domingo, 13 de Abril de 2014

THESE ARE MY TOMBS - "MORPHOSIS" (2014, Ed. Autor)




"Morphosis" é o primeiro EP dos These Are My Tombs, quarteto leiriense formado por Gil Pedrosa, Luís Diogo, Samuel Pedrosa e Tiago Cardoso. O título do álbum não poderia estar mais de acordo com o seu conteúdo: "Morphosis" é sinónimo de crescendos, dissonâncias, quietude, agressividade e toda uma dinâmica de outras características em evolução que se vão alternando, umas vezes de forma predominante e outras vezes como complemento essencial ao longo das faixas.
Trocando por miúdos, estamos inegavelmente perante um registo de post-rock, com toda a complexidade que daí advém e para a qual contribuem também algumas incorporações e rasgos de post-metal que lembram quais as companhias nos passos tomados pelos These Are My Tombs.







O arranque faz-se com a introdução atmosférica e melódica que é “First Light” para logo de seguida dar lugar à primeira barreira de som materializada em “Earthcore Threshold”, com destaque para a instrumentação que, embora não se manifeste como um ex-libris de técnica, se une de forma a criar uma paisagem sonora que nos prende para nunca mais nos largar. No embalo, “Omen” confronta-nos com uma linha de baixo aditiva e um riff de guitarra que surge incisivo, numa música marcada pela alternância entre a calmaria e a agressividade e “Crisália” faz mais uma ponte instrumental e atmosférica que serve de ligação à faixa homónima do álbum.
“Morphosis” parte de onde ficámos em “Omen” numa cadência mais acelerada e é, provavelmente, a música mais complexa técnica e ritmicamente, principalmente ao nível das guitarras, ficando, uma vez mais, registada a capacidade da banda em criar ambientes díspares capazes de nos fazer sonhar e divagar e, ao mesmo tempo, esmagar-nos com um muro sonoro que nos arrebata e mantém-nos em sentido.
“Recombination” passa rapidamente de uma forma etérea e contemplativa para acabarmos o disco com “And All Of This Will Happen Again”, a música mais longa de todo o álbum que de um começo algo arrastado e corrosivo se consolida à medida que se derramam melodias melancólicas muito ao jeito até de uns Katatonia - mais um exemplo daquilo que um bom trabalho de post-rock deverá ter.






Ao ouvirmos "Morphosis" não podemos dizer que ficamos surpreendidos pelo grau de inovação trazido ao género mas também não ficamos desiludidos com o resultado final. Muito pelo contrário, este é certamente um disco capaz de fazer as delícias do típico fã de post-rock e de música rock instrumental e experimental no geral (os murmúrios que se ouvem ocasionalmente funcionam vonlenskamente como outro instrumento), onde ficam patentes a competência da banda e a sua capacidade em criar emoções normalmente associadas aos trabalhos que primam pela sua inegável qualidade.


Hugo Gonçalves




sábado, 12 de Abril de 2014

DE E POR: TV RURAL - "BARBA" (2014, Azáfama)

Seis novas músicas gravadas sem os constrangimentos de estúdio ao longo de três dias na Estudantina Recreativa de São Domingos de Rana, com visitas de amigos, família e de inspiração social para um concerto intimista que registámos aqui e que acompanha, na forma de filme-concerto, a edição física de "Barba".
O álbum, esse, fica para ser concluído mais tarde e noutras direcções.
Em 2014, os TV Rural regressam aos discos com um novo EP e transitam da Chifre para a Azáfama e directamente para o palco do Teatro do Bairro logo mais na grande festa de família da editora. O que mora nas canções de "Barba", pelos próprios.







INTRO

As duas primeiras têm algo que ver com o sono...aquele ambiente onírico. A “Intro” tem as vozes a aparecerem do fundo e a criar um ambiente meio estranho que não se percebe se é realidade ou não. Não chega a ser uma canção. (João Pinheiro)
Tal como o nome indica, “Intro” é a abertura do EP “Barba”. Sem grandes demoras leva-nos para o ambiente pretendido,  aquele momento em que não percebes bem se estás acordado ou a dormir, em que o volume do mundo  tanto parece estar alto como baixo e em que deixas que a coisa te enrole... serve de cama à música que se segue. (David Jacinto)


EM MENOS DE MEIA HORA

É uma canção simples...(João Pinheiro)
...e bonita em torno da ideia que também te é importante, enquanto edificador de carácter,  aquilo que vives nos sonhos, onde as leis da física são deturpáveis e despegadas de constrangimentos sociais. (David Jacinto)


ADMITE QUE ESTÁS DE VOLTA

É uma canção que dá a sensação de estar a sempre a crescer... tem um lado mais "acredita em ti"... (João Pinheiro)
É isso, do género: “um gajo assumir o papel que tem” (David Jacinto)
...assumir as coisas de frente. (João Pinheiro)
Lá para o fim tem uma frase pujante: “agora vá de vestir calças e dizer com convicção, está tudo bem!” (David Jacinto)


ELES DERAM AS MÃOS

É talvez a canção mais complexa do disco a nível de estrutura. A letra leva para a canção de intervenção, com algumas frases de ordem, algo pouco comum em TV Rural. (João Pinheiro)
Não só a letra como também a música... (David Jacinto)
Sim, sim... com ritmos mais populares e malhas cantáveis... poderia funcionar como uma canção para cantar à guitarra. (João Pinheiro)
A letra é muito baseada no que se tem vivido nos últimos anos, tempos de muita contestação social, e leva-nos para essas ideias...tens o refrão onde de certa forma  tentas puxar o ouvinte para aquilo que é a tua luta... (David Jacinto)
E apelar à união que é uma coisa cada vez mais difícil de acontecer, porque o pessoal está preocupado é com ganhar o pão... (João Pinheiro)
Exato, há até uma frase que remete para isso precisamente: “uma sombra passa alguém acena e já perdi o teu olhar”...portanto estávamos aqui numa conversa com um certo teor político ou não, e de repente...foi...já passou. (David Jacinto)


