quinta-feira, 11 de Setembro de 2014

DEALEMA - Entrevista

No final do ano passado os Dealema chegaram com outra energia e timing à "Alvorada da Alma", quarto longa-duração do grupo de Maze, Fuse, Expeão, DJ Guze e Mundo Segundo largamente conhecido pelo longo e acutilante léxico de rimas e batidas de fazer homens e mulheres olhar de outra forma para dentro e para fora e um dos grandes responsáveis por chamar a atenção para outros protagonistas, problemas e cenários que acabariam por ver reconhecida a sua relevância ao longo das suas quase duas décadas de carreira. 
Homens de família e de dádivas várias como as respectivas carreiras a solo e, recentemente, o Oblá FM nas antenas da rádio na véspera de nova festa histórica com os Mind da Gap num dos palcos do NOS Em D'Bandada, a Praça dos Poveiros: qual é, afinal, o "factor X" do sucesso e, sobretudo, reconhecimento a la Wu-Tang Clan dos Dealema?
Eles explicam que, na nação hip-hop que ajudaram a criar, não há nenhum e são muitos.






BandCom (BC): Qual foi o momento mais difícil que os Dealema viveram ao longo de todos estes anos?

Dealema: Os momentos mais difíceis talvez tenham sido os anos que antecederam o lançamento do primeiro álbum pois andávamos a tentar perseguir o sonho de podermos levar o nosso projecto mais além e com as vidas ocupadas que tínhamos pouco tempo nos sobrava para nos dedicarmos à música com a devida atenção que esta merece.


BC: Com filhos para educar e relações para estimar num Portugal também diferente, a relação entre fontes de inspiração e dificuldades pelo caminho está mais ou menos favorável?

Dealema: A nossa música sempre foi e será um reflexo do que somos e do que passamos portanto seja qual for a situação em que estivermos será sempre um momento de aprendizagem de onde poderemos extrair algo para criar mais e melhor.


BC: A existência de várias carreiras a solo de membros dos Dealema também tem contribuído para que o grupo se mantenha coeso por tanto tempo?

Dealema: Sim, os projectos a solo, além de nos permitirem experimentar outras texturas sonoras que caracterizam cada um como individuo, funcionam também como uma dose extra de motivação para os projectos que se seguem; por conseguinte isso torna-se uma mais valia para o projecto Dealema.


BC: Sucedendo a um disco mais denso e negro, encontramos talvez o disco mais luminoso dos Dealema. Contudo, este álbum também funciona se visto como uma peça isolada da vossa discografia. Juntando os vários conceitos que têm definido cada um dos álbuns que lançaram, era esta a altura exacta para que a história que têm contado tenha, como nas palavras do Mundo a solo, um “raio de luz”?

Dealema: Visto que atravessamos uma fase de crise financeira e de valores não fazia sentido criar algo que nos trouxesse mais para baixo interiormente mas sim exactamente o oposto, dai o conceito "Alvorada da alma" ,o renascer de uma nova esperança onde a mudança surge de dentro para fora.





BC: Certamente que com a “Bom Dia” tiveram feedback de quem nunca vos tinha ouvido antes ou que não seguia tanto o vosso percurso. Mesmo com a projecção maior e diferente do hip-hop hoje em dia, as pessoas ainda convivem melhor com os refrões mais tradicionais e luminosos de outros géneros que não o hip-hop “puro e duro”?   

Dealema: A “Bom Dia” foi mesmo o melhor cartão de visita para o “Alvorada da Alma”, o refrão do Ace entra com facilidade para o subconsciente! É um facto que a melodia no refrão é continua a ser mais apelativa para um público generalista do que os refrões com rap.


BC: “Alvorada da Alma” é uma expressão que, à semelhança d’ “A Grande Tribulação”, está espalhada pelo vosso passado e especialmente por algumas das letras mais emblemáticas dos Dealema. De certo modo, um trabalho com este nome já deveria/poderia ter sido lançado há mais tempo?

Dealema: Com este nome talvez pudesse, visto que usamos muitas referência do nosso próprio universo, mas nunca com esta sonoridade e maturidade. Este disco vem no tempo certo.


BC: A “Alvorada da Alma” marcou, de certo modo, o regresso e o solidificar do lugar dos Dealema para públicos maiores. É, para vocês, o capítulo mais bem sucedido da vossa carreira?

Dealema: Nós já cá andamos há 18 anos, já conhecemos muito bem a montanha russa que é a indústria musical neste país, a persistência e a vontade de fazer música que gostamos leva-nos a continuar sempre independentemente de uma aceitação exterior. De facto este disco fez-nos chegar a um público maior que o habitual público consumidor de hip-hop, mas isso também tinha acontecido no nosso primeiro álbum. Continuaremos a rimar das entranhas.


BC: Este último trabalho traz à tona a soul, o funk, até o boom bap, outras sonoridades que no resultado final complementam, não raras vezes na perfeição, o que é característico dos Dealema. Conhecendo o contexto em que o hip-hop surge e a necessidade de que haja sempre alma e sentido de ritmo por detrás dos seus intérpretes ou canções, estas novas nuances têm correspondência com algo que nunca tinham feito antes enquanto grupo ou antes vêm acentuar algo que já existia? 

Dealema: Nós somos amantes da soul, do funk e crescemos com o boom bap clássico da era dourada do hip-hop, os anos noventa, e tudo isto faz parte do nosso DNA, temos vindo a abordar estes terrenos ao longo da nossa carreira, mas nunca antes como neste álbum em que nos dedicamos apenas a estas sonoridades.


BC: O público noutros países pode ser sempre uma incógnita para uma banda, sobretudo quando continua a somar anos de carreira. Têm tido feedback de quem vos ouve noutros países? Além de vos pedirem sempre para ir tocar ao seu país, já houve quem tentasse ultrapassar esse desejo vindo a Portugal para assistir a um dos vossos concertos?

Dealema: Sempre recebemos muito carinho de todos os países lusófonos e das comunidades portuguesas emigradas por todo o mundo, mas desde que temos Facebook esse contacto é mais directo e intensificou-se. Ao longo de todos estes anos já tivemos muitas surpresas no fim de concertos com pessoas a revelarem que viajaram de propósito para nos ver, ou que fizeram muitos quilómetros especialmente para estar connosco.





BC: Como é que os Dealema se têm adaptado ao hip-hop do século XXI, em especial ao destes “anos 10”? São especialmente saudosistas (para além das letras em que mostram esse lado)?

Dealema: A adaptação é natural, os tempos mudam nós mudamos com eles, esse saudosismo pelos bons velhos tempos irá sempre existir, mas nunca nos limita, queremos estar sempre à frente a puxar o barco.


