ano. Os 10 anos que separam os dois discos de originais de Mourah são agora apenas um, aquele que começou por nos mostrar "Breakup 28", o seu novo tema em largos anos, e que vai terminar com a edição de "Kardia", o sucessor de "From One Human Being to Another", disco que marca a produção pop da primeira década do século XXI em Portugal.
"Sublime (The Breakup Sessions" é o registo que agora surge cumprindo dois propósitos: por um lado, desvendar um pouco mais do que está para vir e que vai sempre agradecer quaisquer cobres que se amontoem pelo caminho; por outro, olhar para o retrovisor e, com a ajuda de alguns amigos, dar novos acabamentos ao que já estava acabado.





É o que acontece ao single "Breakup 28", cuja versão que já conhecemos encontra a sua casa neste EP mas é reinterpretada à luz deste pelo próprio Mourah, pelos Wiseguys From Lisbon e pelos suiços SUMO. A transformação é natural num conjunto de canções que mostra que os caminhos de "From One Human Being to Another" podem ser explanados mas sem desvios colossais: não sem antes se fazerem das experiências certezas quando se verifica que a abertura do som de Mourah a audiências mais vastas é um sucesso, uma mais-valia face à sua revisão para este EP e uma vitória do trabalho de produção e de análise da sua composição.





Este novo EP traz mais 3 temas novos: "Paradox", "Sublime", escolhido como tema de apresentação, e "Head Rush". Mais uma vez, as linhas gerais das letras bem encadeadas giram, concêntricas, pela fragilidade das relações, pela destabilização da intimidade e do bom senso, pela ausência de comunicação e pela dissensão de um ego ferido nas suas ilusões. "Sublime" evolui, de uma canção pop/soul mais tradicional para, a cada demão, se tornar uma canção chegada à pele como conhecemos de Mourah dentro do seu cacique mais downtempo e mais ambient/electronic, à semelhança da própria introspecção falada ao longo dos quase 4 minutos de duração. "You set me on fire in a head rush": assim Mourah canta em "Head Rush", que se move bem entre um ligeiro arrojo dubstep, entre o chillout orgânico e explosões vocais contidas no serpentear dos ruídos maquinais. Já "Paradox", respirando saúde desde o início até ao fim, dá-nos linhas melódicas e um pequeno chorus bem dentro da tenuidade com que as canções mágicas que lhe reconhecemos se instilam dentro dos altos e baixos electrónicos e dos graves viscerais, criando terrenos trip-hop férteis para o espectro vocal admirável de Mourah explorar.

     
Aguardando "Kardia" para Dezembro, há uma ligação umbilical entre estas canções que, perante novas abordagens, confere uma consistência exemplar ao que Mourah deixou para trás e está à procura, quase na viagem de regresso.



André Gomes de Abreu 




Segunda-feira, 17 de Junho de 2013

OCTA PUSH - OITO (2013, Senseless Records)




"Oito" é o disco de estreia que os Octa Push, os irmãos Bruno e Leo, Mushug e Dizzycutter, acabam de lançar. Num total de 12 canções, o duo resgata as participações de Alex Klimovitsky, meia-parte dos Youthless, Catarina Moreno (artista radicada em Londres e habitual colaboradora também do projecto Molo), Braima Galissa e Jahcoozi para uma viagem pela redefinição das cruezas da música de dança contemporânea.




Sendo um dos casos em que a sua principal cartilha de acção tem estado no estrangeiro, os Octa Push têm sido generosos na consistência das canções que têm mostrado. No primeiro terço do registo, para os mais curiosos, está uma das suas maiores pérolas até à data: "Françoise Hardy", tema escolhido para primeiro single fruto da resolução de um "writer's block", é O tema de 2013, um pedaço de dinamite envolto na África que faz compras em Portugal e muda de roupa já dentro dos subúrbios de Londres. Qualquer coisa como afro-garage bem corpulento que roda em tirocínio e reinvenção grime constante, também, ao longo de "Oito".





Não é apenas por um falso colonialismo de proximidade, agora musical e territorial, que são de Portugal que partem os mais importantes conquistadores de territórios até agora desconhecidos na actual cena musical de dança. É pelo esgarçar dos ritmos sincopados e do bass de África a que se vão impondo quer pelos instrumentos reutilizados (como o xilofone e o kalimba) e pelas camadas de sintetizadores, quer pelas vozes que se encaixam no brotar rítmico, que os Octa Push fazem de tudo isto tumulto de cor branca.

Tão facilmente se oscila entre o pós-dubstep de "Would Be Mice" e "My Share", entre o 2-step e o underground garage de "Bright Lights", como estamos mergulhados num universo infinito de ragga, afrobeat e breakbeat que está demasiado recalcado e retalhado no trabalho de progressistas como Koreless ou SBTRKT e pouco desenvolvido nas malhas de TEED.
  "Oito" é um conjunto de canções que confunde latitudes e dá novos mundos ao Mundo, exibindo de forma sensual mas completa o típico embate entre o maquinal e o orgânico. Mas melhor ainda, são canções de que toda a gente vai andar à procura. Ainda há um Quinto Império à nossa espera.


André Gomes de Abreu




Domingo, 16 de Junho de 2013

VOXELS - BACHELOR HOUSE (2013, Optimus Discos)




Ainda é arriscado dizer que "Bachelor House" é um dos grandes discos do ano, mas não será de todo exagerado afirmar que o primeiro disco de originais (apesar dos 10 anos de DJsets e sessões em estúdio) da dupla Voxels será um dos grandes álbuns do Verão que se avizinha.
Depois dos temas "Everygirl" e "Last Wrong" terem feito sucesso, em horário nobre, na série "Odisseia" (RTP1), "Bachelor House" traz-nos um conjunto de temas enérgicos e funky, capazes de nos transportar para as noites de Verão intermináveis, pondo-nos a dançar desde os primeiros minutos.

“Não sou nada sem a minha casa e a minha casa não é nada sem mim.” dizem-nos Pedro Chamorra e Pedro Pinto com uma voz grave e robótica numa "Intro" enigmática, à qual se segue "My House", tema que nos põe a dançar desde o início, imaginando esta “casa” dos Voxels algures com vista para o mar.
Os loops viciantes de "Roulette" deixam-nos a andar às voltas, mas é "Bachelor House", single que dá nome ao disco, que, provavelmente, ganha o título de melhor tema do álbum: o refrão catchy, os coros e a batida viciante, deixam-nos totalmente à vontade nesta casa dos Voxels. O clima de festa continua com as vozes femininas de "Stealing Kisses", tema que facilmente nos remonta para a electrónica dos anos 90, e com "Paradise" a fazer lembrar sonoridades anteriores da dupla, como as dos temas "Nasty" ou "Last Wrong".