OLHA QUE BEM

É uma música mais densa, mais negra ao nível de paisagem sonora, em que usámos pela primeira vez recursos da electrónica como os samples. É uma música estruturalmente simples , AB-ABC... (João Pinheiro)
A letra desta canção é também uma letra simples, que remete o sujeito poético para uma situação de discussão em ambiente familiar, em que mais tarde ou mais cedo tudo volta ao normal. (David Jacinto)
A nível musical é mais forte com ambientes mais paisagísticos e menos contundentes... percussões mais redondas, guitarras com mais efeitos, mais etéreas...também há mais recurso a guitarras acústicas, que neste disco têm uma presença bastante forte. (João Pinheiro)
E ao mesmo tempo bem combinadas com a letra (David Jacinto)


SAIO DAQUI A OLHAR EM FRENTE

Uma música mais antiga, que num momento de inspiração sofreu um rearranjo, uma abordagem diferente que de certa forma fez renascer o interesse nesta canção. (João Pinheiro)
É mais uma música daquelas que te tenta dar força, do tipo “aguenta-te que consegues...” (David Jacinto)
É talvez a música mais rock deste disco, e que funciona muito bem a fechar o “Barba”. (João Pinheiro)




quarta-feira, 9 de Abril de 2014

REFLECT - "REFLECT" (2013, Kimahera)




5 anos depois de “Último Acto”, surgiu ainda em 2013 o disco epónimo do artista algarvio Reflect. Composto por 10 faixas ricas e contando mais uma vez com múltiplas colaborações, desde a maior esperança feminina do rap português W-Magic aos amigos da editora Kimahera que fundou, Dezze, Gijoe, João Mestre ou ainda Real Punch, salta à vista a vontade do artista em realizar uma obra mais coesa e com uma mensagem coerente, com menos temas, que capte o auditor do princípio ao fim.





5 anos depois, a escolha dos artistas em cada tema pareceu mais adequada, mais bem sucedida. Sobressaem os temas “Redundância Crónica” com W-Magic, onde o seu “eu indeciso” colide à perfeição com as rimas melancólicas e cheias de paixão de Reflect. Uma paixão pelo rap ilustrada com perícia em “O Arrepio”, dos temas talvez mais complicados de construir por ser dos mais clichés. No miolo surgem o single “Sala de Troféus” e “Passeio Pela Praia”, com um instrumental respirando ventos novos, soprados pela brisa do mar, tema que continua muito presente neste álbum - e provavelmente em todos os que se vão seguir.
Há também o feat com o grande Real Punch, com uma mensagem clara do sentimento de falta de liberdade que cada vez mais sentimos e cada vez mais conseguimos expressar e polir em palavras, e o tema melancólico de reflexão, de conclusão de tudo aquilo que Reflect realizou até agora, de tudo o que tempo não apagou.
A partir daí, mergulhamos na brecha aberta em "Último Acto", onde já se ouviam elementos pop e por vezes rock; nota mais para a voz suave, simples e sem artefatos de Vanessa Ferreira em “Diz-me Se Vale A Pena”, assim como a junção ousada e original entre o piano e a guitarra de João Mestre, os scratches de Gijoe e as rimas de Pedro Pinto nos temas seguintes.



Se pegarmos na totalidade do disco, os temas old-school são menos visíveis, enquanto a maturidade e a coesão da obra do artista estes se sentem muito mais, a cada faixa. É verdade que não se sente aquele “arrepio” que "Infinitamente" provoca a cada audição. No entanto, convém relembrar que esse é talvez dos temas mais bem conseguidos do hip-hop nacional destes últimos anos. Não apenas destes últimos 5.
Mickaël C. de Oliveira




sábado, 5 de Abril de 2014

DE E POR WONER: "A MINHA CABEÇA SAI SEMPRE CORTADA (VOL. 2)" (2013, Ed. Autor)

João Figueirôa é Woner, um dos jovens nomes que vai construindo um novo mapa para o hip-hop nacional depois de uma época de glória e ascensão ao mainstream que vai ensinando lentamente as vantagens de quebrar com o que é mais expectável.
Contudo, em relação ao passado recente, as coordenadas de partida estão mais ou menos certas (Vila Nova de Gaia) e há mesmo um grupo de suporte e evolução, o colectivo Diatribe que partilha com Neatro e Suary.
A pessoalidade de certas referências, a serem desconstruídas ao longo da trilogia "A Minha Cabeça Sai Sempre Cortada", convive de forma feliz com a escatologia linear de Edgar Allan Poe na capa e do lado mais negro de uma biografia (do) dia-a-dia, com cenas cortadas por cada uma das 16 faixas deste trabalho ao ritmo de "Happiness" de Todd Solondz.
Antes do fecho de ciclo, 2014 já trouxe uma compilação de temas que ficaram de fora deste volume da trilogia, intitulada "Cortes da Cabeça Cortada/Coisas Que O Boi do Amor Faz" e poderá ainda trazer mais uns quantos discos a solo. Resolvemos também não perder mais tempo e pedimos palavras ao autor.























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"Este é o segundo volume de uma trilogia de nome “A Minha Cabeça Sai Sempre Cortada”.
Tentei criar um álbum com uma narrativa do início ao fim, para ser ouvido pelas pessoas como se estivessem a ver um filme.
Esta história é, em grande parte, sobre depressão (para já).
Como vou estar a descrever o que cada música representa na história vou-me referir na terceira pessoa, isto porque se o álbum tem uma narrativa eu não passo de uma personagem. Esta personagem sou eu, claro. Os sentimentos, os pensamentos, as experiencias, tudo isso é meu, ainda que a história seja fruto da minha imaginação com elementos de filmes, animes e jogos."