BC: Por tradição, os artistas bem sucedidos no hip-hop cresceram com pouco, alguns enriquecem mais do que outros e, muitas das vezes, os que mais sucesso têm acabam por ter cada vez menos relevo na mensagem que transmitem. Por outro lado, vemos alguns artistas com interesse e destaque, inclusivamente licenciados, a encontrarem conforto no hip-hop e outros fazem da música a sua “universidade da vida” de tal forma que poucos podem rivalizar com tamanho enriquecimento cultural. Ainda é difícil que os públicos mais maduros reconheçam o mérito de quem produz hip-hop e que, em alternativa, os mais jovens mantenham o foco no que há 20 anos atrás era essencial, como a palavra?    

Dealema: Felizmente o nosso público de há 18 anos atrás continua a seguir o nosso trabalho e agora os filhos deles também, e a palavra continua a ter o poder de mudar mentalidades. "A Palavra é a Arma"! Muitas barreiras desabaram nestes 20 anos, o hip-hop hoje em dia chega a um público cada vez mais vasto e cada vez existem projectos mais diversificados capazes de alimentar nichos e públicos muito específicos.


BC: São 12 no total os convidados dos Dealema para este “Alvorada da Alma”. Actualmente, a relação entre os artistas do hip-hop em Portugal é diferente daquela que sentiam ou viviam no início da vossa carreira?

Dealema: Sim, esses laços entre quem já anda por cá há algum tempo estreitaram-se, e as amizades foram crescendo com o tempo, com muitos palcos e backstages partilhados.


BC: Recentemente, a mediatização excessiva dos meets alertou também para os problemas dos eventos gratuitos. Qual a vossa opinião sobre os eventos em que os espectadores não têm de pagar entrada para assistir? Alguma vez assistiram a algum comportamento mais ofensivo entre o público nas vossas actuações ou têm receio de que isso possa acontecer?

Dealema: Os nossos concertos são rituais de celebração, reuniões de paz, amor e harmonia. É isso que cultivamos no nosso público desde 96.


BC: Como se estão a preparar para o frente a frente com os Mind Da Gap nos Poveiros para o NOS Em D’Bandada?  

Dealema: Os Mind da Gap são família. Nunca é um frente a frente, é sempre um lado a lado.

André Gomes de Abreu




quarta-feira, 10 de Setembro de 2014

KILLIMANJARO - "Hook" (2014, Lovers & Lollypops)




3 anos depois do homónimo EP "Killimanjaro", surge o primeiro LP da banda de Barcelos intitulado "Hook". Se o registo precedente editado em 2011 já nos tinha deixado muito boas indicações, "Hook" só veio confirmar o que já se tinha pressentido. 
Mais do que (mais) uma confirmação de que a Lovers & Lollypops está quase em todas, de que ainda há rock genuíno, sentido, e vivido com paixão em Portugal, este álbum veio dar uma chapada a todos aqueles que ainda ousam dizer que “no tempo deles é que era”. Uma chapada com a mesma força que recebi quando os vi pela primeira vez ao vivo, mesmo depois de já ter ouvido "Killimanjaro". 




Nas 8 faixas, há rock para todos os gostos, simples e eficaz, com riffs agressivos e acertados. A voz de José Roberto Gomes continua potente e a cheirar a whisky, a bateria a martelar a violência impulsionada pela voz do líder (ou o contrário) e a guitarra a dar-nos as últimas punhaladas. Um rock “à antiga” feito para os amadores do género, que tanto apreciam uma malha mais diletante como “Drowned” como um tema mais aceso como “New Tricks/Old Dogs”. 
Em “Howling”, a sensibilidade artίstica, criativa e a versatilidade da voz de José Roberto Gomes são elevadas ao máximo, propondo um lado mais melancólico, emotivo num dos temas mais intensos e também um dos mais longos. Já na faixa que dá o nome ao álbum, imagina-se a força ainda maior que ela deve ter quando é tocada ao vivo – sim, convém imaginá-la porque parece impossίvel ela ter ainda mais força ao vivo do que no disco.
”Shortie” segue precisamente nessa via, mesmo que a violência aqui ganhe maior relevância, nunca sendo porém excluίda a veia dançante. Porém, a balada “Seventeen” serve, quanto a ela, de ansiolίtico pós-festa. A guitarra, o baixo e a bateria tornam-se mais lentas, aéreas: uma malha instrumental na qual mal intervém o vocalista do grupo.
“Damselfy” e "December" fecham o registo novamente a alternar entre o rock mais em bruto e o mais punk e gingão, com livre voz para os voos dos riffs e fecha um trabalho compacto, coerente e, acima de tudo, vivo.






Um regresso em cheio de uns Killimanjaro cujo trabalho do vocalista não é em nada facilitado pela dureza e potência dos diversos instrumentos impulsionados pelos restantes elementos da banda, que o obrigam a superar-se a si próprio para poder oferecer este resultado brilhante, cheio de garra, tanto em espectáculo como no estúdio. Não se sabe bem de que tempo se fala em língua nostálgica, mas não é de certeza aquele onde abundam jovens aos quais dar o controlo das operações não seja um risco. Estamos bem onde estamos. 

Mickaël C. de Oliveira




terça-feira, 9 de Setembro de 2014

NIAGARA - "Ouro Oeste" (2013, Príncipe Discos)




Por vezes, a grandiosidade e a própria grandeza de um país confundem-se. O fenómeno Príncipe Discos é tão endémico como o dark-minimal mais a Norte, mas as repercussões no exterior são de idêntica dimensão e contrastam largamente com o impacto no próprio país ou na própria área metropolitana vizinha ou rival.
Todavia, não vai haver forma de parar a enésima revolução musical baseada em alimentar as pernas e injectar serotonina na "fonte", mas terá de haver uma maneira de a preservar. A geração de uma nova identidade é essencial, mas no caso dos NIAGARA, trio formado por António, Alberto e Sara, o epicentro está todo na recuperação do essencial da música house.






"Ouro Oeste" é, de facto, algo que se julgava perdido para o progresso da música house: referências a outros lugares menos conhecidos do techno de que se tem abusado, a outras experiências e a outros convites aceites. A homenagem aos beats sólidos e ligeiramente old-school faz-se de forma decente e precisa fazendo balançar o groove mais para o lado acid-house quando se exige e até com mais psicodelia quando o abstracto e o minimal não chegam, nos máximos down-pitched de "Urmeiras" e "Verde" em que a simbiose é perfeita e não se sabe que componentes do tema estão a engolir ou a ser servis em alto mar. 
Enquanto rotineiramente vemos quem pegue pela exploração e desaceleramento de outros ritmos africanos que não o kuduro, os NIAGARA fazem a exploração estética da electrónica por detrás do house, desenrolam a trela e tornam-no igualmente tão inominável e hipnótico que não há pedalada para o trance.
Algo ao alcance de poucos e a manter fora do alcance de poucos. 






Dos confins da nova música portuguesa de dança no Bairro Alto ou no Cais do Sodré para a selecção dos melhores clubes do Mundo, o caminho faz-se pelo vigor da brisa de "Ouro Oeste".  


