quinta-feira, 3 de setembro de 2015

DAVIDE LOBÃO - Entrevista

Caro Davide, está garantido que o Benjamin Clementine volta a Portugal por ocasião do Vodafone Mexefest lá mais para a recta final do ano. Seria, evidentemente, óptimo que estreasses o teu disco em nome próprio, "Na Volta", no Indie Music Fest logo à noite com o mesmo impacto que aquele "Later With Jools Holland" teve em abrir olhos e desafiar consciências. Esperemos que estas 10 canções sejam uma das últimas Coca-Colas de um deserto de rotas claras para a maioria das pessoas que querem dar a cara e o nome pelas suas canções. Mas os Miss Titan, quem vai gravar ao Silo, outras pessoas continuarão a precisar na mesma medida de um pouco dessa personalidade que cativou acima das canções.
Agora, deixa que as pessoas saibam um pouco mais, deixa as pessoas cantar essas certezas e essas questões e tomar o pulso às canções.
Esta é a carta que não te vamos escrever.






BC: Pergunta para queijinho: tinha que ser exactamente “aquela” a hora em
que recordas que O Bisonte “terminou”? Há alguma relação com o
clique que se dá para o avanço dos Miss Titan?

Davide Lobão (DL): Há este espaço, para a dúvida, que é necessário. Começando pelo fim: Miss 
Titan já se vinha a desenvolver ainda O Bisonte estava de boa saúde. A
primeira vez que estreámos aquilo foi numa das malogradas festas do Quase
Fim d’Ano. Não recordo um momento em que tenha terminado, O Bisonte. As
coisas vão acontecendo e nós vamos percebendo o que se passa. Cada um,
individualmente, faz a sua parte, no bom e no mau. Na dúvida, se a questão
aponta ao final da banda e à sua relação com a "Hemingway", a resposta só
pode ser que a "Hemingway" data, talvez, de 2010.


BC: Pergunta para a faca na mão: onde é que se quebra o fio condutor entre
o Davide Lobão de banda, O Diligente e o Davide Lobão em nome
próprio? É na relação com o poder “relativo”?

DL: Não sei bem. Continua a ser mais cool ter um nome fixe, de banda, ou ter a

Pitchfork a dizer que a tua música é fixe e por isso o teu nome é mesmo fixe, ou
então os teus amigos fixes com mais uma ideia vintage fixe. A minha primeira
questão foi a responsabilidade, o dar a cara. Sempre o fiz, com as minhas
bandas, mas dava a cara por um grupo. Não mudou muito. Dou na mesma a
cara por um grupo que me ajuda a dizer aquilo que quero dizer. No fundo não
há uma quebra, antes sim uma continuação.


BC: Depois de concluíres no final do disco que já és “maior”, qual é a tua
maior certeza aos 33 anos? Que voltas há a dar à forma como se
relacionam inspirações e as respectivas composições que delas resultam
para quem já escreve e trata ao vivo há tanto tempo?

DL: Essa é a pergunta que eu ando a tentar responder. Na verdade não sei. As

certezas diluem-se e escapam-se-nos pelos dedos e a inspiração é apenas a
vontade que temos de dizer algo realmente honesto. A cena é quando eu
tentar contar uma coisa que nem sequer me faz assim tanta diferença, que
podia nem ter dito. Aí é que vai ser complicado relacionar-me com o Mundo.





BC: Não deixei de reparar num comentário feito na tua página de Facebook:

“A solo? Todos os músicos te abandonaram? Deves ser mesmo
insuportável : (“. Aparte a ironia, é de notar que efectivamente alguns
dos músicos com que tocavas antes acompanhar-te-ão agora. Deixaram
de ser “apenas” colegas de banda para ser uma segunda família?

DL: É. Não é à toa que o Nuno, que fez esse comentário, já teve uma banda

chamada Cabrões Irónicos (desculpa Nuno) com a qual eu ensaiei uma vez,
num escritório, do Gilman, na Maia. É muito importante tocarmos com os
nossos amigos, termos vontade de rir com eles e nos juntarmos para isso. Já
eram família antes de serem colegas de banda, portanto é mais uma vez um
sentido de continuação.


BC: Em Junho desabafavas: “Odeio pessoas felizes”. Afinal, o que há para
odiar na felicidade?

DL: Tudo. É um conceito abstrato, um desequilíbrio estranho. O ódio e a

depressão é que fazem o mundo girar. A auto-ajuda tem os dias contados.


BC: 10 canções, 10 títulos, 10 palavras. Independentemente da sua
complexidade e mensagem, é uma consequência da sua maturação que
as músicas tenham títulos minimais?

DL: Já me fizeram essa pergunta antes e nunca tinha pensado nisso. Algumas das

canções tinham títulos mais longos e caminharam até ali. Deve ter a ver com
esta fase. Poucas palavras mas mais acertadas.


BC: Qual é a canção que mais te orgulhas que seja tua ou também tua?

Porquê?

DL: Neste disco há um orgulho enorme. Do bom e do mau. Vou dizer só uma

delas, a "Vá", que começa com esperança e vontade de ser melhor e acaba com
um virar de costas. A ter que falar das canções de que me orgulho, nas quais
participei, teria de falar de praticamente todas que fiz, com e sem banda. Já
são umas quantas.





BC: Qual é o sabor de estrear um disco num dos maiores festivais do ano?

DL: De responsabilidade? De gratidão? Só quero tocar alto, muito alto

(e tens razão, é uma das coisas boas que por cá se faz, este Indie Music Fest!).


BC: Recordo um entre vários comentários à música d’ O Bisonte em que se
classificava a banda como “uma banda tipicamente portuguesa”. Para ti,
quando é que uma canção se pode tornar, também ela, “tipicamente
portuguesa”? Vamos cair sempre na questão linguística mesmo que haja
canções e bandas com termos como “Lisboa” e “Portugal” à mistura?

DL: Nunca tinha ouvido essa. É uma coisa boa. Uma canção não se torna

tipicamente portuguesa. Isso há-de ter a ver com a questão da identidade.
Quanto mais nos identificamos com uma coisa e quanto mais próximos nos
sentimos dela, mais diz acerca de nós. O que isso me leva a pensar é que de
facto as palavras chegaram ao interior das pessoas, elas reviram-se naquilo que
se estava a contar. Ser tipicamente português é o quê? Não é nada. Lisboa e
Portugal são termos que aparecem para contextualizar e para tentar contar
que lá na minha terra é desta maneira.


BC: Para terminar: qual é o melhor concerto que viste este ano e qual o pior
disco que escutaste (só para tentarmos ver se é possível fugir à tua
paixão pelo disco do Benjamin Clementine)?