O pôr-do-sol chega com a relaxante "All Right Now", para descontrair da explosão de energia que foram os temas anteriores; mas a festa continua ao som de "Make U Mine" e "Shubundura", temas característicos da sonoridade enérgica e luminosa do disco. "Get Out" é outro dos temas fortes do disco: pela sua batida poderosa desde os primeiros segundos e por, apesar de ser um tema exclusivamente instrumental, ter todas as características necessárias para ser um potencial candidato a segundo singleSeguem-se "Know You" e "Yeah Babe", com sonoridades bastante idênticas, funcionando quase como a continuação um do outro, caminhando para a recta final do álbum.
"All Night" fecha o disco, fica no ouvido e deixa-nos com vontade de ouvir tudo de novo em loop, “all night long”.

"Bachelor House" deixa rendidos os admiradores de boa música electrónica, com o seu revivalismo da música de dança dos anos 90 e a sua energia contagiante. O “disco-house feliz” dos Voxels no seu disco de estreia irá certamente fazer sucesso nas pistas de dança, não só por todo o país, como além-fronteiras.



Joana Andrade





Sábado, 15 de Junho de 2013

PROCESS OF GUILT - ENTREVISTA

Com dez anos de carreira, o grupo eborense Process of Guilt chegou a França pela primeira vez no âmbito de uma tour europeia que teve como expoente máximo a actuação no célebre festival Roadburn na Holanda. A banda, que vagueia entre o doom, o death e o sludge metal actuou em Lyon no dia 23 de Abril e em Perpignan no dia 24. Hugo Santos, vocalista e guitarrista da banda, aceitou o convite do BandCom e falou-nos, entre outras coisas, da ansiedade que tem em mostrar lá fora que se faz boa música em Portugal.






BandCom (BC): FÆMIN foi um dos grandes sucessos nacionais de 2012. Recebeu críticas positivas de quase todos os horizontes e abrangeu um público bem mais amplo/diverso...

Hugo Santos (HS): Também foi o registo em que mais força empenhámos na promoção do mesmo. Mas também porque a música que ele tem nos permitiu fazer isso e por outros fatores, como a associação à editora suiça Division que nos permitiu pelo menos aumentar a nossa rede de contatos e chegar mais longe. Em termos de concertos, com aquela mini-tour em Outubro onde algumas data falharam, foi um disco que superou um bocado aquilo que estávamos à espera, em comparação com as reações que tínhamos com o nosso trabalho anterior.


(BC): Achas que a nova direção escolhida pelo grupo também contribuiu para isso ?

(HS): Sim. Para nós, não acaba por ser uma “nova direção” porque nunca tivemos a ideia de que só gostaríamos de fazer um só género de música, um só tipo de música. Queríamos fazer a música que nos dava mais prazer, com a qual nos identificávamos mais. Talvez no início as nossas referências fossem um pouco diferentes, porque a nossa habilidade talvez não fosse a melhor... (risos) Mas agora, de facto, as influências que temos e a direção que temos representam aquilo que nós somos. Daí eu acreditar que essa mudança tenha chamado mais gente para a nossa música.


(BC): Ainda é válido dizeres, como já o referiste numa entrevista, que os Process Of Guilt são uma “banda pequena, do underground, num país pequeno e que poucas pessoas conhecem ?”

(HS): Quer dizer, continuamos a ser uma banda pequena num país pequeno. (risos) A única coisa que mudou é que de facto há mais gente a conhecer-nos. Nós conseguimos ver isso pelas reações que temos, pela maior facilidade com que conseguimos marcar concertos fora de Portugal, e pela nossa presença num ou noutro festival que chamou a atenção de mais público e mais promotores, mas também pela net através das vendas que fazemos e das visitas nos sites. Mas se compararmos com as bandas portuguesas conhecidas lá fora,  continuamos a ser uma banda pequena, completamente dependente de nós, ou seja, em que tudo aquilo que nos acontece é fruto do nosso input pessoal e económico. Até porque hoje em dia as editoras servem apenas para lançar discos e pouco mais...


(BC): O facto de alguns de vocês terem passado a viver perto de Lisboa também apagou alguns problemas do ponto de vista da logística, não ?

(HS): Isso é complexo (risos). Porque nós conhecemo-nos todos em Évora. Somos 4, três de Évora, e o Nuno, de Setúbal, mas ele também estudou lá. A nossa base sempre foi Évora: hoje em dia, três de nós vivem em Lisboa ou arredores mas continuamos a ensaiar lá. É lá que está a nossa sala, o nosso material e acaba por ser um regresso semanal às raízes por assim dizer. A logística continua a ser complexa...


(BC): É uma desvantagem para uma banda ser-se de Évora ? Têm os mesmos problemas que as bandas algarvias por exemplo ?

(HS): Se olharmos para a distribuição de Portugal, Lisboa e Porto representam 40% das pessoas que estão aqui não é?!.. As outras estão divididas pelas outras cidades. Acredito que no Algarve seja pior, com tudo aquilo que o país está a viver, as portagens, o gasóleo e falo por nós porque fomos tocar ao Algarve no ano passado e de facto não é fácil. Gasto tanto dinheiro quase em ir tocar ao Algarve como em ir tocar a Madrid. E é claro que quando comparas uma cidade onde tens quase 5 milhões de pessoas e potencialmente 50-100 pessoas a ver o teu concerto, com o Algarve onde todas as bandas que vão lá queixam-se que só têm 20 ou 30 pessoas, é porque se calhar não é um tipo de som que agrada lá em baixo. Mas por exemplo agora há um bar em Viseu com uma boa agenda semanal, com bandas underground e de todo o país, temos o festival de Barroselas em Viana de Castelo que movimenta já muita gente, temos outros locais perto de Aveiro ou até mesmo em Évora... A pouco e pouco vai-se construindo algo que a meu ver não existia há dez anos. Uma espécie de circuito que permite às bandas dar a volta ao país quase sem custos. Mas acho que em Espanha acontece um pouco o mesmo. E se calhar em França também...


(BC): Pois, a tal “centralização parisiense...”

(HS): Chegámos a ter uma data marcada em Paris. Era uma data aí com uma banda um pouco mais conhecida. Mas não era uma banda de metal e como não queriam ninguém a fazer barulho no concerto deles então acabámos por mudar. Ficámos com esse dia pendurado e afinal transformou-se em duas datas : em Lyon e Perpignan.








(BC): Li numa review francesa ao vosso álbum Faemin uma introdução que me intrigou. E gostava de saber qual era a tua opinião sobre isso. “Não se pode dizer que Portugal ocupa um lugar preponderante no mundo da música. Tirando o fado que costumamos inserir por polidez nas músicas do mundo, é raro vir-nos alguma coisa de lá.” Na linha seguinte falam de Moonspell.