André Gomes de Abreu   
   




segunda-feira, 8 de Setembro de 2014

ASIMOV - Entrevista

Não é de todo ficção científica que os Brainwashed By Amalia, Mamute ou mesmo os The No-Counts Doctrine of Mayhem tenham feito parte de um pequeno grupo de verdadeiros "combatentes" que inspiraram rapidamente a diversidade actual da cena musical portuguesa quando a Merzbau e a Bor Land ainda estavam bem activas e mesmo quando os Novos Talentos FNAC não custavam meramente 4€ mas sim a presença por vários locais de música ao vivo e boas horas de pesquisa e audições.
Os Asimov, Carlos Ferreira e João Arsénio, estiveram em alguns destes momentos e agora explicam-nos que nem sempre foi tudo assim, que nem sempre o que vemos agora é o mesmo que conhecemos há alguns anos atrás mas que serviu para termos quem possa levar história musical menos mainstream nos seus dedos.
Para corolário de tudo isto, Carlos Ferreira aceitou responder a algumas questões sobre uma das bandas que se estreia ao vivo em festivais de maior dimensão na muito refrescante armada portuguesa do Reverence Valada, festival deveras evocativo dos rios que delimitaram e delimitam alguns focos de vida artística e editorial, e que estará a poucas horas de diferença a tocar com referências basilares da sua sonoridade. Descubram as diferenças, se faz favor. 






BandCom (BC): Se pensarmos na obra do Asimov, com que livro mais se identificam? Porquê?

Carlos Ferreira (CF): Creio que é a colecção de contos "Nove Amanhãs". Como fã dos Hawkwind, interessei-me por ficção científica no final dos anos 90. Nomes como Robert Moorcock, Philip K. Dick e Isaac Asimov apareciam referenciados várias vezes mestres do sci-fi. Então, quando encontrei o "Nove Amanhãs", comprei para saber ao certo quem era o Asimov e o que é que ele escrevia ao certo. Desde essa altura, já li vários livros dele mas tenho um carinho especial por esses nove contos de um futuro não tão fantasioso quanto isso.


BC: Os Asimov têm cerca de 3 anos de existência, já uma experiência de palco assinalável e parecem estar com condições para lançar-se para outros voos maiores. Apesar de já terem estado noutras bandas, sentem que o tempo que estão a demorar a ganhar notoriedade poderá ser inferior pelas experiências do passado?

CF: A nossa ideia é um pouco "quando as coisas tiverem de acontecer, acontecem". Claro que o facto de já termos alguma experiência nos dá um pouco mais de traquejo para evitar erros do passado mas não temos pressa de chegar a algum lado específico. Temos os nossos objectivos mas gostamos de fazer as coisas à nossa maneira e ao nosso ritmo. Assim não estamos tão dependentes de ninguém ou tão permeáveis ao que é esperado de uma banda de heavy psych rock como a nossa.


BC: “Overseas” significa “ultramar”. Tendo nós um “Ultramar” no passado, este novo trabalho é feito do imaginário que se alicerça nessa análise às raízes passadas?

CF: Não necessariamente numa análise profunda mas numa análise mais pessoal de quem teve os pais na guerra. Podemos realmente falar a fundo sobre o que achamos do conflito e de como achamos que ainda não há uma grande noção do que foi a guerra colonial e do que implica ter de viver em situação de guerra. A angústia da partida e a dúvida sobre se aquela pessoa volta intacta e pelo seu pé ou se volta estropiada ou numa caixa deve ser tão terrível que não há como o imaginar.
O nosso foco recaiu em como é que terá sido para os nossos pais estar numa guerra. Pura e simplesmente, é-nos inconcebível a ideia de "viver em guerra". Para mais, nós somos a geração que nasceu depois da guerra e do fascismo. O nosso primeiro contacto com esses tempos vem de histórias que os nossos pais nos contam quase como histórias da carochinha e não como reais. Não temos como saber como é que seria. Como é que seria ir para África em busca de algo melhor, sem saber à custa de quê e de quem e deparar-nos com a realidade vivida no local? Como será ter 18/20 anos e ser enviado para outro continente para combater quando só se quer é viver a vidinha? Em parte, é uma homenagem aos nossos pais. Não como soldados ou pelos seus feitos militares mas sim como putos que tiveram de passar por situações extremas só porque lhes disseram que era o que tinha de ser feito.





BC: Do primeiro para o segundo disco o que sentem que muda? É uma abordagem diferente às mesmas referências ou a um maior número de referências? 

CF: Para nós, o segundo disco é uma continuação do primeiro. É óbvio que há diferenças entre os dois. Enquanto o "Algures No Mundo É Noite" tinha o conceito de fazer um álbum de classic rock à anos 70, com os clichés e o azeite envolvido, neste quisemos fazer algo mais refinado. Não que tenha sido pensado clinicamente. Foi um processo natural e esperamos evoluir no próximo disco sem que percamos contacto com o que nós começámos a fazer no primeiro e segundo disco.


BC: Estando os Asimov fortemente ligados ao rock n’roll, mais ou menos psicadélico, blues, folk ou stoner, quanta é a capacidade de invenção que sobra quando já tantos nomes sonantes tentaram seguir os mesmos caminhos e internacionalmente há cada vez mais banda a saírem do underground com as mesmas referências? Por outro lado, notamos que as músicas de Asimov têm tendência a não se estenderem muito e a serem mais directas. É algo que vos agrada/já compuseram outras canções mais compridas que vos agradassem para além da “Grim Harvest...”, da “On Through The Night” e da “Kingsize Mark”?

CF: Nós nunca fizemos músicas com a ideia que têm que ter "X" duração. Acontece. Quando compomos, é um processo quase instintivo de definir para onde é que a música vai. Uma música tanto pode ir até aos dois minutos, como pode ir até aos dez e como tanto pode ultrapassar os quinze minutos. Só porque tocamos um estilo que tem músicas longas como imagem de marca, não quer dizer que o tenhamos de fazer obrigatoriamente.
Quanto à capacidade de invenção, isso depende de coisas que não se explicam como, por exemplo, a inspiração. É diferente de pessoa para pessoa e a mesma referência pode inspirar visões diferentes. É como contar uma história mas com outro ponto de vista, outras metáforas e outras imagens.


BC: Os Asimov são um dos casos de uma banda que tem a sua própria editora para lançar os seus discos – neste caso, a BlackCat Records 1965. Não há espaço para a vossa música ou, contudo, há também a vontade de usar a BlackCat para dar espaço a outras bandas que apreciam?

CF: Há espaço para os nossos discos mas em vez de perdermos tempo à procura de uma editora, enviarmos demos e ficarmos à espera de uma resposta, como já fizemos com bandas anteriores onde tocámos, decidimos tomar uma atitude mais "do it yourself" e lançarmos nós o disco. Apesar de ser uma estratégia mais associada ao punk/hardcore, há uma quantidade infindável de bandas heavy rock e psych que também o faziam. No punk/hardcore chama-se "do it yourself", no heavy, no psych e no rock chama-se "private pressing" mas é a mesma coisa. 
A Black Cat Records 1965 está em vias de editar um single de sete polegadas de Peter Wood, um fingerpicking folk bluesman do Cacém. Já está gravado há algum tempo mas ainda não tem data de lançamento. Como é financiada por nós, não temos como nos tornar numa editora capaz de editar muitos projectos mas talvez no futuro o consigamos fazer.