DL: É uma paixão recente. Ofereceram-me o disco e quando dei por mim tinha

rodado umas dezenas de vezes. Este ano foi o Gregory Porter, na Casa da
Música. Pior disco não sei dizer porque hoje em dia já não se odeia bandas,
ignora-se. Se tivesse um disco que odiasse era sinal que era bastante bom.
Tudo isto é triste.

André Gomes de Abreu




malcontent - ENTREVISTA

Sérgio Costa, Filipe Pereira e Jorge Oliveira formam actualmente os malcontent, o agora trio nortenho activo desde 2007 que se regenerou com sucesso após a sua vitória no antigo Super Bock Super Rock Preload em 2010 com as mesmas expectativas, ou até superiores, que adquiriu na altura imprimindo um forte cunho noise a uma estética semelhante à de bandas conotadas com o post-punk e o indie-rock.
De partilhar palco (e até gosto pelo mesmo material) com, por exemplo, os Föllakzoid ou A Place To Bury Strangers, óbvios compinchas, vão amanhã ao Indie Music Fest integrar um contingente de cerca de 40 outras bandas nacionais, repetindo a militância festivaleira do Indouro Fest de há alguns meses atrás. Numa altura em que "Riot Sound Effects", o seu disco de estreia pela Honeysound e sucessor de "Erased" e "Love The Gun", também está mais do que na altura certa para ser descoberto por quem se desvia do "hype" momentâneo, falámos com a banda antes de mais um degrau no seu caminho em busca de palcos maiores.  






BandCom (BC): Porquê “Riot Sound Effects” como título do vosso novo trabalho?

malcontent: É um título que identifica a nossa sonoridade, a atmosfera que pretendemos criar em disco e que aponta o universo declaradamente caótico que pensamos que a música deve originar. Sinceramente, é também um título que identifica igualmente a nossa percepção do momento. Não cremos haver lugar a serenidade num país tão amarrado, tão sacrificado e tão enganado. Longe de se tratar de uma mensagem política, não deixa de ser um apelo contra a resignação. Noutra perspectiva, talvez a música, ou aquilo que a rodeia, necessite de um "riot sound effects".


BC: Olhando para uma banda com o percurso e sobretudo a sonoridade dos malcontent, há “gritos de revolta” por dar?  

malcontent: O rock, seja qual for a sua vertente, significa que há gritos de revolta. Voltando à questão anterior, julgamos ser necessário agitar algumas águas onde mergulha a música. Seja pela forma como a indústria se desenvolve, seja pela forma como quem consome percepciona a música. Vamos continuar assim e não nos cansamos de dizer que estamos mais próximos do início do que do fim...


BC: O que é que a adição do Jorge trouxe aos malcontent?

malcontent: Há uma grande identificação do ponto de vista musical, o que não impede o surgimento de novas ideias, e o Jorge trouxe novas ideias. Temos agora uma formação estável, serena e madura... a melhor de sempre.


BC: Foi fácil escolher as músicas e a ordem pela qual constariam no novo trabalho? Pode-se falar de algum “conceito orientador” para o “Riot Sound Effects”, apesar de não declarado?

malcontent: Alguns temas que gravámos em estúdio ficaram à margem do álbum. As misturas finais trouxeram-nos algumas surpresas. Músicas que julgávamos indispensáveis ao novo trabalho acabaram por não entrar. Outras sobre as quais tínhamos reduzidas expectativas tornaram-se as nossas favoritas. É um processo estranho, mas que mostra a complexidade de produção de um disco. Quanto ao alinhamento do álbum, seguimos sobretudo uma sequência lógica do ponto de vista melódico, o que dá ao disco uma grande coerência.
"Riot Sound Effects" enquadra (de uma forma ruidosamente melódica) o nosso ponto de vista sobre a sociedade ou sobre as relações pessoais. É o nosso pequeno contributo para questionar o que nos surge no dia-a-dia.





BC: Havendo quem vos compare ao noise e ao indie-rock mas com uma essência pop de bandas como os Jesus and Mary Chain, que descobertas e alterações na sonoridade dos malcontent, maiores ou nem tanto, vos têm surpreendido e motivado? Tem sido também um processo de revelação das vossas verdadeiras fontes de inspiração num dado momento?

malcontent: Há um vasto conjunto de nomes, sobretudo do universo anglo-saxónico, que nos influencia, é certo, mas criamos o nosso próprio caminho. Temos por objectivo escrever canções recheadas de poeira sónica e, ao contrário do que muitos pensam, os meios inovadores para lá chegar não estão esgotados. Quase diariamente exploramos novas sonoridades, diferentes modelos de composição. É muito positivo quando o nosso próprio trabalho nos surpreende e isso vai reflectir-se no futuro. Temos muito por onde inovar sem renegar os nossos "princípios", a nossa ideia do que deve ser a música. Um tema pode ter airplay sem necessariamente resultar da fórmula clássica - intro, verse, chorus, verse, chorus, end - e é isso que estamos agora a fazer, mas sem entrar no erro de transformar as nossas canções aborrecidas...


BC: A edição do disco contou, entre outros, com o contributo dos vossos fãs. Para além da contribuição monetária, houve algum incentivo, alguma mensagem que vos tivesse encantado para além do sucesso dessa iniciativa?  Consideram isso como um carimbo de qualidade, como “a melhor crítica” que poderiam receber? 

malcontent: Sem dúvida. É a prova da qualidade do nosso som. Tivemos ainda muitas mensagens encorajadoras com o lançamento do álbum sublinhando a qualidade do trabalho. É naturalmente com grande satisfação que recebemos esse feedback. A reacção aos nossos concertos também é uma mensagem positiva. 


BC: Com o EP “Riot” e este “Riot Sound Effects” passaram a fazer parte do catálogo da Honeysound. O que/quem é que vos conduziu à Honeysound?

malcontent: A Honeysound encarna exactamente o espírito que deve acompanhar a música. Não é uma editora, é um conjunto de pessoas/músicos que pretendem servir a música e não servir-se dela. Há um esforço solidário na promoção e divulgação de projectos. Há um espírito de entreajuda e não uma tentativa de usar a música como trampolim para promoções pessoais ou como meio de lucro fácil. Já havia contactos e a nossa entrada no catálogo Honeysound foi quase natural. 