(HS): (Risos) Ele se calhar sabe melhor isso do que eu. O que é facto é que tenho consciência que principalmente no que diz respeito ao metal, os Moonspell são a referência, pelo percurso que já têm e pela quantidade de fãs que têm... Mas é um bocado uma banda que “seca tudo o que está à volta.” As pessoas ouvem falar de Portugal e associam automaticamente a Moonspell. E a música que se faz hoje em Portugal não tem rigorosamente nada a ver com os Moonspell. Aliás, acho que eles pouco contribuiram, dinamizaram sem ser trabalho deles - acho que nunca levaram muitas bandas a fazer o que eles faziam. Até porque surgiram numa altura das “vacas gordas”, por assim dizer, numa altura em que as editoras apostavam, em que havia dinheiro, em que a sua atividade lhes permitiu instalar-se num patamar que só uma ou duas bandas da Península Ibérica conhecem, uma ou duas gregas, uma ou duas italianas, uma ou duas belgas... Obviamente que o fado é o cartão de visita, mas não acaba por ser o espelho do país: há cada vez mais bandas em tours europeias e até às vezes nos Estados Unidos. Acabam por ser bandas talvez a pender mais para o hardcore ou para o punk, cuja própria atitude lhes permite passar mais tempo na estrada. Acho que é um fraco retrato do nosso país, mas que acaba por ser percecionado desta forma no estrangeiro. Cá não se fala noutra coisa senão na crise e em toda uma data de problemas nos quais estamos afundados. No entanto, na minha experiência recente, quando falei com belgas, holandeses, nem lhes passava pela cabeça o que é que era a crise em Portugal e o que é que que isso queria dizer. Portugal continua a ser um meio pequeno, o que não desvirtua o esforço que as pessoas fazem cá dentro para levar o seu trabalho ou a sua música lá fora. Infelizmente, estamos para a Europa como Vila Real de Santo António está para Portugal... (risos) Ou a ponta de Sagres...é um cantinho à beira-mar plantado.


(BC): Sem entrar em considerações politico-sociais, achas que a situação de desespero que se vive em Portugal pode levar mais gente a interessar-se por sentimentos muito presentes na vossa música como o desespero, a  desolação ? Como uma forma de se libertarem deles ?

(HS): Se houvesse algum ponto positivo no meio da crise, que fosse esse! (risos) Que o pessoal encontrasse refúgio na nossa música. Não estou a ver muitos pontos positivos aqui mas se houvesse algum, que fosse esse!


(BC): Até porque o desespero é algo que vos inspira bastante…

(HS): O desespero, ou a falta de alento, são temas comuns e que percorrem toda a nossa discografia, mesmo em termos de letras, independentemente das direções que possamos ter tomado, num ou noutro disco. O que é facto é que há sempre uma tendência para esse desespero. Mas no meio da música, há sempre uma luzinha ao fundo do túnel.


(BC): Não há agora menos “desespero”, “menos fome de desolação” com o sucesso que têm tido? Isso pode ressentir-se no próximo álbum?

(HS): Não sei. A forma como abordamos a composição de cada álbum depende sempre do estado de espírito em que nos encontramos no momento. E sobre isso ainda não sei falar. Agora, quando regressarmos desta tour, é que vamos começar a pensar em compor um álbum novo. Já temos algumas ideias, mas acho que há uma identidade que percorre, independentemente das nossas direções, toda a nossa discografia. Que tenha ou não a ver com o desespero, o cenáriode desolação; talvez alguma coisa do ponto de vista lírico possa mudar, mas a desolação é um cunho nosso e vai permanecer.


(BC): Como receberam a notícia de que iriam tocar no Roadburn Festival? Como é que uma banda prepara um evento como este?

(HS): Já lá tinha estado algumas vezes e é um festival que me é caro porque já lá vi muitas bandas, fui de propósito só para ver esses concertos. Recebemos a notícia de forma meio apreensiva, porque tivemos o contacto do Walter (diretor artístico do Roadburn) que desta vez ficou interessado em levar-nos lá. Ficámos muito contentes porque é quase uma espécie de confirmação ou de reconhecimento externo do valor que a nossa música tem e que é música que tem significado e contexto, pelo menos num festival onde vão as maiores referências neste tipo de sonoridades. Por outro lado, esse concerto acaba por ser a âncora desta tour, e tivemos que o encarar como um concerto especial e importante certamente, mas também como o sexto ou sétimo de uma série de 13 que teríamos de fazer! Entregamo-nos a todos da mesma maneira, é essa a forma como nós encaramos a música. Mas claro: ansiosos por tocar no Roadburn.








(BC): Ao vivo, parece que conseguem inculcar nas vossas músicas uma força bem maior...

(HS): Quando tocamos ao vivo, é uma oportunidade única para nos reinventarmos naquele momento.  Ou seja, apesar de tocarmos músicas que nos acompanham há um certo tempo, o que é facto é que são músicas com as quais nos identificamos muito e tentamos transmitir ao máximo a forma como desfrutamos. No fundo, tudo o que fazemos, seja um disco, um ensaio, tudo se completa no palco, tudo faz mais sentido quando estamos a tocar ao vivo. Pelo menos, expressar-nos de forma a que tudo aquilo corra bem, que nós consigamos fazer justiça ao imaginário para o qual o disco remete. Há uma espécie de conceito relacionado com a nossa performance e tentamos fazer com que aquela experiência de 45 minutos valha tanto a pena para quem nos está a ver como para nós. É o nosso único segredo.


(BC): Apostam também num lado mais visual ?

(HS): Como a forma como abordamos a estrada reduz-se a nós e ao técnico de som, nós procuramos, pelo menos ter alguma coisa que remeta para o design dos discos. Se pudermos ter projeções, temos um filme preparado para esse cenário, senão apenas estamos dependentes das luzes do sítio, mas é um factor ao qual damos muita atenção. 


(BC): Parece que isso não era uma das grandes preocupações dos grupos de metal e de doom...

(HS): Da minha experiência, tudo vai mudando ao longo de tempo. No início, a nossa principal preocupação era tocar tudo de uma ponta à outra sem termos problemas (risos). Agora, como estamos noutra fase, começamos a abordar o espetáculo como um todo. Como a nossa música apela a mais do que estarmos a ver apenas a nossa ação em cima do palco, tentamos criar um cenário que acompanhe a música. E isso é comum à maioria das bandas que encaram as atuações ao vivo com a seriedade que elas merecem.


(BC): Fala-nos um pouco do que se passou com a vossa atuação que tinha sido prevista para Rouen em Outubro passado.

(HS): Éramos para ter atuado em Rouen, não tocámos, não sei porquê, nunca mais tivemos contacto com ninguém...não é uma coisa que tenhamos ficado contentes com, mas já passou e vamos fazer com que agora dê tudo certo. Em Paris também éramos para ter tido um concerto, mas esse aí eu sei que não foi por culpa do promotor. Mas é quase certo que numa próxima oportunidade vamos a Paris. Esta vai ser a nossa primeira vez em França, que tem sido sempre aquele “deserto” que temos de atravessar para chegar a qualquer lado (risos).