1. AMCSSC

“Olá, o meu nome é Darko...”. Pode parecer insignificante, mas é um dos pontos mais importantes para a percepção do trabalho que estou a desenvolver. Chamo-me João na “vida real”, Woner no que toca a trabalhos musicais, e digo que me chamo Darko (algo que, segundos depois, é corrigido por uma voz que se deduz ser o meu psiquiatra).
É uma faixa composta por três partes. A primeira começa com um diálogo que dá a conhecer que a personagem está numa consulta (num grupo de várias pessoas) porque se tentou suicidar. Começo a cantar na segunda parte com uns acordes de piano repetitivos e desinteressantes (é também assim que a personagem se sente) e na terceira parte, nos últimos minutos, o instrumental muda e fica mais “animado”. Tirando a parte inicial do diálogo, é uma música muito pessoal. Creio que foi a primeira faixa pública em que falei abertamente sobre autoflagelação, odio próprio, isolamento e amigos imaginários.
Inicialmente a música ia-se chamar “APSE” (As Pessoas São Estúpidas), mas faz mais sentido “AMCSSC”.


2. Prozac 2

Esta faixa é um remake (talvez não seja o termo correcto) de uma que integra o primeiro volume que fiz nos princípios de 2011. Lembro-me que fui atuar com o meu grupo, Diatribe, e depois fui a casa do Suary. Ele estava a mostrar-me instrumentais e a improvisar. Gostei muito de um deles, cantei a letra da “Prozac” porque não gosto de improvisar (de forma séria) e ficou. A letra surgiu com o terminar de uma relação. Quem amava deixou de estar presente e os comprimidos preencheram o vazio, nesta altura ainda não era de forma destrutiva, faziam-me sentir bem e estavam presentes todos os dias.


3. Cão

Também em 2011, andava a queixar-me de falta de beats. O Neatro deu-me este no mesmo dia em que fiquei com o da “Prozac 2”.
Embora a “onda” principal do meu trabalho seja depressiva, gosto sempre de ter uma ou duas músicas “estúpidas” com elementos de autocrítica algo engraçados (técnicas para quebrar o gelo). Esta é uma dessas faixas.
Quem me conhece sabe que eu e os cães não nos damos bem. Eu acho que são animais bonitos, mas eles não gostam de mim e na maior parte das ocasiões os donos são completamente irracionais. O tema surgiu do seguinte pensamento: o cão pode ladrar em qualquer lado, ir com as patas contra qualquer pessoa ainda que sujas por tocarem no chão, morder quem entender como ameaça, praticar o acto sexual onde bem entender, e aos olhos das pessoas continua a ser bonito e querido. Então e se eu fizer tudo isto? Será que não vou levar logo dois socos na cara? Não me vão insultar? Não vou estar a interferir com a liberdade de cada um? Vou, e é exactamente por isso que vai ser engraçado.
Esta música não é uma crítica aos cães (que honestamente não têm culpa de nada) nem aos donos (que dizem sempre: “Ele não morde, ele não morde...”, até morder). É uma autocrítica, porque eu é que sou um universo de imperfeições. Se estão todos bem menos eu é porque o problema reside em mim (é assim que se deprime numa música aparentemente engraçada).


4. Cheeseburger (c/ Neatro)

Esta foi gravada tão em cima da hora que acabei a mistura a dias de sair o álbum. A ideia surgiu quando estávamos na paragem do autocarro. O Neatro estava a comentar um vídeo que tinha visto sobre a forma como fastfood se degradava. Eu disse que não queria saber, pois o que me apetecia mesmo naquele momento era um cheeseburger e não me importava se morresse mais cedo. Ele disse que preferia comer algo saudável para poder viver mais tempo que as outras pessoas. Foi assim. Durante a música toda estamos a contrariar as ideias um do outro.
Na história do álbum esta faixa mostra um pouco mais sobre os pensamentos depressivos do personagem e mostra como os amigos reagem face à nuvem de negatividade que paira nele.
(aos 48 segundos começa um dos meus momentos preferidos)


5. Eu Não Nervos

O título indica uma situação em que quero dizer “não tenho nervos” ou “não estou nervoso” e me engano e troco tudo. O erro torna evidente que estou nervoso quando queria dizer que não o estava para passar despercebido (sou tipo aquelas pessoas que tentam passar despercebidas e acabam por estragar as coisas e chamar a atenção sem querer).
A música começa com um som de theremin e um excerto de um dos filmes em que me baseei para criar a narrativa. O que quero que se retenha é que a personagem tem pensamentos obsessivos que a consomem, e vê tudo o que a rodeia como uma ameaça. Tudo a irrita e isso começa a torná-la agressiva. Neste ponto da história não estamos a falar simplesmente de uma depressão.
O instrumental é dos mais recentes que fiz neste álbum e é dos que gosto mais.


6. O Bebé Levou Um Tiro

Graças a esta música recebi dois emails de pessoas que levaram a mal o tema. Existiram mais 2 versões desta música. Uma que fiz em 2011 que não era nada agressiva e falava sobre a minha infância em Lisboa, e outra que seguia a linha de pensamentos “agressivos” da original com um instrumental todo tocado meio psicadélico. Optei pela versão que está no álbum por estar mais crua.
Esta música desenvolve a linha da faixa anterior e aborda os chamados pensamentos intrusivos. É uma conversa com o psiquiatra em que o personagem admite ter pensamentos agressivos para com outras pessoas, sonhos em que mata sem motivo aparente pessoas que estão felizes num jardim (mais um elemento de outro filme). Aborda mais uma vez, depois do refrão, a insegurança face às pessoas que encontra no seu caminho, e o facto de se meterem com ele só agrava o seu estado psicológico. Quando parece acabar a música ouve-se uma linha de baixo com uns snares algo descoordenados enquanto “grito: “Eu não sei o que digo!”, várias vezes. Isto serve para dar a entender que o personagem sofre por pensar em fazer mal às pessoas, ou seja, não é algo que controla. Depois disso entra um instrumental diferente todo tocado que, sinceramente, por muito piroso que esteja, é dos que mais gosto. No final paira a ideia: “... Eu não te quero fazer mal... A culpa não é minha... Foge... Tu tens de fugir de mim... Morre...”.