BC: A “Aggressive” do “Riot” foi objecto de uma remistura por parte do Rui Maia. O que é que acharam do resultado final? Por entre as camadas de guitarras que imprimem, é útil ter alguém de fora que vos mostre outra forma para o mesmo conteúdo?

malcontent: A remistura do Rui é excelente e é com orgulho que o vemos associado aos malcontent. Trata-se da sua própria interpretação de um tema nosso sem o desvirtuar. Mantém a agressividade, a intensidade do tema, mas transporta-o para outra atmosfera, mais electrónica e dançável. Não temos qualquer "prurido" com diferentes abordagens pois esse é outro veículo para fazer chegar o nosso som a outros públicos. Seria injusto não mencionar igualmente as remisturas de Fat Freddy e Alex FX que também estão no alinhamento do "Riot" EP. São trabalhos geniais!


BC: À semelhança do Indie Music Fest, onde vão estar, outros festivais vão surgindo por todo o país e ganhando o seu lugar apresentando nova música portuguesa e dando lugar para que inúmeras bandas se mostrem em lugares mais destacados da sua programação. Isto significa que as organizações perderam o receio que tinham de colocar a música portuguesa ao nível da música de outros países? Que razões consideram mais importantes para esta alteração do paradigma que vinha sendo comum nos cartazes dos festivais de Verão?

malcontent: Sim, há claramente uma alteração de pensamento, mas nunca percebemos esse receio de colocar bandas portuguesas numa posição de destaque. É uma questão de mentalidade. E isso não é exclusivo dos festivais onde, para além de não haver lugar de destaque, durante muito tempo a inclusão de bandas portuguesas nos cartazes era vista como algo de favor (quantas bandas não terão ouvido, algo do género "tocam à luz do dia quando o público é reduzido e não temos como vos pagar. Ainda assim é muito bom para vocês, é promoção"). Também nas lojas convencionais questionamos a razão pela qual o nosso disco e outros de bandas nacionais é colocado lado a lado com artistas de fado ou música ligeira. Qual é o sentido?  Então não será mais coerente colocar o nosso som junto à dita música alternativa? Por que não fazem uma banca exclusiva de música espanhola, outra francesa, japonesa, de Vanuatu, etc.? É uma questão de mentalidade que felizmente e sobretudo nos festivais começa a mudar. No entanto, acreditamos que a alteração do paradigma está directamente relacionada com a melhoria da qualidade das bandas nacionais. Há projectos excelentes e abrem portas à divulgação do fulgor criativo que Portugal assiste.


BC: O que é que o futuro reserva no imediato para os malcontent? Espectáculos 
dentro/fora do país? Novas edições?

malcontent: Estão agendados concertos em Espanha. Brevemente lançaremos em formato digital um EP onde incluiremos outtakes do álbum. Um novo trabalho está já numa fase embrionária e temos o objectivo de o editar no próximo ano. Ainda vamos fazer muito barulho!

André Gomes de Abreu




domingo, 30 de agosto de 2015

10000 RUSSOS - "10000 Russos" (2015, Fuzz Club Records)




Lembro-me como se fosse hoje.
Estávamos no Inverno de 2013 e eu estava a jantar a casa de amigos. 
Bebeu-se copos, ouviu-se stoner e, no final, discuti com mais dois gajos os concertos que tinha curtido no Milhões do ano passado — a edição de 2012, portanto. 
Entretanto os gajos bazaram e, passado um bocado, saímos todos para ir ver um concerto à cave do Au Lait. 
À chegada, cumprimentei alguns amigos e constatei que a dupla que estava em palco eram os gajos com quem eu tinha estado a falar sobre o Milhões. E
ram os 10000 Russos que, na altura, eram constituídos apenas pelo Joca na bateria e micro e pelo Pestana nas cordas. Dois anos e um EP depois, a dupla tornou-se um trio com a adição do André Couto no baixo e edita o seu primeiro LP pela londrina Fuzz Club. Um LP que indivíduo vulgar poderia julgar tratar-se de um tradicional álbum. Um álbum no qual se folheiam músicas e cada uma conta uma história à sua maneira.







































Bem…sim e não. Podemos folhear o LP, sem dúvida. Mas todas as histórias, todas as viagens, todas as personagens e paisagens de “10000 Russos” são páginas do mesmo conto: o alcance do nirvana, aquele que se procura alcançar não através do acto consciente de meditação mas através da audição deste abstracto e complexo conto.
Essa é a pretensão destes 3 xamãs, na infinita sabedoria das suas muitas faces.
E, de facto, é assim que vos aconselhamos a ler este álbum: só assim podemos tentar compreender o sentido de todas as suas partes, só assim poderemos alcançar o derradeiro estado de êxtase espiritual.

Mas além desta viagem espiritual, “10000 Russos” está repleto de double entendres e de ícones. Um deles é "Karl Burns", com que o registo abre, um dos "grandes" da
 história da percussão no rock que já passou por ilustres colectivos como os PIL e os Fall. Esta é, até à data, a única faixa do LP que teve direito a videoclip: provavelmente, o motivo desta homenagem reside na confessa paixão do Joca — o baterista dos Russos — pelos Fall.
A seguinte “USVSUS” continua com a tendência do motorik e do space, talvez querendo metaforizar um hipotético conflito europeu versus norte-americano US (Europa) VS US (United States), tendo ao nosso dispor a munição do incessante motorik e a vantagem na exploração espacial, cortesia da nação russa. Talvez o título não tenha nada a ver com esta ligação mas existe, de facto, uma dimensão que transpõe
a mera condição estática da palavra.
Por outro lado, “Barreiro” é, como todos sabemos, uma terra deste nosso Portugal.
Outrora soava maquinaria e vozes de operários no Barreiro - essa voz foi tragicamente silenciada pela morte da indústria. Outrora também um dos motores da pesca em Portugal, o Barreiro é actualmente um dos pontos de encontro e convergência de várias correntes revitalizados experimentais. Iniciativas como a ocupação de bairros por massas estudantis ou a reabilitação dos espaços têm vindo a renovar a imagem da cidade e a dar-lhe um novo ímpeto com dois particulares destaques em termos musicais: o OUT.FEST e o Barreiro Rocks, duas instituições cada vez mais sonantes no calendário musical nacional e claros culpados pelo Barreiro se tornar um ponto de passagem cada vez mais aliciante neste panorama. 
No entanto, outra voz se levanta: a voz da renovação. Este tema é a expressão dessa mesma voz. 

“Baden Baden Baden” é a 4ª faixa do LP. Baden-Baden — noutros tempos Baden — é uma cidade do oeste da Alemanha. Esteve sobre o controlo de Hadrian na altura do Império Romano, foi demolida durante as Guerras dos 30 anos e dos 9 anos e foi um ponto estratégico para a resistência francesa na Segunda Guerra Mundial. Actualmente, Baden-Baden é conhecida pelas suas águas termais e pelos seus spas - “Baden” é a palavra alemã para “banho/tomar banho” e a origem do nome da cidade deve-se, portanto, às suas águas. As mesmas águas nas quais os xamãs se inspiraram. 