Mickaël C. de Oliveira




Sexta-feira, 14 de Junho de 2013

UNI_FORM - "1984" (2012, Polvo Sonoro)



Corria o ano de 2006, quando em Lisboa os dois irmãos, David e Nuno Francisco, respectivamente no baixo e na bateria, decidiram formar uma banda à qual chamaram Uni_Form. Mais tarde, através de um anúncio na Internet, vieram a acrescentar Billy como vocalista e guitarrista sendo que alguns anos mais tarde, em 2011, acrescentaram Miguel Moreira como guitarrista e teclista, mantendo a mesma formação até aos dias de hoje.

Inspirados por bandas como os Joy Division, Bauhaus, Pixies ou The Cure, os Uni_Form lançaram até à data dois EPs, "Uni_Form" (2008) e Winter Blue (2011), bem como o álbum de estreia "Mirrors" (2010), que originou o disco de remisturas "Mirrors Remixed" (2011) e mais recentemente, em 2012, o segundo álbum "1984", sobre o qual vos falamos hoje. 





O segundo disco da carreira deste colectivo é fortemente influenciado pela obra do escritor inglês George Orwell, chegando mesmo a ter o título de um dos romances do escritor. Em "1984", os Uni_Form fazem uma manifestação contra a falta de liberdade de expressão e a cada vez maior perda de poder do indivíduo e do povo que se vive nos dias de hoje. O registo mostra uns Uni_Form mais emotivos e com maior maturidade, sendo que tal como nos registos anteriores, os sintetizadores e a óptima voz do vocalista continuam a ser os grandes destaques. Outra das principais imagens de marca deste álbum é a sua incrível coesão, deixando-nos grande dificuldade na eleição de melhores ou piores momentos, facto que não consideramos como negativo.





Por ter sido o primeiro single, vale a pena começar por destacar "Still Alive", um grito de liberdade e que ajustando-se perfeitamente ao seu título, é uma das faixas mais intensas deste disco, deixando de lado ambientes mais melancólicos e escuros que normalmente caracterizam o som dos Uni_Form. Numa toada mais emocional e calma destacamos também "A Cloud Over Time" e "Room 101", duas das nossas faixas preferidas do álbum.
Sim é verdade que tal como nos outros registos da banda, as comparações com os Interpol voltam a ser inevitáveis; no entanto, em nossa opinião, este quarteto de Lisboa cada vez mais vai criando uma identidade bastante própria e que esperemos que venha a ser cimentada em trabalhos futuros.

Este é sem dúvida um daqueles álbuns em que realmente faz sentido ouvir do início ao fim, e que mesmo não nos enchendo por completo as medidas, tem que receber nota positiva e ser visto como mais um passo em frente na carreira de uma das novas bandas portuguesas em destaque.

Diogo Marçal




Segunda-feira, 10 de Junho de 2013

OPTIMUS PRIMAVERA SOUND - DIA 3

Dia 3 do Optimus Primavera Sound.
Havia cansaço, havia menos frio e havia a vontade amarga de fechar um festival de 3 dias que pareceram quase uma semana.





Com João Vieira que ficara do after-hours em que esteve como White Haus, os The Glockenwise puseram a melhor face do garage-rock que sabiam e, embora muitas vezes no mesmo registo (olá Black Lips), tornaram o palco Super Bock muito mais agradável ao final de tarde. "Leeches" parece continuar as pisadas de "Building Waves", o quarteto de Barcelos dá-nos mais e mais canções do calibre da canção-título do seu segundo longa-duração e de "Bad Weather" e "Scumbag", de "Building Waves", é mesmo já um clássico. Tudo o que não foi música foi para estrangeiro ver e ainda bem: os The Glockenwise serão sempre mais eficazes agindo e actuando.





Os australianos The Drones tinham uma quantidade de público q.b. para assistir ao seu concerto e isso é fácil de se explicar: existe qualidade. Porém, ao vivo, menos do que em estúdio e foi sobretudo isso que marcou o concerto. Não que fosse um mau concerto, porque não o foi, mas foi meramente razoável. Sobretudo para quem gostou tanto do último disco dos contingentes de Tame Impala ou Nick Cave & The Bad Seeds. Mas o público gostou e muitas gentes das filas dianteiras não resistiram e fartaram-se de abanar a cabeça ao som do blues-rock bem trabalhado dos The Drones.






No palco ATP, os PAUS, perante uma considerável multidão, continuaram a justificar o seu elevado ranking em solo nacional e também na edição de Barcelona do Primavera Sound. Com algumas novidades em relação a arranjos de concertos anteriores, o super-colectivo ganhou pontos festivaleiros sobretudo nas piscadelas de olhos ao EP "É Uma Água", embora as infalíveis e estivais "Descruzada" e "Deixa-me Ser" já sejam porta-estandartes de uma nova vaga de discos e bandas que estão preparadas para conquistar além-fronteiras. "Não sei se já repararam que falamos português", coisa séria com que brincaram, tão séria como o apreço que receberam no final de tamanha dose psicadélica de tribalismos rock tão crus.





Os Dinosaur Jr. tomaram conta do recreio no palco Optimus e em boa hora. O magote que os recebeu tinha várias caras conhecidas lá pelo meio que esperavam por rock amadurecido e pronto a servir. Com belíssimos hinos - "Rude" e "Budge" em claro destaque -, a banda de J Mascis e Lou Barlow não desapontou absolutamente vivalma. Não está aqui em causa só a sua habilidade em criar discos repletos de temas que os colocam no pedestal mais alto do dito rock alternativo americano original: "Just Like Heaven", a cover dos The Cure que não dispensam a cada alinhamento, é uma das melhores versões de sempre, afagando com raiva toda a mestria do uso da distorção que dispensa qualquer sintetizador. Para o final ficariam reservados os clássicos "Sludgefeast" e a versão de "Chunks", dos Last Rights, com um Damian Abraham (dos Fucked Up) mais vestido que o habitual a estabelecer um dos melhores concertos de todo o festival.





Foi pena o pouco tempo que passámos com o indie-rock certinho dos intemporais Sea and Cake, mas pela quantidade de público, os Explosions in The Sky que estavam para chegar não eram uma ameaça.





Depois do cancelamento na edição de 2012, os Explosions in The Sky começaram a actuação já deixando saudades e deixando que o passar do tempo fosse um sofrimento para a vasta audiência que não os queria deixar partir. Toda a noite não seria suficiente para algo totalmente satisfatório, mas dentro do tempo que tiveram e das faltas de material assinaladas, os texanos não desiludiram, apesar dos receios que ainda sobram de que o término de "The Only Moment We Were Alone", com que o concerto fechou, seja responsável pela maior parte das boas recordações desta actuação. A meio caminho entre os silêncios construtivos dos Mogwai e a fragilidade dos Sigur Rós, é inegável que os Explosions in the Sky têm o repertório e a perícia que influenciou directamente muitos dos projectos que vamos conhecendo da área do post-rock pós-00. Há até um ligeira vibração emo naqueles acordes longos e entrelaçados que se degladiam entre si como o Outono arranca folhas às árvores, como as rosas perdem pétalas. "Olá, nóis sómos explosões nô Céu", disseram: no final, havia gente feliz num poço de lágrimas.
 