7. Lápis de Niizuma

Nos últimos segundos da faixa anterior ouve-se a voz do psiquiatra a dizer para a personagem tentar relaxar e fazer algo que goste, como desenhar. Durante a música vê-se que a personagem tem uma imaginação muito fértil enquanto desenha histórias nas paredes do quarto, e que tem um desejo muito forte em ser o herói que salva o mundo (talvez para que as pessoas que não gostam dele o aceitem). A meio, percebe que se deixou levar pela história que estava a desenhar e que perdeu a noção da realidade momentaneamente. Debate-se ainda com o ódio que sente pelas pessoas que salva e pondera se deve ser o herói ou o vilão.
A última parte da faixa tem referências “escondidas” ao Super Sonic, Crash Bandicoot, Final Fantasy e Kingdom Hearts, isto porque a música revela, no fundo, a solidão e a falta de vontade de viver esta vida, e nesses momentos as memórias de infância e adolescência são reconfortantes.
(esta música vai ser muito importante)


8. Casa de Gelo

Instrumental que mais me agrada neste álbum. Vou tentar explicar por partes. A música serve para dizer que a personagem revela ideação paranoide e tem ataques de pânico. Digo “...o gelo é uma metáfora para o medo que sinto”, logo quando dou a entender que não há saída do quarto porque está coberto por gelo estou a dizer que tenho medo de sair. Quando digo que faço um boneco de neve para ser o meu melhor amigo estou a dizer que convivo tanto com o medo que me habituo à presença dele. Perto do fim, antes do instrumental mudar digo “hipotermia”, estou a falar de um ataque de pânico. Tive a ideia de fazer esta metáfora do gelo/medo e de fazer um boneco de neve amigo que se vira contra mim em 2011. Na altura era num instrumental do Neatro. Claro que, mesmo tendo a ideia na cabeça não escrevi, deixo sempre as coisas a cozinhar até chegar o momento.
Já em 2013, estava eu a stressar a tentar fazer o álbum e não reprovar a nenhuma cadeira, e vi que era muito complicado para o Neatro refazer o instrumental (também por falta de tempo fora de aulas). Um dia sentei-me com o teclado, lembro-me que andava a ouvir uns álbuns de música electrónica/experimental e tentei fazer algo inspirado nisso. Algo com ambiência, com rara aparição de snares cheios de reverb, um piano no fundo também ele com reverb, um coro (muito piroso, mas que adorei), e aquele sintetizador que entra aos 2:23... Eu gostei. Não é o que o pessoal do rap procura e gosta, mas era aquilo que eu queria explorar. O instrumental muda completamente aos 3:24, é algo que gosto muito de fazer (o vol.3 está cheio dessas coisas).


9. Insónias Diurnas (c/ Suary)

Claro que tinha que ficar com este beat do Suary.
De noite a insónia não deixa dormir, e de dia o “sono” (ou desinteresse) não nos deixa vivenciar as coisas à nossa volta. Portanto, estar acordado de dia é igual a estar a dormir (como diz o Suary), e de noite a paranóia decide bater à porta.
No final da música, à semelhança da faixa com o Neatro, a personagem é de novo abandonada pelos amigos que já não conseguem suportar o “drama”.
Em Julho ou Agosto já tinha a faixa gravada, pronta para masterizar e lembrei-me de um instrumental que o Suary tinha feito num dia em que estivemos a produzir e pensei que ia ajudar a consolidar a música geral. Quando acabamos de cantar entra esse instrumental (quase no fim), acho que resultou muito bem.

10. O Reflexo de Nada/ O Convite

Foi a primeira faixa que produzi e escrevi neste álbum. Nesta altura ainda recorria a samples para fazer instrumentais. Estava a ver um filme com a minha irmã, que tem um final algo emocionante para quem é da minha geração. No meio da emoção ouço o sample... Fui logo procurar. Encontrei, fiz o beat, escrevi, gravei, ficou feito. No que diz respeito à história do álbum esta faixa é um reafirmar da depressão, dos cortes, do isolamento, ódio próprio, etc.
É também a faixa em que a personagem se mentaliza que vai morrer.
Quase dois anos mais tarde decidi juntar um instrumental, no fim, de nome “O Convite” porque achei que a faixa original estava incompleta, faltava algo. Não é que este tenha uma produção incrivelmente boa, não era esse o objectivo. Serviu para completar. É um instrumental inquieto, incerto, a bateria não está bem no tempo, apetece pôr “direito”... É bom porque as pessoas deprimidas também não se sentem “direitas”.


11. Demasiado Tempo

Uma vez que a personagem decidiu morrer, não tem mais que ter medo ou vergonha de dizer o que sente. A música anda em torno disto. O objectivo é convencer o psiquiatra de que não dá para adiar mais os comprimidos e que têm que ser receitados sem demora. O final da música tem um excerto de mais um filme em que me inspirei. “Until the day you die, you, not me, will always be shit!” é a mensagem final que a personagem deixa às pessoas que a magoaram antes de se fechar e acabar com tudo.

12. Frágil Porcelana

Estive quase para não fazer esta música (ainda bem que a fiz porque foi a que as pessoas mais gostaram). Já tinha todas as faixas ordenadas e escritas num papel. Se não me engano, isto foi em 2013. Já não usava samples para fazer instrumentais e houve um dia em que me apeteceu voltar a fazê-lo. Ainda ponderei se devia escrever ou não. Enfim, correu bem.
Na história do álbum esta faixa  representa as últimas horas antes do suicídio. O personagem passa o tempo que lhe resta a beber no chão do seu quarto com a mobília toda destruída. Embebeda-se porque no fundo quer ficar. Só não fica porque não se sente aceite, na sua cabeça a culpa é das pessoas (factor muito importante para o vol.3). Desesperado diz: “eu também me odeio”... Podemo-nos dar todos bem porque também me odeio, finalmente temos algo em comum.  
No final há um pequeno interlúdio em que repito algumas vez: “Eu sou o palhaço triste”. Uma referência a uma música do primeiro volume e também um aviso aos artistas de rap que começam agora a pisar a sonoridade “alternativa” e a temática depressiva. Eu sou “O” palhaço triste.