“Stakhanovets/Kalumet” é a pista que encerra este trabalho e também a sua faixa mais longa. O termo stakhanovismo surgiu na antiga URSS pautado como o fenómeno do aumento da produtividade dos trabalhadores do regime por seu próprio livre arbítrio; já 
kalumet (ou calumet) é o cachimbo da paz usado pelas tribos apache para celebrarem os seus acordos e tratados ou até para ser usado no contexto de algumas cerimónias religiosas, como uma forma de comunicar com o Criador, a entidade responsável pela criação do universo.
A junção dos dois termos significará, tão somente, a procura incessante pelo Criador através da incursão em viagens e demandas longas motivadas somente pelo livre arbítrio dos seus participantes...o seu real significado, esse, deverá ser bastante mais subliminar.

À imagem do homónimo EP, o percurso dos 10000 Russos continua a fazer-se ao longo dos pontos de convergência do space-rock e do kraut, com algum noise aqui e ali. Se entrássemos pelo campo da comparação, os 10000 Russos seriam uns Lightning Bolt mais virtuosos na componente kraut/space e menos dedicados ao noise.
Porém, o trio também reúne um conjunto de influências e referências conceptuais que os tornam difíceis de catalogar e de interiorizar para aqueles que não conhecem tanto destes universos sonoros. A esses, aos interessados e aos curiosos, a todos vos recomendamos a incursão nesta viagem.


Eduardo Silva




sábado, 29 de agosto de 2015

TALENTOS PARA A TROCA #7

Mais uma edição de uma das rubricas de que mais gostamos e mais nos motivam, mais 5 tareias gigantes de outros tantos novos nomes para decorar ao nosso pequeno questionário de-Proust-que-não-é-de-Proust: Sr. Inominável, Acid Acid, The Missing Link, Surma e Yellow Low. Desta vez, 5 rampas de lançamento bem diferentes que estão mais próximas de vós a um mais curto prazo.
Porque estes são "Talentos Para A Troca", façamo-los maiores e tenhamos a certeza de que mais surgirão. 
São moedas de troca para um futuro em que haja eco de algo.


Sr. Inominável



Porquê Sr. Inominável?

A motivação para o nome é a criação de um personagem que procura respostas, sobretudo para o amor. 
Um agitador e um agitado. Partindo da obra de Samuel Beckett, 'O Inominável'.


Como definem a música que produzem?

Corpo 'roque' com alma 'pop'.



Qual é a vossa melhor canção?

'Corre Por Aí'.



Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

A música é o principal. Trata-se daquilo que, para além da amizade, nos faz ter prazer em estar juntos.
No entanto, toda a divulgação e a forma como é feita para tentar sensibilizar, emocionar as pessoas não é menos importante.


De que revista não se importariam de estar na capa?

Pitchfork.



Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Primavera Sound.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Spotify.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Comprar discos.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Cinema: 'Kynodontas' (2006).
Literatura: Dostoievski - 'Crime e Castigo'.
Musical: Festival de Paredes de Coura (sobretudo ao fim da tarde).



Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

A clássica pergunta das influências.



5 canções para 5 cenários/situações diferentes?

Encaixando músicas em estações do ano:


Toro y Moi - Talamak: para a Primavera.

Real Estate - It’s Real: para o Outono.
Twin Shadow - Castles in the Snow: para o Inverno.
Beach House - Walk in the Park: para Outono/Inverno.
Metronomy -  The Bay: para o Verão.





Porquê, simplesmente, Acid Acid?

O nome surgiu após um 'brainstorm' com os amigos da Nariz Entupido. Aliás, foi a
malta desta promotora que me encorajou a tirar o pó aos instrumentos. Aceitei o
desafio para um concerto e de repente precisava de um nome. Não vou revelar a
origem de Acid Acid mas assim que surgiu na conversa acabou por ficar. Acaba por
representar a música que faço, aquilo que quero transmitir. Algo fluido, progressivo e
que cause, espero eu, uma viagem a um outro universo.

Como defines a música que produzes?

De forma muito simples defino como experimental e ambiental. É inspirada pelos sons
do psicadelismo dos anos 60 e 70 e também pelas experiências do 'krautrock', em que
muitas bandas alemãs aliaram o psicadelismo a novas forma de fazer música usando, por exemplo, electrónicas pioneiras. O resultado, no entanto, acaba por ser algo muito
próprio, muito perto da minha identidade como músico.


Qual é a tua melhor canção?

Neste momento Acid Acid só tem uma música, por isso não existe propriamente uma
escala de qualidade. Não lhe vou chamar canção porque é só instrumental com vários momentos que se entrelaçam. É um tema com meia hora, sem paragens e que
pretende criar uma viagem através dos diferentes sons de guitarra e sintetizadores.


Pensas que, hoje em dia, a música que crias é mais importante do que a
comunicação e o marketing que tens de fazer para a promover?

A música é sempre o mais importante e quem pensa o contrário, na minha opinião,
não devia fazer música. No fundo, é a música que vai comunicar aquilo que o autor
quer expressar e não o 'marketing'.
Claro que todos os músicos sentem uma necessidade em dar a conhecer o seu
trabalho. Não estou de todo a menosprezar a comunicação. Mas quando só resta a
música, tudo o resto não interessa.


De que revista não te importarias de estar na capa?

Prefiro não estar na capa de revistas.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands?

Todos, por diferentes razões.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Sem comentários.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Gosto de ouvir música em vinil, mas não sou apologista de que toda a música deve ser ouvida neste formato. A música deve, sim, ser ouvida no formato mais aproximado em que foi gravada. Conheço óptimos discos que têm um som muito mau na sua edição em vinil, por isso não alimento essa questão.
No entanto, já sou contra o contínuo uso do MP3. É um formato antiquado que surgiu quando os computadores não tinham muito espaço. E quando surgiu foi perfeito, mesmo com a perda de informação. Foi necessário para a democratização da música. Mas hoje não faz sentido, dada a evolução dos PC's, portáteis e outras plataformas.
Ouvir música, de preferência, com a melhor qualidade possível. Mesmo que pelo meio tenha alguma 'batata frita'...


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

'Pink Floyd: Live At Pompeii' e o DVD dos Led Zeppelin que saiu em 2003.


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Não me irrito facilmente.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes?

Pink Floyd - The Dark Side of the Moon (álbum): para curar ressacas.
Led Zeppelin - When The Levee Breaks: para sair do banho antes de rumar a uma noitada.
Brian Eno - I'll Come Running: para ir a correr ao encontro da namorada.
David Bowie & Brian Eno - Warszawa: para superar um momento menos bom no trabalho.
Talking Heads - The Great Curve: para ganhar coragem para fazer algo de desafiante.