BC: O lançamento do “Overseas” veio beneficiar a vossa internacionalização?

CF: Nós temos tocado este álbum em Portugal com imensas bandas estrangeiras e isso abre logo portas de contacto para um próximo passo. Nesse sentido, o Reverence é o melhor evento para ser banda de abertura. 
Com o primeiro álbum tivemos distribuição internacional com a Clearspot/Shiny Beast da Holanda e este também lá está para o Mundo conhecer e ter acesso aos discos de Asimov. Estivemos prestes a ir duas vezes ao estrangeiro (Espanha e Escócia) mas, infelizmente, ainda não conseguimos fazer a nossa estreia fora do país. Como dissemos antes nesta entrevista, as coisas acontecem quando tiverem de acontecer e nós queremos que isso aconteça. Quando acharmos que as condições estão reunidas para o fazer, há de acontecer naturalmente.


BC: Como surge, entretanto, “Asimov Folkways”?

CF: Surge por haver interesse também no acid folk e no folk blues. No entanto, são estilos algo díspares do que fazemos como Asimov. Então, para não haver um choque entre as duas vertentes musicais, Asimov Folkways é o veículo para os nossos demónios acid delta folk blues e Asimov é o nosso veículo para os demónios do volume, distorção, fuzz e improviso.


BC: Os Asimov vão fazer parte do cartaz do Reverence Valada. Para um alinhamento tão extenso, quem é que falta neste cartaz que poderia nele encaixar e que gostariam de ver ou ouvir? Este festival é também uma oportunidade de novos nomes emergirem nos cartazes e de se mostrarem a outros palcos, a outros festivais, a outros cartazes dos quais não é fácil fazerem parte?

CF: O Reverence é um excelente cartão de visita para bandas novas ou com pouca visibilidade. Poder dizer "nós somos banda 'X' e estamos no mesmo cartaz de bandas como os Hawkwind, Electric Wizard, Red Fang ou Graveyard" é sinal de credibilidade. O convite para nós lá tocarmos não foi feito por favor mas sim pelo reconhecimento no nosso trabalho. Para mim, que ouço Hawkwind desde os nove anos, é uma espécie de sonho tornado realidade (por mais lamechas que isto possa soar). Nunca na minha vida imaginaria que um dia ia tocar no mesmo dia de Hawkwind e sei também que o João sente a mesma coisa, não só em relação aos Hawkwind como a muitas mais.
Em relação ao que faz falta ao festival, Goat é o nome que salta à vista. Sabemos que o Reverence tentou "apanhá-los" mas os suecos foram parar ao Paredes de Coura. O Reverence seria definitivamente o festival perfeito para eles em Portugal mas a vida é assim. Talvez aconteça na próxima edição do festival.


BC: Qual é a vossa opinião sobre a cena psicadélica em Portugal, quando parece haver uma tendência internacional de bandas com algumas influências psicadélicas ganharem mais notoriedade mesmo sobre bandas que se mantêm mais fiéis ao rock psicadélico?

CF: Nós tivemos uma banda chamada Brainwashed By Amalia que, tirando uma reunião em 2013 para o festival Re-Sonic Fest, tocou entre 2000 e 2005. Na altura, quando dizíamos que tocávamos rock psicadélico, muita gente não se interessou porque não era "cool" gostar de rock e, tirando um par de cromos, coleccionadores ou curiosos em música, nomes como Hawkwind, Blue Cheer, MC5 ou Thirteenth Floor Elevators não eram comuns como hoje em dia.
O que era credível era música com laptops e pós-rock. Ou então, bandas como os Strokes é que eram os grandes salvadores do rock (em detrimento de bandas mais genuínas nesse papel como os Make Up). A ser mais direccionado para os anos 60, era o garage. Música psicadélica era reduzida a Hippies e Woodstock e rock era reduzido ao azeite de um best of do 2001, a discoteca Catedral do Rock no Autódromo do Estoril. Havia também pessoal que, se agora anda a tocar música psicadélica, na altura estava preso a estilos como o hardcore ou o grunge de um modo quase fundamentalista. 
Para nós, é bom que haja esta atenção mas pode haver o risco de saturação e de os media classificarem tudo como psicadélico, desviando talvez a atenção de bandas que andem a fazer este tipo de música há mais tempo. Na verdade, o que é ser psicadélico. Pode tomar tantas formas. Até os ABBA têm músicas que podem ser consideradas psicadélicas.





BC: A Internet é uma ajuda decisiva a que o mapa do rock psicadélico passe a incluir 
Portugal e que o mapa musical português passe a descentralizar música e associar 
outras cidades a outra oferta musical?

CF: A Internet é uma ajuda. Dilui distâncias. Ao mesmo tempo, há tanta informação a rolar em simultâneo que não há como gerir tanta informação ao mesmo tempo. Mas, de facto, quebra barreiras e é mais fácil para sítios como Barcelos passar de ser um ponto de referência nacional a referência internacional. Torna também mais fácil explorar a cena underground de países como a Suécia, Austrália, Brasil ou Japão.


BC: Como vêem o futuro de Asimov? Quais os vossos planos?

CF: De momento, já temos concertos agendados até Outubro e mais alguns em vista para Novembro. Também estamos a compor o nosso terceiro disco com planos de o começar a gravar em breve. Aliás, já tocamos imensas músicas novas nos concertos que não vêm em nenhum álbum e que farão parte desse terceiro disco. Queríamos ver também se conseguíamos finalmente tocar fora do país. Cá dentro, queremos chegar a mais gente e sair mais vezes de Lisboa e da zona Centro. 
Basicamente, vamos continuar a fazer o que temos feito até agora, tentar chegar ao maior número de pessoas possível e tocar o máximo de vezes possível. Já dizia o outro: "it's a long way to the top if you want to rock and roll"!

André Gomes de Abreu




domingo, 7 de Setembro de 2014

DE E POR: TIGERWOLFE: "Tigerwolfe" (2014, Ed. Autor)

“Sejam honestos, caralho!”.
No despertar dos sentidos criativos, a audição foi o mais importante na estreia do projecto Tigerwolfe do lisboeta Gonçalo Cunha, nascido em 1991 e inspirado no thylacine, ou tigre da Tasmânia, um dos maiores marsupiais predador de sempre, enigmático e singular e que entretanto foi perseguido pelos caçadores e, ao que parece, extinto no início do século passado em cativeiro e, em última análise, por negligência.
Assimilando a mesma forma de se comportar, aqui a audição a pouco e pouco equilibra e a mente ajusta os sons que o rodeiam de uma forma mais ou menos natural a um objectivo que sem meios não tem um fim, que sem algo diferente não pode satisfazer e distanciar-se da clara órbita do techno ruminado e emocionalmente desacelerado de Nicolas Jaar, Jon Hopkins, Pantha Du Prince ou Matthew Herbert.
Claramente, todas as evidências parecem ser negadas menos a clara noção de música para um espaço mínimo e difuso que, por isso, acaba por caber em vários mais determinados, neste caso, pela natureza, por um modo de vida, pelo imutável.
Para trás ficaram outras fases ainda mais conceptuais e, por incrível que possa parecer, talvez menos abertas à experimentação. A capacidade de adaptação, o "não dizer não a nada que não se tivesse planeado", é o grande mote para estes 5 curtos actos de um filme imaginário que vamos conhecer melhor. Quem sabe se o domínio dos vossos auscultadores não estará garantido.