13. 05 x gm06 cazorp

Esta faixa serve para o ouvinte descansar um bocado. Do ponto de vista da narrativa, se atentarmos ao nome está escrito : prozac 60mg x 50. Este é o momento em que o personagem toma 50 comprimidos de 60mg de prozac, ou seja...overdose.


14. 005

Bêbedo, momentos antes de o excesso de comprimidos surtir efeito negativo, aprecio o ambiente que me envolve. É uma última reflexão antes de cair do 5º andar. Se é para recorrer ao suicídio é para partir em grande, ou seja, bêbado, com 50 comprimidos de prozac de 60mg, e uma viagem do topo do prédio até ao chão. Tudo isto de gravata, claro.
O instrumental foi feito pelo Raikuaza. Inicialmente era outro beat, mas ele perdeu-o. Foi passando o tempo, e um mês antes de sair o álbum decidiu dar-me este, que foi um beat pelo qual eu tinha uma fixação desde que o ouvira pela primeira vez.


15. O Grito do Silêncio, a Lua e o Beijo

Esta diz-me muito. Não pelo tema, limitei-me a seguir a narrativa com base no que sinto. O beat marcou uma fase da minha vida em que fiz imenso trabalho musical e muito pouco para a faculdade. Não sei dizer porque me marcou, mas sempre que ouço o instrumental lembro-me desses tempos em que ia para as aulas fazer instrumentais e trabalhar no álbum, nem nos intervalos parava. Às vezes, acordava cedo, chegava lá, faltava e ficava algures numa sala a ”produzir”.
Voltando à narrativa. Isto é quase como se a personagem se estivesse a ver a ela própria estendida no chão. Como se o tempo tivesse parado e o sangue ainda não estivesse a cobrir o cimento. É a experienciar a morte. É um adeus.

16. 28 06 42 12

Fiz este instrumental a meio de uma aula do meu segundo ou terceiro ano de faculdade. É uma faixa sem voz, algo melancólica, que encaixa no álbum sendo que, segundo a história, morri na música anterior. É o final do álbum. Contudo, nos últimos segundos ouve-se uma voz distorcida a dizer: “Acorda”. Algo para dizer que vai haver um terceiro volume (ou não seria uma trilogia), ou que talvez não tenha morrido, é novamente uma menção a um filme. A voz pertence a uma das personagens principais do vol.3 (que foi mencionada durante o álbum).
É desta forma que acaba o “A Minha Cabeça Sai Sempre Cortada (Vol.2)”.




quarta-feira, 2 de Abril de 2014

HELLO ATLANTIC - "RAMBLING COAST" (2013, Ed. Autor)




Hello Atlantic é um projeto a solo do jovem João Esteves: tudo começou na Finlândia em 2007 e ao longo dos últimos anos tem-se denotado uma constante progressão de Hello Atlantic, tanto a nível da composição sonora como das temáticas abordadas nos seus lirismos.

"Rambling Coast", o seu mais recente trabalho, é um disco onde João explora os campos do folk rock acústico numa vertente mais alternativa, munindo-se da sua voz contagiante, da sua hábil guitarra e de umas pequenas percussões que ajudam a marcar o compasso que avança num ritmo calmo e suave, numa simbiose de intensidade e simplicidade. Embora muitas vezes faça lembrar artistas como Damien Rice ou mesmo um The Tallest Man on Earth, também demonstra ser suficientemente bom para se distanciar das comparações.






Pelo meio, existe a habilidade para tornar praticamente impossível não ficar com a voz e a melodia de canções como “Rambling Coast” a ecoar por longos minutos, a que faz justiça um poder que parece ter sido concedido pela influência do mar junto ao qual o álbum foi sendo escrito e que acaba por ganhar a magia mítica de um búzio que guarda e reproduz infinitamente todos os segredos do oceano - “deep the water / lying on the grass/ sinking in recurring dreams”, uma busca do inaudito enquanto existe um "eu" que se vai retraindo e dilatando como uma medusa, disposto a naufragar nas águas mais profundas, por entre as nostalgias do passado, os medos do futuro e a cruel fugacidade da vida.

Todo este acumulado de experiências é abordado por um verdadeiro autodidata,
partilhando com o público algo daquilo que viveu e as conclusões a que chegou ao longo da sua jovem, mas já sábia vida: “The future is never like they say it will be”, ouve-se em "Windy City Blues". Por vezes acaba mesmo por se transformar numa voz emancipadora da humanidade que transporta qualquer coisa, como uma mudança, que se redescobre nos irredutíveis resíduos do mistério e encanto deste mundo. Algo que só a beleza única do folk pode conferir.




Sem grande dificuldade, este "Rambling Coast" acaba por contribuir para um ano rico em álbuns de qualidade musical e que continua a dar mais força à premissa de que em termos musicais "Portugal está de boa saúde e recomenda-se".
João Ribeiro




domingo, 30 de Março de 2014

PRÍNCIPE DISCOS - ENTREVISTA

Pedro Gomes, Nelson Gomes, José Moura e Márcio Matos são cérebros de valor nacional que se desdobram para pôr todo o Mundo a dançar consignando num selo editorial música que nasce à volta de Lisboa e que redefine criatividade, novidade, ansiedade pela sua antecipação.
Entre publicações como a SPIN, a Wire e a Dazed & Confused e outros media de respeito como o Resident Advisor, o The Fader e o Pitchfork, os ecos sucedem-se, os festivais de todo o Mundo, como o Unsound em que DJ Marfox e DJ Nigga Fox estiveram no passado mês de Outubro ou o Sónar em que estarão representados por Nigga Fox, reagem, mais clubes, mais pessoas, mais lojas especializadas querem saber reconhecer NIAGARA, Blacksea Não Maya e Photonz.
Tal como tantos outros casos de sucesso português no exterior, a Príncipe Discos é um segredo muito bem guardado...em Portugal. Sendo assim, de Portugal para o Mundo, haja orgulho e olhos e ouvidos bem abertos, uma vez por mês no clube lisboeta Musicbox e no final de Abril também no Plano B no Porto. Representemo-nos.