Porquê, simplesmente, The Missing Link?

O conceito de The Missing Link (o elo perdido/o elo que falta)  assenta em dois princípios base:
- O de uma busca incessante da fusão de estéticas procurando encontrar novos limites na composição musical;
- O da senda pela quintessência interior e pelo elemento último transmutador de todas as emoções humanas através da música.
Isto tudo, de um meu ponto de vista muito íntimo e pessoal.


Como defines a música que produzes?

Como antes descrevi no conceito, a forma das composições do projecto pode variar muito, sendo muitos dos temas em formato canção e estendendo-se até alguns exercícios de puro experimentalismo. O mesmo diria quanto ao exercício estético onde os limites da composição electrónica ao 'rock' são constantemente confundidos.


Qual é a tua melhor canção?

Pergunta um pouco impossível de responder, dado que existem certas músicas que correspondem a certas emoções e coisas que vivi que não posso classificar de melhores do que outras. Claro que há temas que sinto que estão melhor elaborados do que outros, ou que este ou aquele aspecto do tema foram melhor conseguidos, mas a relação interior que tenho com cada uma das composições faz com que sinta em dias diferentes que umas canções sejam melhores do que outras.


Pensas que, hoje em dia, a música que crias é mais importante do que a comunicação e o marketing que tens de fazer para a promover?

Eu acho que o produto da arte em si é sempre o mais importante, aquilo que o artista quer transmitir e partilhar e efectivamente o faz através da expressão da sua arte seja ela qual for, [esses] são o busílis desta questão. A 'promoção' e o 'marketing' são muito importantes na sua promoção e muitas vezes produtos de arte em si só também, cada vez mais, num Mundo onde a proliferação da comunicação em todas as suas formas cria um ruído informativo cada vez maior e mais denso, a promoção e o 'marketing' adquirem a função de [ir] além de procurar apresentar da melhor forma possível esse produto de arte e necessitam de conseguir que essa promoção seja filtrada no meio de todo o ruído existente.


De que revista não te importarias de estar na capa?

Rolling Stone?..


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Entre o Glastonbury, pela história, ou o Lowlands, pelo crescente prestigio, seria sem dúvida um prazer estar em qualquer um dos dois; no Primavera Sound também mas, dados os hábitos de consumo de arte em Portugal, acredito que me seria muito mais fácil tocar no Primavera Sound depois de ter participado em qualquer um dos outros festivais.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Dos três, apesar de toda a polémica à sua volta, o Spotify parece, para já, ter sido o projecto que mais esforço tem feito em desenvolver alguma transparência no que diz respeito à gestão dos 'royalties' atribuídos aos artistas e daí talvez merecer o destaque. Parece-me um modelo de negócio com futuro mas que muito ainda precisa de crescer para se tornar um modelo justo para os artistas que têm visto durante os anos tanto do seu trabalho ser explorado por intermediários e onde apenas lhes chega uma fracção ínfima dos lucros gerados pelas suas criações. Mas, sem dúvida, o primeiro problema a resolver antes do paradigma dos meios de venda da música em si será o das percentagens irrisórias dadas pelas editoras aos seus artistas, pois as editoras criam contratos benéficos com estas plataformas mas os seus artistas nada ou quase nada vêem dessas receitas.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

A minha aposta aqui vai sem dúvida para o FLAC. O FLAC é um sistema de compressão de ficheiros de áudio sem perdas, o que quer dizer que é um ficheiro com as mesmas características de um WAV mas mais pequeno.
Pondo o MP3 de lado pois, na minha opinião, formatos de compressão nos quais a qualidade é comprometida em função do espaço ocupado é um paradigma do passado, onde o armazenamento era um problema a ter muito em conta nos suportes de áudio.
A questão do vinil ou do audio digital de qualidade CD (44000Hz; 16bit; stereo) é, normalmente, como também se ouvem os ficheiros em WAV ou FLAC; são todos eles representações de audio digital no formato PCM Linear (ou seja, o conteúdo da sua informação de áudio é armazenada de forma igual). É um terreno pantanoso onde o apego emocional e as sensibilidades particulares de cada um são muitas vezes confundidas com ciência. Em termos de especificações apenas, (isto partindo do princípio que estamos numa resolução de qualidade CD, pois tanto o FLAC como o WAV podem possuir resoluções maiores e aí a questão do vinil torna-se ainda mais clara) o vinil é inferior na sua capacidade de reproduzir dinâmica (Vinil 80dB-120dB; CD(16bit); 150dB) onde ainda é necessário contar com o seu natural e característico ruído de fundo e, apesar de ser capaz de reproduzir uma gama de frequências maior do que o CD, não tem a mesma margem dinâmica para cada uma dessas frequências devido a limitações mecânicas do sistema. Resumindo, o som do vinil é único e super agradável em muitos aspectos, em parte devido às suas limitações, todo o ritual associado à sua compra ao seu uso...são aspectos importantes a ter em conta na avaliação da experiência do seu consumo; mas o suporte digital sem compressão com perdas, como o WAV ou o FLAC e especialmente se falarmos em resoluções superiores às antes mencionadas, são sem a menor dúvida a forma mais fiel de tecnologia de armazenamento de conteúdo áudio que possuímos no momento.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Gostaria de começar por destacar dois projectos de 'rock' nacional cuja recente experiência ao vivo me deixaram impressionados da melhor forma possível: os portuenses Plus Ultra, cujo nome não poderia ser mais claro na descrição explosiva e coesa do seu som; e os bracarenses Bed Legs com o seu 'rock' directo e intensamente 'soulful'.
Entre projectos electrónicos, que muito tem proliferado neste país, o trabalho das editoras Con+ainer e Extended (com as quais também tenho trabalhado e editado em outros projectos musicais um pouco mais electrónicos) têm mostrado que existe muita qualidade nacional tanto a nivel editorial como da produção musical.
De projectos internacionais que ultimamente me têm despertado o interesse: os The Brian Jonestown Massacre, com o seu álbum 'Revelations' de 2014, têm sido uma redescoberta saudável de um psicadelismo em mim de alguma forma escondido. Outro artista que merece atenção é o D’Angelo e o seu ultimo álbum 'Black Messiah': é uma revelação no que diz respeito a estender os limites estéticos do r&b e do 'soul', é um disco onde estes estilos se confundem muito bem com muitas outras estéticas, como por exemplo o 'rock', o 'funk' e o 'gospel'.