Por diversas razões, a tenda do palco Pitchfork teve uma enchente para ver as Savages ao vivo. Para quem  fizera uma correria desde o palco Optimus, ainda apanhou parte das canções da estreia "Silence Yourself". Revitalizar a austeridade gótica e pós-punk deu-lhes, surpreendentemente, um hype monstruoso; nem se renegam as influências de Siouxsie nem de Ian Curtis em Jehnny Beth, mas seja ou não pelo facto de querer pertencer a um movimento quase perdido e irrepetível, a audiência dá-lhes todo o apoio. Como poderia não ser assim quando as canções, como "She Will" e "Waiting for a Sign", são muito acima da média? Quando há realmente uma aura de ligação público-artista que é assim tão primitiva e emancipada? Ao nível a que estiveram, são claramente uma das revelações deste Optimus Primavera Sound.



 


Ponto prévio: não somos de fanatismos. Independentemente do seu papel reconhecido no cimentar da estética do shoegaze, os My Bloody Valentine seriam o concerto da vida de muitos dos presentes. Não se esperava é que fosse o concerto da vida de quem já os tinha visto ao vivo, que fosse a razão para que tudo no Mundo fosse naquele momento como era. Com os tampões nos ouvidos, parecia que havia pausas extemporâneas para analisar as vozes que não se ouviam (olá shoegaze), as guitarras em delírios febris (olá, novamente, shoegaze) e, claro, a trepidação invulgar de quem faz música fazendo da distorção e do volume aliados tão fortes como os teclados que surgiram a certa altura na sua música. Ah, claro, "problemas técnicos". Podendo existir tudo isto, restaria a capacidade de estar ali em corpo ou não. Confirmada a primeira opção, foi tudo absolutamente sublime. Embora sendo mais perceptíveis, logicamente, em "New You" (uma das melhores canções pop de todos os tempos e estamos a falar de uma banda em que "m b v" é o disco mais recente e a sua discografia é irrepreensível), as vocalizações angelicais e deslumbrantes ligavam-se a um Colm Ó Cíosóig diabólico numa aventura sensacionalmente punk (só o facto de "You Made Me Realise" constar no alinhamento rebentava com a escala, quanto mais os 5 minutos ininterruptos de pura agressão aos amplificadores), sensacionalmente sonhadora (só o facto de o concerto começar com "I Only Said" rebentava com a escala), sensacionalmente rock em que aquelas projecções caleidoscópicas eram um elemento também fundamental. A despedida de Kevin Shields fez-se com um simples "Thank you, bye", como se nada se tivesse passado.





Dejà vu da noite anterior, os Titus Andronicus tiveram o azar de tocar ao mesmo tempo da banda que mais gente tinha a assistir, perante uma plateia meio vazia, e de se valorizarem como uma alternativa credível. Meio a medo perguntaram se alguém já tinha ouvido falar neles e a plateia, tal como na noite anterior, mostrou-se pronta a responder. Quando se abandona um concerto dos My Bloody Valentine, a expectativa pelo que aí vinha tornava-se enorme. Desta vez, ao contrário dos Hot Snakes, quando a banda terminou a primeira música, com um som que começou baixo e meio tímido, esta mostrou-se bastante surpreendida e grata por haver pessoas que os tinham escolhido. Pela forma impaciente como o público puxava pela banda, não se tardou a gerar uma das maiores festas deste festival. Com uma setlist que incluía apenas duas musicas do aquém das expectativas “Local Business”, o colectivo de New Jersey afinou pelas músicas que lhe garantem lugar entre uma das melhores dos últimos tempos. Com uma entrega devota à enorme e quase perfeita “Battle Of Hampton Roads”, estava tudo ao rubro - na hora de despedida o publico entoava em voz alta e quase autoritária “you allways be a looser” -, meio a pedido de encore, meio louvando o niilismo e a voz de algo que tanto faz e fez sentido. Mais punks e avassaladores que muitos, os Titus Andronicus deram aquele que foi um dos melhores de todo o festival.





As alternativas criadas, propositadamente ou não, para a dose de My Bloody Valentine incluíram também os Fucked Up, cheirando a final de festa antecipado e com ouvidos ainda em recuperação. Quatro palcos recheados de programação cuidada, nunca descurando o produto nacional, não nos permitiram grandes aventuras gastronómicas (como o festival estava em condições de oferecer) e muito menos acudir a todos os focos de interesse. Elogios ou críticas? Guardem todos e assegurem a vossa presença para ver os Neutral Milk Hotel e muitos outros, a conhecer até mais para o final do Verão segundo a organização, em 2014. Combinado?




André Gomes de Abreu

Agradecimento especial a Emanuel Graça, editor-geral,
pelas palavras prestadas sobre os The Drones
e a Luís Julião pelas palavras prestadas sobre os Titus Andronicus




OPTIMUS PRIMAVERA SOUND - DIA 2

No Optimus Primavera Sound, o último dia de Maio, dia 2 da programação do festival, preparava diversos regressos a Portugal, entre os quais os dos Swans e dos Blur, já com o palco All Tomorrow's Parties e o palco Pitchfork em andamento. E por isso uma grande enchente, como se confirmaria até altas horas, com os Dear Telephone, os Mão Morta e os Memória de Peixe a serem figuras importantes.





Num concerto profundamente dominado pelo disco de estreia, "Taxi Ballad", não foi por demérito próprio que os Dear Telephone foram recebidos por uma audiência menos numerosa. Embora de menos fácil encaixe na vicinalidade de um festival, o colectivo acertou agulhas com o palco Super Bock e redimensionou sem grande dificuldade as suas canções para ecos de maior dimensão. Toda a pop estratosférica dos Dear Telephone de temas como "Fit and Proper" ou "Sunset Print on Postcard" esteve irrepreensível e a puxar, como em "Revelator", a algum ousadia e ao encanto de um final de tarde solarengo num Parque da Cidade que pareceu consumido por urbanidade por momentos pela sobriedade destas canções. Fora dos planos de muitos, está aqui um espectáculo que é obrigatório na programação para consumo interno em 2013.