BandCom (BC): Descrevam com uma palavra cada um dos projetos pertencentes à Príncipe Discos.


José Moura/Pedro Gomes (JM/PG): Para todos: Verdade.



BC: Quais são as principais influências dos vossos artistas, de onde vêm, em que medida as origens deles e as suas situações geográficas afetam os seus projetos?


PG: O ideal seria cada um dos nossos artistas responder-te, porque - e sabemo-lo - as influências variam de artista para artista, como é natural que aconteça. Se procurares padrões poder-se-à dizer que (excepção feita aos Niagara e aos Photonz) encontras influências comuns vindas do kuduro, tarraxinha e afrohouse angolanos, e concerteza influência de contágio a nível da produção desta música em território nacional.



 



BC: Em que medida o isolamento com o qual alguns dos vossos músicos tiveram de lidar foi uma força e ao mesmo tempo uma desvantagem para eles ?


PG: É preciso levar esse isolamento a sério mas também clarificá-lo bem e não olhar para ele de forma distorcida e como sendo um isolamento total, porque não é disso que se trata também. Penso que será correcto dizer que uma micro-sociedade quase paralela, como é o caso de vários dos bairros onde alguns destes produtores vivem, por vezes se consegue guiar de maneira mais sã do que a nossa, brutalmente legislada, policiada, gentrificada, governada à toa e sem qualquer verdadeiro respeito pelos seus cidadãos, falando bom português. É uma realidade ainda mais despojada de direitos sociais e vetada a vários tipos de abandono, mas concerteza um sítio gerido de maneira mais natural e sã. O que tem tanto de incrível, como de absurdo, como de normal.



BC: Expliquem-nos a importância de ter uma pessoa como o Tó Pinheiro da Silva na masterização dos vossos projectos.

JM: Desde o início que a ideia da editora é representar a actualidade num contínuo de música produzida em Portugal, com origem também para além do continente, música e tradição essa que respeitamos e na qual nos revemos. O Tó Pinheiro da Silva? Ele esteve presente em mais momentos importantes na música portuguesa dos últimos 40 anos do que qualquer outra pessoa de que nos consigamos lembrar. Criativo, entendedor, versátil e actual.



BC: É inegável que os Buraka Som Sistema expandiram os horizontes da música produzida em Portugal. Estando a música que a Princípe Discos pode oferecer nesta altura com um grau de aceitação favorável no exterior e podendo ser este factor ou não importante na vossa produção, que novas etapas/objectivos estão ainda por atingir?


JM: Editar mais discos e continuar a trabalhar o melhor possível no sentido de viabilizar como opção de vida a produção musical de quem escolhemos para editar e contribuir para a noite mensal no Musicbox, em Lisboa.






BC: Têm participado nalguns festivais estrangeiros e recebido alguns elogios por parte da imprensa estrangeira. Como viveram isso ? Acham que são mais bem recebidos no exterior?

JM: O exterior tem sempre mais impacto porque Portugal termina já ali, a exposição é limitada e a quantidade de oportunidades também. É só isso. De resto, pensamos que a música que editamos é tão exótica no estrangeiro como em Portugal.



BC: Será que ainda continuamos a ignorar mais música do que a que ouvimos e queremos ouvir? Estamos a deixar passar a oportunidade de exportarmos uma espécie de “UK-garage”?

JM: Nós já estamos a exportar e não se chama UK-garage.



BC: O que pensam da relação crescente entre os novos caminhos da música electrónica e a integração nesta de novos ritmos de todo o Mundo?


JM: Nada de errado mas parece cada vez mais fácil identificar quem é genuíno e quem apenas aproveita o que acontece.


BC: Pode “descredibilizar” o vosso trabalho, de uma certa forma, o facto de diferentes músicos e produtores mudarem a orientação do seu trabalho conforme o “hype” substancial de que a música de novas latitudes e ritmos, como a da Príncipe, é exemplo nesta altura?

JM: Acreditamos na música que a Príncipe coloca em disco e seria uma pena ver essa música incrível ser injustamente diluída no meio de qualquer hype. O nosso trabalho só será eventualmente descredibilizado por quem não prestar atenção.



BC: Pensam que a música de origem africana produzida em Portugal é respeitada ou menosprezada quando comparada com outros estilos de eletrónica produzidos também em Portugal?

JM: Nenhuma música electrónica produzida em Portugal é realmente respeitada. Talvez DJ Vibe e alguns que desejam disputar essa descendência. Têm o respeito do seu público, que vale zero fora do seu ambiente. Algo semelhante acontece com a música de origem africana, consumida essencialmente num circuito próprio geralmente desconhecido por quem está de fora. Nesse sentido, o respeito é sempre restrito.



BC: Expliquem-nos o processo ambíguo e sinuoso da produção de música de origem africana em Portugal. Quais são as dificuldades que encontram durante o processo de criação? Como conseguem conciliar o respeito que devem ter pela cultura africana e ao mesmo adaptar a vossa música a um público tanto “afro-europeu” como “caucasiano”?

PG: Terias que falar com os produtores individualmente sobre esses assuntos, já que não somos nós que fazemos a música maravilhosa de que estás a falar. Sobre dimensões de sinuosidade e de ambiguidade tenho dúvidas - a música sai limpa e directa da fonte, nada de sinuoso ou ambíguo aí. Sobre as conciliações de que falas penso que é uma questão que realmente não se chega a colocar - os produtores com quem trabalhamos sabem que estamos interessados em dar estrutura e escala à música que eles fazem e da qual mais se orgulham, tal como ela é, vinda de onde vem.






BC: Há ainda hoje quem considere que o rap crioulo feito em Portugal não pertence ao hip-hop português. No entanto, todos os anos, vão aparecendo alguns filmes portugueses onde a língua principal, ou grande parte delas, é o crioulo, e nunca ninguém irá dizer que esses filmes não são portugueses. E no mundo da eletrónica?