Duque de Loulé Waste of Mind

Na primeira música comecei por gravar as vozes, com um iPhone. Guardei-as e
esperei ter a linha de órgão de igreja, feito com synths electrónicos. Depois,
inseri a batida e a linha de baixo, que foi roubada duma música do Nas, a “NY
State of Mind”. Nas é um rapper de New York que, tal como muitos outros, foram
roubando coisas de ali e de aqui. Então não me senti mal e toquei a linha dessa
música na minha. Em homenagem, dei o nome de “Duque de Loulé Waste of
Mind”.


Um Dia Inteiro

A segunda música, que no início parece ser alguém a chegar a casa, foi criada
com samples. Isto foi bastante importante durante a fase criativa, porque eu
sempre quis utilizar sons reais.
Para esta mesma música um grande amigo meu, o Luís Silva - que não sei
porque é que tem este nome se toda a gente o chama Peixoto - gravou comigo
umas sessões, em que ele tocava num vibrafone e eu ia tocando a faixa em live
act enquanto gravámos tudo em tempo real. Com isto, tudo o que foi preciso
fazer fora do software que eu utilizo, o Ableton Live, esta feito. Importo tudo e
continuo a produzir, com tudo o que já lá estava inserido e que fui
acrescentando à medida do tempo.
Acabou assim por ser uma faixa de 12 minutos, que tem duas partes, chamada
“Um Dia Inteiro”. O tema para cada parte é a “chegada” e o “permanecer”.


(1964)

A terceira música é um prelúdio para a quarta música. É um excerto dum
documentário dos anos 60 de duas pessoas que vão á procura de descobrir a
verdade sobre o “Tigre da Tasmânia”. O documentário tem tudo a ver com o
que eu quero e utilizo-o, cortando e colando apenas as partes que podem ser
mais fiéis àquilo que eu quero.


Da Selva

A quarta música é o single do álbum. Quis fazer uma faixa de cinco minutos
com uma estrutura mais fácil de ouvir. Tive então no estúdio da banda do
Guilherme, um amigo meu que é membro d' Os Alice, a compor o início da
faixa e a falar sobre o que fazer para atingir o que eu queria. Em casa
completei-a utilizando uma mistura de ritmos de tambores com uma batida mais
“4/4” a 100 bpm's. Inseri sons de selva e synths digitais - chamei-a “Da Selva”.


I'm Still Here

Quis fechar o álbum voltando ao documentário e inserindo a segunda parte,

sendo esta a parte do filme em que as duas pessoas vão entrevistar um professor
que acredita na existência do animal. Tal como eu.
Manipulei os samples, repeti-os enquanto mudava a transposição das notas.
Chama-se “I’m Still Here”. Acaba assim o álbum com uma faixa que prepara a chegada de muitas mais.




quinta-feira, 4 de Setembro de 2014

O EXPERIMENTAR - Entrevista

É a partir da primeira edição dos Prémios Megafone que sobressai uma das mais belas aventuras da música portuguesa dos últimos tempos. Transglobal, underground, nem muito tradicional, tão pouco vanguardista, que nem DJ Shadow nem os Gaiteiros de Lisboa recusariam em pleno calçadão de Copacabana.
O protagonista é o açoriano Pedro Lucas aka Septimus Warren 
Smith, que embora não se tenha sobreposto aos Galandum Galundaina em Outubro de 2010, mostrava o percurso de regresso à música tradicional com que convivia de perto na infância e se desligou quando passou a adolescente. Depois de estudar e aperfeiçoar, na teoria e no terreno, a sua cidadania musical, aquilo que era inicialmente uma brincadeira transformou-se no convite para que todos pudessem redescobrir o cancioneiro das ilhas e, em especial, "O Cantar Na M' Incomoda", disco do ex-vocalista da Brigada Vítor Jara e membro do Trio Fragata Carlos Medeiros que passou quase despercebido por entre o universo da música tradicional portuguesa há mais de 15 anos. Nascia assim O Experimentar Na M' Incomoda, a amizade e respeito por Carlos Medeiros mantém-se até hoje, mas O Experimentar Na M' Incomoda é agora apenas O Experimentar.
Silenciosamente despertou e silenciosamente hibernou, mas a dupla Medeiros/Lucas, recolectores de inspiração mútua, volta ao continente em Outubro como parte do cartaz da 8ª edição do Jameson Urban Routes para estrear novas paisagens de um novo disco. Pedro Lucas, a determinada altura agente e promotor na editora Transformadores, conta agora um pouco mais sobre a evolução e transformação deste projecto e daqueles que o rodeiam. Uma prova de amor em nome de qualquer português. 





BandCom (BC): “O Experimentar Na M’ Incomoda” era simplesmente um nome extenso e/ou já desadequado para este projecto ou o experimentar já não vos incomoda de todo?

Pedro Lucas (PL): Experimentar nunca incomodou de todo. A mudança de nome foi só uma simplificação. 



BC: Antes de O Experimentar, tiveram o sonho de ser rockstars ou apenas sonha(ra)m ser portugueses bem sucedidos e conquistar o Mundo com a tradição portuguesa mas de uma forma diferente da que religiosamente é conhecida lá fora? Pensaram alguma vez em regressar ao passado e a outros projectos que por lá ficaram?

PL: Em primeiro lugar sempre estiveram os discos, o desafio de fazer música de que gostasse e a ideia de construir um percurso. Esta sempre foi a forma de “conquistar o mundo”, a tradição portuguesa nunca foi um meio para chegar a lado nenhum. Quanto ao passado dá sempre para lá regressar e buscar ideias.


BC: Ainda se surpreendem a redescobrir o cancioneiro tradicional açoriano? Este pano de fundo açoriano vai-se manter ou antes dar lugar a outras inspirações? 

PL: O Experimentar neste está em hibernação. Se voltarmos a fazer alguma coisa será com outra matriz. Se bem que ainda há um ou outro tema que ficou por gravar.
  

BC: As opções que tomaram para reinventar alguns dos temas com que se foram deparando reflectem mais o que ouvem/ouviam ou o que se adequa em específico a alguma canção?

PL: Obviamente, os dois.





BC: A ambição de O Experimentar com o agitar das raízes tem paralelo evidente recentemente, talvez, em B Fachada e nos Ermo. O trabalho de outras pessoas ligadas à música tradicional portuguesa, como executantes ou colectores, serve como uma fonte de inspiração ou como um alerta para saberem por onde querem e não querem ir?