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Não me irrito com facilidade, mas talvez alguma que deliberadamente não seja feita para eu responder.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes?

Vangelis - Blade Runner Blues: qualquer dia cinzento e chuvoso. 
Beck - Beercan: festa na praia com amigos.
Jamie Lidell - Little Bit Of Feel Good: em qualquer altura desde que bem acompanhado.
Atom ™ - Strom: em viagem.
James Holden - Blackpool Late Eighties: ao amanhecer.





Porquê, simplesmente, Surma?

O porquê de Surma...eu tinha imensos nomes em mente para este projecto mas houve um dia em que estava a ver um episódio da Discovery em que falavam dos costumes e dos rituais das tribos indígenas e uma delas denominava-se Surma. Quando ouvi o nome fiquei deveras interessada nele (risos), pareceu-me bastante interessante e que ficava no ouvido. Então, optei por riscar os outros e mandar-me para a frente com este nome.


Como defines a música que produzes?

A música que produzo...
Não gosto muito de dar 'labels' ao género musical que sai no momento...pode-se dizer que é bastante experimental/'noise' e um pouco minimalista mas ainda não sei em que género se enquadra especificamente nem consigo 'labelar' isso (risos)...


Qual é a tua melhor canção?

A minha melhor canção...hmm...essa pergunta é difícil, cada uma tem um significado para mim e são sempre construídas um pouco de maneiras diferentes. Mas talvez a 'Maasai', é a que fica mais no ouvido e é aquela em que estou a 'apostar' mais.


Pensas que, hoje em dia, a música que crias é mais importante do que a
comunicação e o marketing que tens de fazer para a promover?

Ambos os temas são importantes porque sem divulgação da tua música e sem 'marketing' da mesma não sais da cepa torta (por assim dizer). É claro que para mim a música que crio é das coisas mais importantes mas se não tens comunicação com as pessoas nem fazes publicidade do projecto é claro que não tens um conhecimento desse mesmo projecto nem sabes a opinião das pessoas em relação ao mesmo. A música que crio é das coisas mais importantes para mim mas a comunicação tem de estar sempre lá.


De que revista não te importarias de estar na capa?

Revista...
Não me importava nada de estar na capa da Blitz (risos) ou então de uma DIY.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Festival dos meus sonhos para actuar...uiii! Desses 3 os 3 certamente (risos) mas o Primavera Sound é um dos meus objectivos (um dos meus grandes sonhos).


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Streaming...Spotify.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Formato de áudio...WAV e vinil.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Sugestões...Para mim uma das melhores músicas actuais e que para mim é uma das principais influências é a Grouper, sem dúvida alguma...depois St.Vincent, Colleen, Nanome, Sleep Party People, Agnes Obel, Soley, Balam Acab. Em relação ao cinema, a banda sonora do filme 'Amélie' (não me venham com coisas mas aquele Yann Tiersen é um génio) e em relação à literatura a biografia de Miles Davis (fantástico).


Qual é a pergunta mais irritante que te podem fazer?

Pergunta mais irritante...hmm...não me vem nada agora, sou uma pessoa pacífica (risos) e perguntar não ofende, não é?


5 canções para 5 cenários diferentes
 
Grouper: para aqueles dias de chuva em que queres deprimir e comer gelado em casa a ver filmes.
Kings Of Convenience: quando vais dar uma volta de carro com os amigos e queres sentir aquele 'chill' de Verão a correr-te nas veias.
The KVB: para fritar quando estás em casa sozinho.
Joy Division: para quando te queres sentir 'hipster' e 'da cena' enquanto sentes aquelas danças Ianásticas a saírem dentro de ti sem te dares conta.
Run The Jewels: para soltares o 'badass' que há em ti e te sentires com o ego no máximo quando sais do Metro.





Porquê Yellow Low?

Entre alguns nomes que tínhamos, este foi o que nos soou melhor!


Como definem a música que produzem?

Pode enquadrar-se em vários géneros mas não toma partido de um em concreto. Inicialmente definimos o projecto como indie-rock que reúne o alternativo, progressivo e psicadélico mas está ainda numa fase embrionária para ser definida.


Qual é a vossa melhor canção?

A que ainda não foi feita!


Pensam que, hoje em dia, a música que criam é mais importante do que a comunicação e o marketing que têm de fazer para a promover?

Damos maior importância ao que criamos, é isso que nos move, que nos motiva!
A promoção só compensa quando o que tens para promover é bom.

 
De que revista não se importariam de estar na capa?

BLITZ, MOJO.


Primavera Sound, Glastonbury ou Lowlands? 

Queremos é tocar.


Spotify, Pandora ou Grooveshark?

Não utilizamos nenhuma delas de momento.


MP3, FLAC, WAV ou vinil?

Vinil e WAV.


Que nem o Prof. Marcelo, sugestões de cultura (literatura, cinema...) musical?

Cinema: quase todos os filmes de David Lynch; '9$99', de Tatia Rosenthal; 'Irreversible', de Gaspar Noé; 'Mother and Son', de Aleksandr Sokurov.
Literatura: 'A Divina Comédia', de Dante.
'Performance': Olivier Sagazan (arte da transfiguração).
Música: Pink Floyd, Sigur Rós, Mogwai, Deerhoof, Mr. Bungle, Tame Impala, Queens of the Stone Age, Temples...


Qual é a pergunta mais irritante que vos podem fazer?

Depende da pergunta.


5 canções para 5 cenários/situações diferentes?

DIIV – Doused: adolescentes largados num lugar chamado Ignorância.
Tame Impala – Feels Like We Only Go Backwards: um relógio gigante em que os ponteiros, que são dois corpos (feminino e masculino), andam no sentido inverso.
Mogwai – Take Me Somewhere Nice: um lugar onde toda gente usa uma máscara sem emoções.
Sigur Rós – Vaka: meditação.
Pink Floyd – Shine One You Crazy Diamond: nascer com a certeza de que já se viveu antes.




sexta-feira, 28 de agosto de 2015

DE E POR: THE INTERZONE - “_______” (2015, Ed. Autor)

Os The Interzone são actualmente um trio formado por Ricardo Campos e pelos membros fundadores Stephanie França e Pedro Completo que, apesar de estar prestes a comemorar 10 anos, só agora lançam o longa-duração de estreia “_______”. Um conjunto sólido de 9 temas que conjugam o rock, o indie e um leve instinto punk como verbos e daí derivam para o lado mais opressivo do post-punk e do indie-rock mais ou menos musculados - são eles próprios, antigo estudantes de Artes e Literatura, a referir como marca de identidade as profundezas da geração e cultura "beat", que influenciaram a América do pós-guerra até à entronização da segunda metade do século passado, e isso reflecte-se, sem ser uma camisa de forças, na base dos motivos pelos quais vemos os The Interzone a compor, a tocar ao vivo e a mostrarem-se.  
É com Pedro Completo que ficamos a perceber nos próximos momentos o quão se perdeu por não se ter salvo o que não se gravou e a esperança que há nos momentos que ainda estão para vir: não surpreende que se espreitem mais palcos como os do Vodafone Mexefest ou NOS Alive. Carpe diem, já.