JM: São pessoas que vivem cá, na maioria dos casos nasceram cá, o que deixa muito pouca margem para aceitarmos que não sejam portugueses.



BC: Quais são os vossos projetos para 2014 ?

JM: Editar vários discos físicos; continuar a projetar fora de Portugal os produtores e DJs que trabalham connosco.

Mickaël C. de Oliveira





terça-feira, 25 de Março de 2014

MR. HERBERT QUAIN - FORGETTING IS A LIABILITY (2014, Zigur Artists)

Título: Forgetting is a Liability
Edição: Março de 2014, Zigur Artists
Classificação final: 8.9/10

Se o disco que Mr. Herbert Quain editou em 2012 nos trouxe uma abordagem bastante peculiar à música que este personagem imaginária ia pensando, Forgetting is a Liability, o seu mais recente disco novamente carimbado pela Zigur Artists, é o consolidar de todo um processo que já não se adivinhava propriamente difícil: é apenas uma confirmação daquilo que já se previa, daquilo que já nos ia ficando na cabeça, de que Mr. Herbert Quain é uma valia segura na música electrónica nacional.

Quando em 2012 se fez editar How I Learned to Stop Worrying and Start Loving the Waiting, existia uma espécie de entrave que fazia com as suas bonitas peças não se conchavassem entre si para formar um belo puzzle. Mesmo sendo bonitas, todas elas caiam numa espécie de repetição que agregavam entre si resquícios de soul e de jazz. Em Forgetting is a Liability, a essência acaba por ser a mesma, não se assiste a uma saída de um porto de abrigo que já na altura parecia ser um habitat natural para as paixões de Herbert. Os ritmos do disco são lentos e acabam por se conjugar com uma ênfase tremenda que se vão dando aos beats que surgem à medida que os samples se desenrolando. Nem tudo nasce efectivamente do jazz ou da soul, há, por exemplo, The Breeders, banda de Kim Deal, ex-baixista dos Pixies, em loop em “Now”, mas a verdade é que acaba por tudo lá ir desaguar. A priori, experimentar numa estrutura única duas texturas totalmente diferentes seria um risco, mas a verdade é que existe por aqui uma maturidade imensa. Brinca-se com o fogo, não há queimaduras.

A Primavera ainda agora começou, qualquer dia começamos a ver as aves migratórias a rondar as árvores das nossas cidades, o Sol vai finalmente, esperemos, a ser uma coia regular no nosso quotidiano enquanto a chuva, vai, ocasionalmente, estando sempre à espreita. Forgetting is a Liability é um disco extremamente apropriado a esta altura do ano. O sol, ou a luz, está sempre lá, respondemos-lhe com um abanar a cabeça e um sorriso estampado na nossa cara. As andorinhas voam de spot em spot, mas sabemos que realmente andam, ou confluem, sempre com os sítios pertencentes à mesa esfera – é uma metáfora para o processo de samplagem de todo o disco. A chuva, fortalecida pelos vestígios de trip-hop que nos vão chegando, também está sempre à espreita, mas acaba por nunca vociferar mais alto do que o Sol. Para este disco, são válidas todas as metáforas do mundo, mas nem todas se encaixarão tão bem quanto as próprias canções do disco se ligam umas às outras. A vitória está confirmada, aqui há belas peças e um puzzle soberbo.


Emanuel Graça




segunda-feira, 24 de Março de 2014

TAR FEATHER - "HEAVY METALS" (2013, EASY PIECES)





Descrição mais elaborada não se poderia pedir: Diogo Tudela é quem se esconde por detrás de Tar Feather, "um projecto de leftfield português responsável por uma abordagem enviesada ao techno e música house, produzindo temas que envolvem a música de dança ortodoxa num casulo de drones baços e batidas fragmentadas".

Dir-se-à que “Heavy Metals”, editado em 2013, terá sido uma das maiores falhas por parte da crítica e do público em geral devido ao seu esquecimento. Longe dos holofotes mediáticos mora nesta obra uma ambiência negra imensa, à base de uma panóplia de samples, capaz de nos remeter imediatamente para paisagens pantanosas dentro de um outro universo onde queremos entrar e não mais sair.






Ponto de paragem essencial, em “No Land Lands” a presença da cítara e das vocalizações magnetizantes encetam uma hipnotizante viagem sonora pelas recordações de uma Europa barroca que culmina numa vasta experiência surreal e sinestésica.
No entanto, após um breve momento climático inicial de plenitude e paz, rapidamente dá-se uma inversão sonora alimentada por batidas pungentes e sons minimalistas abstractos para dar lugar a um gore bucólico, retratando um encontro angustiante com a inquietação e a melancolia e uma aproximação a uma vertente electrónica mais tecno.

Em “Gravel”, os instrumentais electrónicos são capazes de invocar um cenário fantasmagórico na orla de uma densa floresta onde residem as carpideiras, a remeter para Darkside quer por via das suas produções matematizadas abundantes em ambiências, quer por via do seu downtempo e vertente mais experimental.
Com devaneios sonoros como uma constante ao longo do registo, a sua riqueza e diversidade encontra como que a desesperada busca de cada ser humano, pecando talvez e unicamente na coerência defeituosa entre tantas faces da club music como o house, o blankwave, o dub ou o brokenbeat. Mas que, logo após as primeiras audições, não se duvide da inerente qualidade e talento que aqui residem. O convite a entrarem neste belo mundo de música de dança não-dançável está feito. 7,8/10


João Ribeiro




SENSIBLE SOCCERS + THE ASTROBOY @ TEATRO PASSOS MANUEL, 22/03/2014


Após a edição de “8”, os Sensible Soccers voltaram à cidade do Porto em jeito de apresentação do álbum recentemente lançado. E se modo há para comprovar que o quarteto de Vila do Conde atravessa um bom momento na carreira, tal refletiu-se logo meia hora antes da abertura das portas do Teatro Passos Manuel no passado dia 22 de março, quando o triplo das pessoas competia para os dez bilhetes que ainda existiam de reservas canceladas.