Toda a satisfação do Mundo está concentrada ao vivo na figura de Miguel Nicolau e isso contagia qualquer um que assista a um concerto dos Memória de Peixe. Convidando Ed Rocha Gonçalves dos Best Youth para a linha de baixo de "Indie Anna Jones" (lá se ouviram comentários como "O que é que isto tem a ver com o Indiana Jones?" que só pedem mais e mais música), o duo saiu-se impecavelmente numa missão que em outros palcos seria mais difícil: colocar as suas canções na memória de quem os via. Ainda não muito claras, espreitámos as novas direcções que as canções feitas à base de loops viciantes e de ritmos que não as sossegam admiravelmente estão a tomar. Vimos ilustres quase desconhecidos a menear, e bem, ao som destas canções: onde é que os Memória de Peixe poderão parar? Não vão, concerteza.





No primeiro passeio pelo palco ATP, esperavam-nos memórias dos Sleep. Os OM são incontornavelmente um nome gigante na cena stoner/doom metal, e a verdade é que acabaram por provar o porquê disso com um excelente concerto. Embora "Advaitic Songs", o mais recente álbum da banda de Al Cisneros, não espelhe um sucesso estrondoso em estúdio, a verdade é que ao vivo o resultado de todas aquelas combinações de ritmos mais tribais é quase um sucesso instantâneo e revela-se num autêntico convite a abanar a cabeça. O público respondeu positivamente e ainda celebrou os tempos mais fervilhantes da banda, com esta a entoar músicas tão estrondosas como Bhima’s Theme. No fim, o pescoço já doía: e isso é bom.





Com a eminência Daniel Johnston no palco ATP, os Local Natives ouviam-se ao longe, bem demais para um festival com vários palcos, mas nada que afectasse a verdadeira celebração que estava ali à frente. Muito embora debilitado pela sua doença, Daniel Johnston não precisava de ser referido por tanta celebridade para ser, como muitos outros nomes do cartaz do Optimus Primavera Sound, uma celebridade por si mesmo dentro do seu espectro musical. Nem sequer o concerto precisa de actos de contrição e artistas assim não conhecem a palavra "pena". Devido à peculiaridade da sua obra, muitos eram os curiosos que escutaram talvez pela primeira vez os ensinamentos de canções como "Devil Town", "Love Not Dead" ou "Life in Vain" e acordes tão emocionantes como os de "Rock 'n' Roll" ou "Mountain Top". "True Love Will Find You In The End", num pequeno encore, seria a lembrança oferecida, mas quem realmente precisa dela após cada disco dos Girls que saia?





Os Swans estão para a música contemporânea como "Tree of Life" para o cinema contemporâneo. Não pela fotografia do filme, mas pela pureza de cada uma das suas composições. A gente de Michael Gira foi um dos fortes alicerces do cartaz do Optimus Primavera Sound, representando na perfeição, por um lado, o poder da memória que se infiltrou pela programação artística, e por outro o papel que não é apenas de influência que protagonizam. A sua vitalidade está ainda presente em "The Seer", título do disco de 2012 e de uma das canções mais subversivas dos anos 00, que fez parte da meia-dúzia de canções que se permitiram despachar, conjunção mais que física com os pontuais momentos anti-estoicismo-epilépticos de Gira que dominou o tempo seguinte a esta actuação. Um tempo de bons e pequenos rapazes e raparigas, sem palavras para Deus que descera à Terra e criara um novo Mundo.





À mesma hora, os Mão Morta secavam por completo a energia de todos os que assistiam à performance de Adolfo Luxúria Canibal e companhia e ao desfile de músicas que são mais do que um género ou epístrofe poderá ser. Os concertos dos veteranos portugueses continuam a não comportar-se mediante qualquer expectativa, muito menos segundo tamanho prazer quanto aquele que se viu durante a interpretação de um alinhamento recheado de clássicos como "Oub Lá", "Budapeste", "Véus Caídos" ou "Cão da Morte" e sem esquecer o momento "Novelos da Paixão" que não serve só para recordar o mais recente "Pesadelo em Peluche". Tal como Nick Cave, Adolfo é um mestre de/sem cerimónias de rock insalubre e bem que era necessário um para colmatar a ausência de Rodriguez. Missão cumprida com inegável brilhantismo.








Metade Grizzly Bear, metade Shellac, assim se dividia o nosso coração antes dos METZ.
No palco Optimus, os Grizzly Bear deram certamente o seu melhor concerto em solo português, muito embora "Shields" não partilhe da grandeza de "Veckatimest". A primeira parte do concerto foi recheada dos bons momentos do disco mais recente como a épica "A Simple Answer" dourados por instrumentais e coros exímios e quando na segunda parte chegaram os êxitos, não surpreende que muita gente tenha saído de barriga cheia do palco principal do festival com o topo de forma dos autores de "Two Weeks".


O concerto dos Shellac de Steve Albini não passou despercebido ao público que se juntou em volta do palco ATP: não alcançou a soberba do ano anterior mas também não desiludiu. Alguns problemas de som foram determinantes na eficiência do rock de ataque do trio de Chicago e no desacerto dos elementos de post-hardcore que desconjuraram o conjunto das canções. Todavia, a sequência final teve ainda as passagens por "Wingwalker", "Crow" ou "Spoke" e uma saída de palco por elemento até que a tarola deixou de levar pancada. Silêncio desnecessário.





No palco Pitchfork, mesmo antes do concerto começar, os METZ já eram uma banda do caralho. Depois do concerto, a confirmação disso mesmo: com METZ até te explodes. Tocaram-nos as malhas do seu homónimo do ano passado, com músicas como "Wasted", "Knife In The Water" ou "Rats" a revelarem-se um autêntico estrondo, que, por sua vez, resultaram em moshes infindáveis e em crowdsurfings descomunais. Foi do caralho, e não precisam de saber mais nada. Diz quem viu que nem no Plano B nem na  Galeria Zé dos Bois foi tão bom: parabéns aos que acertaram em cheio.





Dez anos depois, os Blur reentraram em Portugal pela mão do Optimus Primavera Sound. Dez anos que tinham sido, por uma miríade de razões, quase sinónimo de serem votados ao julgamento da História. Foi sobretudo este que deixará o seu concerto como um dos concertos desta edição mas sobretudo como o concerto da vida de muitos dos que assistiram. Recheado de canções pop inigualáveis e similar ao de Barcelona, o alinhamento dos Blur deu a primazia aos feitos de Damon Albarn e companhia enquanto escritores de canções e não enquanto compositores de álbuns. De "Girls & Boys", início do concerto, até ao seu fim com "Song 2" depois de um curto encore, os Blur não esqueceram mesmo assim pequenos apontamentos como "Caramel" e "End of A Century" facilmente ofuscáveis. Para além da aparente reconciliação, os Blur deixaram no Porto um recital de cultura pop para rookies e utilizadores avançados num dos regressos que farão sempre sentido, uma e outra vez. P.S: Nem mesmo "The Great Escape" continua uma birra, ao que parece.