Sound of Void

Foi a nossa primeira música. Evoluiu connosco ao longo dos anos, com as várias pessoas que nos acompanharam e é uma música que parece ter vida própria. Tem também a ver com o nosso primeiro nome, The Void.



Dig Out Misery

Foi uma música que ficou feita num ensaio e sofreu apenas alguns arranjos na altura de pré-produção do EP. É uma música sobre a procura da verdade.



Century

Está é aquela música sobre as noites de copos...que dão em manhãs em que acordas no chão da sala, com um macaco em cima das costas e não fazes ideia de como foste lá parar.



Rotation

É baseada numa letra antiga, sobre a percepção de que não é necessário nada além do que está presente no momento.


People Like Us

Esta música deu umas grandes voltas e a única coisa que sobrou do início foi a linha de baixo. Tem a ver com uma energia específica, comum entre certas pessoas, que mesmo distantes acabam por se encontrar.



Lose Against Time

Abre a parte do nosso disco sobre o tempo. Diz que a existência vai muito além da consciência. Aborda o facto de necessitarmos cada vez de mais tempo para nos sentirmos vivos mas que no fundo temos de continuar com o prejuízo de levar a nossa vida a pensar que não temos tempo para viver.



We are the Time

Continua um pouco com o mote da 'Lose Against Time', apesar de ter sido iniciada anos antes. Aborda as memórias que trazemos connosco, o pesar que sentimos quando os momentos acabam e a consciência de que temos de continuar.


For Bugs

Foi o primeiro 'single' do nosso disco com vídeo. É uma música sobre a decadência, a adição e o ambiente da noite.






To The Earth

É uma história sobre um assassino. Personifica um estado de consciência onde a libertação da culpa dá origem a um sentimento de invencibilidade.





DE E POR: FROM KIDS TO HEROES - "From Kids To Heroes" (2015, Infected Records)

Ana Beatriz Hilário, Miguel Vieira da Rocha, Pedro Duarte e David Oliveira, a somar a mais alguns amigos desembaraçados, caminham juntos pelos palcos como From Heroes To Zeros a partir de um tema dos Bouncing Souls e assumem com orgulho o punk e o pop-punk que fazem, o mesmo que em Portugal só entra via nomes como o dos Mixtapes, The Story So Far, Tonight Alive ou, claro, Paramore e sai de cá a grande velocidade directamente para a cena underground europeia se se suar mais do que aborrecer.
O disco de estreia está ainda bem fresco e é a própria vocalista da banda que nos fala com a memória à flor da pele sobre o quão impecável e sólido continua a soar mesmo que o "single" de avanço, "4 Months", o pudesse ofuscar. A evolução passa em directo da próxima vez que os vejam ao vivo.






Center Of The World

Foi o nosso primeiro original e trazido para a banda pelo Ivan Marcos (guitarrista e vocalista da banda Rés-do-Chão) que fazia parte de FKTH quando começámos em 2012. Gostámos tanto da música que mesmo quando ele decidiu sair perguntámos se podíamos ficar com ela, coisa que ele aceitou logo, e adorou o resultado final da gravação.


Penguin 

Esta foi criada pelo baixista Miguel Rocha na acústica. Durante um ensaio resolvemos pegar nela e experimentar tocar com a banda toda, o que também resultou muito bem! A letra fala de uma altura em que eu me sentia muito apaixonada e naquela fase de início de namoro onde é tudo novidade. Porquê o título de 'Penguin'? Primeiro porque eu tenho uma grande obsessão com estes animais adoráveis e segundo, porque os pinguins quando acasalam pela primeira vez não trocam mais de parceiro até ao resto da vida. 


Fresh Start

Escrita por mim e pelo nosso grande amigo Cláudio Aníbal, vocalista de Ash Is A Robot. Sem querer entrar em muitos detalhes, esta música fala de experiências que tivemos com antigas bandas que acabaram de uma maneira não muito agradável. O objetivo desta letra era que qualquer pessoa se conseguisse identificar, fosse com uma amizade ou um namoro que tivesse acabado.





Inner Tragedy

Esta letra é um pouco confusa até para mim. Foi escrita numa altura em que me sentia perdida e exausta, sem saber que rumo tomar. Foi numa fase em que me sentia a travar uma batalha comigo mesma. Acho que o facto de não ser uma letra a falar de algo em concreto tem uma grande vantagem, qualquer um pode ouvi-la e identificar-se com imensa coisa.


Little Girl Is Gone 

Criada pelo Bruno Farinha (um guitarrista que fez parte de FKTH durante bastante tempo), esteve quase a ser descartada do álbum por ser tão diferente de todas as outras. Conta com a participação de um grande amigo – Dani Cross, vocalista de The Medusa Smile. Esta música fala de problemas familiares que estava a viver e a tentar ultrapassar naquela altura.


4 Months

É a nossa música preferida e a escolhida para o nosso primeiro vídeo. Foi escrita às 6:30 da manhã depois de ter ouvido pela primeira vez o último álbum de Tonight Alive ('The Other Side') que me inspirou de uma forma que até hoje ainda me dá arrepios. Foi a única letra que escrevi toda de seguida à primeira tentativa e sem poder cantá-la (devido às horas). Quando acabei de a escrever pensei que quando a fosse cantar ia achar horrível e não ia encaixar de todo, pois é praticamente impossível estar a escrever uma letra para uma música sem fazer qualquer som, só imaginando na minha cabeça. A minha grande surpresa foi tentar umas horas mais tarde e ter ficado perfeita, não mudei sequer uma palavra. Fala das saudades que tinha do meu namorado que naquela altura esteve fora do país durante quase 4 meses.






Make Me Believe

Esta letra foi escrita pelo nosso amigo Leandro Pires, que chegou a tocar connosco num concerto. Sabemos o que significa para ele, mas não queremos expor o lado pessoal do Leandro. Novamente, consegue ser abrangente o suficiente para cada um ter a sua interpretação. É uma música muito alegre que me deixa sempre bem-disposta e com vontade de ir sair com amigos!



We Won’t Back Down

Esta letra fala da felicidade que sinto em poder fazer música com mais 3 pessoas que considero minha família e do facto de estar constantemente a sonhar acordada com palcos, concertos e o meu grande sonho que é viver da música.