The Astroboy inaugurou o palco numa sala ainda não completamente esgotada. Fazendo-se acompanhar de uma eletrónica simples e recheada de cenários governados por temas digitais e cores frias, destacou-se uma atuação eficaz mas que, ao longo do tempo, começava a refletir alguma monotonia. O espaço não proporcionou o ambiente mais adequado, mas também poderá ser, em boa parte, verdade que o facto de uma quantidade considerável do público chegar apenas após esta atuação não entusiasmou o artista. Apesar de tudo, o membro de peixe:avião merecia mais.


Quês e porquês à parte: os Forneleiros a seguir? Vamos lá. Desde dois mil e onze que a banda tem lançado temas que vão marcando a música eletrónica nacional, num destaque claro para “Fernanda”, “Sofrendo por Você” e “Sob Evariste Dibo”, esta última incluída no disco mais fresco. Assim, qualquer um que acompanhe este projeto compreende que tal receita conjugada ao vivo resulta, evidentemente, numa espécie de festa transe para pessoas que usualmente não ouvem transe. É então sem surpresa alguma que ao longo do concerto os lugares sentados da sala portuense foram sendo deixados para trás, e corpos hipnotizados se levantaram numa espécie de dança que os aproximava do portal de acesso a um outro mundo extrassensorial.

Mas voltemos um pouco atrás. As referências ao mundo selvagem começaram quando o piano desse mesmo tipo abriu as hostes para “Eurobonds”, cuidadosamente retirada da "Fornelo Tapes Vol. 1". Não havendo duas sem três, “Zaire 1974” apenas confirmou como faixas compostas há dois/três anos atrás continuam tão atuais, realçando-se sempre surpresas em pequenos detalhes sonoros de deixar de sorriso na cara quem, de tantas vezes as ter ouvido, as sabe de cor. Ao lado entidades femininas conspiravam sobre Manuel Justo cantar/gritar bem.


A primeira fila do Teatro Passos Manuel já estava levantada quando Filipe Azevedo começou a malhar em cima do viciante ritmo de “AFG”. É este um dos segredos de Sensible Soccers. Se por um lado o corpo se vai entregando ao loop constante tão carismático da eletrónica contemporânea, por outro há um contínuo soltar de elementos heterogéneos que vão compondo cada faixa e alimentam a mente que tão pouco gosta da repetição. Corpo são, mente sã, e “Sob Evariste Dibo” teve assim todas as condições de fazer o que tão bem sabe fazer numa complexa selvajaria sonora. O público, esse, acompanhava.


Ainda antes do encore experimentaram-se arcos de violino na guitarra, quais Sigur Rós da eletrónica. “Maria Rosa” também teve tempo de se apresentar em versão prolongada e “Lima” rematou a fase mais introspetiva da noite, em espécie de aquecimento para o fôlego final. Porque, ainda não tinham entrado todos novamente em palco e Filipe, sozinho em “Paulo Firmino”, já deixava o público sofrendo ainda mais por (vocês) aqueles que não conseguiram entrada no teatro. Lógico é que depois da frase anterior torna-se relativamente fácil adivinhar como acabou a noite naquela sala, mas as provas ficam à distância de um clique aqui, dado que ninguém quer cansar ninguém com palavras sobre, por exemplo, roupa interior masculina.


A Groovement tem motivos para respirar orgulho. Após a colaboração na edição do álbum de Sensible Soccers, tem continuado associada à banda através da promoção de concertos que, como neste, têm provado a sua afirmação no panorama da música portuguesa. Se há pouco tempo tínhamos referido que existe material para internacionalização, a opinião torna-se ainda mais sólida após se assistir a uma performance dos próprios, com a concretização do mesmo. Do que estão à espera?


João Gil
Fotografia por Rodolfo Rodrigues




sábado, 22 de Março de 2014

COCHAISE - "JÁ TE DIGO QUALQUER COISA" (2014, Ed. Autor)



Os Cochaise não são "novos": banda de Lisboa, multi-instrumentista, com 2 CDs já editados em 2011 e 2013 (e disponíveis para download gratuito, aproveitem).
Têm um estilo muito próprio e, pode–se dizer, único. Transformam frases banais em poesia. Enquadram acordes dissonantes em refrões cativantes. Embutem distorções sujas escondidas e baterias zangadas em arranjos subtis de sopros e teclados inofensivos.
Tudo isto envolto numa voz bonita e cativanta, que agita as águas em canções bonitas e ameniza-as quando tudo se descontrola, faz uma grande banda.




O que agrada mais neste EP é a complexidade e imprevisibilidade sonora e o seu encaixe na linearidade das canções. É disso exemplo "Mais Valia": cada instrumento tem vida própria, mas remam todos para o mesmo lado, mesmo baralhado. As dissonâncias nunca são demais, pois nem se deixam perceber, as diferentes cadências da música ajudam nas respirações que criam esta obra prima, que nos baralha entre refrões incríveis e bridges que nos deixam à espera.

Já "Não Me Levam a Maria" é um conceito diferente. Pedia um pouco mais de raiva e menos contenção, mais descontrolo e libertação na interpretação vocal faria da música um míssil destruidor que não ficasse pelo caminho. É um registo não tanto explorado pelos Cochaise e que deixa, no entanto, a perspectiva de novos horizontes.
"Tás Tão Enganado" é um desabafo introspectivo, e cumpre esse propósito. 
Passa a raiva e a besana do tinto. Um bom aperitivo para o que se segue. 





E o que se segue é "Não Fizeste", a última música de um EP que acaba tão bem como começou: com outra grande música.
"Não Fizeste" embala-nos sem pedir licença. Nem precisamos de nos concentrar para nos perdermos na música. E, sabe-se lá porquê, o “não fizeste” angelical, rodeado de uma bateria complexa mas minimal, que dá azo à libertação de pequenas frases de guitarra e teclas, faz me sentir culpado se não a puser em repeat.


Hugo Hugon




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