PL: Mais uma vez, serve para ambos. 


BC: Apesar da primeira edição dos Prémios Megafone ter sido ganha pelos Galandum Galundaina, com quem o João Aguardela queria ter colaborado, para O Experimentar ficou, apesar de tudo, uma menção honrosa de realce para o futuro e uma relação com A Naifa aprofundada ao nível da colaboração da Mitó e do Luís Varatojo em alguns concertos e do António Bragança na produção dos vossos discos. É uma relação próxima, de respeito/admiração, a que se mantém? 

PL: (Correção, o Luís nunca tocou connosco). A Naifa, cujos elementos fazem parte da Associação Megafone, acarinhou e apoiou muito este projecto desde o berço, quase, e só lhes devo gratidão. Existe de facto respeito e admiração mútuos, pelo trabalho de cada um. Na realidade, há pouco tempo em conversa com o Pedro Gaspar, chegámos à conclusão que uma continuação d’O Experimentar passaria muito por seguir a fórmula que eles encontraram, que é perfeita - fazer música original e moderna a partir de poesia contemporânea, utilizando influências de música tradicional. Obviamente que nós teríamos de encontrar o nosso próprio caminho.

BC: Já este ano morreu, entre outros, Manuel Medeiros Ferreira, o autor das “Ilhas de Bruma”, canção que felizmente puderam revisitar no primeiro volume. Temem que, com o passar do tempo, seja cada vez mais difícil trabalhar com ou ter a opinião de quem originalmente escreveu as canções?

PL: É um grande privilégio ter podido sentar-me com o Manuel Ferreira num jardim em Ponta Delgada e ter-lhe mostrado a minha versão das "Ilhas de Bruma" mas de certa forma é só isso. É preciso aproveitar as oportunidades mas a vida continua. Se não poder trabalhar com X terei de ir à procura de Y e isso vai ser um trabalho diferente, mas não faz mal.  


BC: Quem é que nomeariam para uma edição futura dos Prémios Megafone e, por outro lado, elegem para a vossa playlist entre os artistas nacionais? E por que razões?

PL: Nâo vou nomear ninguém mas posso dar uma lista de coisas que gosto de ouvir (e por ordem alfabética): B Fachada, Buraka [Som Sistema], Capitão Fausto, Dead Combo, Ermo, Filho da Mãe, Lula Pena, A Naifa, Norberto Lobo, Ricardo Ribeiro, [The Legendary] Tiger Man, Throes + The Shine, Zeca Medeiros...muitos mais. 





BC: Toda a imagem de O Experimentar, desde as capas dos discos aos respectivos videoclips, tem em linha de conta ou em linha de horizonte o que se quer transmitir com a música produzida?

PL: Sim. Não esquecer os vídeos dos concertos. 


BC: O panorama actual da música do Mundo passa inegavelmente, a nível europeu, pelo país onde o Pedro vive, a Dinamarca, dados os hábitos de consumo do seu público e mesmo dos seus festivais. A música de O Experimentar poderá ter o seu espaço em países como a Dinamarca, mesmo que não seja algo tipicamente catalogável como música do Mundo?

PL: Discordo bastante. Não acho que Portugal seja inferior à Dinamarca de todo. O FMM e o MED têm uma programação muito mais interessante, nesse espectro musical, que o Roskilde por exemplo, que é a única coisa que tenta dar alguma visibilidade à música do Mundo (o que quer que isso seja). A música d’O Experimentar teria lugar sem dúvida em alguns circuitos aqui.


BC: O Pedro Lucas e o Carlos Medeiros vão em Outubro regressar ao Musicbox para o Jameson Urban Routes depois de outras eventos na capital como o Taina Fest em que estiveram presentes e onde o que apresentaram de novo pareceu ser ligeiramente diferente da lógica de O Experimentar dos dois discos editados. É uma linha mais orgânica de Medeiros/Lucas que deveremos aguardar para esta data e para o novo disco que irão apresentar?

PL: É uma linha diferente, e sim, é bastante mais orgânica. 


BC: E outros planos para o futuro? Regressar ao formato de banda de O Experimentar?

PL: Vamos ver. É sempre uma grande alegria conseguir juntar as pessoas que formaram O Experimentar. 



André Gomes de Abreu




quarta-feira, 3 de Setembro de 2014

DE E POR: O NOVO EP DOS LUPITER




"Imaginary Friend" é o título do EP de estreia que os LUPITER, das Caldas da Rainha, lançaram já este ano no decurso de um fecho de ciclo em que deixaram de se chamar, precisamente, Imaginary Friend e em que o post-rock e o psicadelismo começaram a puxar por uma organização mais complexa de todas as partes. Havia, por isso, que reinventar em pleno desenvolvimento, sem se saber quais os limites. 
Embora neste momento o foco nos novos temas, que vão dar origem a um EP em que começam a trabalhar com afinco a partir deste mês, seja superior em relação aos temas deste registo, e enquanto estes não chegam, quisemos saber mais sobre uma das bandas que já esteve pelos palcos de Paredes de Coura, faz parte do cartaz do Palco Cisma do Indie Music Fest e que vimos ao vivo no FUSING Culture Experience deste ano. Os LUPITER concordaram e, mais do que isso, falaram já sobre as novidades.
 





Marvin Cobain

As músicas no geral acabam por ser uma soma de influências. Neste caso, vem de uma influência não musical. Esta música nasce fortemente inspirada na saga “Sin City” e num volume em particular, “A Hard Goodbye”. A ideia musical em si começou com uma brincadeira de 'delays' na guitarra. O título é uma referência à série “Os Simpsons”, em particular, a um episódio concreto.


Bobi

Este tema é sobre a efemeridade da vida e sobre o desejo algo egoísta de deixar marca. Resolvemos chamar "Bobi" porque este é um nome de proximidade e todos nós temos algo ou alguém próximo que partiu e nos marcou.


Rock & Roll Has Got To Go!

Esta música nasceu de uma ideia de guitarra com uma afinação um pouco fora do habitual. Tematicamente, [os LUPITER] sempre ouviram várias declarações que o 'rock' estava morto e acaba-se por reconhecer a sua capacidade de sobrevivência. Os LUPITER resolveram pegar nalguns discursos que mostravam a mentalidade que havia em relação ao 'rock' nos anos 50. É a sua sátira. E que se aplica a várias situações, ainda hoje, de repulsa de novas ideias.


A Couple Of Jeans & A Shirt

Num ensaio, trabalhámos algumas ideias que o nosso baixista trouxe. Quando estávamos a tentar dar um título a este instrumental, um de nós recebe um SMS. Traduzindo, tivemos o título.




segunda-feira, 1 de Setembro de 2014

INÊS MAGALHÃES (MAGASESSIONS, MAGAFEST) - Entrevista

A casa é de Pedro e Inês Magalhães mas, uma vez por mês, é lugar de concertos íntimos mas de portas abertas a todos os que queiram comparecer no nº10 da Avenida da República, em Lisboa. É desta forma que entre as 18 e as 20 horas, 12 Domingos por ano, acontece magia nas MAGASESSIONS.
Todavia, neste mês, o primeiro Sábado na Casa Independente faz-se a partir das 15 horas dos mesmos pretextos, com vários dos músicos que já passaram pelas MAGASESSIONS, outros com estreias por fazer nestas sessões ou mesmo em formações quase desconhecidas dos palcos. Um MAGAFEST, a primeira edição de um pequeno "mega-festival" para assinalar de forma especial os bons frutos de quase três anos de agir e experimentar.
Ultrapassada a economia de escala, há razões para pedirmos à Inês um exame cronológico das MAGAS e do que ainda está para vir.  