Don’t Let The Kid Die Young

Confesso que um dos meus maiores medos é crescer e tornar-me numa adulta chata com a rotina do 'trabalho–casa–trabalho–casa'. Observo tanta gente que se esqueceu de rir, de sair com amigos, e não se preocupa que um dia vai morrer e não se lembrou de ser feliz. Esta música fala precisamente disso e do facto de eu ter 20 anos, sentir que ainda ontem tinha 5 e estar a lutar para que no futuro nunca me esqueça de rir e aproveitar a vida ao máximo.






quarta-feira, 26 de agosto de 2015

SERUSHIÔ - Entrevista

Vida de banda portuguesa em festivais de Verão é a vida de banda portuguesa ao longo de todo o ano: todos procuram uma reacção, por pequena que seja, e poucos palcos asseguram essa fortuna. A julgar por quem os viu no Croka's Rock e depois, à chuva, no Festival Paredes de Coura, os Serushiô desafiaram os limites da sua música, ressuscitaram memórias marcantes e fizeram o seu próprio "palco principal" antes das visitas ao Festival Philantra e à Festa do Avante 2015.
É com as músicas do sucessor dos EPs "Sights & Scenes" e "Life On Extended Play" que todos os vão querer encontrar: nós já o fizemos, no entretanto, para que Sérgio Silva, Serushiô se a envolvente for nipónica, nos falasse um pouco sobre o momento actual do grupo






BandCom (BC): Serushiô é um nome japonês mas a música que fazem tem fortes raízes ocidentais. O nome escolhido para este projecto é, segundo esta aparente contradição, acessório ou a relação entre forma e conteúdo é mais profunda do que parece?

Sérgio Silva (Serushiô): Na realidade é mais um fruto de coincidências! Comecei por utilizar o nome a solo pois achava engraçado o modo como alguns amigos japoneses pronunciavam o meu nome. No entanto, olhando agora em retrospectiva é interessante ver o triângulo criado no mapa-mundo: Portugal, Delta do Mississippi e Japão. Numa era de simbiose artística e unificação mundial é bom sentir que abraçamos o Mundo.


BC: Descobre-se mais da 'folk', do 'blues', do 'rock' ouvindo e conhecendo as histórias e músicas de outros ou construindo as próprias canções?

Serushiô: Construindo canções próprias! : ) Penso que, como em tudo na vida, a experiência em primeira mão é sempre o cerne da existência.



BC: Que pontos principais têm notado na evolução dos Serushiô de disco para disco?

Serushiô: A interacção entre os músicos, quer a nível composicional quer de execução. Eu e o Zé começamos a sentir que a musica é mesmo nossa, de um modo compartilhado. Acho isso fantástico, o facto de duas pessoas sentirem como própria uma criação em conjunto.


BC: Qual é o síndrome com que é mais complicado de lidar: o da primeira 'demo' ou o do disco que se vai seguindo a cada um dos anteriores?

Serushiô: Acho que as bandas que esperarem demasiado ou pensarem demasiado acerca da primeira demo só vão criar um problema. Do mesmo modo, uma banda que lança um trabalho e é bem sucedida, se deixar o ego inflar também pode ter problemas. Nos Serushiô não existe qualquer um destes problemas. Compomos por vocação e necessidade existencial, como tal, não existe espaço para preocupações com a aceitação. Apenas uma enorme satisfação quando isso acontece.


BC: Há alguma comparação que seja um elogio? Como lidam com essa tentação de se avaliar e descrever recorrendo a quem já está lançado?

Serushiô: Penso que a maioria das comparações são elogios. É o modo natural das pessoas catalogarem aquilo que ouvem de modo a poderem organizar os seus pensamentos e emoções. Sinceramente, ainda não ouvi qualquer banda ou músico que possa dizer “soa como Serushiô”. Provavelmente isso acontece do mesmo modo que, na maioria dos casos, um pai reconhece os seus filhos como únicos.





BC: Quer o “I'm Not Lost ... Just Don't Want To Be Found” quer o “Life On Extended Play” tiveram direito a masterização no exterior: um nos Estados Unidos da América, outro na Alemanha. Era indispensável, para vós, que tal sucedesse? É uma formação, também para vós, em relação à vossa sonoridade e os instrumentos que devem utilizar para a procurar?

Serushiô: Não é uma necessidade, mas algo que gostamos que aconteça. Isto pela simples razão de que nesse processo de finalização é bom ter alguém com os ouvidos “limpos”, ou seja, que ainda não conheça o trabalho e consiga assim tomar uma decisão estética imediata.


BC: Os Serushiô apostam bastante também na imagem e sobretudo nos 'videoclips'. É uma maneira de dar um enquadramento às histórias que contam e que poderiam ajustar-se a diferentes cenários ou preferem que sejam um veículo para adensar ainda mais o poder de sugestão e da imaginação?

Serushiô: Achamos simplesmente que é agradável ter uma história visual a acompanhar as canções. Nos dias correntes existe uma grande predominância visual latente na existência e vivência: assim, os vídeos ajudam o ouvinte a conseguir manter um elevado nível de atenção quando ouvem uma canção.





BC: O que é que sentiram, para além do reconhecimento e da simpatia, e puderam reflectir após a passagem pela Canadian Music Week? Sentiram vontade de voltar/ir para o estrangeiro ou ainda têm maior vontade de vingar em Portugal e partir daqui para o exterior?

Serushiô: Ambos. Queremos continuar a tocar no estrangeiro e se possível apresentar a nossa música em todo o Mundo. Ao mesmo tempo, o publico português é especial porque é a nossa raiz e casa. É muito agradável quando somos reconhecidos em casa.



BC: Uma banda que toque um pouco por todo o país guarda sempre no fim várias histórias para contar, algumas menos boas do que outras. Aquilo que nos separa das realidades de outros países no que diz respeito ao investimento colectivo nos músicos é recuperável sem que a questão financeira seja essencial?

Serushiô: Vale sempre a pena tocar para quem nos quer ouvir. Obviamente, por vezes as questões sociais e de subsistência não nos permitem tocar em todos os locais que gostaríamos. 


BC: Para além da Canadian Music Week, que outros palcos ficaram na memória dos Serushiô até à data e que palcos vos criam expectativas para o futuro?

Serushiô: Felizmente, temos tido várias experiências das quais guardamos muito boas memórias. É difícil individualizar…penso que todos os palcos vão melhorando com o crescimento da nossa música. Se as pessoas conhecerem melhor as nossas músicas vão divertir-se mais e assim nós vamos sentir essa energia.


André Gomes de Abreu




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