Quando subiram ao palco, à hora em que os Blur ainda actuavam, os Hot Snakes não deveriam ter mais do que cinquenta espectadores. Perguntaram mesmo se alguém os conhecia mas o escasso publico parecia conhecer. Uma das bandas que mais pareceu passar ao lado do publico apresentou-se então: quarentões bem dispostos que não pretendem agradar ninguém que não agrade a eles, que tocam um rock 'n' roll que transborda para o hardcore e para o melhor do pós-punk. Parecendo um tanto ou quanto descontraídos, não conseguiam evitar o sorriso trocista sempre que a cada intervalo de música se ouvia o concerto de Blur, chegando mesmo a tentar acompanhar os acordes. Num concerto entusiasmante que foi enchendo com o tempo, disseram que era um prazer tocar num festival em que não tocam os Pennywise, não tocaram a “I Hate The Kids” e fizeram questão de mostrar que os Moonspell não fazem de certeza parte das suas preferências. 





Num festival onde a electrónica esteve guardada para horários mais adiantados, fomos descobrir uma screamer ao concerto mais improvável. Ida No, vocalista dos Glass Candy, reescreveu as coordenadas do som do duo norte-americano para algo menos nu-disco e mais pulsante. Inebriada no meio da sua coreografia, à audiência poderá ter escapado lá pelo meio preciosidades como "Candy Castle" ou "Life After Sundown" onde os norte-americanos enchem de orgulho o colectivo da Italians Do It Better. Dissimuladas, as doses industriais de sintetizadores ao serviço de interlúdios electroclash foram as cicatrizes perfeitas numa actuação que terminaria em apoteose ao som de "Warm In The Winter", ainda a tempo de ver os Fuck Buttons, serpentes a voar, árvores com sombras chinesas, cenários a pedir ácidos e o sacramento dos BPM elevados.





Quase à mesma hora, os Fuck Buttons subiam, então, ao palco onde iriam despejar-nos toda a sua essência – a essência da descoberta. Drones e mais drones, interligações de sons contínuos com mais sons contínuos. A continuidade é, e deve ser, a palavra de ordem para falar da música dos norte-americanos, mas não só; deverão existir mais adjectivos para a definir, porque é quando ela explode que nos sideramos com ela. Há por aí música que se faz para nos fazer dançar, esta é uma música de dança mas numa amplitude diferente: quem dança são os nossos sentidos. Foi genial, tal como fora todo o dia de concertos.




André Gomes de Abreu

Agradecimento especial a Emanuel Graça, editor-geral,
pelas palavras prestadas sobre os OM, METZ e Fuck Buttons
e a Luís Julião pelas palavras prestadas sobre os Hot Snakes





OPTIMUS PRIMAVERA SOUND 2013 - DIA 1

Chegara o último fim-de-semana de Maio, aquele em que o Porto era a capital da segunda edição do Optimus Primavera Sound pelo segundo ano consecutivo. Sem ameaça de chuva, a cidade começava a encher-se, sobretudo, do espírito de um festival tremendamente voltado para o seu público, ávido de novidade. A representação nacional estava assegurada pelos Memória de Peixe, Dear Telephone, The Glockenwise, PAUS e pelos Mão Morta, que à última hora iam ocupar o lugar deixado vago na programação por Sixto Rodriguez que cancelara a sua actuação.
O dia 30 de Maio não contava com bandas portuguesas, estando todos os concertos estavam concentrados nos palcos Optimus e Super Bock e isso permitia montar da melhor forma o ambiente pretendido para o resto que viria. 






Os americanos Wild Nothing seriam os segundos a pisar o palco Super Bock, o primeiro concerto a que poderíamos assistir. Embora o EP "Empty Estate" ainda esteja fresco, foram as canções de "Nocturne", longa-duração anterior, que agitaram principalmente o público e que o envolveram, mais uns menos outros, na teia de sons justificados pelas bolas de sabão que voavam e pelas camadas de sintetizadores que se sucediam. Os concertos da noite estariam para chegar, mas Jack Tatum e companhia fizeram bem por lembrar que seria melhor jantar mais tarde e que a felicidade dos sonhos melódicos "Live in Dreams" e "Ride" era real.







Por volta das 21h, os noventas diziam-nos olá. Eram os Breeders, banda fundada pela quase icónica membro dos Pixies, Kim Deal, a interpretar na íntegra o seu trabalho mais conhecido da sua vasta discografia, "Last Splash", de onde foram retirados singles que andaram quase por todo o lado, como "Cannonball". O concerto cumpriu as expectactivas que haviam sido criadas e foi absolutamente divinal; embora já tenham passado vinte anos desde o lançamento do dito LP, há toda uma frescura em torno da sonoridade excitante da banda das irmãs Deal. Além disso, o encanto e a simpatia de Kim também é um trunfo que pesca sempre as atenções: disse-nos primeiramente “Boa Noite” e depois despediu-se com o já habitué “Muito obrigado”. Mas quem tem de agradecer somos nós.
   




Lisa Gerrard e Brendan Perry, os Dead Can Dance, dividiam estranhamente apetites, mais ou menos enviesados por um certo neo-classicismo que perpassa pela sua discografia que nem a presença pelo mítico catálogo construído pela 4AD ao longo das últimas décadas alivia. Tal como no concerto anterior, e mesmo tendo o duo chegado com uma sala esgotada do Coliseu dos Recreios no currículo poucos dias antes, haveria sempre sobretudo duas formas distintas de caracterizar este concerto: uma tentativa falhada de um último acesso de condescendência e de supressão de experiências auditivas/visuais anteriores ou a constatação de um regresso fiel ao passado e que ainda tem pertinência em 2013, recheado de vozes e instrumentais que fazem da música do Mundo, do rock do Mundo, aquilo que ele deve ser visto de uma maneira apurada e arty. Nota de rodapé: a cover de "Song to The Siren", entre o extraterrestre e o inóspito.





Entre o folguedo e a ebriez, Nick Cave regressava a Portugal depauperado de alguns dos míticos elementos dos Bad Seeds (Mick Harvey e Blixa Bargeld) mas com Barry Adamson de regresso. Se já as perspectivas era de um concerto de uma vida, no final o alinhamento e a atmosfera trouxeram um concerto maior do que a mesma. Sem vergonhas, o concerto arrancou e encerrou com três das músicas do novo "Push The Sky Away", mas foram os clássicos como a versão imortalizada de "Stagger Lee" (e com injecções de ironia e provocação feroz à maquinaria móvel que está nas mãos de quem deveria sentir o pulso a um dos ícones de gerações e gerações), "Tupelo", "From Her To Eternity" (uma das imensas subidas ao lugar mais perto do público que as grades permitem) e "The Weeping Song" que suportaram o ímpeto de "Jubilee Street", já um dos clássicos da turma de canções de 2013. A experiência de absoluta catarse e evisceração que remonta ainda aos tempos dos Birthday Party confundiu-se com um performer extraordinário e exuberante a conquistar o respeito, palavra de epígrafe no silêncio da final "Push The Sky Away". Há hashtag para "LOOK AT ME NOW"?   