BandCom (BC): Como é olhar para o desenvolvimento das MAGASESSIONS e da sua relação com os músicos após estes 2 anos? O que sentem? Surpreendidos?

Inês Magalhães (IM): É incrível! Feliz é a palavra certa, durante estes dois anos fui construindo as MAGASESSIONS de uma forma constante sem tentar dar um passo maior que a perna, e as coisas naturalmente foram acontecendo.. Acho, e aqui falo 
também por eles, que o que falta é fazer, as ideias passarem para além de 
ideias, e realmente haver a sua construção, mas para isso é preciso trabalho. 
O MAGAFEST vem com a mesma naturalidade, o público foi crescendo, e para 
um evento como este a minha casa pela estrutura que tem não consegue 
receber o mesmo número de pessoas que a Casa Independente. 


BC: Convidar artistas para actuar na tua própria casa é afinal mais altruísta do 
que se possa imaginar quando se pensa no assunto pela primeira vez?

IM: Talvez sim, não sei, diz-me tu. As MAGASESSIONS nasceram da necessidade de 
ter um espaço que fosse tratado com respeito e determinação por quem o 
tivesse, para os músicos que não são ainda conhecidos pudessem vir e 
apresentar o seu trabalho, dar o seu primeiro concerto ficando com material 
para se promover - vídeo e fotografia, e mesmo músicos que já todos 
conhecemos mas que querem este espaço, a intimidade que as MAGA podem 
oferecer, seja para o lançamento do novo álbum de forma a sentirem de perto 
a reacção das pessoas, como para duplas improváveis, ou experiências que 
andam a fazer.


BC: E queixas dos vizinhos?

IM: Felizmente para as MAGASESSIONS não tenho vizinhos, o prédio é quase todo 
só [para] empresas mas, de qualquer forma, os concertos acontecem uma vez por 
mês aos Domingos das 18h às 20h. Parece-me que seria bem acolhido caso os 
tivesse.


BC: Diz-se que o público português é um dos mais calorosos da Europa e até do 
Mundo. Contudo, e quando parece que muitas vezes as palmas e as 
gargalhadas não permitem ultrapassar o distanciamento de um músico que 
continua lá num “pedestal enorme” e imaginário, parece-vos que o público 
que entra por vossa casa apercebe-se e explora a oportunidade que tem de 
contactar de uma forma especial com quem lá vai mostrar algum do seu 
trabalho? 

IM: Sim, provavelmente por o projecto se destacar da oferta que há neste 
momento, apresentando um formato fora do vulgar, alternativo e mais 
receptivo ao diálogo e contacto entre convidados e músicos, [para] quem vem 
assistir a um concerto nas MAGASESSIONS, a primeira reacção é de espanto por 
terem as portas abertas e conseguirem usufruir de um espectáculo onde eles 
próprios fazem parte. Mas não por parte do público como também dos 
próprios músicos que gostam dessa intimidade com quem os ouve, de 
poderem sentir à distancia de um braço a reacção do que vão tocando.


BC: O cartaz do MAGAFEST é uma boa montra do que acontece nas MAGASESSIONS 
uma vez por mês? Vamos ter um festival inteiramente dedicado à música?

IM: Sim, a primeira edição será completamente dedicada à música.





BC: Segundo o site das Magasessions, embora sejam uma minoria, alguns dos 
artistas presentes no Magafest não puderam tocar na vossa casa até à data. 
Continua a ser mais a vossa preferência e amizade que ajuda a determinar a 
sua presença neste festival ou agora também a relevância e adequação ao 
conceito de uns Memória de Peixe ou de um JP Simões o acaba por justificar? 

IM: A maior parte dos músicos que integram o cartaz já foram tocar às 
MAGASESSIONS, inclusive um dos Memória de Peixe (de que fazem parte o 
Miguel Nicolau e o Marco Franco) que veio dia 28 de Abril de 2013 com o 
Rodrigo Pinheiro dar um belíssimo concerto; mas mesmo os que não foram 
como é o caso do Bruno Pernadas e JP Simões, por se identificarem com o 
projecto e também por quererem dar força a este tipo de iniciativas aderiram 
com entusiasmo logo que lhes propus.


BC: Que magia para um concerto representa o ideário de um Domingo ao final da 
tarde para vós?

IM: Para mim, um bom concerto é aquele que sem notares começaste a viajar e 
quando dás por ti é porque estás a voltar.



BC: Poderia ter havido outro local, mesmo ao ar livre, a acolher este MAGAFEST que 
não a Casa Independente ou para que continuasse a ser especial não poderia 
passar da Casa do Pedro e Inês para outra casa qualquer?

IM: Gosto de dizer que a Casa Independente, tal como a minha, é uma casa 
igualmente livre, por isso, e também pela linha musical, gráfica ou a própria 
casa, não poderia ter sido noutro sítio a primeira edição do MAGAFEST.


BC: Abrirem a vossa casa desta maneira é uma militância, uma forma de também 
desafiar a cidade e os seus agentes culturais a abrirem mais portas para os 
artistas, inclusivamente até para ensaiarem? 

IM: Sim, quando tens tantos músicos a aparecerem, ou ainda outros a criarem 
projectos que saem da estrutura seguida pela maior parte das casas, 
acontecem projectos assim. A razão porque as MAGASESSIONS apareceram, 
continuaram e vão já no próximo sábado dar um MAGAFEST é precisamente 
pela necessidade de isso acontecer.


BC: Que futuro têm pensado para as MAGAS?

IM: Continuar em Outubro a dar espaço à música e aos músicos, e para o ano a 
segunda edição do MAGAFEST. 





André Gomes de Abreu




sexta-feira, 29 de Agosto de 2014

OCTA PUSH - Entrevista

Com todos os elogios/recomendações feitos à sua música e à estética adoptada e depois de "Ten Cities", uma residência artística promovida pelo Goethe Institute no Quénia em que estiveram acompanhados de Pedro Coquenão aka Batida, os Octa Push, os irmãos Bruno Mushug e Leo Dizzycutter, continuam neste Verão de concertos a mostrar "Oito", o seu álbum de estreia.
Pela primeira vez, conseguiram reunir em palco Catarina Moreno, a voz dos Molo, e Alex Klimovitsky, a voz dos Youthless, dois dos convidados de um dos "discos-sensação" da música de dança do ano passado a que se juntou também Ary, dos Blasted Mechanism.
Foi no FUSING Culture Experience, e foi lá que ao segundo dia do festival apanhámos o duo para dois dedos de conversa antes do seu concerto a fechar o dia. E vai assim.






BandCom (BC): Em todas as entrevistas que li sobre vocês, todos os jornalistas fazem-vos uma pergunta sobre o facto de vocês serem irmãos. Acham que se não o fossem, fariam o mesmo tipo de música? 

Ambos: Essa é boa... essa é difícil... logo à primeira... entraste de pés juntos.

Leo: Depende de várias variáveis. Imagina que éramos dois produtores e que alguém decidisse “olha, vocês juntem-se para fazer cenas”, um pouco naquela onda das boys bands. Se fosse uma onda de não nos conhecermos e isso, se calhar não. Eu hoje tenho confiança de chegar ali ao estúdio, fazer uma cena que pode estar uma grande merda, soar bueda estranho, é na boa... se fosse outra pessoa, se calhar eu agarrava e apagava aquilo - “depois o gajo ainda pensa que sou uma merda ou assim“.
Não, um gajo está ali a experimentar, e nós conhecemo-nos bué bem, já sabemos lidar com isso. Como ele pode estar lá e fazer uma cena bué marada e eu chegar depois e dizer “esta não está mas percebo que querias fazer uma coisa mais assim”. Não existe preconceito.


Bruno: Acho que muito provém também da nossa experiência. Nós fomos buscar muito à música africana porque a nossa família esteve na Guiné. Crescemos numa casa com máscaras africanas...


BC: Ainda têm memórias da Guiné?

Leo: Ele não porque ainda estava dentro dos testículos do nosso pai (risos)... mas eu lembro-me... Mas são todas memórias más. Do género, estar no meio do mar, a minha mãe agarrar em mim, eu estar a chorar bué, e estar alguém a tirar uma foto e agora mais adulto, ver aquela foto e ver aquilo que aconteceu. Estive lá até aos 3, 4 anos. Parti lá uma perna também... 


BC: Pensam que se fossem só boas memórias não teriam pegado tanto nesse aspeto mais africano?

Leo: Também não foram só más memórias. Quer dizer, as boas memórias são as que a nossa mãe nos conta quando estamos a almoçar ou assim. O nosso pai também... E também pelo facto de vivermos em Lisboa, e o ambiente africano estar muito presente.

Bruno: Na altura morávamos em Carcavelos, ao pé do Bairro das Marianas, onde havia uma grande comunidade angolana, cabo-verdiana... Era o que tínhamos à nossa volta também.

Leo: E depois chega uma altura em que começas a abraçar aquilo que fez parte da tua vida, da tua vivência... Se calhar a parte mais tropical que nós temos também tem a ver com o facto do nosso pai ser da América Latina, uma cena [em] que se calhar há 20 anos eu estava-me a cagar para aquilo - eu queria era tocar metal e cenas eletrónicas...
Não ligava muito àquilo, depois fomos crescendo e começámos a procurar outros elementos que tenham a ver connosco.



BC : É fácil conciliarem o respeito que têm pela tradição africana com a música eletrónica, símbolo da era moderna? Não existem conflitos entre o respeito pela tradição e a força inabalável da modernidade ?

Leo: Não sei se tem a ver com o respeito. O respeito tem a ver com o seres sincero naquilo que estás a fazer. Ou seja, se nós quiséssemos fazer uma cena para bater, “eh pá, bora fazer uma cena para bater aí”, para aparecer nos tops com o foco de vender aquilo. “Bora arranjar aí um gajo do afro para fazer uma cena”... aí, estávamos a desrespeitar. Agora, mesmo que acabemos por estragar um pouco aquilo, que fique uma grande merda, nós à partida fizemo-lo com a vontade e com o carinho de mostrar que é uma coisa séria e que damos valor àquilo que estamos a fazer... Nesse aspeto, acho que isso é que é o mais importante. 


BC : A vossa viagem ao Quénia também acabou por vos influenciar ?

Leo: Estás a seguir uma determinada direção, e de repente fazes a viagem... ou seja, nos começámos mais com cenas afros, depois adicionámos bué elementos e, às tantas, parece que estávamos a deixar de lado um pouco esse lado africano apesar de estar lá sempre em todas as músicas, mas não tão presente se calhar. 

Bruno: Foi um bocado um regresso...

Leo: Nós estávamos a desviar-nos um pouco disso. 

Bruno: Um regresso à realidade, às origens, no estrangeiro?

Ambos: É verdade... 

Leo: Agora para o próximo álbum vamos usar mais elementos. Mas isso não quer dizer que vamos fazer kuduro ou funaná... Estamos mais a falar dos instrumentos, das linhas, de baixo, de apontamentos de guitarra, de ritmos e de inseri-los ali e tentar fazer outra coisa. Não é kizomba, não é kuduro, não é funaná... mas tem essas influências todas. 

Bruno: São ingredientes.





BC : Quais foram os critérios que determinaram a escolha dos convidados ? Digam-nos mais sobre o Braima Galissá, voz do tema "Ali Dom"?

Leo:  Vivências. Mas acho que o único assim mais pensado...acho que foi Jahcoozi. Os outros todos foram amigos, situações que foram acontecendo. Quando começámos, em 2008, ainda na altura do Myspace, os Jahcoozi eram uma banda que nós adorávamos. E houve uma vez em que fizemos um pedido de amizade, aceitaram e depois metemo-los no top 10... Depois, viram qualquer coisa que nós fizemos lá, e convidaram-nos para fazer um remix...

Bruno: Não, nós fizemos um bootleg. E também estivemos com um dos elementos no Quénia. As coisas acabam por acontecer...

Leo: O Braima é um mestre de cora. Mora em Lisboa, nos Anjos. Nós queríamos ter qualquer coisa relacionada com a Guiné. Conhecemos o Galissá de um concerto onde ele foi tocar na nossa zona, o Festival MUSA, em Carcavelos, um festival mais na onda do reggae, com alguma world music e ele tocou lá com a banda dele, os Bela Nafa. 

Bruno: E depois esteve também no Boom...

Leo: E nós achámos que era fixe termos alguém relacionado mais com a tradição guineense. Mandámos-lhe um e-mail... é mesmo boa onda, bué aberto, boa pessoa.


BC: Como é que receberam o convite para o FUSING ? É uma honra fazer parte do cartaz deste festival ?

Bruno: Ficámos contentes por ser um conceito bastante interessante, diferente de muitos outros. Existe uma interação diferente com quem está no recinto, com atividades como a gastronomia, o desporto, a arte urbana... E depois a aposta nas bandas portuguesas, é bastante positivo. 

Leo: Agora, é importante que quando há esta aposta, que as pessoas também apareçam porque senão depois... Porque quem aposta, depois deixa de apostar... e voltamos ao mesmo. Quando há bandas estrangeiras, tudo bem, quando há cenas só com bandas portuguesas, o pessoal não aparece... Mas da nossa parte, estamos bué agradecidos em estar aqui. 

Mickaël C. de Oliveira




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