As saudades de uns headphones e das canções de "Microcastle" e de "Halcyon Digest". Os Deerhunter, ao contrário de Bradford Cox como Atlas Sound, não são melhores ao vivo do que em disco e o Festival Paredes de Coura acolheu-os da última vez com esse resultado. Depois de uma primeira parte de concerto absolutamente desinteressante (spoiler alert: para quem concordar, "Monomania" vai ser assim), algumas das linhas-mestras de "Halcyon Digest" como "Desire Lines" e "Memory Boy" conseguiram assegurar o mínimo dos mínimos, o que para um festival apontado como "o melhor de todos" pela cara principal da banda, não seria o suficiente, nem mesmo para os que deveriam transportar a audiência de Nick Cave a James Blake, dois objectos fortes da programação, muito embora por razões diferentes. Vamos sublinhar todos os efeitos nefastos da palavra "fofinho".





Antony e poucos Johnsons? James Blake, uma banda reduzida e máquinas à volta? Ok, ouve-se a voz (as vozes?) de "CMYK". Ao contrário dos Deerhunter, um concerto de James Blake é, nada mais nada menos, uma pequena réplica do seu processo criativo. Maior interesse e curiosidade não poderiam ser gerados. Olhando para a audiência, percebia-se que este era um concerto com novamente uma franca dose de expectativa, pelo conhecimento e pelo apreço muitas vezes fora do ponto de equilíbrio. Fugindo a pérolas como "Lindisfarne" ou "Life Round Here" e "Take a Fall For Me" do mais recente "Overgrown", o compositor inglês percorreu com sucesso os seus dois longa-duração e espreitou alguns dos seus EP, deixando marcas na sua ambição escondida em "Digital Lion", uma "Voyeur" que faz jus aos seus altos padrões de hipnotismo e ultrapassando a alta velocidade o seu pai em "The Wilhelm Scream". Se "I Never Learnt to Share" suga todas as formas de alimentar a fragilidade das letras e a segurança das opções estilísticas, num intercâmbio sedutor entre (pós-)dubstep arrancado ao melhor da cena underground do UK e puro instinto soul, "Retrograde" foi a pedra de toque daquela que para alguns terá sido ainda uma melhor forma de encerrar o dia de concertos do que com Nick Cave.




André Gomes de Abreu

Agradecimento especial a Emanuel Graça,
editor-geral pelas palavras prestadas sobre os Breeders




Domingo, 9 de Junho de 2013

DRUNK ROBOTS - WE ARE THE DRUNK ROBOTS (2012, Ed. Autor)







Drunk Robots é um projeto a priori antonímico criado em 2011 no Algarve. Perfurando melhor a coisa, e à medida que as sonoridades de "We Are The Drunk Robots" vão enchendo os nossos ouvidos, passamos para outro palco de compreensão. Drunk Robots cheira a música de intervenção. A denúncia do mundo das máquinas que se transveste para melhor nos seduzir, para melhor nos conquistar. Mas lá está, nem as próprias conseguem sobreviver à força de emoção dos seres humanos. O problema foi terem levado de nós o estado da embriaguez.


Quem são eles, de onde são ? "We Came From The Sun", respondem eles, maquinalmente, num misto de cena introdutória, de aterragem solar e de instalação no seio da nossa Terra. Aéreos, apaziguadores, instalam a confiança e ancoram-na no chão. Embebidos por esse leque de luzes cegantes, apertámos-lhes as mãos sem imaginarmos as consequências. É ao ver "Ants Moved To Our Kitchen" que sentem o açúcar abandonado ou as almas sem vida, que a desconfiança tomou conta dos que sempre viram na lucidez a resposta mais sólida. O som escuro, riffs desleixados, a batida mecânica, sinal de maus agoiros. Libertam-se os violinos, acrescenta-se o épico, a conquista da paz, ou melhor, do fim da guerra. 



Depois do sol veio a chuva, mas ela não interrompe a festa. Semeia de novo a confiança para acalmar os últimos guardas da relutância, à base de novos ritmos, de novos sons dark e dançantes, fúnebres. 
No lado dos autómatos conversa-se sobre o distanciamento, a suspeita, o receio ( "Be Careful With Those Humans"). É preciso repensar a lobotomização, as peripécias, organizam-se planos e esquemas, cochicham-se maquiavelismos. Aliam-se às máquinas já existentes, alinham-se nas regras delas em "Next Train In 4 Minutes". A espera da viagem, do espalhamento da mensagem, do caminho do progresso. O fim em suspenso, sobem-se dois degraus, penetra-se: um robô dentro de outro.






A viagem do progresso pára em "Assembly Line". Apoderou-se fisicamente dos homens: estes já não controlavam as máquinas, elas confeccionavam-nos. Os sons apropriaram-se desses experimentalismos, eletrizou-se o mundo. Cansados, desconetados da realidade, em "We Went For A Late Night Swim" surgem musculados, mais preparados para no dia seguinte aguentarem melhor, mesmo que o som agudo que se ouve lembre um coração a bater que nunca pareceu tão desumano. Quase nove minutos em homenagem ao fim da humanidade, à entrega dos nossos corpos à maquinação de todos os elementos naturais.

Uns pensam que apenas foi um pesadelo; a verdade é que regressa "We Went For A Night Swim" já menos volumoso, mais "aceitável", com apenas três minutos de duração. A dor é menos intensa, está a caminho de não mais existir. Questionam-se os sentimentos: será que ainda permaneceu a amizade? "Some Noise For A Friend" é a procura por uma resposta. 

Nada mais são que simples cérebros descerebrados, de pequeno tamanho, mas juntos, o espalhafato que criam não é nada mais nada menos que um "Struggle of A Bean", de tentativas esbarradas numa incapacidade feroz, cansadas pela transformação de tudo e de todos. Na altura de rezar por eles, de rezar por nós: "A Small Pray To Holy Chip". Enterraram-se os protestos, o manto negro cobriu as últimas vozes, e em "Sunday's Last Cigarrette", no último fumo esvaiu-se a alma.

Talvez seja por isso que quem está por detrás deste projeto nunca deu a sua verdadeira identidade. Por sentir que brincar com consciências artificiais é sempre perigoso, porque temos sempre de lhes inculcar a humanidade que não possuem. Num panorama mais global, "We Are The Drunk Robots" é uma denúncia do nosso estado perante a descaraterização de tudo e de todos. Uma mensagem portanto demasiado panfletária para o autor divulgar a sua identidade. Assim vi as coisas, numa escrita alucinatória que não quer ser desconstruída, de quem procura compreender a música eletrónica interventiva e analisá-la...num computador.


Mickaël C. de Oliveira




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